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A mais nova santa brasileira: veja o caminho percorrido por Irmã Dulce até chegar à canonização

21 de outubro de 2019 0

Freira, que dedicou a vida a angariar recursos para tratar de doentes pobres, é conhecida como milagreira no Nordeste

Era como se lhe enfiassem lâminas afiadas através dos olhos. Na sua lembrança daquela madrugada de 10 de dezembro de 2014, era esta a sensação do maestro e professor de música Maurício Moreira, cego havia 14 anos, em decorrência de glaucoma. Ele padecia de uma grave conjuntivite e pegou um retrato de sua conterrânea Irmã Dulce (1914-1992), o Anjo Bom da Bahia, e rogou a ela por alívio e uma boa noite de sono. Quando despertou, poucas horas depois, ele aceitou as compressas com gelo que a esposa, Marize Mendonça, entregou-lhe para combater o inchaço. Até então, Moreira convivia com uma “nuvem de fumaça” permanente nas vistas, sendo capaz de diferenciar apenas dia e noite, claro e escuro. De repente, enxergou a própria mão.

— Parecia que eu estava sonhando — recorda o músico, hoje com 51 anos.

Maurício é o protagonista do segundo milagre de Maria Rita Lopes Pontes (1914-1992), conhecida como Irmã Dulce, que se tornará santa neste domingo (13). A cerimônia de canonização será às 10h (5h em Brasília), na Praça São Pedro, no Vaticano, conduzida pelo Papa Francisco. O maestro, residente em Pernambuco, conversou com GaúchaZH quando se preparava para seguir para o Aeroporto de Salvador, de onde embarcaria para Roma, na Itália, na última quarta-feira (9). Naquela noite de cinco anos atrás, o professor, já conformado com a ausência de visão, ansiava apenas pela melhora da inflamação que o atormentava. Sozinho em casa, depois que Marize saíra, o maestro deparou com uma foto do casal. Desde que conhecera Marize, era a primeira vez que podia vê-la.

— Nossa, ela é muito linda! — exclamou.

Chorando muito, ele foi até o consultório do médico. Seu quadro deixou o especialista estupefato:

— A medicina não explica isso. Não sei o que está acontecendo com você. É coisa de Deus.

Durante a entrevista à reportagem, o miraculado não conteve as lágrimas mais uma vez.

— Eu estava desenganado. Nunca pedi cura de nada. Minha mãe rezava para ela, eu também, como hábito. Já a considerávamos santa. Fiz uma oração e ela me deu muito mais — disse ele, surpreso com o fluxo caótico de mensagens em seus 17 grupos de WhatsApp.

Maurício se encontrou com Irmã Dulce três vezes. Em uma dessas ocasiões, a freira entrou na loja de materiais de construção onde ele trabalhava com o pai encarnando uma de suas principais funções: a de solicitar doações para os pobres e os doentes.

— O que tem para mim aí hoje? — disse ela ao chegar.

Um dos episódios mais emblemáticos da vida da baiana está presente no livro Irmã Dulce, a Santa dos Pobres (Editora Planeta, 296 páginas, R$ 49,90), que acaba de ser lançado pelo jornalista paulistano Graciliano Rocha. Depois de muito atender enfermos pelas ruas e de invadir propriedades para abrigá-los, a religiosa avançou, em 1949, sobre um galinheiro ao lado do convento onde morava. Matou todas as galinhas, limpou a área e, com colchões, improvisou leitos para 70 pessoas. Nascia ali o que, anos depois, tornaria-se o Hospital Santo Antônio, a principal unidade de saúde do complexo Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), entidade filantrópica 100% dedicada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O crescimento da capacidade de atendimento do Santo Antônio se mostrou notável, ultrapassando a marca dos 800 leitos no início da década de 1980.

— Ela recebia qualquer doente, em qualquer circunstância. Não deixava ninguém de fora. O hospital vivia superlotado. A gente pensa hoje que saúde pública é um direito de todos, mas isso é muito recente, da Constituição de 1988. Antes, para serem atendidas nos hospitais públicos, as pessoas precisavam ter carteira assinada. Em uma cidade de extremos, como Salvador, muita gente agonizava e morria sem assistência. O hospital dela foi fundamental para a população. Muito da imagem de Santa dos Pobres que ela adquiriu enquanto estava viva decorre dessa dedicação aos miseráveis — conta Rocha.

