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Posts na categoria "Judaísmo"

Ano Novo Judaico com transmissão ao vivo

18 de setembro de 2017 0

A comunidade judaica celebra na próxima quarta-feira pela noite a entrada do novo ano 5778 A sinagoga SIBRA – Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência-  de Porto Alegre estará transmitindo ao vivo os seus serviços religiosos em seu canal de livre acesso www.livestream.com/SIBRARS 

Rosh Hashaná – Ano Novo-
Dia 20/9, às 19 horas.
Dia 21/9, às 9 horas e às 19 horas.
Dia 22/9, às 9 horas.
Iom Kipur -Dia do Perdão-
Dia 29/9, às 18:30 horas
Dia 30/9, às 9 horas e às 16 horas.
Compartilhamos com todos os nossos desejos de Shaná Tová uMetuká – Por um ano bom e doce-!!
Rabino Guershon Kwasniewski

Reunimos todos os registros da mídia de um dos maiores eventos espirituais do ano 2017, a Páscoa Judaica na Catedral de Porto Alegre

14 de junho de 2017 0

O Seder de Pessach da SIBRA – celebração da Páscoa Judaica- na Catedral  Metropolitana de Porto Alegre, foi um grande marco – um encontro histórico, inédito e singular do qual, até então, não se teve registros. Durante o Jantar da Páscoa Judaica, tivemos cobertura completa dos principais veículos de comunicação, com flashes ao vivo por emissoras de televisão. Aqui os principais registros.


10/4 – TV – Jornal do Almoço RBS

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/edicoes/v/cerimonia-da-pascoa-judaica-sera-realizada-na-catedral-de-porto-alegre/5790341/

10/4 – Jornal – Jornal do Comércio

http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/geral/556635-ceia-de-pascoa-judaica-sera-realizada-na-catedral-metropolitana-de-porto-alegre.html#.WOxPt0KeiOk.facebook

 

11/4 – TV – Bom dia Rio Grande

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/bom-dia-rio-grande/videos/t/edicoes/v/cerimonia-da-pascoa-judaica-sera-realizada-na-catedral-de-porto-alegre/5792234/

 

11/4 – TV – Jornal do Almoço RBS

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/edicoes/v/pascoa-judaica-sera-celebrada-na-catedral-metropolitana-de-porto-alegre/5793099/

 

11/4 – Jornal – Jornal Zero Hora

http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2017/04/pessach-a-ceia-da-pascoa-judaica-reune-integrantes-do-judaismo-e-do-catolicismo-na-catedral-da-capital-9770099.html

 

11/4 – TV – Band Cidade Bandeirantes

http://noticias.band.uol.com.br/bandcidade/rs/video/2017/04/11/16188799/ceia-de-pascoa-judaica-e-celebrada-na-catedral-metropolitana-pela-1%C2%AA-vez.html

 

11/4 – TV – Transmissão ao vivo –  RBS Notícias

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/rbs-noticias/videos/v/cerimonia-da-pascoa-judaica-e-realizada-na-catedral-de-porto-alegre/5794349/

 

12/4 – TV – Bom dia Rio Grande – RBS

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/bom-dia-rio-grande/videos/t/edicoes/v/pascoa-judaica-e-celebrada-na-catedral-metropolitana-de-porto-alegre/5794862/

 

12/4 – Jornal Zero Hora

Pessach Catedral Zero Hora

 

Ceia da Páscoa Judaica será feita na Catedral Metropolitana

29 de março de 2017 0

Convite Pessach

Centro Cristão de Estudos Judaicos lança livro sobre os 50 anos de diálogo católico-judaico

07 de novembro de 2016 0

O Centro Cristão de Estudos Judaicos lançou em outubro o livro “Jubileu de Ouro do Diálogo Católico-Judaico: primeiros frutos e novos desafios”, quarta obra de sua coleção Judaísmo e Cristianismo. A obra inspira-se no 50º aniversário da declaração conciliar Nostra Aetate, a qual apresenta o desejo manifesto da Igreja em seguir e aprofundar o diálogo inter-religioso, de um modo específico com o judaísmo. A comemoração se deu em São Paulo no ano de 2015, no Teatro Tuca da PUC-SP. Na ocasião, o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da Comissão da Santa Sé para as Relações Religiosas com o Judaísmo, encontrou-se com o cardeal de São Paulo Odilo Pedro Scherer, com Fernando Lottenberg, presidente da Conib, e com Michel Schlesinger, rabino da CIP e representante da Conib para o diálogo inter-religioso, além de outras importantes personalidades dos meios católico e judaico. “Este livro é um novo e importante reconhecimento do trabalho de aproximação que judeus e católicos vêm desenvolvendo no país, ao longo das últimas décadas. As conquistas obtidas devem servir como evidência da capacidade que o homem possui de superar conflitos do passado e construir pontes de coexistência. É nossa tarefa estender esse entendimento para as bases de cada comunidade, bem como para estabelecer conexões com outras religiões”, declarou Lottenberg. A obra traz dois textos que abordam a Nostra Aetate sob o ponto de vista judaico: o primeiro, de um grupo de rabinos franceses ligados à Amizade Judaico-Cristã da França; o segundo, assinado por mais de 50 rabinos ortodoxos de Israel, da Europa e da América do Norte, tem o seguinte título: “Declaração do Rabinato Ortodoxo sobre o Cristianismo”. Ambos manifestam alegria pelo diálogo com o mundo católico após 50 anos da Declaração Nostra Aetate e apresentam novos desafios teológicos. O livro também apresenta duas conferências do cardeal Kurt Koch, proferidas na PUC-SP. Em sua primeira conferência, ele fala sobre “A Igreja em diálogo” e propõe uma reflexão ecumênica. Na segunda, “Nostra Aetate – bússola permanente do diálogo católico-judaico”, aborda a contribuição da Nostra Aetate para que a Igreja superasse uma série de preconceitos históricos e nota que, “para que a visão antissemita seja superada, se faz necessário lançar um novo olhar para a história e perceber as tensões que marcaram católicos e judeus”. A apresentação foi escrita pelo rabino Michel Schlesinger e pelo cônego José Bizon.

Jornada de estudos judaicos on-line com Rabinos brasileiros

07 de novembro de 2016 0

Rabinos brasileiros participarão de jornada mundial de estudos The Global Day of Jewish Learning

O PROCESSO DE CURA – DIVINO, UMA PRÁTICA NATURAL OU ALGO NO MEIO DO CAMINHO? DIA MUNDIAL DE ESTUDOS JUDAICOS – domingo, 20/11,  19 horas.

NO BRASIL, coordenado pelos rabinos Uri Lam (Congregação Israelita Mineira) e Guershon Kwasniewski (SIBRA, Porto Alegre).
Participem desta discussão via internet.

