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Posts na categoria "Aids"

Novos medicamentos simplificam tratamento contra Aids

27 de novembro de 2012 0

A partir de 2013, o programa de tratamento da Aids contará com dois medicamentos que vão facilitar a vida dos pacientes. São os chamados "2 em 1" (Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg) e o "3 em 1" (Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg + Efavirenz 600 mg).

Desenvolvidas pela Blanver, laboratório farmacêutico 100% brasileiro e com 30 anos de mercado, as drogas vão simplificar o tratamento. A Blanver já fornecia ao Ministério da Saúde o Tenofovir 300 mg desde 2011.

– Vale salientar que estes medicamentos, também chamados de 'doses fixas combinadas', são considerados pela Organização Mundial da Saúde a primeira linha em termos de tratamento da Aids – afirma Sergio Frangioni, presidente da empresa, que afirma ainda que, com a maior facilidade de administração, a tendência é que ocorra um aumento da adesão ao tratamento. Em muitos casos, o paciente tomará apenas um comprimido por dia.

O processo de desenvolvimento dos medicamentos foi bastante complexo e durou aproximadamente dois anos. O registro na Anvisa já está em andamento e a expectativa é que os primeiros lotes comecem a ser entregues no início de 2013.

O lançamento oficial contou com a presença dos ministros Alexandre Padilha (Saúde), Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Marco Antonio Raupp (Ciência e Tecnologia), além de Carlos Augusto Grabois Gadelha (secretário de ciência e tecnologia e insumos estratégicos do Ministério da Saúde), entre outras autoridades.

O projeto foi viabilizado por meio meio da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), ou seja, a Blanver (parceiro privado) desenvolveu os produtos e vai comercializá-los por um prazo a ser definido. No decorrer do contrato será feita a transferência tecnológica para os parceiros públicos, neste caso a Fiocruz/Farmanguinhos (Federal) e a Funed (ligada ao governo de Minas Gerais).

Os medicamentos serão produzidos com componentes 100% nacionais, sendo os excipientes fornecidos pela Blanver e os ativos pela Nortec, Globe e Cristália. A estimativa é que os produtos gerem um faturamento de aproximadamente R$ 100 milhões no primeiro ano.


Cuba enfrenta epidemia de Aids

12 de julho de 2012 0


Yudelsy Garcia O'Connor, 25 anos




Ronald G. Mcneil Jr.

Havana – Yudelsy Garcia O'Connor, o primeiro bebê a ter nascido com AIDS em Cuba, não está apenas viva. Ela é uma jovem vibrante e engraçada que, aos 25 anos, divorciou-se recentemente, mas espera se casar de novo e ter filhos. O pai de Yudelsy morreu de AIDS quando ela tinha 10 anos; a mãe, quando ela tinha 23. Ela mesma quase morreu durante a adolescência.


"Não tenho medo da morte", disse. "Sabia que ela poderia bater na minha porta. Todo mundo morre. Mas tomo meu remédio."

Yudelsy está viva em parte graças a uma boa genética, e em parte à intensidade com que Cuba enfrenta a epidemia de AIDS no país. Sejam quais forem as críticas às duras táticas implementadas pelo governo no início da epidemia – até 1993, todos os soropositivos eram forçados a viver em quarentena – não há dúvida de elas trouxeram resultados positivos.

Cuba tem atualmente uma das menores epidemias do mundo, menos de 14.038 casos. A taxa de infecção no país é de 0,1 por cento, à altura dos índices da Finlândia, Cingapura e Cazaquistão. Isso corresponde a um sexto da taxa registrada nos Estados Unidos e a um vigésimo da registrada no Haiti. A população de Cuba é apenas ligeiramente maior do que a de Nova York. Nas três décadas da epidemia mundial de AIDS, 78.763 nova-iorquinos morreram por causa da doença. Apenas 2.364 cubanos faleceram.

