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Luta contra sequelas do ataque de jararacas

28 de agosto de 2010 0

Correio Braziliense
Márcia Neri
O veneno da jararaca, serpente responsável por entre 70% e 90% dos acidentes que envolvem cobras venenosas no Brasil, não é temido somente pelo efeito imediato altamente tóxico provocado ao organismo, dano neutralizado pelo soro antiofídico. A secreção venenosa da Bothrops jararaca ou das variações desse gênero tem ação específica no local da picada, podendo causar uma série de complicações. Pelo menos 10% dos casos evoluem para hemorragia, necrose ou até amputação de membros.
A responsável por essas mazelas é a jararagina, toxina isolada em 1992 e estudada desde então por cientistas do Brasil e do mundo. Foi no Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan, porém, que o mecanismo de ação dessa proteína foi desvendado. A pesquisa de quatro anos realizada como tese de doutorado da bióloga Cristiani Baldo trouxe perspectivas animadoras para o desenvolvimento de medicamentos que atuarão na soroterapia.
O estudo de Cristiani provou que a jararagina é uma das principais responsáveis pelas manifestações locais decorrentes da picada. Hemorragia, edema, inflamação e a possível perda de função do membro são algumas. Segundo a pesquisadora, o soro antibotrópico consegue neutralizar bem os efeitos sistêmicos do veneno — aqueles que causam alterações cardiovasculares, renais e na coagulação sanguínea _, mas não rebate as complicações locais, que se estabelecem rapidamente.
— O veneno da jararaca é composto por uma grande variedade de substâncias tóxicas que agem na pele, principalmente as metaloproteinases, grupo que inclui a jararagina. Já sabíamos que tal proteína era hemorrágica, o que desvendamos foi a maneira como ela age nos vasos e induz a hemorragia — explica.
O trabalho da bióloga, publicado na revista PLoS Neglected Tropical Disease, descreve que a substância tóxica procura os vasos capilares. Ao se concentrar neles, provoca rupturas e induz o sangramento local. Nos experimentos, a toxina recebeu um marcador fluorescente e foi injetada na pele de camundongos.
— Com um microscópio confocal, acompanhamos o caminho que ela percorreu até causar o estrago no tecido. A jararagina destrói os vasos. O oxigênio e os nutrientes carregados pelo sangue não chegam mais à região atingida pela picada — pontua a cientista.
A degradação impulsiona a inflamação, a necrose e todas as complicações que podem culminar com a amputação.
— Trabalho com pesquisa básica, campo que abre portas para futuros estudos. Outros cientistas investigarão os inibidores de jararagina mais adequados para serem ministrados com o soro _ acrescenta.
Saiba mais
— A Organização Mundial da Saúde (OMS) enquadrou o acidente com serpente na lista de doenças tropicais negligenciadas. A própria OMS estima que 5 milhões de pessoas sejam picadas por cobras todos os anos. A metade resulta em envenenamento, o que gera um saldo de 120 mil mortes e 250 mil pessoas com sequelas.
— No Brasil, dados preliminares referentes a 2009 revelam que foram notificados 22.763 mil acidentes — pelo menos 16 mil, com jararacas. Oficialmente, 106 pessoas morreram. Especialistas garantem, no entanto, que o número pode ser muito maior, pois nem todas as vítimas são socorridas em hospitais e muitos casos nem chegam ao conhecimento do Ministério da Saúde.
— O gênero Bothrops compreende cerca de 19 espécies, distribuídas por todo o território nacional. A Bothrops jararaca é encontrada no sul da Bahia, no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. As outras jararacas, cujo veneno tem praticamente as mesmas toxinas, são encontradas em todo o país.
Logo após a picada, geralmente ocorre um pequeno sangramento no local. O inchaço, a vermelhidão, a dor, a dificuldade de coagulação do sangue e a hemorragia dependem de alguns fatores. Socorristas alertam que a idade da serpente, a quantidade de veneno injetado e o período de tempo transcorrido entre o acidente e o atendimento são muito relevantes na questão dos efeitos provocados pela jararagina, assim como o peso do paciente e a região anatômica atingida.

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