Seria “antinatural” interferir e fazer mudanças no mundo natural? A cura de uma pessoa ocorre graças a um esforço humano ou é algo divino?
Juntos, estudaremos e analisaremos como é possível abrir espaço para o divino em nossas próprias vidas, ao mesmo tempo em que adotamos o entendimento contemporâneo no tratamento da saúde.

VAGAS ILIMITADAS (via internet).

Inscrições sem custo  e informações no site http://www.theglobalday.org/

 

Tempo de priorizar

04 de janeiro de 2016 0

Artigo

Guershon Kwasniewski: tempo de priorizar

Líder religioso da Sociedade Israelita Brasileira (Sibra) e coordenador do Grupo de Diálogo Interreligioso de Porto Alegre

Por: Guershon Kwasniewski
28/12/2015 – 05h05min  Zero Hora

A chegada de um novo ano motiva e gera em cada indivíduo uma série de reflexões, que ligam o passado com o futuro. O simples fato da virada do ano proporciona um olhar diferente em nossa linha do tempo.

Essa caminhada pelo tempo é desigual entre os que nos rodeiam. O jogo dos sentimentos vai de um estremo a outro, pudendo estar ansiosos, expectantes, teimosos ou alegres pelo novo, representado pelo 2016 ou tristes e saudosos pelas lembranças que deixa o 2015.

Se falarmos desde a espiritualidade, toda mudança está relacionada com o otimismo e a renovação interna e externa do ser. Escolhemos uma nova roupa, trocamos de penteado, procuramos surpreender a nós mesmos. Desde uma mudança de conduta, atitude, relacionamentos, desafios e compromissos.

Planificamos ter mais tempo para a família, os amigos, um bom livro, exercício físico, cuidados com a saúde, fazer algum trabalho voluntário, participar mais da vida religiosa e cultural da nossa comunidade.

Se avaliarmos as promessas que fazemos de um ano para outro, percebemos que mais da metade delas ficam na teoria e em nossos pensamentos.

É tempo de priorizar, devemos ser práticos e objetivos, às vezes pouco ou nada mudará de um ano para outro, mas se priorizamos com quem aproveitar o nosso efêmero tempo, a nossa vida terá outra dimensão.

Devemos ter prazer pelo que fazemos e encaramos, sabendo que existem dificuldades, mas também acertos.

O sucesso e o fracasso estão tão próximos um do outro que às vezes é uma questão de detalhes, mas devemos tentar.

Priorize em que e com quem deseja investir a sua energia e o seu tempo.

Respeito às diferenças Papa e rabino dão exemplo de diálogo. Preocupados com terrorismo, líderes religiosos, ambos argentinos, costumam refletir juntos e até já escreveram um livro Por: Léo Gerchmann 28/11/2015 -

30 de novembro de 2015 0
Papa e rabino dão exemplo de diálogo Arquivo pessoal / Abraham Skorka/Arquivo pessoal / Abraham Skorka

O papa Francisco e o rabino Abraham Skorka nas dependências privadas da Santa SéFoto: Arquivo pessoal / Abraham Skorka / Arquivo pessoal / Abraham Skorka

Uma lufada de diálogo e respeito às diferenças. Essa é a mensagem que o argentino Jorge Mario Bergoglio passa para um mundo que vê terroristas usando dos meios mais cruéis em nome de suposta religiosidade. Bergoglio se tornou Papa e assumiu o nome de Francisco, com todo o significado de generosidade nele contido.

Adequado à evolução dos costumes e à necessidade de enfrentar a incompreensão, ele se notabilizou por abordar tabus e estender a mão ao diferente. Uma obra que traduz isso é o livro Sobre o Céu e a Terra (Paralela, 192 páginas), escrito por Bergoglio e pelo grande amigo e parceiro de reflexões, o rabino Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico Latino-Americano, em Buenos Aires. Dessa escola se formam líderes judaicos para predicar em cidades como Porto Alegre.

No dia 19, um fim de tarde chuvoso, Zero Hora esteve no seminário e conversou com Skorka. Com voz suave, ele abordou o significado da amizade ecumênica que mantém com um dos líderes mundiais mais respeitados. No mesmo momento, Francisco se preparava para viajar até a África, com sua mensagem de paz.

Skorka não é só coautor de livro com o Papa. Também foi escolhido por Bergoglio para prefaciar sua biografia. A amizade se materializa em diálogos frequentes, em que ambos se mostram preocupados com atentados como o de Paris no dia 13. Há, ainda, as brincadeiras sobre futebol (Francisco torce para o San Lorenzo, e Skorka, para o River Plate) e situações curiosas. Um dia depois de Bergoglio ter sido escolhido Papa, o celular de Skorka tocou.

– Alô, rabino Abraham! Estou no Vaticano e não me deixam voltar! – riu o então já papa, do alto da afinidade espiritual e intelectual de duas décadas.

Francisco diz que “dentro do cristão há um judeu”.

– O fundamentalista não sabe o que é diálogo. Tem coração fechado a tudo que seja confronto com outra posição. Temos, católicos e judeus, o mesmo sangue. Somos humanos filhos do mesmo pai. Vamos buscar caminhos de paz – disse certa vez Francisco.

Em um programa de TV do Vaticano, em um momento, Francisco afirmou, referindo-se ao extremismo:

– Cuidem dos seus filhos. Que cresçam com uma mentalidade aberta, aprendam a escutar, a dialogar. Fiquem atentos para perceber lavagens cerebrais.

Sobre Skorka, com quem também gravou 30 programas de TV, ele diz:

– Nossa amizade é um exemplo.

Em maio de 2014, Francisco, Skorka e o xeque Omar Abboud, também de Buenos Aires, visitaram Jerusalém e exibiram na prática o conteúdo de suas conversas. Skorka se emociona ao lembrar o abraço que os três se deram no Muro das Lamentações.

Em 2016, para marcar os 80 anos da sinagoga Sibra, Skorka virá a Porto Alegre, convidado pelo líder religioso Guershon Kwasniewski, seu ex-aluno. A data do evento ainda não está marcada.

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Entrevista com Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico Latino-americano

O que representa para o senhor a amizade com o Papa?
A relação que se criou entre nós marcou profundamente nossas vidas. O livro que escrevemos foi traduzido para todos os idiomas europeus, coreano, chinês, hebraico. A mensagem que elaboramos juntos se expandiu como sonhamos. Não imaginávamos que se transformaria em realidade. É uma mensagem de paz, de entendimento, o paradigma de diálogo que quisemos apresentar com esse livro. Deus nos bendisse. Que sirvamos como fonte de inspiração.

O que une o senhor e Francisco?
Compartilhamos a concepção de que, nas ações dos homens, em especial quando são para elevar a espiritualidade e melhorar a condição humana, ali se encontra Deus. É um conceito que se manifesta na literatura rabínica e nos escritos cristãos. A relação homem-Deus, quando o homem busca o bom, o justo, o misericordioso. É o que posso dizer da nossa relação.