Assistência gratuita para grupos de risco

Outros elementos contribuíram para o sucesso de Cuba: o país oferece assistência básica de saúde universal e gratuita, com testes de HIV realizados rotineiramente e preservativos distribuídos gratuitamente, principalmente para grupos de alto risco, como prostitutas. Os adolescentes do país recebem uma educação sexual bastante contundente e quaisquer pessoas cujos testes dão positivo têm todos seus contatos sexuais rastreados.

Em contraste com isso, a reação dos Estados Unidos ao problema parece mínima – o país registra 50 mil novas infecções por ano. Milhões de pessoas pobres nunca são atendidas por um médico. O teste do HIV é voluntário e muitos pacientes não retornam para buscar seus resultados. A educação sexual é tão politizada que muitas escolas não ensinam nada sobre sexo seguro; os preservativos são caros e a distribuição gratuita é apenas ocasional.

Medidas rigorosas

Cuba obteve êxito mesmo tendo a epidemia geneticamente mais diversa fora da África. Quase todos os casos americanos resultam de um tipo de vírus, o subtipo B. Cuba tem 21 tipos diferentes. A diversidade genética é um legado proveniente da ajuda externa. Desde 1960, Cuba mandou ao exterior milhares de "internacionalistas" – soldados, médicos, professores e engenheiros. Com bases espalhadas por toda a África, eles trouxeram ao país uma grande variedade de subtipos do vírus. De acordo com um estudo realizado em 2002, 11 dos 21 tipos do vírus presentes em Cuba não são conhecidos em outros países, tendo se formado quando dois subtipos se misturaram.

Além disso, o êxito de Cuba foi possível apesar de o país ser um destino visitado por europeus e canadenses para a prática de turismo sexual.  Embora a polícia faça cumprir leis contra fazer ponto abertamente na rua, em bares e lobbies de hotéis de centro de Havana, a cidade está cheia de mulheres jovens conhecidas como jineteras – gíria que significa "lacaias" – que se aproximam dos estrangeiros, perguntam se eles gostariam de tomar uma bebida ou talvez dançar, com o pressuposto tácito de que a aproximação vai render outros frutos. Mesmo assim, das cerca de mil novas infecções diagnosticadas a cada ano, 81 por cento estão entre os homens e muito poucas entre jovens mulheres solteiras.

"A maioria das prostitutas que têm relações sexuais com turistas sabe que devem usar preservativos", disse o Dr. Ribero Wong, especialista em AIDS daqui.

Em uma pesquisa realizada em 2009, 77 por cento de todas as garotas de programa disseram usar preservativos regularmente. É claro que também há "jineteros" disponíveis para turistas gays, "mas acreditamos que a transmissão entre homossexuais acontece principalmente entre a própria população", disse o Dr. Luis Estruch Rancano, vice-ministro de saúde pública. "Principalmente na parte mais promíscua da comunidade homossexual, aquela dos indivíduos que têm muitos parceiros e não tomam precauções."

Um exemplo é Carlos Emilio Garcia, de 50 anos, um enfermeiro que viveu e trabalhou em um hospital de quarentena. Ele foi obrigado a fazer teste de HIV no trabalho de seis em seis meses entre 1990 e 1996, mas seu teste deu positivo em 1997. Ele admite ter muitos parceiros. "Não, eu não sei quem foi meu assassino", afirmou.

Homens cubanos que são secretamente bissexuais normalmente transmitem o vírus para as poucas mulheres cubanas que são infectadas, dizem especialistas. A "transmissão homobissexual" é uma categoria específica de Cuba; socialmente, um homem que tiver relações sexuais com outros homens ocasionalmente não é considerado gay se ele for "ativo" – isto é, se ele for quem penetra o parceiro, explicou Ramon Arango Garcia, estilista e educador do Centro Nacional de Prevenção de AIDS e Doenças Sexualmente Transmissíveis.

O consumo de heroína, que motiva epidemias em muitos países, é praticamente inexistente em Cuba, garantem as autoridades. Além disso, desde 1986, apenas 38 bebês nasceram com o vírus. No sistema de saúde de Cuba, que cuida do cidadão do berço ao túmulo, as mulheres grávidas recebem até 12 consultas pré-natais gratuitas, durante as quais se submetem a testes de HIV pelo menos duas vezes.

