
Arte: Felipe Parucci
O ex-secretário da Fazenda Ubiratan Rezende voltou à pauta política catarinense junto com as férias do governador Raimundo Colombo (PSD) em Miami. Era a possibilidade, logo confirmada, de um reencontro entre os amigos declarados. Ubiratan é visto, desde antes da posse do governador e da indicação para a Fazenda, como um dos principais conselheiros de Colombo. Que assuntos conversariam o governador e o ex-secretário, cerca de três meses depois da saída de Ubiratan - oficialmente por já ter realizado, em nove meses, sua missão.
Na tarde de quinta-feira, após acertar por email horário da entrevista, liguei para o ex-secretário na Universidade Ave Maria, na Florida, onde é professor. Em 45 minutos de conversa agradável e, muitas vezes, em tom professoral, Ubiratan mostrou as razões do desencanto com a máquina estatal catarinense e brasileira e as dificuldades que fizeram ele considerar frustante a passagem pela Secretaria da Fazenda.
Segue abaixo a íntegra da entrevista publicada em tópicos na edição de domingo do Diário Catarinense.
Diário Catarinense - O senhor fez dois mergulhos na máquina do Estado. Na primeira vez, quando foi secretário de Administração (em 1999, no governo Esperidião Amin), e, mais recentemente, na Fazenda. Como o senhor vê essas duas passagens pelo governo do Estado?
Ubiratan Rezende - Foram circunstâncias muito diferentes. Normalmente o que eu faço na minha atividade profissional, não apenas em órgãos públicos, é ser convidado para fazer alguma reestruturação, para reorganizar. E quando eu termino de fazer, vou embora. Não tenho a intenção de permanecer nos lugares onde vou. Foi isso que aconteceu. Na primeira vez que estive aí, o governador Esperidião Amin pediu para eu fazer algumas coisas, eu fiz. Quando terminou, fui embora. Dessa vez, o governador Raimundo Colombo tinha pedido para que pudesse ajudá-lo pelo menos no início do governo. Foi o que fiz também e no momento em que achei que terminei de fazer aquilo que achava importante, fui embora. Não tem nenhum mistério.
DC - Mas como o senhor, que é um homem da academia, do mercado, saiu desses dois mergulhos da máquina?
Ubiratan - A primeira vez foi um espaço de tempo muito curto e minha função foi de tratar de questões bem pontuais. Tínhamos um problema do Ipesc (atual Iprev) vinculado à Secretaria da Administração. Aqueles foram os assuntos com que lidei. Foi uma passagem muito rápida e não tenho muito o que comentar. Essa segunda foi mais interessante. Tive oportunidade de olhar a economia e a sociedade catarinense por um ângulo diferente. Saio um pouco entristecido porque vejo em todos os setores da sociedade catarinense uma espécie de síndrome da avestruz. As pessoas enterram a cabeça na areia para não ver os problemas que precisam ser enfrentados. Não falo apenas da classe política. A classe empresarial também e outros segmentos organizados estão vivendo o dia a dia sem se dar conta da avalanche que está vindo por aí e que vai atingir o mundo inteiro. Já está atingindo. Mas ninguém está se preparando para isso. As pessoas estão, simplesmente, vivendo seu cotidiano como se nada estivesse acontecendo. Eu saí um pouco triste.
DC - O senhor teve dificuldades de implantar mudanças de conceito, novos modelos? Isso teria relação com sua saída em menos de um ano?
Ubiratan - Sim, tem.
DC - Algum exemplo?
Ubiratan - Não há nada de específico. Simplesmente uma espécie de postura cultural. Como a gente lida com determinadas questões. Um exemplo: se fala muito dentro do Estado ou mesmo fora do Estado da necessidade de frearmos o processo de desindustrialização. Aí quando você olha a questão do setor de manufaturas, do setor secundário da economia, se vê que não houve desindustrialização. Pelo contrário, houve até um aumento da capacidade instalada das indústrias de manufatura. O caso de Santa Catarina é muito especial, porque são indústrias que temos aí sofrem uma competição violenta de outras empresas na economia global. E essas outras empresas tem condições de serem mais competitivas. Quando você vê essa situação e precisa definir uma política pública com relação a um assunto dessa natureza, a primeira coisa que se pergunta é 'qual o setor da economia em Santa Catarina que precisa ser incentivado pelo governo para que o governo consiga recolher o suficiente em termos de tributos para poder prestar os serviços essenciais à sociedade?'. Eu percebi que o setor de manufatura de Santa Catarina responde por uma parcela muito pequena da atividade econômica do Estado, coisa de 20%. O setor primário é pior ainda, porque não temos o agrobusiness como tem Rio Grande do Sul e Paraná. Aí tem uns 6%, 7% da movimentação econômica do Estado. Fica então com o setor de serviços, turismo, comércio. A movimentação portuária é importante.
