Entrevista: Dom João Carlos Petrini, BISPO AUXILIAR DE SALVADOR E MEMBRO DA COMISSÃO PARA A VIDA E A FAMÍLIA DA CNBB
O celibato virou tema central de discussão para o episcopado brasileiro. É um dos assuntos principais da assembleia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba (SP). No encontro, porém, a proibição do casamento para os padres não é posta em questão. A intenção é contrária: os prelados querem se mobilizar e mostrar as razões para observar a castidade. Nesta entrevista, o bispo auxiliar de Salvador, dom João Carlos Petrini, afirma que o debate é necessário, porque o celibato passou a ser visto como estranho:
Zero Hora – Qual é o objetivo da discussão sobre o celibato que está ocorrendo durante a assembleia?
Dom João Carlos Petrini – A assembleia sempre tem um tema central, que neste ano é a formação para o sacerdócio. Uma comissão de teólogos preparou um documento sobre o assunto, que está sendo discutido pelos bispos parágrafo por parágrafo. O celibato está incluído. Estamos debatendo para mostrar as razões positivas para um jovem de 20 anos abraçar a imitação radical de Jesus Cristo. Discutimos a semelhança entre celibato e martírio.
ZH – O celibato é um martírio?
Dom João – É uma analogia. A pessoa renuncia à sexualidade, que é muito forte em nós, por algo mais forte. Aceita se martirizar porque Jesus é tão grande que a renúncia se justifica.
ZH – A intenção é mostrar que o celibato vale a pena?
Dom João – É dar as razões, para que se compreenda esse sacrifício. Não se trata de não amar, mas de amar castamente.
ZH – Por que a CNBB quer reforçar o celibato neste momento?
Dom João – Nosso contexto cultural se caracteriza pela exaltação do erotismo. A sociedade não vê mais o celibato como um valor óbvio, instantâneo. Somos vistos como ETs circulando na Terra. A outra razão é interna, porque esse contexto traz dificuldades para padres e seminaristas. Eles estão sob pressão de um mundo sexualizado, a opção deles não é percebida como razoável, dizem que escolhem o celibato por ter problemas.
ZH – A Associação Nacional de Presbíteros propôs que o celibato seja opcional. Isso representa o pensamento dos padres?
Dom João – A CNBB presta atenção às reivindicações, mas não considera a hipótese. A opção do matrimônio não constitui resposta satisfatória. A Igreja Anglicana seguiu esse caminho, e as vocações não aumentaram.
ZH – Muitos padres vivem conflitos por causa do sexo?
Dom João – Ninguém é ordenado antes dos 24 anos. Até aí, tem a possibilidade de verificar o que quer da vida. Os problemas são parecidos com os do homem que se casou e quer ser fiel. Terá de sacrificar algo.
ZH – Como a Igreja lida com um padre que tem um relacionamento com um mulher?
Dom João – Costumamos resolver no diálogo. É como o homem que casou e se envolve com outra. Pode reafirmar o matrimônio ou se separar.
Fonte ZH
Postado por Prof. Guershon Kwasniewski
