Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Dom Paulo Evaristo Arns morre em São Paulo aos 95 anos

19 de dezembro de 2016 0

Arcebispo emérito da Arquidiocese de São Paulo teve vida marcada  pela defesa dos direitos humanos e pela resistência à ditadura militar.

Conhecido pela postura fraterna, por sua defesa dos direitos humanos e pela resistência à ditadura militar, o arcebispo emérito da Arquidiocese de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, morreu nesta quarta-feira, aos 95 anos. O cardeal — que dedicou 71 anos ao sacerdócio e 76 à vida franciscana — estava internado desde 28 de novembro, com broncopneumonia, na capital paulista.

Catarinense de Forquilhinha, quinto da prole de 13 filhos de um casal de descendentes de alemães, dom Paulo fez parte de um clã de benfeitores dedicados à infância e à juventude brasileiras. Sua irmã mais ilustre, a pediatra Zilda Arns Neumann, fundou a Pastoral da Criança, com a colaboração do religioso. Ao chorar a morte de Zilda, uma das vítimas do terremoto do Haiti, em janeiro de 2010, dom Paulo, do alto de sua resignação sacerdotal, afirmou:

— Ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa em que sempre acreditou.

Dedicado à defesa de pobres, perseguidos e injustiçados na maior parte das suas nove décadas e meia de vida, o arcebispo comprou brigas com poderosos dentro e fora da Igreja.

Por causa de suas posições, estremeceu até mesmo o coração da cúpula católica. Seu nome era tão temido em Roma que, ao som dele, “arrepiavam-se todos os pelos dos braços” do alto clero, como declarou no final dos ano 1990 o então secretário de Estado do Vaticano, Agostino Casaroli.

Na luta contra os desatinos da ditadura militar no Brasil, dom Paulo levou generais à loucura visitando prisões, denunciando casos de tortura e se empenhando pessoalmente contra a censura. Em 5 de maio de 1971, revoltado com o que ocorria nos porões do país, o cardeal foi a Brasília para fazer um pedido formal ao presidente da República em nome dos bispos de São Paulo:

— Venho pedir que o senhor assuma a situação lá, onde pessoas estão sendo mortas, torturadas, ou então desaparecem.

Irritado, diante da batina preta do religioso, o general Emílio Garrastazu Médici levantou-se e sugeriu:

— O senhor cumpra a sua missão e fique na sacristia.

Acostumado a ver suas ordens cumpridas, o general presidente deu por encerrada a audiência-relâmpago no Palácio do Planalto com a certeza de ter sido claro e definitivo. Dom Paulo deixou o gabinete disposto a nunca aceitar aquele conselho.

Frade franciscano, o cardeal rebelde era desapegado de bens materiais. Quando decidiu vender o suntuoso Palácio Pio XII, a residência episcopal em São Paulo, foi criticado até mesmo por parte dos fiéis. Venceu as resistências e, com os US$ 5 milhões do negócio, construiu centros comunitários para pobres e nordestinos. Sua postura em defesa dos direitos humanos muitas vezes lhe valeu acusações de “protetor de bandidos”. Seus incontáveis defensores, porém, lhe apoiavam pelos mesmos motivos que outros lhe viravam o rosto.

Em 1992, em função de um acidente de carro na República Dominicana, dom Paulo sofreu uma fissura no crânio, teve de reduzir o ritmo de trabalho e se submeter a tratamento especial para evitar a perda da memória. Formado em Filosofia e Teologia, era doutor em Letras pela Universidade Sorbonne, na França. Sempre esteve lúcido o bastante para escrever dezenas de livros, entre eles, a sua autobiografia (Da Esperança à Utopia — Testemunho de uma Vida), lançada em setembro de 2001, quando completou 80 anos, revelando bastidores de suas atribuladas relações com o Vaticano e com os militares.

Uma de suas últimas aparições públicas foi em outubro, durante homenagem por seus 95 anos, completados no mês anterior. Fragilizado pela idade, dom Paulo falava pausadamente diante de um auditório repleto de militantes de movimentos sociais, como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Pastoral do Povo de Rua. O cardeal não tocou no atual momento da política brasileira em sua fala:

— O discurso já está preparado, é uma palavra só, porque o povo está cansado: obrigado.

PROTAGONISTA DA HISTÓRIA BRASILEIRA

O clã de benfeitores
- A marca da família formada pelos descendentes de alemães Gabriel Arns e Helena Steiner é uma só: a fraternidade. Criados na cidade catarinense de Forquilhinha, os 13 filhos usaram a religiosidade e a solidariedade para ganhar o mundo. A irmã mais famosa de dom Evaristo, Zilda Arns, foi responsável pela fundação da Pastoral da Criança, que reduziu a mortalidade infantil em diferentes partes do país. O trabalho na Pastoral, que era apadrinhado por Evaristo, ainda rendeu a Zilda indicações ao Prêmio Nobel da Paz.

A sociedade
- Engajado em diferentes momentos importantes da história brasileira, dom Paulo atuou diretamente na negociação com os sequestradores do empresário Abílio Diniz no final da década de 1980. Diniz ficou seis dias em um cativeiro em São Paulo em poder do grupo terrorista chileno Movimiento de Izquierda Revolucionaria.

O Vaticano
- Por diferentes razões ou ideias polêmicas, dom Paulo chegou, por vezes, a estremecer as estruturas do Vaticano. Entre os medos da Cúria estava o fato de o cardeal autorizar a publicação de livros favoráveis à Teoria da Libertação. Em 1989, o Vaticano dividiu em cinco a Arquidiocese de São Paulo e, na época, muitos enxergaram a medida como uma forma de conter o religioso.

No mundo
- Reconhecido internacionalmente por sua defesa aos direitos humanos, o religioso encontrou-se, mais de uma vez, com o presidente americano Jimmy Carter. Em 1977, a Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos Estados Unidos, concedeu a dom Paulo o título de doutor honoris causa. Em 1988, o governo francês também lhe concedeu o título de comendador da Legião de Honra e, em 1988, com outro honoris causa, dessa vez concedido pela Universidade de Dubuque, em Iowa, nos Estados Unidos.

Brasil Nunca Mais
- O projeto reflete o envolvimento obstinado de dom Evaristo na luta contra a ditadura militar. Resultado de seis anos de pesquisa, a versão original da publicação tem mais de 6 mil páginas com relatos de torturas, assassinatos e desaparecidos políticos. Lançado em julho de 1985, o livro de 312 páginas continua nas livrarias. Também aderiu ao Grupo Tortura Nunca Mais, que busca, entre outras questões, a indenização das famílias de vítimas da repressão.

O Grupo de Diálogo Inter-religioso de Porto Alegre manifesta o seu pesar por esta importante perda no mundo religioso.

Fonte ZH

Envie seu Comentário