As instituições espíritas não celebram a Páscoa, nem programam situações específicas para marcar a data, como fazem as demais religiões ou filosofias cristãs.
A figura de Jesus no contexto espírita está mais próxima de nós: para nós ele assume a posição de mestre e irmão, filho de Deus. A moral pregada por Jesus é a moral do Espiritismo. A civilização ocidental celebra as datas do nascimento e da morte das pessoas que nos são caras e Jesus é nosso irmão, amigo e mestre, e por tal nós o celebramos.
A Páscoa ou a celebração da dita ressurreição de Jesus, tem uma conotação peculiar. É necessário buscar, no tempo, na História da Humanidade, as referências ao acontecimento.
A Páscoa, propriamente dita, não é relacionada ao martírio e sacrifício de Jesus; ela já existia anteriormente a Jesus; naquela época, era uma festa cultural. No Evangelho de Lucas (Cap. 22, v. 15 e 16), Jesus fala sobre o evento: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão. Porque vos declaro que não tornarei a comer, até que ela se cumpra no Reino de Deus. A Páscoa já era uma comemoração,
Historicamente, a Páscoa é a junção de duas festividades muito antigas, comuns entre os povos primitivos, e pelos judeus, à época de Jesus. Fala-se do pesah(passagem de Moisés com seu povo no Mar Vermelho), uma dança cultural, representando a vida dos povos nômades, numa fase em que a vinculação à terra (com a noção de propriedade) ainda não era flagrante. Também estava associada à festa dos ázimos, uma homenagem que os agricultores sedentários faziam às divindades, em razão do início da época da colheita do trigo, agradecendo aos Céus, pela fartura da produção agrícola que saciava a fome de suas famílias, e propiciavam as trocas nos mercados da época. Ambas eram comemoradas no mês de abril (nisan) e, a partir da fuga do povo hebreu do Egito (êxodo, em torno de 1441 a.C.) passaram a ser comemoradas juntas. Foi esta celebração de Páscoa que o Cristo desejou comemorar por ocasião da última ceia.
Mas há outros elementos da vida de Jesus que marcam a Páscoa. As quinta e a sexta-feira santas, o sábado de Aleluia e o domingo de Páscoa. Os primeiros relacionam-se ao martírio, ao sofrimento de Jesus e os últimos, à ressurreição e a ascensão de Jesus.
O Espiritismo não aceita a ressurreição, por considerar que a interpretação tradicional aponta para a possibilidade da manutenção do corpo do Cristo, no post-mortem, situação totalmente rechaçada pela ciência, com relação ao envoltório físico. A ressurreição diz que todas as pessoas no Juízo Final virão a ter o mesmo corpo que tiveram anteriormente, o que é impossível, pois tudo se modifica, tudo se transforma. O Espiritismo admite o renascimento, com o nascimento de novo corpo com um espírito criado por Deus; este espírito não é eterno, pois eterno só Deus. O espírito imortal renasce para progredir, trazendo o que de bom já construiu em outras vidas e que agora precisa aprender a mais para progredir. Foi o Espírito de Jesus que apareceu em muitas ocasiões após a sua partida deste mundo.
A Páscoa, conforme a interpretação das seitas tradicionais, se mostra envolta num contexto de culpa. Acredita-se que Jesus teria padecido em razão dos nossos pecados, e o sofrimento de Jesus teria sido realizado para nos salvar. Sabemos que todos nós somos responsáveis pelo que fazemos. Ninguém sofre por mim o mal que fiz. O momento da Páscoa pode nos mostrar o transpor, o transformar, a libertação nossa quando nos libertamos do homem velho que existe em nós quando nos tornamos melhores, e permanecemos perto de Jesus toda vez que fazemos o que ele nos ensinou, que foi o bem e o amor.
Os símbolos da Páscoa: os ovos(o começo da vida); o coelho(a fecundidade); o cordeiro imolado (o sacrifício de Moisés por ter saído do deserto),o círio(a vela) que ilumina os caminhos, o girassol(a flor que se volta para a luz); o pão e o vinho(significando o alimento da última refeição); o bolo da pomba da Paz(celebração doce que um confeiteiro fez a um soberano que por tal poupou uma cidade), a quaresma(quarenta dias antes da Páscoa), todos estes símbolos falam muito forte de vida, mais de vida que de morte. Para nós a Páscoa é a vitória da vida do espírito sobre a morte, a certeza da imortalidade do espírito e da reencarnação, porque a vida, em essência, é amor, no exemplo da própria existência de Jesus, de amor ao próximo e de valorização da própria vida.
Nesta Páscoa, lembremos os belos exemplos de Jesus, o doce Rabi, que nos guia para nos tornarmos melhores, com mais amor no coração. Vamos comemorar a Páscoa com nossa transformação, rumo a uma vida mais plena de amor e paz.