Antes da chegada dos medicamentos antiretrovirais, as mulheres infectadas pelo HIV tinham a opção de fazer um aborto. Caso tenham o bebê, precisam fazer cesárea. Para reduzir o risco de transmissão, a amamentação não é recomendada. Hoje elas recebem os medicamentos gratuitamente.

Cobertura universal


Promotores distribuem material educativo e camisinhas




Por pior que seja sua situação econômica, Cuba ainda se orgulha de um legado conquistado por sua revolução de 1959: a assistência básica à saúde é universal e gratuita. Cuba tem 535 mil profissionais atuando na área da saúde ("Somos todos médicos ou jogadores de beisebol", brincou um microbiologista hospitalar) e cada cidadão é oficialmente registrado como paciente de um médico de família que atua nas proximidades de sua residência; se o paciente deixa de ir a um atendimento, o médico deve descobrir por quê.

O Dr. Jorge Pérez Ávila é o Tony Fauci de Cuba, o mais conhecido médico especializado em AIDS do país. Em seu livro "SIDA: Confesiones a un médico" ("AIDS: confissões a um médico"), publicado somente em espanhol, Perez descreveu o encontro que motivou a reação de Cuba à doença.

Em 1983, Fidel Castro visitou o Instituto Pedro Kouri, melhor hospital de doenças tropicais de Cuba, para assistir a uma apresentação sobre a malária e a dengue. Logo que a apresentação terminou, ele perguntou de repente ao diretor: "Gustavo, o que você está fazendo para impedir que a AIDS entre em Cuba?".

Dr. Gustavo Kouri, filho do fundador do instituto, foi pego de surpresa, contou Perez, e balbuciou: "AIDS, comandante? AIDS? É uma doença nova. Nós nem sequer sabemos se ela é produzida por uma bactéria, um vírus ou um fungo. Não há muitos dados sobre ela, apenas o que foi relatado nos Estados Unidos e sobre alguns casos na Europa. Levará algum tempo para conhecermos as proporções da doença".

Castro respondeu: "Eu acho que ela vai ser a epidemia do século. E é de sua responsabilidade, Gustavo, impedir que ela se torne um problema grave aqui".

A comunidade médica reagiu rapidamente. O primeiro passo foi jogar fora todo o sangue importado – 20 mil unidades. Isso evitou a desgraça que os hemofílicos sofreram nos Estados Unidos e na França. O país enviou médicos ao Brasil e à França para que estudassem casos. Todos os médicos de família do país foram obrigados a monitorar as infecções que indicam AIDS, como o sarcoma de Kaposi ou a pneumonia por Pneumocystis carinii. Como ainda não havia nenhum teste de HIV no país, os primeiros casos foram identificados no estágio final da doença, levando os médicos a pensarem que a maioria dos pacientes morreria dentro de um ano – uma suposição errônea que ajudou a justificar a política da quarentena.

Em 1986, com o impedimento de comprar kits de teste norte-americanos por conta do embargo, Cuba comprou 750 mil kits franceses. Segundo a Dra. Maria Isela Lantero, chefe da área de AIDS do Ministério da Saúde, 11 milhões de cidadãos de Cuba se submeteram a testes 43 milhões de vezes; no ano passado, mais de 2 milhões de testes foram feitos. Isso equivale a fazer testes com a população sexualmente ativa a cada três anos, embora, na realidade, o foco esteja em grupos de alto risco, que passam por testes com mais frequência.

Também é possível se submeter voluntariamente a um teste anônimo em 700 clínicas e hospitais. Qualquer pessoa cujo resultado dê positivo é encaminhada para uma consulta com uma enfermeira especializada em epidemiologia, que pede os nomes de todas as pessoas com quem o paciente já dormiu.

Por lei, responder é voluntário.

"Se eles disserem não, nada acontece", disse Perez.

