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Posts de julho 2013

Diálogo Católico-Judaico em SP.

14 de julho de 2013 0



Rabino Michel Schlesinger,  mediador do debate, Dan Stulbach e  Cardeal Dom Odilo Scherer.



Público participou ativamente do debate


“Depois de dois mil anos conturbados, os últimos 50 foram de reaproximação entre cristãos e judeus. Hoje, cultivamos uma relação de amizade e respeito”, disse o rabino Michel Schlesinger. “O ódio e o menosprezo precisam ser superados. O trabalho continua, mas fizemos grandes progressos”, acrescentou o cardeal Dom Odilo Scherer.


Às vésperas da chegada do papa Francisco ao Brasil, o rabino e o cardeal participaram na noite desta quarta-feira, 10 de julho, de um debate em São Paulo para lembrar os 50 anos do Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII, que deu início ao processo de aproximação entre judeus e católicos, e abordaran os caminhos, sob o novo pontificado, para que este processo se capilarize entre as duas comunidades.


Com Francisco, o que mudará na Igreja? Dom Odilo afirmou: “De pronto, muda o estilo pessoal. Na gestão, as mudanças serão paulatinas”. Schlesinger lembrou da ótima relação do então cardeal Bergoglio com a comunidade judaica argentina, mas disse que torceu muito para que Dom Odilo fosse o escolhido..


“Em nosso diálogo com os judeus, há muitos motivos de celebração, mas também desafios”, disse Dom Odilo. “Temos uma herança espiritual e preocupações comuns, como a paz e os direitos humanos. O diálogo é muito bom em nível de cúpula, mas no âmbito das comunidades devem ser superadas resistências”. Schlesinger concordou e disse que há diferenças teológicas e em temas como a bioética.


Ambos lembraram a importância do trabalho feito por João XXIII e pelos que o sucederam: Paulo VI, que visitou Israel em 1964, quando o Estado judeu e o Vaticano não mantinham relações diplomáticas – o que só veio a ocorrer em 1993, sob João Paulo II – o papa polonês visitou o Muro das Lamentações e o Yad Vashem, além da Grande Sinagoga de Roma – gestos de grande conteúdo simbólico; e Bento XVI, que também visitou Israel e foi ao campo de extermínio de Auschwitz. “João Paulo II abraçou a causa do diálogo de forma sem precedentes, e Bento XVI seguiu seus passos”, disse Dom Odilo.

Com relação ao diálogo no Brasil, Fernando Lottenberg, secretário-geral da Conib, notou que o diálogo começou com o padre Humberto Porto e o jornalista Hugo Schlesinger (avô de Michel, que é o representante da Conib para o diálogo inter-religioso) e prosseguiu com o rabino Henry Sobel (presente ao debate) e o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. O padre José Bizon, da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico da CNBB, agradeceu à Conib pela iniciativa de promover o debate.

Para o cardeal e o rabino, o aumento do convívio e o contato pessoal entre judeus e católicos servem para romper barreiras e quebrar estereótipos. O diálogo se dá a partir das diferenças, não é necessário concordar em tudo. “É na diferença que se dialoga”, disse Dom Odilo. “João Paulo II convidou a uma atitude que chamou de purificação da memória: a humildade de reconhecer os erros, os pecados, pedir perdão e recomeçar por um caminho novo”.


Os judeus participarão de forma importante na visita de Francisco: o rabino Schlesinger irá à missa em Aparecida, no dia 24 de julho; jovens judeus, cristãos e muçulmanos participarão do primeiro seminário inter-religioso de juventude, dia 21 de julho, na PUC-Rio; também na capital fluminense, na Estação Central do Brasil, uma exposição organizada pela Embaixada de Israel e pela Federação Israelita (Fierj) mostrará imagens das visitas dos papas a Israel.


O cardeal afirmou que a vinda de Francisco fará com que as vozes dos brasileiros sejam mais ouvidas e que o papa falará ao mundo sobre as questões do País. Para ele, a Jornada Mundial da Juventude será uma “mobilização positiva, em um momento propício”.

O mediador do debate, Dan Stulbach, perguntou a ambos sobre a onda de protestos no Brasil. “Foi uma ótima surpresa”, disse Dom Odilo. “Os jovens mostraram que estão interessados na vida política e que rejeitam a forma como ela vem sendo conduzida. Vejo como algo muito positivo o despertar da consciência política”.


