Crianças também sofrem de depressão
Confira a entrevista na íntegra com os psiquiatras Bennett Leventhal, professor da Universidade de Chicago, e Andres Martin, professor da Universidade de Yale
Assim como os adultos, crianças sofrem de depressão e de transtornos psiquiátricos graves e devem, quando indicado, tomar remédio para viver melhor o mais cedo possível. Essa é a opinião dos psiquiatras Bennett Leventhal, professor da Universidade de Chicago, e Andres Martin, da Universidade de Yale (EUA), que estiveram no início de junho em Porto Alegre para o congresso da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil. Confira os principais trechos da entrevista:
VIDA _ Crianças podem ser diagnosticadas com depressão ou apresentam apenas sintomas da doença?
Andres Martin _ Crianças podem sofrer de depressão sim. Esse foi um dos grandes avanços da psiquiatria nas últimas décadas. Houve um melhor entendimento dos sintomas das doenças psiquiátricas e de como elas se manifestam em diferentes idades. Um distúrbio, como a depressão, tem peculiaridades nas crianças. Nos pequenos, a depressão se manifesta por sintomas físicos, como dores de estômago e de cabeça freqüentes, falta de vontade de ir à escola. Uma criança que está sempre no pediatra, sente-se fraca, também pode estar depressiva. A maioria pode pensar que adolescentes facilmente irritáveis, temperamentais e bravos estão apenas sendo adolescentes, mas essa pode ser uma outra manifestação de depressão. Se procurarmos os mesmo sintomas dos adultos em crianças, como a tristeza, podemos estar negligenciado esses outros sintomas.
Bennett Leventhal _ Hoje podemos fazer diagnóstico de doenças psiquiátricas em crianças muito cedo. Sabemos diferenciar o comportamento normal de uma criança de um comportamento atípico e podemos fazer diagnósticos e iniciar tratamentos muito eficazes em crianças desde a mais tenra idade. Podemos fazer diagnóstico de autismo em crianças de dois anos, ou menos menos. Em depressão, entre três ou quatro anos. Ao fazer diagnóstico cedo, conseguimos que essas crianças não sofram tanto, não sejam prejudicadas na escola, no seu relacionamento com os amigos e adultos. Podemos detectar sintomas até em bebês. Por exemplo, gestantes que estão muito deprimidas, fumam ou usam drogas antes do parto podem causar problemas neurológicos aos filhos. Sabendo que uma mãe usou substâncias durante a gravidez, podemos iniciar desde o parto um tratamento a fim de evitar que a criança sofra esses danos. Mulheres que fumam aumentam o risco de que seus filhos desenvolvam graves problemas psíquicos.
Vida _ É possível prevenir doenças psiquiátricas como se previne uma doença cardíaca, por exemplo?
Leventhal_ Podemos prevenir algumas, mas em todas podemos minimizar seu impacto, controlando-as, da mesma forma de se trata a pressão alta. Podemos ensinar uma criança com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) a ter certas habilidades sociais, dar-lhe remédios e ensinar seus pais como lidar melhor com o problema. Quando ele for para a escola, se sairá tão bem quanto as outras crianças e terá reduzido o risco de desenvolver uma dependência química. Ou seja, podemos mudar o rumo dessa doença, mesmo sem alcançar a cura. Por isso digo e repito: se os pais perceberem que há algo de errado com seu filho, procure ajuda. Ter um diagnóstico cedo e tratar cedo, faz muita diferença. Quanto maior for o tempo que uma criança ter um distúrbio sem tratar, mais difícil será o tratamento. É a mesma coisa que uma doença como outra qualquer. O problema é que ainda há uma discriminação com doenças mentais. Temos que lutar contra isso, porque temos tratamentos muito eficazes que as pessoas não procuram por medo, por preconceito e falta de informação. Hoje sabemos que 25% das crianças com TDAH não são tratadas. E aqueles que não são tratados têm todos os tipos de doenças. Metade das crianças com depressão não é tratada. Você imagina que tragédia seria se eu dissesse que metade dos pacientes de câncer não é tratado? Temos muitas crianças sofrendo à toa e correndo risco de suicídio.
Vida _ É verdade que as crianças de hoje estão sofrendo mais de transtornos de humor, como a depressão?