Mas é nítido que existe uma pressão. O paciente que disser não à enfermeira é encaminhado para uma consulta com o médico, depois com uma assistente social e, em seguida, às vezes com um psicólogo. Em seguida, uma equipe de educadores que têm o vírus HIV faz uma visita domiciliar. A Comissão de Defesa da Revolução às vezes também realiza visitas. Há quem diga que esses comitês são defensores da democracia cubana; outros garantem que são espiões domésticos; outros dizem que são apenas intrometidos patrocinados pelo Estado.

Desafio crescente

Com a obrigatoriedade da quarentena abandonada há muito tempo e o vírus propagado principalmente entre homens gays e bissexuais, as novas infecções estão crescendo de forma constante e lenta. Elas agora são aproximadamente mil ao ano "e estamos esperando que esse número se estabilize", disse o Dr. Jose Joanes Fiol, epidemiologista-chefe do Ministério da Saúde.

Os preservativos e a educação sexual são as principais armas hoje. A sociedade cubana é o oposto de uma sociedade puritana: é comum usar pouca roupa, assim como flertar abertamente, divorciar-se e ter casos extraconjugais. O governo distribui mais de 100 milhões de preservativos por ano. Todos os locais que recebem clientes jovens, até mesmo pizzarias, precisam ter camisinhas para distribuição. Apenas cerca de metade dos 11.674 cubanos que vivem com HIV tomam antiretrovirais.

Em teoria, Cuba seria o laboratório ideal para o "teste e trate", novo protocolo segundo o qual os pacientes cujo teste for positivo começam imediatamente a tomar os remédios para que a probabilidade de infectarem outras pessoas seja reduzida em 95 por cento. No entanto, isso exigiria remédios modernos e Cuba só produz os mais antigos e fortes. Apenas cerca de 1,1 mil pacientes recebem medicamentos novos, pagos por doadores estrangeiros.

"Sabemos do 'teste e trate'", disse Perez. "Gostaríamos de utilizá-lo, se pudéssemos. Mas precisamos de verba para isso."

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.


Esperança para a vacina contra o HIV

03 de janeiro de 2011 0

LARISSA ROSO *

Aproxima-se uma data redonda que dá a dimensão de um dos maiores desafios da ciência deste século: em 2011, completam-se três décadas desde o registro do primeiro caso de infecção por HIV, o vírus causador da aids. Apenas no Brasil, são 35 mil pessoas contaminadas a cada ano.
Empolgados com descobertas recentes, pesquisadores ao redor do mundo acreditam estar mais perto de um método preventivo capaz de conter a epidemia. A pesquisa de resultados mais instigantes foi conduzida na Tailândia. Dados revelados em 2009 sobre a vacina comprovaram uma eficácia superior a 30% entre grupos de risco do país asiático. Número longe de significar um produto pronto para ser lançado comercialmente, em escala global, capaz de deter a propagação assustadora da doença, mas que representa um avanço inédito.
O estudo RV-144 nos mostrou que é possível prevenir a infecção, mesmo que o primeiro passo tenha sido modesto. É fundamental observar que mesmo uma vacina parcialmente eficaz pode ser impactante. Em um país com altos índices de contaminação por HIV, por exemplo, uma vacina com 50% de eficácia, combinada com diagnóstico precoce, tratamento e campanhas públicas de conscientização, pode virar o jogo. Por outro lado, nos Estados Unidos, uma vacina com 50% de eficácia pode ter utilidade bastante limitada — exemplifica o pesquisador norte-americano Jerome Kim, coronel do Exército dos Estados Unidos, que participou do experimento tailandês e esteve presente à reunião da Iniciativa Global pela Vacina contra o HIV, realizada em outubro, em Atlanta, capital do Estado da Geórgia, no sul dos Estados Unidos.
Para Mitchell Warren, também participante do evento, vive-se agora um momento profícuo no campo da investigação de terapias para combater a enfermidade com a qual, de acordo com a Unaids — braço da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicado ao estudo e à contenção do HIV —, vivem cerca de 33,4 milhões de pessoas no mundo.
Os últimos 14 meses foram os mais proveitosos de todos os tempos na busca de novas técnicas de prevenção — avalia Warren.

