
Para boa parte dos gaúchos, a chegada do verão é sinônimo de mais dias ao ar livre, principalmente nos finais de semana. Depois de um inverno rigoroso, marcado por dias cinzentos e frios, praias, piscinas, parques e clubes lotam com quem disputa, literalmente, um lugar ao sol. A ideia pode ser animadora, mas essa é a época de alerta vermelho para um problema intimamente relacionado à exposição às radiações UVA e UVB, responsáveis pelo invejável bronzeado mas também por diversos cânceres de pele. Se formos levar em conta dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), que 66,3% dos brasileiros se expõe ao sol sem nenhuma proteção, estamos diante de um comportamento tão nocivo quanto abusar de gorduras, ser sedentário, fumar ou fazer sexo sem camisinha.
Um dado estatístico coloca o Rio Grande do Sul num patamar preocupante: o câncer de pele não melanoma é o mais incidente em homens na maioria das regiões do país, com um índice estimado de 85 a cada 100 mil habitantes. Na Região Sul, este percentual é de 53 a cada 100 mil pessoas, e nas mulheres, maior ainda: 87 a cada 100 mil. Em Porto Alegre, 13,9% da população é diagnosticada com a doença, número considerado elevado em relação ao restante do Brasil (11,1%).
_ No Rio Grande do Sul, o risco é alto, especialmente porque parte da população tem pele clara, mais suscetível ao sol _ alerta o presidente da SBD-RS, Gustavo Pinto Corrêa.
Em estágio inicial, todos os tipos de câncer, incluindo o mais letal de todos os tumores de pele conhecidos pela medicina _ o melanoma _ tem alto índice de cura. Embora represente 4% dos tipos de câncer de pele, mata em 75% das vezes que se manifesta, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). Todo ano, são registrados cerca de 132 mil casos de melanoma no planeta, além de 2 milhões de outros tipos de câncer de pele. Felizmente, nos últimos anos, houve uma grande melhora na sobrevida dos pacientes com o melanoma, principalmente devido à detecção precoce. Nos países desenvolvidos, a sobrevida média estimada em cinco anos é de 73%, enquanto que, para os países em desenvolvimento, a sobrevida média é de 56%. A média mundial estimada é de 69%. A grande dificuldade é quando é descoberta a doença tardiamente, já que ela tem uma notável facilidade de dar origem a metástases, ou seja, se espalhar para outros órgãos, uma vez que uma célula cancerosa entre em contato com a corrente sanguínea ou linfática.
O outro tipo de câncer de pele, o carcinoma, é bem menos agressivo e raramente fatal. Na forma basocelular, surge em 70% dos casos, tem crescimento lento e raramente se dissemina. Na forma espinocelular ou de células escamosas (cerca de 25% das ocorrências), cresce mais rápido e as lesões maiores podem levar à metástase.
Uma questão cultural
Para descobrir as raízes da expansão da doença, é possível retroceder no tempo. Mais precisamente há 50 anos, quando o bronzeado deixou de ser um estigma social para virar moda. Ser branco como uma folha de papel, durante séculos, era um traço nobre. Segundo o dermatologista David Horne, em entrevista à revista Men's Health, "a pele bronzeada era característica das classes baixas, que faziam o trabalho braçal sob o sol", lembra, citando que apenas mais recentemente é que as pessoas passaram a tomar sol para "melhorar" a aparência.
O grande problema é que, mais cedo ou mais tarde, o corpo vai pedir a conta do excesso de exposição ae sol sem proteção. E não significa que quem tem a pele mais escura está livre de desenvolver a doença.
_ A ideia de que a pessoa bronzeada não pode ter câncer de pele é fantasiosa. Até negros estão sujeitos _ afirma Corrêa.
Para o dermatologista Erasmo Tokarski, as pessoas estão cientes dos danos que o sol pode causar, mas nunca acham que podem ser atingidas.
_ Os efeitos do sol são cumulativos. Uma queimadura hoje pode virar um câncer amanhã. As pessoas que tiveram melanoma são propensas a terem novamente. O protetor solar é indispensável e deve ser aplicado com generosidade de duas em duas horas, e a pele deve receber o produto meia hora antes da exposição solar.