DC - Nessa questão do incentivo, entra o Pró-Emprego como instrumento. O senhor fez uma reformulação nele. Ele está como o senhor acha que deve?
Ubiratan - Claro. O que eu tentei fazer foi dosar o quanto podia aumentar de imposto no Pró-Emprego, para que possa gerar mais arrecadação para o Estado, mas sem gerar uma situação em que as empresas saiam do Estado. Mais ainda, criando mecanismos de benefícios fiscais que permitissem por exemplo, que empresas como a BMW, que estavam interessadas em vir para o Estado, pudessem considerá-lo uma alternativa importante. Estávamos em negociação com a BMW, com a GM. Os benefícios fiscais necessários para que essas empresas viessem tinham que estar colocados de uma forma que uma parcela da atividade de montagem que elas realizam e que vai ser feita através de produtos importados pudesse tornar essas empresas competitivas. Mas era isso que eu estava dizendo, é uma tarefa praticamente impossível montar um raciocínio lógico sobre que tipo de infraestrutura você deve estabelecer no Estado. Porque esse raciocínio lógico contraria uma série de interesses. Interesses políticos, econômicos, industriais, ideológicos. E as pessoas simplesmente paralisam, não permitem que haja uma certa racionalidade no processo de formação de política públicas. A razão fica em segundo plano diante dos interesses personalíssimos de determinados setores.
DC - Para que tipo de indústria Santa Catarina deveria se voltar?
Ubiratan - Santa Catarina tem que trazer, como já começou a trazer, as indústrias do século 21. Vou te dar um exemplo. O movimento de importação do cobre, via portos de Santa Catarina, gerou uma série de indústrias de beneficiamento do cobre. No momento em que existe o cobre, isso criou um interesse de outras indústrias, como as que produzem as linhas de transmissão de alta tensão. Essas linhas precisam do cobre e do alumínio. Então, você começa a criar outro segmento produtivo dentro do Estado para atender uma demanda que é mundial, a demanda por energia, e que tem uma demanda reprimida na área de linhas de transmissão porque não existe produção suficiente. Se fizer essa engenharia direitinho, transforma o Estado em um ponto exportador de linhas de transmissão, que é um produto de alta demanda no mundo todo. É preciso ver Estado desta maneira, de forma criativa. Lastimavelmente, isso não acontece. Foram raras as exceções de pessoas que encontrei que tiveram a suficiente visão para entender que o mundo mudou e que ou nos ajustamos à realidade que aí está ou vamos acabar naufragando em uma crise violenta.
DC - Os interesses da indústria do século 20 atrapalham a do século 21 em Santa Catarina?
Ubiratan - Eu não usaria essa terminologia. Eu falo de determinadas atividades industriais do setor de manufatura que antes eram competitivas, antes que tivesse havido essa transferência desses setores de manufatura dos Estados Unidos e da Europa para a Ásia. A razão é muito simples. Todo mundo acha que é porque a mão-de-obra é mais barata. Esse é um componente. Outro é o peso regulatório das economias europeias e norte-americana sobre a atividade de manufatura. O custo hoje de controle ecológico para estas empresas é muito alto. As leis que determinam que tipo de produção pode ser feita dentro de determinado limite de poluição são muito rigorosas. Isso fez com que essas empresas se deslocassem e criou o grande fenômeno asiático _ da China, do Vietnã, de Cingapura. O que fez com que se tivesse a produção de manufaturas do mundo sendo feita nesses lugares. Por exemplo, o setor têxtil. São raras as empresas na Europa e nos Estados Unidos praticamente não existem mais, migraram para a Ásia. Então você tem uma situação mundial em que determinados tipos produtos que eram caracteristicamente de exportação da economia de Santa Catarina, e o têxtil é uma deles, hoje sofrem competição dessa outra circunstância da economia mundial que faz com que eles não tenham condições de competitividade. Porque no Brasil a carga tributária é enorme, o peso do Estado em cima da atividade produtiva do setor primário é simplesmente extraordinário, torna insustentável qualquer tipo de competição que se queira ter com empresas localizadas em outros países.
