
Você já leu a reportagem de capa do caderno Vida deste sábado? Se ainda não leu, clique aqui primeiro, depois aqui, aqui e aqui. Leia as quatro partes da reportagem. Se já se saboreou com os textos da repórter Sílvia Lisboa, então siga em frente e veja trechos do livro recém-lançado da psiquiatra italiana, Donatella Marazziti – A natureza do amor – Conhecendo os sentimentos para vivê-los melhor (Editora Atheneu, 2007, R$ 40)
Quem é ela:
Donatella Marazziti, psiquiatra, Professora de Psiquiatria e Diretora do Laboratorio de Psicofarmacologia na Universidade de Pisa, Italia. Tem mais de 350 publicações sobre os temas do apaixonamento e processos correlatos, transtornos de ansiedade e transtornos de humor.
A ciência e a poesia do amor
%22Aproximar-se do amor por uma óptica científica, aprendendo a conhecer e a reconhecer as dinâmicas biológicas nele implicadas, não atenuará a intensidade com que o vivenciamos, não apagará a surpresa que nos toma quando nos apaixonamos. Pelo contrário, poderá nos auxiliar a aliviar o sofrimento que com freqüência acompanha essas circunstâncias e poderá nos ajudar, quem sabe, a escolher melhor nosso parceiro. A biologia não degrada os sentimentos, mas nos torna mais conscientes do fato de que a origem destes está dentro de nós e de que eles são produtos do nosso cérebro. Saber disso não diminui a grandeza humana.
Pelo contrário, reconhecer que o amor é uma força potencialmente intrínseca em cada um de nós, gerada por nossa essência humana, ou seja, pelos mesmos componentes que regulam cada aspecto do nosso ser, é reconhecer plenamente a grandeza humana - grandeza que se torna ainda maior quando, vivendo plenamente o amor, o ser humano torna-se capaz de superar a si mesmo.%22
O que é o amor
%22O amor, assim, é um organismo vivo e, como tal, deve ser continuamente alimentado e nutrido, para que possa desenvolver-se de maneira harmônica, para que não se paralise nem fique estagnado. E, como um organismo, tem suas etapas de desenvolvimento e suas épocas _ todas necessárias e gratificantes se bem vividas. O dramaturgo August Strindberg, com uma analogia poética muito apropriada, comparou-o a uma flor de jacinto, que, antes de desabrochar e revelar sua beleza, deve fincar raízes sólidas no terreno.
Para chegar a viver plenamente o amor é preciso, então, tempo. É necessário esperar para que os mecanismos envolvidos sejam primeiramente ativados e depois desativados para que seja possível passar à fase seguinte. Não se pode pensar em amar verdadeiramente alguém após um único dia, nem pensar em dedicar-lhe a vida se o sentimento não estiver suficientemente enraizado.%22
A primeira etapa do amor: a atração
%22Seguramente há um sem-número de etapas para se chegar a um amor que seja realmente satisfatório e gratificante a longo prazo. Que existem várias etapas para atingir o amor é uma verdade da qual todos nós temos conhecimento. Não se pode dizer %22eu te amo%22 um dia depois de termos conhecido uma pessoa que nos agrada e, se alguém fizer isso, não levamos essa pessoa muito a sério ou a consideramos superficial. É típico dos adolescentes e das pessoas jovens usarem com exagero a expressão %22eu te amo%22. Apenas com o passar do tempo é que se pode avaliar a real envergadura dessa frase e alcançar o profundo significado que ela contém.