Como ocorreu a aproximação?
Descobrimos um ao outro, vimos que podemos achar, nos nossos caminhos de vida, sendas que sejam comuns. Foi desde a década de 1990, quando nos conhecemos na catedral e eu era convidado para o Te Deum (celebração religiosa), em 25 de maio e 9 de julho, para fazer o culto israelita no dia da pátria. Ali, a partir de meados da década de 1990, ainda antes de Bergoglio ser o arcebispo de Buenos Aires, ele me conhecia pelos textos que eu escrevia na imprensa, sempre falando sobre a necessidade de um diálogo claro, mais profundo. O diálogo não é só sentar e conversar. A partir desses artigos, ele me conheceu. Nossa aproximação ocorreu pelas piadas de futebol, porque aqui na Argentina, como no Brasil, somos aficionados.

Francisco é torcedor do San Lorenzo. E o senhor?
Sou River Plate. E foi assim, com as piadas sobre futebol, que as portas se abriram. Ele se tornou arcebispo de Buenos Aires e abriu as portas da catedral para mim. Começamos a pensar nos projetos de diálogos inter-religiosos, como uma matéria importante para melhorar as relações entre os humanos.

O judaísmo é monoteísta e prega o respeito ao outro. O cristianismo segue essa linha. Mas há diferenças. Como vocês preservam os pontos de encontro?
O relato que aparece nos Evangelhos é claro: perguntaram a Jesus qual é a síntese da Torá (livro sagrado do judaísmo), e ele disse “amará a teu próximo como a ti mesmo”. Isso aparece no capítulo 19 do Levítico. O outro preceito é o monoteísmo. O eterno é uno, amarás ao eterno teu Deus com todo o teu coração, com todo o teu ser. Está no Deuteronômio. É uma definição que deram os sábios. Não fazer ao outro o que não queres que façam a ti é a formulação de Hillel, o sábio, como o resumo de toda a Torá quando uma pessoa não judia que queria ser judia pediu que ele fizesse uma definição rapidamente, parado com uma perna só. São formas diferentes de dizer, mais negativa ou positiva. Rabi Akiva (sábio da Judeia) dizia que o resumo da Torá é amarás a teu próximo como a ti mesmo. Grande parte da visão de Jesus é concomitante com diferentes escolas rabínicas do seu tempo. Claro que há coisas na história de Jesus das quais nós, como judeus, divergimos. E aí começou a divisão entre os judeus e os seguidores de Jesus, que depois se tornaram conhecidos como cristãos.

Essas diferenças em meio às convergências fazem o diálogo e a amizade de vocês mais especial?
A matriz, a primeira matriz, o judaís­mo do século 1, é a base. Eu e Bergoglio mantemos um diálogo tão especial porque a história de judeus e cristãos é cheia de desencontros muito dolorosos, mas é como se fossem desencontros entre dois irmãos. Houve desencontros, mas sabíamos que viemos de um mesmo ponto de partida. Um foi para um lado, e o outro foi para outro, paralelo. Repito: para outro lado paralelo. Tal como irmãos, há nisso uma relação de amor e ódio. Há vários casos assim, como Caim e Abel, Esaú e Jacó, José com os irmãos. A relação de irmandade, na história humana, é problemática. Esses desacertos, muito graves em vários casos do nosso passado, devem-se ao fato de que um olhava o outro e sabia que havia algo. O cristão olhava o judeu e dizia que tinha negado Jesus, mas sabia que Jesus era judeu. O judeu olhava o cristão e pensava: há valores que compartilhamos, mas há outros que não podemos aceitar, e sabemos que o início de vocês foi em nossa Jerusalém, a Jerusalém judaica do século 1. Essa relação, depois do Holocausto, demandou uma resposta, especialmente por parte do mundo europeu, porque foi lá que se deu o Holocausto. João XXIII, hoje em dia São João XXIII para os católicos e João, o Bom para nós, teve a valentia, a grandeza moral e a audácia espiritual de convocar o Concílio Vaticano II.

Qual o impacto disso?
Ele tocou no tema da relação judaico­católica. Recentemente, fez 50 anos que isso ocorreu. João XXIII morreu durante o concílio, e Paulo VI disse, no final, que o povo judeu jamais pode ser acusado de deicida, de ter matado Deus. Sabemos da importância e do impacto que isso teve. Bergoglio está entre os indivíduos que sabem criar uma mudança na História. Não só agora como Papa. Ele justamente chegou a Papa por ter essa atitude, não só com o judaísmo. Sabe recuperar a espiritualidade em tempos tão turbulentos.

Está nessa história toda o fundamento do encontro de vocês?
Frente a essa atitude de Bergoglio, ele me encontrou. E volto a dizer: Deus seguramente propiciou esse encontro. A partir daí, fizemos coisas juntos. Eu o convidei duas vezes à sinagoga para as orações de selichot, preparatórias para o Rosh Hashaná (ano novo judaico), e ele deu a mensagem dele, como arcebispo, para os judeus de Buenos Aires. Nessas noites de selichot, sempre o nosso diálogo era muito profundo.

Há algum episódio que o senhor guarde como emblema dessa amizade?
Não me lembro se na primeira ou na segunda vez em que ele esteve aqui (na sinagoga), eu lhe mostrei livros que sobreviveram, vieram da Alemanha, livros judaicos que vêm do final dos anos 1700, início dos anos 1800. Eu lhe disse: nesses livros, rezaram judeus desde 1800. Sobreviveram ao Holocausto e passaram de pais para filhos. Eu não quis enterrar esses livros, porque temos o costume de enterrar os livros em cemitérios quando suas letras não podem mais ser lidas. Eu queria que aqueles livros continuassem vivendo. E disse a Bergoglio que os livros ficariam com ele. Talvez estejam em Roma, com ele. Depois, quando dois jornalistas escreveram a biografia dele, perguntaram-lhe quem ele queria que escrevesse o prefácio. O livro é O Jesuíta. E ele disse que queria que fosse o rabino Skorka. Eu escrevi, claro. Fiquei emocionado. Ele pedia para o rabino escrever o prefácio da sua biografia. Isso foi enorme.

Vocês se comunicam com frequência, mesmo ele estando em Roma? Chegaram a conversar sobre fatos como o atentado terrorista em Paris?
Sim, com frequência. Falamos muitas vezes sobre a violência no mundo, não é a primeira vez. Quando fomos a Israel, eu ajudava a preparar o encontro entre o Papa e Shimon Peres (então presidente israelense). A ideia era transmitir uma mensagem de paz. Com o embaixador palestino na Santa Sé, trabalhamos para servir como ponto de comunicação entre Mahmoud Abbas, Shimon Peres e o Papa. A reunião ocorreu nos jardins do Vaticano. Depois, fomos, um judeu e um islâmico, na delegação do Vaticano em viagem de peregrinação à Terra Santa.