* Larissa Roso viajou a Atlanta (EUA) como bolsista da National Press Foundation, sediada em Washington-DC

ENTREVISTA
Mitchell Warren, americano de 44 anos formado em Inglês e História que cursou também Políticas de Saúde na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, é diretor-executivo da Global Advocacy for HIV Prevention (Avac), organização sem fins lucrativos que promove a conscientização e a mobilização de populações quanto à prevenção da infecção pelo vírus HIV. A instituição traduz complexos conceitos científicos para comunidades e, simultaneamente, mostra aos cientistas quais são as necessidades de cada grupo. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Zero Hora — Quais foram as descobertas recentes mais importantes sobre HIV, aids e prevenção?
Mitchell Warren —
Os últimos 14 meses foram os mais proveitosos de todos os tempos na busca de novas técnicas de prevenção. Vimos resultados positivos em um estudo para a vacina, uma pesquisa sobre um microbicida (gel para aplicação nos genitais antes da relação sexual) e uma investigação sobre terapia preventiva com antirretrovirais (administração de medicamentos para diminuir o risco de infecção). Ainda que cada um desses estudos levante muitas questões que precisamos responder com urgência, começamos 2011 muito mais perto de obter um método de prevenção baseado em antirretrovirais e acelerando a busca por uma vacina efetiva contra a doença.

ZH — A vacina contra a aids é o grande desafio científico deste século? Que outras descobertas, essenciais para um futuro próximo, você destacaria?
Warren —
Não há dúvida de que a vacina da aids é um dos nossos maiores desafios — e será uma de nossas descobertas mais fantásticas. Vacinas para grande parte das doenças foram difíceis de se obter, e o processo de desenvolvimento levou muito tempo. Em muitos aspectos, o HIV não é diferente da malária, da tuberculose e de outras enfermidades para as quais ainda procuramos vacinas. Fatos recentes — como o estudo tailandês — nos permitem acreditar que estamos no caminho certo para desenvolver uma dose altamente eficaz.

ZH — O estudo tailandês, divulgado em 2009, foi a primeira evidência de que o desenvolvimento de uma vacina segura é possível. Quais são as perspectivas a partir desse ponto?
Warren —
Novas pesquisas expandindo o conceito testado na Tailândia estão sendo conduzidas, e esperamos que nos deem mais respostas sobre como a estratégia deve funcionar. Mas não podemos concentrar todos os esforços em uma única ideia, e por isso cientistas estão tocando também outros projetos de vacinas, atualmente em fases de testes em humanos e também em laboratório. Ao mesmo tempo, terapias preventivas com antirretrovirais e microbicidas também representam grandes esperanças. Deve-se manter a pesquisa nesses produtos, que se mostraram parcialmente eficazes, e também em novas drogas e técnicas de contenção do contágio. Basicamente, o que precisamos é de uma combinação entre métodos novos e já existentes para evitar a contaminação de quem está em grupos de risco e para tratar quem é HIV positivo.

ZH — Há milhares de cientistas dedicando suas vidas à pesquisa de uma vacina. Você acredita que é possível descobrir uma totalmente eficaz? Quando? Daqui a 10, 15, 20 anos?
Warren —
A vacina testada no estudo tailandês mostrou cerca de 30% de eficácia. É uma descoberta importante e estimulante, mas é claro que queremos ir além. Esperamos encontrar uma vacina com eficácia superior a 60% — como a maior parte das vacinas hoje em dia —, mas a realidade é que até mesmo uma vacina com poder menor poderia representar uma valiosa ajuda se usada como parte de uma estratégia inteligente de prevenção. É sempre tentador especular sobre quando deveremos ter uma vacina de impacto na saúde pública, mas, se é que aprendemos algo nos 30 anos que já dura essa epidemia, é que não podemos dizer com nenhuma certeza quando isso ocorrerá. Mas sou otimista: acho que poderei testemunhar o surgimento de uma vacina para as populações que mais precisam dela, e tenho esperança de que isso aconteça antes do que se imagina.