Obstinada, Irmã Dulce abordava todos: de pequenos comerciantes a poderosos empresários, entre eles Norberto Odebrecht. Não temia negativas nem humilhações, como comprova outro episódio marcante de sua trajetória. Ao solicitar donativos, a religiosa levou uma cusparada. Limpou-se com um lenço e estendeu a mão outra vez:

— Está certo. Isso foi para mim, agora eu quero saber o que o senhor vai dar para os meus doentes.

Rocha destaca também o tino da religiosa para a gestão. Irmã Dulce sempre percorria os corredores do hospital, conhecia os pacientes pelo nome, era implacável quando avistava qualquer sujeira — por vezes, ela mesma se atirava à faxina. Ao se elevar a figura pública com fama de grande alcance, a freira estabeleceu estreitas relações com políticos. Ficou muito próxima do ex-presidente da República José Sarney, de quem tinha o telefone direto, e do ex-governador da Bahia Antonio Carlos Magalhães, o ACM. Fotos mostram a religiosa aconchegada no peito dos figurões em afetuosos abraços.

— Ela pedia e os caras davam, porque ela era grande demais. Não encontrei nenhum registro de que ela tenha feito um pedido para algo pessoal. Ela sempre soube cativar políticos, mas nunca subiu em palanque para pedir voto. Se o propósito era místico, o método era pragmático: ela conversava com quem quer que fosse para realizar a obra dela — acrescenta Rocha, que entrevistou uma centena de fontes durante os oito anos em que se dedicou à pesquisa para a construção do livro.

O processo que agora culmina com a concessão do título de Santa Dulce dos Pobres se estendeu por duas décadas. A recuperação de uma parturiente de Sergipe que sofreu uma forte hemorragia após dar à luz, em 2001, foi reconhecida como o primeiro milagre de Irmã Dulce. Reverenciada há décadas pelos baianos, a nova santa brasileira agora deverá inspirar multidões de novos peregrinos. Desde o anúncio do reconhecimento do segundo milagre, em maio, o movimento no santuário que a homenageia, em Salvador, triplicou. No domingo, o local será rebatizado como Santuário Santa Dulce dos Pobres.

— É a primeira santa mulher dos nossos tempos. Tempos em que a mulher vai conquistando seu espaço na sociedade. Ter uma mulher brasileira como santa é uma grande alegria. Ela é um exemplo de amor, nos ensina a amar, a servir, a acolher o pobre. Ela construiu um grande império de amor. O maior milagre de Irmã Dulce são suas obras sociais, onde o milagre da providência acontece todos os dias — afirma o frei Giovanni Messias, reitor do santuário.

O caminho até a canonização

Junho de 1999

  • A Arquidiocese de Salvador publica edital solicitando aos fiéis que comuniquem todas as notícias das quais se possam colher elementos favoráveis ou contrários à fama de santidade de Irmã Dulce.

Janeiro de 2000

  • Abertura do processo canônico sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade de Irmã Dulce, na Catedral Basílica de Salvador.

Junho de 2003

  • O Vaticano reconhece juridicamente a validade de um possível milagre ocorrido por intercessão dela.

Abril de 2009

  • O Papa Bento XVI concede o título de venerável à freira baiana.

Dezembro de 2010

  • Bento XVI autoriza, no dia 10, a promulgação do decreto do milagre que transforma a Venerável Dulce em Beata ou Bem-Aventurada. No dia seguinte, inicia-se a fase de canonização — qualquer graça ocorrida a partir desta data poderia vir a ser analisada pelo Vaticano como o potencial milagre que levaria à santificação.

Maio de 2019

  • O Papa Francisco promulga o decreto que reconhece o segundo milagre.

Julho de 2019

  • Francisco anuncia que Irmã Dulce será canonizada em 13 de outubro. Oficialmente, ela passará a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres e terá como data litúrgica o dia 13 de agosto.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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