Isso pode servir de exemplo e influência a outras situações?
Depois do nosso encontro nos jardins do Vaticano, houve a guerra entre Israel e Hamas. Trocando e-mails com Bergoglio, ele me disse, usando estilo profético: vai chegar um momento em que o pó que se levantou com a batalha vai se dissipar, e a imagem do nosso abraço diante do Muro das Lamentações, essas mensagens de paz, vão servir como fonte de inspiração para lutar pela paz. Como diria Bergoglio, vão servir de imagem de que se pode, de que é possível.

Francisco (C), Skorka (D) e o xeque Omar Abboud no Muro das Lamentações

 

O senhor acredita que é possível, mesmo quando presenciamos o surgimento de grupos cada vez mais cruéis e impenetráveis como o Estado Islâmico?
O problema é duplo. Tem duas caras. Por um lado, está essa gente que propicia o ódio. Por outro, há um mundo que não reage como deveria reagir, um mundo que segue estando em seus cálculos, às vezes em seus mesquinhos cálculos, e não há um compromisso real contra toda essa demencial atitude. Não estou falando de intervenção militar. Primeiro, necessitamos de manifestações claras dos líderes religiosos mais importantes, das três grandes religiões, judaísmo, islamismo e cristianismo em todas as suas denominações, condenando esses atos. Vozes claras, com um idioma que não deixe lugar a dúvidas, a duplas interpretações. Necessitamos manifestações claras contra todo tipo de violência, de terrorismo. Outra coisa de que se poderia falar é: quem financia esses grupos, quem dá dinheiro para comprarem as armas que têm? Quais os canais de obtenção de dinheiro? Deve-se cortar isso. Em uma frase, elevar o cuidado da vida de cada homem por cima de todos os interesses e cálculos monetários. A guerra pararia. A guerra, como qualquer atitude humana, é questão de cultura. Quando há uma cultura de destruição, de ambição, de querer ser dono do mundo, estamos mal, e essa cultura segue sendo dominante. Outra questão é considerar que Israel é a causa de todos os problemas. É um subtema.

Em meio a tudo isso, há o drama dos refugiados. Como o senhor vê isso?
É um drama enorme. Qual será o futuro dessa gente, se não podem voltar a seus lugares de origem? Sofrerão muito. Estarão em meio a uma cultura que não é sua, com idioma que não seu. Uma coisa é quando alguém quer imigrar e adota o novo país, se prepara, estuda, vai e aceita as regras do país. Outra é ter de migrar por desespero. Toda migração ocorre por algo que incomoda, até porque o homem tende a ser mais sedentário que nômade. A primeira coisa que se deveria fazer era frear a terrível matança na Síria. O problema não é só o que fazer com os migrantes. O problema é: temos, como humanidade, o direito de nos manter indiferentes enquanto ocorre essa matança? Após o Holocausto, houve matanças terríveis na África, misérias e fomes terríveis na África e outros lugares, e o mundo não socorreu as pessoas. Temos hoje tecnologia para ajudar muitíssimo aos necessitados. Segue havendo um egoísmo na atitude em relação ao seu próximo, que é o centro de todos esses males. Quando terminar este terrorismo, começarão outras crises. Mas não só por sermos humanos e termos conflitos, e sim porque o compromisso de grande parte da humanidade, os compromissos que aparecem na Bíblia, são aceitos por todos que falam em democracia, em direitos humanos, mas essas pessoas não agem para baixar os níveis de agressividade, egoísmo e egocentrismo. Conflitos sempre haverá, o homem está cheio deles. A questão é até onde a humanidade mantém o grau de conflitividade por carência de um compromisso real e profundo de justiça social, de bondade, misericórdia e direitos humanos, que muitos proclamam, mas poucos praticam.

O senhor fala sobre isso com o Papa?
Nós nos falamos sempre. E esse discurso que estou fazendo é o que ele pratica, de não destruir nossa casa, viver com responsabilidade, não se crer dono da vida alheia.

Há medidas práticas previstas?
Há medidas que se fazem em nível de Vaticano, por iniciativa do Papa, como projetos de escolas, educativos. São projetos especiais em nível global, para transmitir educação e valores. O Vaticano, por meio do Papa, tem o clamor de um líder com muita credibilidade, talvez o líder com mais credibilidade para grande parte da humanidade, não apenas cristãos. É um homem que vive de acordo com o que acredita. Mas outros líderes deviam fazer o mesmo.

O que fazer quanto à expansão do EI?
Alguma coisa deve falhar em relação a esses terroristas, em nível de afeto. Algo deve ocorrer com eles em sua estrutura afetiva. Algo foi bloqueado por alguém. Não sou expert em psicologia, nem sei se há alguém que possa explicar o que ocorre. Mas a chave é o afeto. O amor é a palavra-chave da Bíblia judaica e é a base da Bíblia cristã. Amar ao eterno teu Deus, amar ao estrangeiro, amar ao teu próximo como a ti mesmo. Certa parte do desenvolvimento afetivo dessas pessoas tem algum problema.

Vocês se falam como? Ele demonstra angústia com o que ocorre no mundo?
Falamos mais por e-mail. Ele demonstra grande preocupação. Não gosto de usar a palavra angústia, porque a angústia paralisa, e ele é um homem de ação. A preocupação leva à ação. O que ele me diz é o que ele diz a todos. É uma pessoa muito transparente e criou muitos canais de diálogo. Sempre nos falamos sobre algum projeto, algo para fazer. Muitas vezes temos nos encontrado: em setembro do ano passado na Filadélfia, depois em dezembro. Em 30 de junho, em Roma, fizemos algumas coisas juntos. Foi a última vez que nos vimos. Estamos sempre conversando e projetando pequenas coisas.

O livro
Em Sobre o Céu e a Terra, o papa Francisco e o rabino Abraham Skorka, em diálogo franco, revelam tudo que pensam acerca de Deus, ateísmo, aborto, morte, fundamentalismo, homossexualidade e vários outros temas. O papa Francisco (então cardeal Jorge Mario Bergoglio) e o rabino Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico Latino-americano, são grandes incentivadores do diálogo inter-religioso, por meio do qual buscam construir horizontes comuns diluindo particularidades. Sobre o Céu e a Terra é o resultado de uma série de conversas profundas, realizadas na sede do Episcopado e na comunidade judaica Benei Tikva.

Amar a Deus e Amarmos a nós mesmos

16 de novembro de 2015 0

Acompanhe a íntegra da palestra ministrada pelos Rabinos Uri Lam, da CIM – Comunidade Israelita Mineira – e Guershon Kwasniewski da SIBRA – Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência- no marco de vídeo conferências do Global Day of Jewish Learning.