Os cremes protetores, segundo os especialistas, deve ser aplicado todos os dias, mesmo quando está nublado. Segundo a dermatologista Simone Sotto Mayor, diretora de dermocosméticos da Biolab, são frequentes queimaduras quando as nuvens predominam.
_ São muito comuns queimaduras em montanhas e estações de turismo com neve, por exemplo, locais muitas vezes não associados a esses riscos _ afirma Simone.
Simone explica que, quando falamos em Fator de Proteção Solar (FPS), nos referimos à medição da proteção em relação à radiação UVB, que causa como efeito imediato queimaduras e, com o passar dos anos, lesões ligadas ao câncer. Já a radiação UVA é mais ligada ao envelhecimento cutâneo, e também ao surgimento de alguns tipos de cânceres de pele e melasmas.
POR DENTRO DA DOENÇA
Basicamente, existem três tipos de câncer de pele:
Carcinoma basocecular
É o tipo mais comum. Pode aparecer como uma área que parece uma cicatriz, com bordas mal definidas e superfície brilhante. Também pode ser um sinal avermelhado ou uma área que parece sempre irritada, ou uma superfície saliente e rosada, com uma crosta no centro.
Carcinoma espinocelular
É o segundo câncer de pele mais frequente. Pode ser um ferimento aberto que sangra e cria casca, ou uma mancha vermelha escamosa, com borda irregular, que forma casca e sangra.
Melanoma
Tipo mais letal de câncer de pele, sobretudo se não detectado na fase inicial. Pode aparecer como um pequeno caroço, de cor uniforme, simétrico e muitas vezes firme ao toque. Também pode ser uma marca achatada, levemente levantada, com bordas irregulares, ou ter diferentes cores (castanho, preto, vermelho, azul ou branco).
FATORES DE RISCO
Em ordem de importância, são: sensibilidade ao sol (queimadura pelo sol e não bronzeamento), pele clara, exposição excessiva ao sol, história prévia de câncer de pele, história familiar de melanoma, nevo congênito (pinta escura), maturidade (após 15 anos de idade a propensão para este tipo de câncer aumenta), xeroderma pigmentoso (doença congênita que se caracteriza pela intolerância total da pele ao sol, com queimaduras externas, lesões crônicas e tumores múltiplos) e nevo displásico (lesões escuras da pele com alterações celulares pré-cancerosas).
PREVENÇÃO
Como os outros tipos de câncer de pele, o melanoma pode ser prevenido evitando-se a exposição ao sol no horário das 10h às 16h, quando os raios são mais intensos. Mesmo durante o período adequado é necessária a utilização de proteção como chapéu, guarda-sol, óculos escuro e filtros solares com fator de proteção 30 ou mais.
TRATAMENTO
A cirurgia é o tratamento mais indicado. A radioterapia e a quimioterapia também podem ser utilizadas dependendo do estágio do câncer. Quando há metástase, o melanoma é de difícil cura, na maior parte dos casos. A estratégia de tratamento para a doença avançada deve ter então como objetivo aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida do paciente.

Há como me bronzear sem agredir a pele?
O tom da pele e a capacidade de se bronzear dependem da genética de cada um. Quem tem pele morena tem facilidade de deixá-la ainda mais morena. Quem tem pele clara dificilmente se bronzeia, e fica vermelho quando exposto ao sol. Conforme o tom avermelhado melhora, a pele até ganha um bronzeado que logo passa. Em qualquer situação, o bronzeado é uma defesa do nosso corpo contra a agressão dos raios de sol. Para se defender, a pele produz melanina, um pigmento escuro. Assim, a produção de melanina é uma tentativa natural da pele de evitar queimaduras futuras, no caso de a exposição ao sol continuar.
Você só ficará bronzeado naturalmente se sua pele tiver necessidade de se defender continuamente contra o sol. Portanto, não há modo de você se bronzear naturalmente sem agredir sua pele. E lembre-se: essa agressão acelera o envelhecimento da pele, o aparecimento de manchas e rugas, e aumenta a predisposição a câncer de pele. Se mesmo assim você quiser se bronzear, evite horários de sol forte (entre 10h e 16h), período de maior concentração de raios ultravioleta tipo B (UVB), mais associados ao câncer de pele. Além disso, exponha sua pele pouco tempo a cada dia, e evite ficar vermelha.