DC - Mas quando o senhor fala das regras ambientais menos rígidas na Ásia, esse é um tipo de competição em que um país como o Brasil deveria entrar?
Ubiratan - Mas nós podemos fazer melhor. Podemos ter uma consciência das "deseconomias" de escala que poderíamos enfrentar se tivéssemos que abrir a porteira na questão ecológica, o que não é o caso, e poderíamos dosar nossa regulamentação de tal forma se tivéssemos condições de manter as duas coisas. Uma atividade produtiva que tivesse o mínimo de respeito às condições ambientais, mas que ao mesmo tempo também não fosse agrilhoada por regulamentações e por ordenamentos jurídicos que acabassem inviabilizando o processo produtivo. É um meio-termo e nós não temos isso. Mas, no Brasil, o peso maior não é o da regulamentação ecológica. É o peso tributário, é o peso do Estado.
DC - A ideia de unificar as alíquotas de ICMS para acabar com a guerra fiscal entre os Estados, o senhor acha que ajuda ou atrapalha?
Ubiratan - Ajudaria enormemente Santa Catarina.
DC - O Estado não perderia poder de competição, de atração?
Ubiratan - Não, não. Santa Catarina tem hoje um diferencial com relação ao resto do país, que é muito criticado por outros Estados, que é a enorme agilidade em seu processo de movimentação portuária. Se uniformizassem o ICMS no Brasil inteiro, essas empresas que usam Santa Catarina como porta de entrada, continuariam a usar por causa da agilidade. Para se ter uma ideia, uma determinada empresa, que não posso citar o nome porque está em negociação com o Estado para eventualmente se instalar, teve seu navio retido no porto de Santos por 80 dias. Nos nossos portos, nós desembarcamos 30 mil contêineres em 28 horas. Nós criamos uma condição diferenciada no ponto de vista de atividade portuária que nos dá uma competitividade enorme. Eu não vejo um problema para Santa Catarina na uniformização do ICMS. Estou na contramão da maioria das opiniões...
DC - O senhor se acostumou a ficar na contramão das opiniões aqui no Estado, não?
Ubiratan - (gargalhada) É isso mesmo. É verdade.
DC - Antes da sua passagem pelo governo, o Pró-Emprego tinha fortes resultados e era muito questionado por outros Estados. No que ele hoje é melhor do que quando o senhor assumiu?
Ubiratan - Nós mexemos nas alíquotas e conseguimos aumentar em mais de 50% o ICMS das empresas importadoras. Tem que olhar o Pró-Emprego por um lado efetivo do que o nome mesmo diz: pró emprego. Tem que criar ocupação econômica no Estado. Então, pode-se pensar que a atividade importadora atinge o setor de manufatura. Mas, se olhar, mais de 70% do movimento de importação em Santa Catarina no ano passado foram bens de capital (equipamentos necessários para produção de outros produtos). Não foram produtos acabados, foram empresas que importaram máquinas, insumos necessários à sua atividade. É o que eu falei: as pessoas deixam de lado a razão, um olhar objetivo sobre a realidade, para tratarem de defender os seus interesses. Eu entendo, mas na medida em que era responsável por políticas públicas, como eu era na Secretaria da Fazenda, não posso concordar com isso, porque tenho uma responsabilidade, em primeiro lugar, para com a sociedade de Santa Catarina. Não com interesses localizados de A, B ou C. Eu acho que o Pró-Emprego hoje está sendo afinado. O primeiro ajuste foi feito e é um ajuste que vai beneficiar o Estado, em todos os sentidos. Aumenta a arrecadação, continuam as condições implantadas para que outras empresas possam vir para Santa Catarina. Não fechamos a porta. Tem duas ou três empresas de grande porte que, se Deus quiser, vão acabar se implantando no Estado no governo do atual governador.
DC - Mas o número de empresas incluídas no Pró-Emprego em 2011 caiu 38%. O número de empregos gerados, 14%. Isso era esperado?