Deseja assistir a palestra, clique no link a seguir

https://www.youtube.com/watch?v=JzpwlGgOT8M

Esta palestra foi dedicada à bendita memória de Ione Pacheco Sirotsky Z”L.

 

Completam-se hoje 50 anos da Declaração Nostra Aetate, do Concilio Vaticano II

28 de outubro de 2015 0

Esta declaração tem uma importância impar, especialmente para nos judeus, já que pela primeira vez na história um documento oficial da Igreja reconhece que os judeus não mataram a Jesus. 
Estimula o diálogo fraterno entre católicos e judeus e reconhece a essência do catolicismo no judaísmo.
Vale a pena tomar uns minutos e lêr o parágrafo da declaração em relação aos judeus.


“A religião judaica


4. Sondando o mistério da Igreja, este sagrado Concílio recorda o vínculo com que o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à descendência de Abraão. 
Com efeito, a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e eleição já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas. Professa que todos os cristãos, filhos de Abraão segundo a fé (6), estão incluídos na vocação deste patriarca e que a salvação da Igreja foi misticamente prefigurada no êxodo do povo escolhido da terra da escravidão. A Igreja não pode, por isso, esquecer que foi por meio desse povo, com o qual Deus se dignou, na sua inefável misericórdia, estabelecer a antiga Aliança, que ela recebeu a revelação do Antigo Testamento e se alimenta da raiz da oliveira mansa, na qual foram enxertados os ramos da oliveira brava, os gentios (7). Com efeito, a Igreja acredita que Cristo, nossa paz, reconciliou pela cruz os judeus e os gentios, de ambos fazendo um só, em Si mesmo (8). 
Também tem sempre diante dos olhos as palavras do Apóstolo Paulo a respeito dos seus compatriotas: «deles é a adopção filial e a glória, a aliança e a legislação, o culto e as promessas; deles os patriarcas, e deles nasceu, segundo a carne, Cristo» (Rom. 9, 4-5), filho da Virgem Maria. Recorda ainda a Igreja que os Apóstolos, fundamentos e colunas da Igreja, nasceram do povo judaico, bem como muitos daqueles primeiros discípulos, que anunciaram ao mundo o Evangelho de Cristo. 
Segundo o testemunho da Sagrada Escritura, Jerusalém não conheceu o tempo em que foi visitada (9); e os judeus, em grande parte, não receberam o Evangelho; antes, não poucos se opuseram à sua difusão (10). No entanto, segundo o Apóstolo, os judeus continuam ainda, por causa dos patriarcas, a ser muito amados de Deus, cujos dons e vocação não conhecem arrependimento (11). Com os profetas e o mesmo Apóstolo, a Igreja espera por aquele dia. só de Deus conhecido, em que todos os povos invocarão a Deus com uma só voz e «o servirão debaixo dum mesmo jugo» (Sof. 3,9) (12). 
Sendo assim tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos. 
Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à morte (13) não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo, o que na Sua paixão se perpetrou. E embora a Igreja seja o novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura. Procurem todos, por isso, evitar que, tanto na catequese como na pregação da palavra de Deus, se ensine seja o que for que não esteja conforme com a verdade evangélica e com o espírito de Cristo. 
Além disso, a Igreja, que reprova quaisquer perseguições contra quaisquer homens, lembrada do seu comum património com os judeus, e levada não por razões políticas mas pela religiosa. caridade evangélica. deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus. 
De resto, como a Igreja sempre ensinou e ensina, Cristo sofreu, voluntariamente e com imenso amor, a Sua paixão e morte, pelos pecados de todos os homens, para que todos alcancem a salvação. O dever da Igreja, ao pregar, é portanto, anunciar a cruz de Cristo como sinal do amor universal de Deus e como fonte de toda a graça”.


Na fotografia junto ao Cardeal Kurt Koch, responsável do Vaticano pelo diálogo com os judeus, na comemoração dos 50 anos de Nostra Aetate, em evento organizado pela CONIB e a CNBB.

Cardeal Kurt Koch 2 9 15

Tecnologia ao serviço da religião e da educação

26 de outubro de 2015 0

Hoje pela manhã fizemos uma vídeo-conferência com os alunos de Ensino Médio do Instituto Estadual de Educação Salgado Filho, de São Francisco de Assis – cidade que fica 460 quilómetros de Porto Alegre. Leva 5 horas e 30 minutos ir até lá. Graças a tecnologia conversamos mais de uma hora com 200 alunos. O Dr. Ahmad Ali, representando o Islamismo, O Monge Zen Budista Ryushin e o Rabino Guershon Kwasniewski representando o Judaísmo. Falamos dos fundamentos de cada uma das nossas religiões e crenças.

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Há esperança

17 de setembro de 2015 0

Momentos marcantes foram vivenciados durante as comemorações do Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico)  na sinagoga da SIBRA – Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência – de Porto Alegre. Na hora da Amidá, Grande Oração, quando olhamos simbolicamente para Jerusalém, convidamos o Arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler e o Dr. Ahmad Ali – muçulmano -para elevar uma prece em direção à cidade sagrada para as três religiões. Quem viu, jamais irá esquecer. Na SIBRA construímos o diálogo com os nossos próximos, na prática e não na teoria. Foto Flávio Tissot 12011284_921660347921349_4781460087438074077_n

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luciano Lanes, fotógrafo da Prefeitura de Porto Alegre, também testemunhou este momento, aqui suas palavras e fotografia O momento mais bacana das últimas semanas. Na comemoração do Rosh Hashaná – Ano Novo judaico, o rabino(ao fundo) convidou os representantes dos cristãos e dos muçulmanos para participar da cerimônia. Eu, apesar de ateu, me emocionei. Há esperança.

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É impossível ser, ao mesmo tempo, cristão e anti-semita.

09 de setembro de 2015 1

Estas foram as palavras proferidas pelo Cardeal Kurt Koch,  quem preside à Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus no Vaticano.

O discurso foi realizado no Teatro da PUC-SP, no marco das comemorações dos 50 anos da declaração Nostra Aetate, evento organizado pela CONIB – Confederação Israelita do Brasil e Arquidiocese de São Paulo. 2/9/15

NOSTRA AETATE – BUSSULA PERMANENTE

DO DIÁLOGO CATOLICO-JUDAICO

Cardeal Kurt Koch

Acolho e agradeço calorosamente o convite para a celebração do quinquagésimo aniversário da promulgação da Declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II. Estou feliz por estar com os senhores e senhoras celebrando esse lindo dia, que se faz memória da promulgação desta importante Declaração. Este é um grande motivo para comemoração. A Declaração Nostra Aetate marca uma importante mudança de orientação no relacionamento entre católicos e judeus. Ela foi promulgada no final do Concílio Vaticano II, em 28 de novembro de 1965, com uma votação quase unânime, ou seja com 2221 votos favoráveis, 88 votos contrários e 3 votos nulos. E foi promulgada pelo Beato Papa Paulo VI. Numa retrospectiva, podemos afirmar com gratidão que as perspectivas de fé e instruções práticas contidas na Declaração Nostra Aetate têm sido confirmadas e aprofundadas pelos papas pós Concilio em muitos aspectos. Os senhores são os verdadeiros protagonistas do diálogo católico-judaico. A Declaração Nostra Aetate não perdeu em atualidade, mesmo depois de cinqüenta anos, mas serve ainda hoje e no futuro como uma útil bússola na reconciliação entre cristãos e judeus. Portanto, vale a pena uma conscientização sobre as principais perspectivas, que o Concílio nos deu.

