Do caderno Vida de hoje
Crianças
Nos próximos 13 anos, especialistas em oftalmologia pediátrica têm o desafio de reduzir em 80% o índice de cegueira infantil no mundo. Apesar de ambiciosa, a meta que integra o Programa Visão 2020, lançado há dois anos, está baseada em uma estatística estarrecedora: em cada 10 casos de perda total de visão, oito poderiam ter sido evitados. Mudar essa realidade depende, acreditam especialistas, da conscientização de pais e pediatras sobre a importância dos cuidados com a visão desde o berço até os 10 anos, período em que termina o desenvolvimento da visão.
A primeira arma é o teste do olhinho, que deve ser realizado nas primeiras 48 horas de vida do bebê. Menos famoso que o teste do pezinho, que detecta precocemente alterações genéticas, o do olhinho é capaz de diagnosticar enfermidades oculares como retinopatia, catarata congênita, glaucoma, tumores, infecções e traumas no parto. No ano passado, Porto Alegre tornou obrigatória a realização do exame nas maternidades locais.
— A decisão de Porto Alegre foi seguida por outros municípios gaúchos e por pediatras — comemora a oftalmologista infantil Rosane Ferreira, vice-presidente do Instituto Ver, ONG gaúcha voltada à prevenção da cegueira infantil e que ajudou a elaborar o projeto que tornou obrigatório o exame.
Além da realização do teste do olhinho, os bebês devem voltar ao oftalmologista até o sexto mês de vida para realizar a dilatação da pupila. O procedimento deve ser repetido a cada seis meses até os dois anos de idade. Este é um período especialmente crítico, em que 90% da visão é formada. Por meio da dilatação da pupila, o especialista detecta alterações oculares que se desenvolveram após o nascimento e podem levar à cegueira. Após esse período, as consultas passam a ser anuais, mas não devem ser negligenciadas.
Segundo Rosane, o pico de incidência do tumor ocular (retinoblastoma) ocorre aos 18 anos. Até mesmo defeitos na visão que podem ser corrigidos com óculos, como a miopia e o astigmatismo, podem acarretar deficiências caso não sejam detectados precocemente.
— Temos de tentar resolver as doenças oculares enquanto a visão está sendo desenvolvida — explica a médica.
Os óculos escuros também devem ser usados por todas as crianças, e não apenas pelas de olho claro, mais sensíveis às radiações solares.
Maioria pode doar córneas
Para doar grande parte dos órgãos, o paciente precisa ter diagnosticada a morte cerebral, condição em que a respiração não é possível sem aparelhos e os batimentos cardíacos cessam em poucas horas. No caso da córnea, no entanto, esse critério não é necessário. Com exceção das mortes provocadas por infecções ou alguns tipos de câncer, nas demais é possível retirar a lente transparente que fica na frente da íris, a parte colorida do olho, até seis horas após o óbito de pessoas, entre dois e 80 anos.
Embora a maioria possa ser doador, 90% das pessoas se recusam a autorizar a retirada do tecido de parentes mortos. Essa realidade no país coloca na escuridão 26 mil brasileiros que aguardam na fila pelo transplante. No Rio Grande do Sul, o tempo de espera é, em média, de oito meses.
Para reverter esse quadro, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) lançou no Fórum Nacional de Saúde Ocular, no último dia 30, a campanha "Desta Vida você não leva nada. Mas pode deixar. Doe córneas". Além de mostrar como o gesto solidário pode ajudar a devolver a visão para duas pessoas, a campanha chamará a população para a consulta pública sobre uma portaria que estabelece as regras de funcionamento das Organizações de Procura de Córneas, conhecidas como OPC`s. As OPC`s são ONGs que têm a autorização de entrar nos hospitais e abordar parentes sobre a doação. Segundo Hamilton Moreira, presidente do CBO, a presença de voluntários nos hospitais é um ponto nevrálgico.
— Em geral, os hospitais não permitem a entrada de pessoas de fora que têm o papel de abordar os familiares, apesar disso estar previsto em lei. Por isso, precisamos levar o assunto para debate público, pois trata-se de uma grande alternativa para zerar a fila. Estrutura e profissionais capacitados nós já temos. O objetivo é seguir o exemplo de Sorocaba, onde não há fila de espera — explica Moreira.
A Santa Casa de Porto Alegre, que mantém um Banco de Córneas, decidiu criar uma equipe formada por assistentes sociais especializados exclusivamente na captação de córneas. Quando ocorre a morte de um possível doador, as profissionais são acionadas pela administração do hospital e entram em contato com a família. Essa medida conseguiu aumentar as doações.
— A equipe não apenas sensibiliza a família para a doação como a acompanha até a liberação do corpo — diz Italo Mundialino Marcon, chefe do Serviço de Oftalmologia da Santa Casa.
Quem está na fila dos transplantes de córnea
— Pacientes com lesões na córnea devido a traumas, úlceras ou doenças degenerativas (como o ceratocone)
Desfazendo mitos
— A retirada da córnea não altera a fisionomia do doador. Somente a córnea é retirada, não o olho todo
— Não importa se o doador tiver problemas como miopia ou astigmatismo
Postado por Larissa Roso