Leventhal - Não acho que isso esteja acontecendo. Estamos diagnosticando mais. Doenças mentais são muito comuns na população em geral. Não conheço os números do Brasil, mas acho que são semelhantes aos dos Estados Unidos: cerca de 50% dos norte-americanos terão um distúrbio psiquiátrico em alguma etapa da vida. Destes, 75% manifestarão os sintomas antes dos 25 anos. Metade desse total, a doença começara antes dos 16 anos. Isso significa que uma entre quatro crianças terá algum distúrbio psiquiátrico durante seu crescimento, seja retardo mental, ou autismo, TDAH, depressão, transtorno bipolar. Nos últimos 10 anos, as pessoas não estavam se dando conta o quanto comum essas doenças são. Antes, porém, apenas se dizia que crianças com problemas psiquiátricos eram crianças más ou filhas de pais negligentes. Uma coisa que descobrimos foi que a maioria dessas doenças não é causada por problemas na educação dos filhos em casa. A maioria dos pais são muito bons, mas não sabem o que fazer. Nosso papel, é ajudá-los.
Vida _ É correto prescrever medicação para crianças?
Martin _ Sim. Hoje temos muita informação de quais doenças e as condições respondem bem aos medicamentos. Alguns transtornos são muito bem controlados com remédios, como transtorno obssessivo-compulsivo (TOC), depressão, TDAH, autismo e esquizofrenia. Para algumas doenças, como TDAH, sabemos com detalhes qual a dose mais adequada, por quanto tempo usar e quão seguro eles são. É claro que, assim como em outras áreas, não há medicamentos psiquiátricos sem efeitos colaterais. A maioria pode ser controlada, mas podem ser sérios, como ganho de peso. Mas, quando colocamos os efeitos colaterais e os benefícios numa balança, vemos que os ganhos dos remédios são bem maiores.
Vida_ Os remédios não podem causar danos para um cérebro ainda em desenvolvimento já que a personalidade ainda está sendo formada?
Martin_ Existe sim efeitos colaterais. Os estimulantes, por exemplo, podem dar dores de estômago. Mas são pequenos quando comparamos com os prejuízos de não tratar. Depressão não tratada leva ao suicídio, e é uma das maiores causas de morte entre adolescentes. Ou seja, o cérebro dessa criança pode ser mais prejudicado se não tratarmos a doença do que os possíveis danos com os medicamentos.
Leventhal _ Se você tem TDAH e não tratá-lo, você tem quatro vezes mais chances de desenvolver uma dependência química e cinco vezes mais chances de sofrer um acidente de carro. Se você tratar, seu risco será o mesmo do de uma pessoa sem TDAH. A pergunta é devemos correr esse risco? Sabemos que crianças que têm esses distúrbios de humor, como depressão e TDAH, sofrem muito, são isoladas na escola, o que traz muita dor e angústia. E tristeza e angústia causam problemas no desenvolvimento do cérebro infantil.
Vida_ Como os avanços em tecnologia de imagem estão ajudando os psiquiatras a entender melhor os distúrbios?
Leventhal _ Ainda não sabemos bem o que determinadas imagens do cérebro nos dizem do ponto de vista clínico, em termos de diagnóstico e tratamento. Elas nos dão a informação de como o cérebro funciona, quando ele está bem e quando ele não está bem. Mas ainda não sabemos o que ocorre em um cérebro em desenvolvimento. Talvez, nos próximos, cinco, dez anos, após termos o entendimento disso, saberemos como as imagens podem nos ajudar para o diagnóstico e o tratamento.
Vida _ Uma pessoa nasce com problemas mentais ou adquire a doença à medida que cresce?
Leventhal _ As duas coisas. Grande parte da nossa personalidade é herdada geneticamente. Quando dizemos que alguém é parecido com o pai ou com a avó, estamos identificando a parte herdada. Mas a outra parte é adquirida por meio da educação, da relação com o outro. A fundação é genética, mas a forma como a pessoa age e se porta é será talhada pela experiência de cada um.
Vida_ O que falta avançar?
Leventhal _ O cérebro é o ultimo órgão que a ciência ainda não entende perfeitamente. Sabemos como os músculos funcionam, como o ossos funcionam, agora temos que entender como o cérebro funciona. Estamos fazendo progresso muito rápido. Uma das dificuldades que temos em crianças é de que os mecanismos que usamos em adultos não podem, ser usados em crianças e a outra coisa é que um cérebro em desenvolvimento é diferente de um já formado. O cérebro de uma criança de três anos é diferentes de uma criança de cinco anos. Temos por isso que entender a ciência cada uma dessas etapas. Esse é o grande desafio para a psiquiatra, entender o que chamamos de neurociência do desenvolvimento, olhando como o cérebro se desenvolve, como as funções mudam e elas estão associadas a um desenvolvimento normal ou a um desenvolvimento anormal.
Postado por Silvia Lisboa