Condenação teológica do anti-semitismo

É impossível ser, ao mesmo tempo, cristão e anti-semita. Esta mensagem, clara e inconfundível, a qual está sendo reafirmada justamente pelo Papa Francisco num momento em que novamente surgem ondas de anti-semitismo, resume na essência o que o Concílio Vaticano II expressa noquarto parágrafo da Declaração Nostra Aetate referindo-se às religiões não-cristãs. Neste documento, a Igreja “lamenta os ódios, as perseguições, as manifestações anti-semitas, em qualquer tempo e por qualquer pessoa dirigidas contra os Judeus”.

Nesta confissão se torna visível que um dos principais motivos que levou à elaboração da Declaração Nostra Aetate se encontra no processo histórico da assimilação da Shoah, planejada pelos nazistas, semelhante a um processo industrial, como genocídio dos judeus europeus. Na Shoah encontramos o ponto mais alto e terríveldaquele anti-semitismo primitivo e racista, desenvolvido no século XIX depois de Cristo, e que se tornou uma realidade cruel com a ideologia nazista, a qual foi algo sem Deus, antijudaico, anti-cristão  e neo-pagão.

A Declaração do Concilio não se apresenta isoladamente, mas foi preparada por outros acontecimentos, principalmente pela Emergency Conference of Antisemitism, que teve lugar em agosto de 1947 em Seeligsberg, na Suíça, onde cerca de 65 pessoas, judeus e cristãos de diferentes denominações, se reuniram para erradicar o fenômeno do anti-semitismo pela raiz. As perspectivas conhecidas como os “dez pontos de Seeligsberg” para um novo encontro entre judeus e cristãos entraram na Declaração do Concilio.

  1. O estudo do anti-judaísmo cristão

Nesta Declaração, as manifestações de ódio, perseguições e anti-semitismo não foram descartadas por razões políticas, mas por amor ao Evangelho. Portanto, foram declaradas pecado contra Deus e contra a humanidade. Neste horizonte claramente religioso, também precisaria surgir a seguinte questão: por que a resistência dos cristãos ao anti-semitismo nazista não alcançou aquela abrangência e clareza, que, em princípio, poderia se esperar? A Igreja, em sua própria história, se vê aqui confrontada com uma grande dívida ou hipoteca. Ela quer superar esta dívida enquanto põe numa luz positiva o que, no passado, foi avaliado apenas negativamente. Mesmo que grande parte dos Judeus não tenha aceitado o Evangelho de Jesus Cristo, eles são “amados por Deus por causa de seus pais”. Mesmo que as autoridades Judaicas, naquele momento, tenham insistido na morte de Cristo, não se pode acusar todos os Judeus daquele tempo, sem perceber a diferença que há entre os Judeus daquela época e os Judeus de hoje em dia. Mesmo que a Igreja se compreenda como o novo Povo de Deus, não se pode, como cristão, apresentar os Judeus como descartados e amaldiçoados por Deus.

Por detrás dessas afirmações percebe-se claramente o esforço do Concilio de esclarecer, de forma crítica e construtiva, a história da relação entre Cristianismo e Judaísmo. Era preciso acolher o fato de que esta história se apresenta de forma complexa, sendo que ela se move, desde o início, entre proximidade e distância, fraternidade e estranheza, amor e ódio. Pois, por um lado, não se entende Jesus sem Israel, a comunidade cristã primitiva participava, obviamente, da liturgia judaica no Templo. E foi Paulo quem, durante suas diversas viagens missionárias, entrou primeiramente nas sinagogas, antes de se dirigir, com o anúncio do Evangelho aos gentios. Por outro lado, após a Guerra Judaica e a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 d. C., o judaísmo rabínico pós-bíblico se constituiu largamente a partir do distanciamento do cristianismo, o qual estava se espalhando. Em sua reação a este processo, também o cristianismo procurou por sua identidade distanciando-se do judaísmo.

Aqui se evidencia que a relação entre cristãos e judeus, desde muito cedo na história, ficou marcada pelos conflitos, sendo que estes, dentro da Igreja cristã, deram origem ao anti-judaísmo, prejudicando as relações judaico-cristãs enormemente, sobretudo com as suas afirmações sobre os Judeus como assassinos de Deus e a respeito do judaísmo como uma religião ultrapassada depois da vinda de Jesus Cristo. Este anti-judaísmo teológico-cristão, operante durante séculos, certamente não foi a causa, mas um pressuposto em vista de uma mentalidade que foi marcada pela falta de resistência dos cristãos ao anti-semitismo neo-pagão.

  1. Retorno à consciência de se ter uma herança espiritual comum

O Concilio visa superar as culpas num horizonte teológico. Ou, de acordo com a Declaração Nostra Aetate: “consciente da herança que ela, ou seja, a Igreja tem em comum com os judeus”. Somente assim, se torna visível a verdadeira direção do sentido da Declaração Nostra Aetate. Também aparece o reinicio fundamental nas relações entre cristãos e judeus, que o Concílio possibilitou. A grande importância da Declaração Nostra Aetate consiste na circunstância de que, pela primeira vez na historia, um Concílio Ecumênico se pronunciou, de forma tão explícita e positiva, a respeito da relação com os judeus e/ou o judaísmo. O Concílio não tem tratado apenas questões meramente práticas ou pragmáticas, mas colocou a pergunta das relações judaico-cristãs num horizonte teológico e em sólidos fundamentos bíblicos. Ou, para dizê-lo com as palavras do Cardeal alemão jesuíta Augustin Bea, o qual teve a responsabilidade principal na preparação da Nostra Aetate: A Declaração do Concilio “devia levar estas verdades sobre os judeus, que foram estabelecidas pelo Apóstolo e que fazem parte do depósito da fé, novamente à consciência dos que creem em Cristo”. [2]  Para revitalizar a visão bíblica e, sobretudo, a visão paulina no que se refere à relação entre judeus e cristãos, a Declaração conciliar não destaca apenas as raízes judaicas da fé cristã, mas confirma também, de forma positiva, a “herança espiritual comum” que judeus e cristãos têm em comum.