Os bronzeamentos artificiais _ mesmo que estejam liberados desde o início de 2010 _ são contraindicados pelos dermatologistas, devido à ausência de controle dos efeitos da radiação sobre a pele.
NOVIDADES
– Centros médicos de todo o Brasil começam a usar uma nova terapia contra o câncer de pele. O tratamento é gratuito e a tecnologia foi desenvolvida pela USP de São Carlos. A pomada é passada sobre a pele, que é exposta a radiação ultravioleta. As lesões provocadas pelo câncer são facilmente identificadas pelo equipamento. Se o diagnóstico é positivo, o tumor é tratado, na sequência, com outra luz. A interação do medicamento com a luz vermelha de alta potência provoca uma reação fotoquímica. As células cancerígenas morrem. Na hora, já é possível identificar o resultado da terapia. O procedimento não dura mais que quatro horas.
– Em abril deste ano, a conceituada revista British Journal of Dermatology publicou um estudo científico que promete revolucionar esse cenário. Trata-se de um método para detectar melanoma através de um teste genético. A ferramenta é uma fita adesiva especial, que é colada na lesão suspeita e puxada em seguida. A fita arranca células para serem usadas no teste genético. Os pesquisadores concluíram que esse método _ que evita anestesia, cortes e cicatriz _ tem 100% de sensibilidade para detectar melanoma: todos os casos de melanoma que passarem por esse exame serão detectados. E nesse processo, só uma pequena porcentagem de lesões benignas será confundida com melanoma.
Para saber mais sobre o assunto, entrevistamos Simone Sotto Mayor, diretora de dermocosméticos da Biolab, especialista em proteção solar.
– Quando falamos em câncer de pele, assim como outras doenças, a palavra-chave sempre é prevenção. Sendo assim, o que podemos indicar para cada tipo de pele no dia-a-dia?
A radiação solar é aferida pela intensidade dos raios UVB e UVA. Quando falamos em FPS, nos referimos à medição da proteção em relação a radiação UVB, que causa como efeito imediato queimaduras e, com o passar dos anos, lesões ligadas ao câncer. Já a radiação UVA é mais ligada ao envelhecimento cutâneo e também ao surgimento de alguns tipos cânceres de pele e melasmas. Estudos mais recentes tem abordado em maior profundidade os danos causados pela radiação UVA. Mas de maneira geral obtém-se boa proteção, atenuação dessas consequencias indesejáveis e da ocorrência de doenças mais graves como o câncer, quando se faz uso de fotoprotetores diariamente , e respeitando os intervalos de aplicação em cada situação de exposição.
– É preciso passar protetor mesmo em dias nublados? Por que?
Sim, claro. O protetor solar deve ser usado todos os dias tanto para colaborar na prevenção do câncer e até mesmo do envelhecimento. Porque os raios solares estão presentes também nos dias nublados, tendo a sua luminosidade muitas vezes aumentada pelo espectro de luz. São comuns, por exemplo, queimaduras de sol em dias nublados em montanhas e estações de turismo com neve, locais muitas vezes não associados a esses riscos, muito mais freqüentemente relacionados à ambientes de praia.
– Um fator de proteção 100, como o desenvolvido para a Biolab, pode beneficiar que tipo de paciente? Qual a vantagem dele em relação a outros de fator elevado existentes no mercado?
Com a nanotecnologia, tecnologia utilizada no desenvolvimento do Photoprot, permite-se uma liberação lenta dos ativos e uma agregação melhor dos componentes. Obtivemos fotoestabilidade excelente da formulação, o que garante a eficácia da proteção por mais tempo. Após 4h de exposição à radiação simulada do sol de meio-dia, obtivemos mais de 97% da estabilidade do FPS e da proteção UVA intensa, enquanto a média atingida pelos protetores comuns é de 80%.
– Sobre bronzeamento artificial: qual sua posição sobre este método?
É contra-indicado pelos dermatologistas, devido à ausência de controle dos efeitos da radiação sobre a pele.