A sucessão das etapas no caminho para o amor, cada uma correspondente a uma específica condição biológica, é, no conjunto, comum a todos nós. Aquilo que muda de um indivíduo para outro, mas também de uma relação amorosa para outra, é o tempo que transcorre entre as várias progressões, que necessitam de uma ampliação e de uma estabilização permanente dos mecanismos cerebrais envolvidos. Apenas depois de ocorridas alterações químicas ou elétricas no interior de algumas zonas do nosso cérebro é que se podem desencadear as modificações seguintes em outras áreas cerebrais, até chegarmos à utilização constante e contínua dos processos cognitivos que provavelmente são a base da vontade de empenhar-se numa relação afetiva. E não é certo que esses processos cognitivos se verifiquem: cada um de nós pode facilmente recordar relações amorosas que, independentemente do envolvimento inicial ou da correspondência do parceiro, não progrediram e vieram a se extinguir logo após a fase do apaixonamento. Enquanto no curso de nossa vida pode acontecer de nos apaixonarmos algumas vezes ou várias vezes, o amor é uma experiência menos freqüente, porque implica o envolvimento de processos não só emocionais, mas também cognitivos e voluntários.
Quando as diversas etapas são superadas pelo casal, e o processo desenvolvese praticamente paralelo em ambos os parceiros, chega-se a um relacionamento tão profundo e gratificante a ponto de representar uma das experiências mais aprazíveis e duradouras da experiência humana.%22
O apego ou a quietude após a tempestade
%22Estar junto com o outro, conhecê-lo cada vez mais, aprofundar a intimidade sexual, compartilhar a vida cotidiana, tudo isso leva, no entanto, como vimos, ao enfraquecimento da exaltação típica do apaixonamento, ou melhor, transformam na, e isto, considerando-se o amor como um processo dinâmico, não é outra coisa senão um progresso.
Assim, um belo dia acordamos e, de repente, nos damos conta de que ao nosso lado não temos um semideus ou uma semideusa, mas estamos dividindo os nossos dias com uma pessoa %22normal%22 que, como todos, tem suas qualidades e seus defeitos; por exemplo, notamos que está com sobrepeso, que tem os dentes tortos, que seu corte de cabelo está fora de moda, que ronca quando dorme, que come de modo voraz, que é desafinado, e assim por diante. Trata-se, então, de um despertar pouco prazeroso?
Na imensa maioria dos casos não é assim, porque nos damos conta de como é o outro e ele nos agrada do mesmo jeito; é como se ocorresse uma espécie de ajustamento cognitivo, ou uma focalização mais adequada. Não existe mais a idealização do parceiro como o ser mais perfeito que existe na face da Terra. Ao contrário, existe a plena noção, freqüentemente declarada, de que o vemos como ele é realmente. Não obstante, não queremos perdê-lo, em absoluto, porque é de qualquer modo o único que amamos e que acreditamos que nos ama de forma exclusiva.
Agora nós o vemos como os outros o vêem, mas, ao contrário dos outros, estamos dispostos a tolerar todos os seus pontos negativos, a amá-lo realmente. Agora, nós nos sentimos profundamente ligados ao nosso parceiro e somos capazes de perceber de maneira clara que a relação se modificou.%22
O amor que sente a mulher é diferente do amor que sente o homem?
%22A impressão que se tem (ainda não demonstrada cientificamente, mas de acordo com observações clínicas) é de que o apego na mulher talvez seja mais global e exclusivo.
Por outro lado, as mulheres, por motivos evolucionistas, são aquelas que devem doar-se mais – devem conceber, parir, nutrir e cuidar da prole que delas depende para a sobrevivência. Dado que tais comportamentos se tornaram possíveis pelas flutuações nos níveis de oxitocina, que não ocorrem no homem, podese estabelecer a hipótese de que o apego mais integral da mulher possa dever-se à maior flexibilidade e pulsatilidade dos mecanismos que regulam a liberação de oxitocina.
Pois bem, se nos detivermos por um momento neste ponto, devemos nos perguntar se alguma vez um homem poderá se comportar como a Anna Karenina de Tolstoi, que perde a respeitabilidade, o marido, o filho e a si mesma porque se apaixonou por um Conde Vronski que nunca a perdoará por ter sido obrigado a deixar sua carreira no exército por causa dela _ um pouco como o nosso Stefano. Talvez não se possa afirmar que graus extremos de amor sejam sempre e somente protagonizados pelas mulheres, mas não dispomos, no momento, de elementos que comprovem cientificamente alguma teoria.%22
Postado por Sílvia Lisboa