No que diz respeito às raízes judaicas da fé cristã, a Declaração Nostra Aetate se refere explicitamente à imagem paulina da “boa oliveira, na qual os gentios foram enxertados como brotos de uma oliveira silvestre”, a fim de lembrar que a Igreja recebeu a revelação do Antigo Testamento do povo com o qual Deus tinha realizado a antiga aliança. Esta impressionante imagem, que Paulo usa em Romanos 11, representa para ele a chave decisiva para contemplar a relação entre Israel e a Igreja de Jesus Cristo à luz da fé. Com esta imagem, Paulo, expressa um aspecto duplo em vista da unidade e diferença entre Israel e a Igreja. Por um lado, a imagem precisa ser levada a sério no sentido de que os ramos selvagens enxertados não nasceram das raízes daquela árvore.  Não são descendentes dela, mas representam um novo agir salvífico de Deus. Quer dizer, a Igreja Cristã não pode ser entendida simplesmente como um ramo ou um fruto de Israel. Por outro lado, a imagem também precisa ser levada a sério no sentido de que a Igreja somente vive enquanto busca seu alimento e sua força da raiz de Israel. Os ramos enxertados, pois, murchariam e morreriam, caso fossem cortados da raiz de Israel. Abandonando a imagem, isso significa que Israel e Igreja estão inter-relacionadas e interdependentes, justamente, porque existem entre os dois não apenas a unidade, mas também a diferença.

Israel e Igreja são e permanecem não misturados e inseparáveis, sobretudo por causa da herança espiritual que eles têm em comum. Por causa de Israel ser o povo amado por Deus e da aliança dele, a qual nunca foi revogada ou cancelada, o livro da aliança de Israel, o Antigo Testamento, faz parte do legado permanente da Igreja Cristã. E, justamente a partir da existência do Antigo Testamento como uma parte substancial da Bíblia Cristã, existe profunda afinidade e relação familiar entre judaísmo e cristianismo.  Mais ainda: a raiz do cristianismo se encontra no Antigo Testamento, e o cristianismo se nutre constantemente das raízes veterotestamentárias.

Com a existência do Novo Testamento, por sua vez, logo surgiu a questão sobre como os dois Testamentos se relacionam entre si. Com isso, se defendeu, no decorrer da história, a perigosa compreensão de que o Novo Testamento tivesse ultrapassado o Antigo Testamento e transformado este último em algo ‘velho’ que, no brilho do ‘novo’ passou, assim como, se ao nascer do sol, não se precisasse mais da luz da lua. Tal oposição brusca entre a Bíblia Hebraica e a Bíblia Cristã foi defendida, no século II depois de Cristo, por Marcião. Felizmente, esta doutrina nunca se transformou em doutrina oficial da Igreja Cristã. Ao ter afastado Marcião da comunidade cristã, em 144 depois de Cristo, a Igreja rejeitou a proposta de uma Bíblia meramente cristã e purificada de todos os elementos veterotestamentários e confessou a sua fé em Deus uno e único, que originou os dois Testamentos, insistindo na união dos dois Testamentos. A importância desta decisão antimarcionica da Igreja primitiva, no que se refere à relação entre a Igreja e o Judaísmo, não pode ser supervalorizada. Pelo contrário, também hoje, ela precisa ser confirmada onde, na teologia cristã, o antigo marcionismo ganha nova presença, não apenas no ambiente do tradicionalismo, mas também no lado liberal do cristianismo atual, em especial onde o conflito entre Jesus e o então judaísmo é visto como fundamentado na Torá, imaginando-se que Jesus teria libertado o povo de uma observância servil e de meras formalidades.

4. Relação única entre judeus e cristãos na História da Salvação

Apenas quando há consciência da herança espiritual em comum, é possível enxergar a razão mais profunda para a nova compreensão das relações católico-judaicas, a qual já aparece na primeira frase do quarto parágrafo da Declaração Nostra Aetate: “Ao contemplar o mistério da Igreja, o Santo Sínodo se lembra do laço, pelo qual o povo da Nova Aliança se encontra espiritualmente ligado à descendência de Abraão”. A importância desta fundamentação histórico-salvífica para o Concilio se descobre, quando se observa que ela foi incorporada também em outros textos importantes do Concilio. Especialmente, a Constituição dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, nos parágrafos 9 e 16, mostra como a Igreja cristã nasce de Israel, povo de Deus, destacando a eleição permanente deste último. A Constituição dogmática Dei Verbum, sobre a revelação divina, contém a mesma convicção nos parágrafos 14 a 16, contudo numa perspectiva da Teologia da Revelação. Entende-se assim que tais paralelismos em outros documentos importantes do Concilio conferem à Declaração Nostra Aetate uma autoridade ainda maior.

Com este fundamento histórico-salvífico, a Declaração Nostra Aetate expressa que a Igreja possui com o Judaísmo um relacionamento único e exclusivo como com nenhuma outra religião. Mesmo que o quarto parágrafo sobre judaísmo esteja integrado na Declaração sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs, o Judaísmo não representa apenas uma das muitas religiões não-cristãs. E a relação entre cristianismo e judaísmo não pode ser nivelada a uma variante específica do diálogo interreligioso, no qual seu caráter distinto não fosse mais valorizado. Este, pois, consiste justamente na circunstância de que não se pode compreender a Igreja sem referência ao judaísmo, de acordo com o que o santo papa João Paulo II pronunciou por ocasião de sua visita, em 1986, à Sinagoga de Roma, com as impressionantes e impactantes palavras: “Para nós, a religião judaica não é algo ‘externo’, mas pertence, em certo sentido, ao ‘interno’ de nossa religião. Com ela temos relações como com nenhuma outra religião. Vós sois nossos irmãos prediletos, ou como se pode dizer, nossos irmãos mais velhos.” [3]

A relação de Israel com o Povo da Aliança faz parte da identidade e autocompreensão da Igreja, há de se entender automaticamente que ela se interessa, de forma especial, pela interpretação do Antigo Testamento, a qual. apos a destruicao do Segundo Templo no ano 70 depois de Cristo recebeu uma nova configuracao, pois tinha que entfrentar o desafio de interpretar o Antigo Testamento em uma época sem Templo. Como a interpretação rabinica e talmudica nasceu no mesmo período do que a exegese cristológica pelos cristãos, surge a pergunta sobre como estas duas maneiras de ler o Antigo Testamento após o ano 70 se relacionam. O papa Bento XVI respondeu esta questão fundamental para a relação judaico-cristã em seu livro sobre Jesus de Nazaré, com as seguintes explicações: “Após séculos de oposição, acolhemos a tarefa de que estes dois modos de uma nova leitura dos escritos bíblicos – a cristã e a judaica – devem dialogar uma com a outra, para compreender corretamente a vontade e a palavra de Deus” [4]  Com isso, o Papa Bento acolheu um resultado que a Pontifícia Comissão Bíblica, em 2001, formulou em seu documento O povo judeu e suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã na direção de que “os cristãos podem e devem admitir que a leitura judaica da Bíblia representa uma possível leitura, a qual surge organicamente das Sagradas Escrituras judaicas no período do Segundo Templo”, justamente em  “analogia à leitura cristã, que se desenvolveu paralelamente,” a fim de chegar à seguinte conclusão: “Cada uma destas duas leituras permanece fiel a sua respectiva visão de fé, sendo ela fruto e expressão dela. Assim sendo, uma não pode ser reintegrada à outra”.

