Desde que foi implantado no Brasil, no Código Eleitoral de 1932, o voto secreto prega peças eventuais. Se isso acontece em eleições gerais, não seria diferente quando apenas os políticos votam, em disputas internas dos partidos. A eleição para a presidência estadual do PSDB, realizada na quarta-feira, tem tudo para entrar para o folclore político catarinense pelo racha que criou e pelas mil versões de uma história que acabou decidida em favor do ex-governador Leonel Pavan contra o deputado estadual Marcos Vieira, por 59 votos a 43.
Nos dias que se seguiram à votação, ambos os candidatos foram atrás dos votos prometidos que não apareceram. Quem projeta uma votação tem uma lista, lembra um tucano bem-informado. As listas de Pavan e Vieira não bateram com o resultado da eleição, indicando que muita gente prometeu o mesmo voto aos dois. E que teve liderança que não entregou todos os votos que dizia controlar.
Os desdobramentos, como a formação da nova executiva pelo presidente reeleito, vão corroborar ou desmentir as diversas versões. Certo nisso tudo é que Pavan conseguiu reverter na última hora apoios que eram dados como certos por Vieira, e o contrário não aconteceu. Pavan chegou tão confiante ao dia da votação que rejeitou uma proposta de consenso em torno do ex-presidente Dalírio Beber, feita de última hora, negociada pelo deputado estadual Gilmar Knaesel, e que balançou Vieira. Naquela hora, ceder não seria mais necessário.
Para chegar a essa condição, o ex-governador agiu em três frentes no curto espaço de tempo entre o adiamento da eleição no domingo e a votação na quarta-feira. Primeiro, nacionalizou o debate. Foi a São Paulo encontrar-se com o presidente nacional da sigla, Sérgio Guerra, e José Serra, e voltou falando em ceder a vaga ao senador Paulo Bauer – caso Vieira também abrisse mão da disputa. Com a jogada, trouxe para junto de si o senador, que havia prometido voto ao adversário. Ao mesmo tempo, disparou telefonemas aos tucanos com direito a voto cobrando o apoio perdido. Por fim, conseguiu conquistar parte dos estimados 38 eleitores ligados ao deputado federal Jorginho Mello, que pedira votos para Vieira no domingo. Se a conquista desses votos, relevantes em uma disputa apertada como essa, teve ou não o aval do deputado, vai depender de quem contar a história.
Jorginho sempre frisou que seu candidato ideal seria o prefeito de Imbituba, Beto Martins – até mesmo na declaração de voto a Vieira. Na quarta, o deputado não pediu a palavra e nem votos. Após o resultado, Martins foi o único nome anunciado por Pavan, como seu primeiro vice-presidente. O suficiente para que surjam especulações de que Pavan poderia pedir licença e ceder espaço ao vice, agradando a quem aderiu de última hora.
Aliados do ex-governador negam e garantem que o ex-governador saiu da acirrada disputa com ainda mais gana de tocar o dia a dia da legenda. A executiva do partido já está sendo montada com posições de destaque para quem indicou aposta em Marcos Vieira e acabou ficando com Pavan. O senador Paulo Bauer tem tudo para ser o presidente de honra e herdar a vaga na executiva nacional, hoje ocupada pelo ex-governador. O prefeito de São Lourenço do Oeste, Tomé Etges, ficou com uma das vice-presidências. Aliada de primeira e de todas as horas de Pavan, Luzia Mathias, prefeita de Camboriú, será secretária-geral.
Os discursos todos, mesmo no campo derrotado na disputa interna, são de conciliação e reaglutinação em torno de Pavan. Unidade que será testada nas delicadas discussões sobre a fusão do partido com o DEM e a possibilidade de perda de quadros para o caçula PSD, principalmente se receber a adesão do governador Raimundo Colombo (DEM).
O dia seguinte à eleição trouxe fatos novos que deixaramcom jeito de discussão antiga a mais recente das lutas fratricidas do PSDB catarinense. Que venha a próxima.
(publicado na edição de sábado do Diário Catarinense e de final de semana do Jornal de Santa Catarina)