ZH — Por que ainda não se chegou lá? Quais são os maiores obstáculos?
Warren —
É difícil se proteger contra vírus, e o HIV é particularmente traiçoeiro. Mas pesquisadores estão desvendando os seus segredos.

ZH — Se uma vacina for descoberta, será suficiente para erradicar as infecções pelo HIV?
Warren —
Uma vacina — parcial ou altamente eficaz — terá um papel importante para acabar com a epidemia, mas precisamos de uma abordagem combinada para dar fim à doença. Isso significa ter uma variedade de opções preventivas _ camisinhas masculinas e femininas, mudanças de comportamento, circuncisão, terapias preventivas com antirretrovirais, microbicidas e a vacina. Também precisamos garantir que todos os pacientes HIV positivos tenham acesso a tratamento.

ZH
Há dinheiro suficiente disponível para pesquisas?
Warren
— Aumentaram muito os recursos para estudos ao longo da última década, mas começamos a ver uma queda de dois anos para cá devido ao impacto provocado pela crise econômica no setor de saúde em geral. Mais recentemente, houve um declínio significativo no repasse de recursos para pesquisas sobre tratamento. São sinais preocupantes. A resposta à epidemia tem sido uma das histórias de maior sucesso de nosso tempo, e o mundo tem o dever de assegurar que continue assim, com total custeio dos tratamentos já existentes, programas de prevenção e pesquisa de novos tratamentos e para a cura.

ZH — Em dezembro, foi divulgada a notícia de um alemão que teria sido curado. Qual é a sua opinião sobre os resultados desse estudo?
Warren —
As informações sobre o homem HIV positivo com leucemia que recebeu um transplante de células-tronco em 2007 despertou grande interesse. Usando células-tronco resistentes à infecção pelo HIV, os médicos de Berlim acreditam terem encontrado a cura. Se, de fato, foi o que ocorreu, a pesquisa aponta para possíveis caminhos para a cura do HIV por meio da engenharia genética de células-tronco. Trata-se de uma descoberta importante e animadora, mas exigirá um esforço enorme para entender como aplicá-la mais amplamente. Não está claro se esse resultado pode ser atingido outras vezes, mas, como muitas "primeiras vezes" importantes na ciência, pode abrir novas áreas para estudos adicionais relevantes.

Saiba como será o futuro da saúde

23 de dezembro de 2010 0

O futuro da saúde será abordado no próximo Vida,  quando o caderno completa mil edições, e estará encartado na edição conjunta de Ano-Novo que circulará no d ia 31 de dezembro, sexta-feira. Para celebrar a data, um debate entre os médicos e pesquisadores foi incitado sobre temas polêmicos, como genética e células tronco.

As revoluções na prevenção e no tratamento de doenças dentro de alguns anos ou décadas se torna cada vez mais necessárias. Um dos motivos é que até 2025 o país deverá ter em torno de 35 milhões de pessoas com mais de 60 anos — quase o dobro do que é hoje. E, 25 anos mais tarde, espera-se que a expectativa de vida passe dos 80 anos, mas será cada vez mais comum as pessoas chegarem aos 120 anos.

Os textos serão distribuídos em quatro páginas, tendo a longevidade como fio condutor para discutir questões como: O câncer deixará de ser imbatível? Que tipos de vacinas teremos no futuro e de que maneira serão fabricados os próximos medicamentos? A terapia celular pode ser uma solução, inclusive, para doenças do Sistema Nervoso Central (SNC), como a esquizofrenia?

Em vez de buscar uma substância milagrosa, capaz de derrotar todo tipo de neoplasia, por exemplo, nos últimos 10 anos os cientistas se empenharam em estudar como cada tipo de tumor se comporta: investigar seu DNA, como se origina e se esconde do sistema imune dos pacientes, de que maneira se espalha pelo corpo. Essa pesquisa vem apontando pontos frágeis capazes de serem explorados por uma nova classe de medicamentos.

— Quanto mais entendemos como os tumores se formam e se comportam, mais eficazes são os novos remédios que produzimos — afirma o diretor do Serviço de Oncologia e professor da Faculdade de Medicina da PUCRS, Bernardo Garicochea.