5. Serviço mútuo à fé do outro

Cristãos e judeus podem aprender também uns dos outros onde mais profundamente se distinguem. Sem duvida, a diferença mais elementar entre o judaísmo e o cristianismo se refere à questão da salvação do mundo e no mundo. Por um lado, a crítica judaica de fundo em relação à confissão cristológica e ao cristianismo em geral insiste na circunstância de que o mundo continua sem reconciliação e de que o Reino de Deus ainda não chegou em nosso mundo. Justamente onde o judaísmo se mantém fiel a sua vocação divina, ele é um espinho na carne do cristianismo, por lembrar a experiência da ainda não-salvação do mundo, como salientou Franz Rosenzweig: “A presença dos judeus, por todo tempo, obriga o cristianismo à reflexão de que ele não chega ao destino ou à verdade, mas sempre está a caminho”.[5] Schalom Ben-Chorin verbalizou o mesmo espinho com as seguintes palavras: “O judeu conhece profundamente a não-salvação do mundo; e ele não reconhece, em meio a esta não-salvação, enclaves de salvação”.[6]  Na mesma direção, Martin Buber destacou a diferença permanente ao cristianismo da  seguinte forma: “A Igreja se firma na fé de que Cristo já chegou, como salvação oferecida por Deus à humanidade. Nós israelenses, não conseguimos acreditar nisso.”[7]

Com isso, é destacado o específico do cristianismo, o qual, baseando-se no evento de Cristo, é convencido de que, em meio a um mundo ainda não reconciliado e não-salvo, o amor de Deus já está presente, na pessoa de Jesus Cristo. Pois o específico do cristianismo consiste na fé posta na reconciliação, e isso num mundo ainda não reconciliado em Cristo e na presença de seu espírito. Quando o cristianismo, em fidelidade a sua missão divina, afirma a presença do reconciliador amor divino em meio a um mundo que sofre, geme e continua não reconciliado, reconhecendo, na cruz de Jesus, o dia permanente da conciliação divina, o próprio cristianismo é um espinho na carne do judaismo.

Se judaísmo e cristianismo ficarem fiéis as suas respectivasconvicções de fé e se respeitarem mutuamente nisso, sendo que assim se desafiam, eles podem prestar este serviço à fé do outro. Nesta ajuda mutua de serviço à fé, cristianismo e judaísmo, Igreja e Sinagoga permanecem indissoluvelmente ligados um ao outro, justamente por cristãos e judeus viverem da mesma herança espiritual, a qual a Declaração Nostra Aetate trouxe à memória. Que a celebração comemorativa e festiva no dia de hoje possa fortalecer nossa esperança de que a Declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, continue a nos mostrar o caminho, para que cristãos e judeus se acolham, reciprocamente, numa profunda e interior reconciliação, a fim de que, neste mundo, se tornem um sinal e instrumento de reconciliação e sejam aquela bênção que foi prometida a Abraão, o pai de Israel e o pai da fé dos cristãos.

Comp: Jüdisch-christlich-Brasilien2015(2)Portugiesisch

[1] Relatio na culturale Manifestazione por commemorare il 50° della Nostra aetate nel Teatro dell’ Università Cattolica em Sao Paolo il 2 de setembro de 2015

[2] Relatio por Augustin Cardeal Bea “Atitude dos católicos para os não – cristãos e principalmente para os judeus”, realizada no auditório do Conselho em 19 de novembro de 1963, em: A. Kardinal Bea, Die Kirche und das jüdische Volk (Freiburg i. Br. 1966) 141-147, zit. 144.

[3] Giovanni Paolo II, Ringraziamo il Signore la ritrovata fratellanza e por la profonda intesa tra la Chiesa e l ´ Ebraismo. Allocuzione nella Sinagoga durante l ´ incontro con la Comunità Ebraica della Città di Roma, il 13 abril de 1986, em: Insegnamenti di Giovanni Paolo II IX, 1 1986 (Città del Vaticano 1986) 1024-1031, cit. 1027

[4] J. Ratzinger / Bento XVI, Jesus de Nazaré. Segunda parte: após a entrada em Jerusalém, para a Ressurreição (Freiburg i. br. 2011) 49.

[5] F. Rosenzweig, Der Stern der Erlösung III, 197.

[6] . Sch. Ben-Chorin, Die Antwort des Jona. Zum Gestaltwandel Israels (Hamburg 1956) 99.

(7) M. Buber, Der Jude und sein Judentum (Löln 1963)

Comemoração dos 50 anos de Nostra Aetate em São Paulo

03 de setembro de 2015 0

Junto ao Cardeal Kurt Koch, responsável pelo Vaticano no relacionamento com os judeus, no Teatro da PUC de São Paulo, em evento organizado pela CONIB e a Igreja Católica, para comemorar os 50 anos da Declaração Nostra Aetate.

Cardeal Kurt Koch 2 9 15

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Cardeal Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo e o Rabino Michel Schlesinger da CIP e encarregado do Diálogo Interreligioso pela CONIB,fizeram interessantes discursos na noite que comemoramos os 50 anos da declaração do Concílio Vaticano II.

Scherer Schlesinger Kwasniewski

 

Em Buenos Aires, Rabino fala da experiência do diálogo interreligioso de Porto Alegre

31 de agosto de 2015 0

O Rabino da  SIBRA e Coordenador do Grupo de Diálogo Interreligioso de Porto Alegre, Guershon Kwasniewski, ministrou palestra sobre a experiência do Diálogo Interreligioso, na Legislatura Portenha, à convite da Conselho de Planejamento Estratégico do Governo da cidade de Buenos Aires.

http://www.buenosaires.gob.ar/noticias/conferencia-del-rabino-guershon-kwasniewski

LP 2015 Legislatura Portenha Guershon agosto 2015

Música em Jerusalem

29 de dezembro de 2014 1

A convivência pacífica é possível!

Organizada pelo “Simply Singing” (Simplesmente Cantando), que se iniciou na Universidade de Jerusalem, juntou-se mais de 2 mil jovens (e jovens de coração) para celebrar a vida juntos – Judeus e Árabes numa festa cultural e culinária, no dia 6 de novembro de 2014. A paz é possível!

Jewish-Arab Jamming in Jerusalem