Ubiratan - Isso não é consequência do Pró-Emprego. A movimentação da atividade econômica, a produção de riqueza do Brasil, nos últimos quatro meses, caiu em mais de 30%. O Brasil não está sofrendo os efeitos da crise internacional de uma forma muito violenta porque o setor exportador do país é de bens primários. O setor de metais, como alumínio, bauxita, etc. É o setor agrícola, de agrobusiness, como a soja, o trigo, a laranja. Esse setor continua muito aceso, porque os preços continuam bastante altos. Esse setor está permitindo que o Brasil mantenha um modelo em que o Estado continua sendo o principal agente econômico do país. Agora, quando se vai para os outros os setores, não. E é o caso de Santa Catarina. O Rio Grande do Sul e o Paraná conseguem se sustentar porque têm o agrobusiness. Mas, em Santa Catarina, quando há redução da atividade econômica, ela atinge diretamente aqueles setores que fazem com que nós sobrevivamos, que é o caso do setor industrial de manufaturas e o setor de serviços, que é o comércio. Então, evidentemente que vamos ter queda de arrecadação. Se não me engano que já tivemos uma queda significativa nos últimos dois meses, acho que de 14%. Isso eu previ. Eu disse desde o primeiro dia que nós temos que começar a nos preparar, que nós não íamos manter os patamares de arrecadação que tínhamos, porque a atividade econômica do Estado é a mais vulnerável à circunstâncias da crise internacional, que atinge o setor de manufatura e de serviços. Como o setor agrícola é pequeno e não tem condições de manter a economia do Estado como no resto do Brasil mantém, nós temos essa situação dos números que você acabou de descrever. Não há uma relação direta entre o Pró-Emprego e a queda. Há uma relação direta entre a atividade econômica no Brasil como um todo e as características do Estado de Santa Catarina, que sofre de forma diferenciada os efeitos da crise econômica.
DC - O senhor citou o salto de arrecadação do Estado nos últimos anos. Santa Catarina perdeu a chance de fazer grandes mudanças nesse contexto?
Ubiratan - Perdeu. Perdeu. Porque usou uma parte muito grande desses recursos não para consolidação de sua infraestrutura e facilitar a melhoria determinadas características que o Estado tem. Teve outras prioridades. Muitas vezes políticas, de manutenção do aparelho burocrático do Estado, uma política de salário muito distanciada da realidade. Perdeu a chance. Mas, por outro lado, faça-se justiça, criou-se também as pré-condições, a que eu me referi antes, para outra atividade econômica no setor de serviços que é importante e será cada vez mais (fala do modelo portuário). Se por um lado não foram feitos determinados investimentos, especialmente em infraestrutura, que poderiam ter sido feitos durante esses anos áureos, por outro, criaram-se as condições de melhorar o setor de serviços e que vão ser um ativo que o Estado vai ter durante muitos e muitos anos. Nós também temos que ser realistas no seguinte ponto: há determinadas variáveis que são políticas que inviabilizam as decisões que o Executivo gostaria de tomar porque ele fica preso, fica manietado, a determinadas demandas políticas.
DC - A redução da máquina é uma dessas dificuldades?
Ubiratan - Sem dúvida.
DC - O senhor chegou a propor explicitamente ao governador Raimundo Colombo que extinguisse as secretarias regionais, por exemplo?
Ubiratan - Não, porque eu não acho que esse seja o problema. Tem que redefinir o papel das regionais. Isso tem que ser feito, sim.
DC - De que forma a máquina poderia ser reduzida?
Ubiratan - A Secretaria da Fazenda é um exemplo. Não é necessário hoje ter o número de funcionários que a Fazenda tem. Uma série de atividades que foram automatizadas na secretaria substituem a atividade do funcionário em si. E tem coisas semelhantes em vários lugares. Basta ir à Secretaria da Educação e perguntar quantos professores estão em sala de aula. Só faça essa pergunta. Isso é uma questão de bom senso, o advento da tecnologia de informação permitiu que uma série de atividades de rotina pudessem ser feitas de maneira automatizada, não precisa ter alguém ali. Um exemplo: folha de pagamento. Hoje existe uma quantidade enorme de pessoas envolvidas em folha de pagamento na Secretaria da Educação. E não é só lá. Existem secretarias de Estado em Santa Catarina que são absolutamente irrelevantes. Elas foram criadas por razões de natureza política, de contingência, de imperativos políticos, mas que poderiam ser perfeitamente eliminadas. E com isso se conseguiria reduzir a máquina. Mas isso, politicamente, é inviável. Não há vontade política. E quando eu falo em vontade política não é vontade do governador. O governador talvez seja aquele que tem mais vontade política de fazer o que precisa ser feito, mas ele sabe que determinadas coisas ele não consegue porque não vai ter o apoio político nem do Legislativo, nem do Judiciário.
DC - Existem números da máquina do Estado, não apenas do governo, que chamam atenção. Um exemplo, a Assembleia Legislativa ter um orçamento R$ 100 milhões maior que o da Universidade do Estado (Udesc). Isso também choca o senhor?