“A Bíblia Hebraica é cheia de manifestações em que o povo judeu foi atendido por seus líderes. De forma geral, a tradição judaica vê com muito bons olhos manifestações para a construção de um mundo melhor”, disse o rabino Schlesinger.


Stulbach perguntou que cartaz eles levariam para as ruas. Dom Odilo: “Não sei se levaria um cartaz, mas me identifico com os dizeres contra a corrupção, contra os grandes gastos em estádios, por melhores condições de saúde e educação”. Schlesinger: “Contra qualquer tipo de fanatismo, que é a raiz de muitos males. A moderação é o único caminho”.

Ambos concordam que se deve trabalhar para que as vozes moderadas prevaleçam, inclusive no diálogo com os muçulmanos. “Justamente a religião pode nos aproximar deles, já que os conflitos são políticos”, disse o rabino.


Com grande participação do público, o debate tocou em temas delicados, como a relação da Igreja com a Inquisição e sua postura durante o Holocausto. Quanto ao primeiro tema, Dom Odilo respondeu que a Inquisição exerceu o poder judiciário quando não existia uma ordem democrática e que foram violadas muitas formas de consciência e de pensamento. O Estado, por exemplo, o espanhol, também usou a Inquisição colocando religiosos a seu serviço.  Ele considera que a história da Inquisição ainda deve ser melhor conhecida.


Schlesinger afirmou que a visão da Inquisição para os judeus é somente negativa: “Nos vêm à mente a tortura, a morte, a expulsão da Península Ibérica”.


Com relação ao Holocausto, o cardeal acredita que a Igreja fez muito para salvar judeus. “Se não fez mais, devem ser examinadas as circunstâncias: era possível? Acho que não devemos ver a questão sob um ponto de vista da instituição. Localmente, muitos católicos ajudaram judeus. Devemos lembrar também que os governos se omitiram”.


Perguntado sobre a possibilidade de abertura, por Francisco, dos arquivos referentes ao papa Pio 12, Dom Odilo disse que a investigação é bem-vinda, mas não sabe quando os arquivos serão abertos.

Um católico perguntou como poderia se aproximar dos judeus, segundo ele uma “comunidade fechada e elitizada”. Schlesinger lhe sugeriu visitar o Centro da Cultura Judaica, em São Paulo, “uma torá aberta” que visa divulgar a cultura judaica para a sociedade maior.

O rabino Henry Sobel perguntou a Dom Odilo como pode ser levada para a periferia das grandes cidades e para o interior do País a mensagem de diálogo que existe entre as lideranças católicas e judaicas. “Precisamos continuar a promover encontros, a nos conhecer e nos fazer conhecidos. Sair a público e apresentar as questões. Não há outra maneira”, respondeu o cardeal. “Eventos como o de hoje têm justamente o objetivo de divulgar esse trabalho de aproximação e respeito. Estivemos no início de 2013 na catedral metropolitana lotada, para celebrar os 50 anos da declaração Nostra Aetate”, promulgada pelo Concíclio Vaticano II, acrescentou Schlesinger. Uma rápida busca no Google mostra que a notícia do debate foi reproduzida em muitas comunidades católicas.

Encerrando o encontro, o cardeal disse que professores importantes em sua formação, no Seminário em Curitiba, tiveram contato muito próximo com os judeus, e que ele se sente intimamente ligado à comunidade judaica.

O rabino contou uma história que serve bem para fechar este relato: “Fui convidado por Dom Odilo para um evento, mas avisei que não poderia participar porque seria na época de Pessach, quando temos que seguir uma dieta estrita. Ele respondeu: pode vir, pois contratamos um bufê kasher”.

Schlesinger retribuiu e convidou o cardeal para a cerimônia do Iom Kipur [Dia do Perdão]. “Para compensar, permitimos que ele jejuasse conosco”.

O debate, realizado com apoio da Conib e Livraria Cultura, foi destacado pelo Vatican News, Rádio Vaticano, pela agência italiana ANSA, Folha de S. Paulo, O Estado de S.Paulo, portal UOL, Rádio Capital (São Paulo), portal católico Canção Nova, Senado Federal, Rede TV (que publicará as imagens em uma série de matérias especiais sobre a visita do papa), Mosaico na TV, Shalom Brasil, Tribuna Judaica, BB Press, Revista Hebraica, jornal O São Paulo, Arquidiocese de São Paulo, Rede Vida e jornal O Semeador, do Rio Grande do Norte.

Fonte Bnai Brith

Diálogo Inter-religioso em São Paulo

08 de julho de 2013 0