Conte como essas reportagens ajudaram você a superar
alguma doença ou lhe impulsionaram a buscar soluções
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A primeira edição

O Vida 1 foi publicado no dia 13 de outubro de 1991 e tinha como um dos temas principais as expectativas para a genética. Naquela época, os cientistas diziam que era apenas uma questão de tempo até que fosse possível sintetizar organismos vivos em laboratório, através do arranjo de várias moléculas de DNA. Quase 20 anos depois da afirmativa, a coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Imunodiagnóstico da Faculdade de Farmácia, Virgínia Minghelli Schmitt, explica que as pesquisas enveredaram para outro lado e que os avanços no conhecimento da genética potencializaram a terapia com células-tronco, por exemplo.

HIV pode causar demência em jovens

04 de dezembro de 2010 0

O vírus HIV, causador da aids, pode também provocar e ou contribuir para o comprometimento cognitivo de seus portadores, segundo alertam especialistas da Academia Brasileira de Neurologia. Num universo de 630 mil soropositivos brasileiros, de acordo com estimativas do Ministério da Saúde, cerca de 252 mil indivíduos (40%) podem apresentar algum sintoma desse quadro demencial, sendo mais prevalente o complexo cognitivo motor leve. Caracterizada por dificuldades de concentração, na memória de curta duração e lentidão do pensamento, entre outros sintomas, a demência associada ao HIV acomete, na maior parte dos casos, jovens. Das 48.141 notificações de HIV registradas em 2008 e 2009 (até 30 de junho), aproximadamente 73% se referem a pessoas de 25 a 49 anos.
Membro do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da ABN, a neurologista Jerusa Smid explica que a demência associada ao HIV se dá por meio da infecção do sistema nervoso central (SNC) e do cérebro pelo vírus.
O HIV infecta as células de defesa, monócitos e outras células CD4, e é transportado ao SNC, onde se replica e pode infectar outras células. As células infectadas apresentam resposta inflamatória com substâncias neurotóxicas que provocam a morte de neurônios.
Outra forma de ação indireta do vírus ocorre por meio de causas secundárias, as chamadas doenças oportunistas — desenvolvem-se em decorrência da baixa imunidade. Dentre elas, figuram a neurocriptococose e a neurotoxoplasmose.
Jerusa aponta que o diagnóstico desse tipo de demência é, sobretudo, clínico. Exames de ressonância magnética do encéfalo (ou tomografia computadorizada) e de análise do liquor, entretanto, são fundamentais para a exclusão de causas secundárias de comprometimento do SNC. Afora os sintomas anteriormente mencionados, os pacientes comumente se queixam de apatia e de prejuízo do desempenho motor. Em casos mais avançados, surgem dificuldades para andar e de linguagem, além de comprometimento da memória.
O tratamento da demência associada ao HIV se dá por meio da terapia antirretroviral de alta eficácia, com escolhas de medicações que tenham boa penetração no SNC. Consequentemente, haverá melhora do sistema imunológico do paciente. Entretanto, a doença tem seu processo de evolução apenas interrompido, não revertido. Se tratada inicialmente, pode haver melhora do declínio cognitivo.

O Amor em Tempos de Aids

24 de novembro de 2010 0

Para marcar o Dia Mundial da Luta contra a Aids, o canal a cabo Discovery Home & Health exibe no próximo domingo, às 23h, o documentário O Amor em Tempos de Aids (Love in a Time of HIV). Jovens revelam como contraíram o HIV e de que forma lidam com a doença, destacando o impacto provocado em seus relacionamentos.

O casal Andrew e Michelle (foto) — ele é portador do vírus, ela não — dá seu depoimento. O documentário pretende alertar para comportamentos de risco da nova geração como fazer sexo com múltiplos parceiros.