Ubiratan - Dê uma olhada então no orçamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE), dê uma olhada no orçamento do Poder Judiciário...
DC - A negociação para tentar reduzir os repasses aos poderes foi uma frustração na sua passagem pela Fazenda?
Ubiratan - Foi, foi. (pausa) Mas não chega a ser uma frustração, não. Foi simplesmente a constatação de que não há espaço político para determinadas coisas. Não é o Ubiratan, a minha opinião. Vou dizer algo que sintetiza a maneira como eu vejo as coisas. A rainha de todas as virtudes é a prudência. Prudência, no sentido clássico, significa ver a realidade tal como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. O que falta, de fato, em vários setores organizados em Santa Catarina e no Brasil como um todo, é a virtude da prudência. Ver as coisas como elas realmente são. Aí voltamos para a síndrome da avestruz. Um dos meus grandes mentores é o sociólogo brasileiro Alberto Guerreiro Ramos. Ele foi cassado pela revolução de 1964, foi para os Estados Unidos exilado e foi meu professor. O Guerreiro dizia seguinte: "nunca subestime o impulso suicida das elites. As elites preferem morrer do que abrirem mão de seus benefícios e privilégios". Isso é uma verdade inelutável. Isso se vê em vários países do mundo, mas muito especialmente hoje no Brasil.
DC - Especialmente em Santa Catarina também?
Ubiratan - Não é diferente do resto do Brasil. Santa Catarina não tem esse privilégio (risos).
DC - Uma de suas metas na Fazenda era tornar orçamento do Estado mais realista. O senhor concluiu a proposta orçamento antes de deixar o cargo. Conseguiu?
Ubiratan - Não. Não consegui. Acho que melhoramos bastante a peça orçamentária, mas ela ainda continua deslocada da realidade.
DC - Tem exemplos dessa falta de realidade?
Ubiratan - Tem. O orçamento que eu peguei tinha um descompasso enorme. Previa uma despesa 30% acima do que o Estado poderia efetivamente arrecadar. Acho que eu consegui reduzir isso pela metade, uns 15%.
DC - Por que é necessária essa "folga de ficção"?
Ubiratan - Ela não é necessária. É criada pela demanda. Tem a demanda dos deputados que na hora de aprovar a peça orçamentária chegam e dizem "tem esse programa, que é importante e precisa ser mantido com esse valor". E assim você vai indo. Eles representam determinados interesses. O que falta no Brasil como um todo é um orçamento impositivo. Ver qual é a previsão de receita para o ano _ realista, não essas otimistas que se vê por aí _ e fazer o orçamento em cima dessa previsão. Se arrecadar, ótimo. Usa o excesso para outras coisas. Mas tentando se manter no possível. Alguém ganha R$ 100 por mês e gasta R$ 150? O normal é gastar R$ 80 e deixar R$ 20 de reserva. Mas isso no Brasil não existe e não é um privilégio de Santa Catarina esse tipo de irresponsabilidade orçamentária.
DC - Especificamente sobre sua passagem pela Fazenda, o senhor teve dificuldade de montar sua equipe?
Ubiratan - Uma parte do quadro funcional da Fazenda é muito qualificada. Eu consegui ter três ou quatro pessoas, as que confiei mais de perto, de primeiríssimo nível. Pessoas com muita consciência de sua responsabilidade pública. Pessoas de primeira categoria. Fiquei muito satisfeito e ao mesmo tempo honrado pela confiança que eles depositaram em mim. É uma das coisas boas que levo dessa experiência em Santa Catarina. Tem muita gente boa aí, não só na Fazenda, com interesse público acima de suas questões pessoais. Infelizmente, essas pessoas são objeto sistemático de fofocas, de intrigas, de maledicências. Para que sua eventual influência na formação de políticas públicas seja a menor possível. Isso lastimavelmente é uma característica, essa sim, aí de Santa Catarina. Por razões de natureza antropológica, eu diria em todos os lugares onde a capital só tem atividade política e a economia depende mais do Estado que de outras atividades _ como é o caso de Brasília e de Florianópolis _ vai ter sempre um ambiente em que a moeda de troca é o poder. Assim sendo, as pessoas bem intencionadas tem muito pouco poder. Tiram delas essa moeda de troca chamada poder porque aqueles que têm interesses localizados precisam ter mais poder para fazê-los prevalecer. Eu encontrei gente muito boa. Dentro do secretariado, disse isso quando saí, tem jovens de primeiríssimo nível. As histórias que ouço sobre eles são de arrepiar os cabelos. Tudo na base da intriga e da fofoca, mas gente de primeiríssimo nível e que tem o interesse do Estado acima de qualquer coisa. Só lastimo que não sejam os mais ouvidos.
DC - Os bem-intencionados sofrem bullying na maquina do Estado?
Ubiratan - (risos) Até sofrem, você usou uma expressão que é correta. Sofrem, sim. É verdade (risos). Se você me der licença, eu vou usar a expressão (risos).
DC - O governador Raimundo Colombo está de férias aí na Flórida. Aqui se falou muito que ele estaria indo se aconselhar com o senhor...
Ubiratan - O governador Colombo não precisa se aconselhar comigo, não. Ele sabe o que está fazendo. Ele vai me visitar, deve estar chegando a qualquer momento (a entrevista foi gravada na quinta-feira). Essas informações sobre a viagem dele você pode conseguir com a assessoria dele.
DC - O senhor parece muito informado sobre a situação atual do governo. Citou empresas em negociação, números recentes. O senhor tem mantido contato, conversado bastante?
Ubiratan - Tenho conversado bastante, porque, até uma coisa que me lisonjeia muito, muitas pessoas que estão aí, com cargos de responsabilidade, entendem que talvez os meus palpites possam ajudar no processo. Isso me deixa muito feliz.
DC - O seu substituto na Fazenda, Nelson Serpa, também?
Ubiratan - Não, não tenho conversado com o secretário Serpa.
DC - Já se reacostumou à rotina de professor?
Ubiratan - Não tenha dúvida nenhuma. Eu vivi muito mais tempo nos Estados Unidos do que no Brasil, então o retorno é muito confortável. É um dia a dia que eu conheço, minha família, meus filhos. Graças a Deus está tudo bem.
DC - O senhor pegou a disputa presidencial norte-americana esquentando. Como está vendo o processo?
Ubiratan - Isso é uma questão seríssima e que vai nos atingir. Já está nos atingindo. Tem hoje a esquerda norte-americana, liderada pelo presidente Obama, querendo levar os Estados Unidos a ser uma democracia social tal como os países europeus. Tem outro setor querendo que os Estados Unidos voltem a suas origens históricas, de ser uma democracia liberal. Essa questão é que vai ser decidida nas eleições desse ano e vai gerar impacto no mundo inteiro. O impacto econômico é monumental. Nós só não vimos ainda o mundo tal como conhecemos ruir porque ninguém teve coragem de dizer que o rei está nu. Estamos diante de um momento de espera. Os países estão esperando para ver o resultado das eleições e quais as medidas que vão ser tomadas pelo governo norte-americano para poder se readequarem ao novo panorama que o mundo vai enfrentar daqui no máximo um ano. Nós estamos diante de um daqueles momentos críticos de natureza civilizacional.
DC _ O senhor acha que o Brasil deveria torcer por um desses lados na disputa?
Ubiratan _ De novo vou estar na contramão (risos), porque aí no Brasil as pessoas acham que o Partido Democrata é o melhor para o Brasil. O Partido Democrata é o pior para o Brasil, porque ele tem na sua base os sindicatos norte-americanos, que não têm nenhum interesse de que investimentos produtivos sejam feitos fora dos Estados Unidos, evidentemente. É criar empregos fora dos Estados Unidos. Então, o pessoal aí do Brasil que torce pelos democratas. Às vezes os brasileiros chegam aqui e dizem "o governo do Obama é extraordinário". Eu acho graça, dou gargalhadas. É considerado um dos piores governos da história. Se não é o pior, é o segundo pior. Nós, no Brasil, tínhamos que torcer pelos republicanos. Eles não têm essa base política dos sindicatos e os interesses políticos deles são sempre de acender a economia, deixa as economias acessas. Para isso as economias do mundo todo precisam estar acessas e isso deveria interessar a nós. Mas eu sei que essa é outra leitura minha daquelas que vai na contramão da opinião generalizada aí no Brasil.
DC - Para encerrar, o senhor repetiria a experiência de secretário em Santa Catarina?
Ubiratan - Eu estou muito velho, estou cansado (risos). Esse ano que passou foi brutal para mim. Inclusive eu tive prejuízos de saúde. Eu nunca tive problemas de saúde, graças a Deus, e este último ano tive problemas sérios, porque o nível de tensão, de pressão... mas mais do que a tensão e a pressão, é a frustração. A frustração é um negócio que corrói, que mina as energias vitais. Essa é uma experiência que eu não gostaria de repetir.