Autoridades americanas veem avanços significativos em vacina contra a aids

15 de julho de 2010 0

Depois de décadas de esforços para criar uma vacina contra a aids, as autoridades de saúde americanas começam a ver "avanços significativos" neste sentido, declarou Anthony Fauci, diretor do Instituto de Doenças Infecciosas.
— Até poucos anos atrás, apesar de termos buscado uma vacina por duas décadas sem êxito, não tínhamos nem a mínima ideia se estávamos na direção certa — disse Fauci.
Mas dois avanços científicos de grande importância ocorridos nos últimos anos geraram "um avanço significativo no desenvolvimento da vacina", considerou o diretor do Instituto Nacional para Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID). O primeiro desses avanços significativos foi o teste clínico realizado no ano passado na Tailândia com um grupo de 16 mil pessoas.
— Os resultados mostraram um pequeno e modesto efeito positivo, que não foi bom o suficiente para distribuir uma vacina, mas bom o suficiente para considerá-lo um avanço conceitual que, pelo menos, nos fez pensar que a vacina é possível — explicou Fauci.
O segundo avanço foi registrado na semana passada quando cientistas do NIAID publicaram um artigo na revista Science sobre pesquisas que contribuíram para identificar anticorpos em um indivíduo infectado pelo vírus da aids que foram utilizados para bloquear a doença.
— Isto mostra que é possível identificar uma parte do vírus que pode ser utilizada como vacina, porque sabemos que, quando os anticorpos entram em contato com essa parte, destroem o vírus — disse.
A próxima etapa consistirá em tentar injetar essa parte do vírus em um indivíduo para produzir uma resposta imunológica contra a infecção, acrescentou Fauci.
O mais provável é que a vacina leve vários anos para estar pronta, o que significa que a luta contra a doença terá de permanecer centrada em políticas de prevenção como a distribuição de preservativos e os tratamentos para bloquear a transmissão entre a mãe e o feto, considerou Fauci.

Para portadores de HIV, o desafio é viver melhor

31 de dezembro de 2009 0

O aumento da expectativa de vida do Brasileiro, que segundo o IBGE atingiu 73 anos de idade, é uma conquista a ser comemorada. Porém, viver bastante nem sempre traz apenas boas notícias. Em muitos casos, pode ser sinônimo de grandes desafios para a saúde. Um exemplo que expõe com clareza as duas faces do aumento na expectativa de vida é o dos portadores de HIV. Até metade da década de 1990, quem contraísse o vírus conseguia permanecer vivo por cerca de 10 anos. Mas com a chegada dos medicamentos antivirais houve uma reviravolta nessa história. Os remédios conseguem combater a proliferação do HIV, a pessoa é menos agredida pelo micro-organismo e consegue viver por mais tempo, tendo uma expectativa similar alguém não portador do vírus.
No entanto, a permanência do HIV por décadas no organismo começou a mostrar uma face até pouco tempo desconhecida. A primeira notícia negativa veio justamente dos antivirais. Entre os efeitos colaterais dessas drogas, estão o aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos. Quando os índices estão altos, o paciente está mais propenso a desenvolver algum problema cardíaco. Também pode causar deficiência no funcionamento dos rins, problema que leva a necessidade de hemodiálise.
Outro fato negativo é o aumento na incidência de câncer. Segundo o infectologista Luciano Goldani, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, era comum, entre os portadores, apenas o surgimento de tumores como linfomas e sarcoma de Kaposi (um tipo de câncer que pode causar lesões na pele). Agora, nota-se o aumento de outros tipos, como o de pele e de pulmão e em quantidade maior se comparados ao grupo não infectado.
_ Quem vive com aids hoje vive bem melhor do que há 15 anos. Mas precisamos deixar claro que a doença ainda é muito agressiva e não se pode colocar todas as esperanças nos medicamentos. A prevenção continua sendo a principal arma no combate à aids _ ressalta Goldani.
Vacina
A maior esperança para os portadores está no desenvolvimento da vacina terapêutica. A ideia é criar doses capazes de aumentar a força do sistema imunológico do portador. Assim, o paciente estará mais preparado para resistir à ação do vírus. Se a ciência conseguir realmente desenvolver essa vacina, haverá muitas vantagens. A principal é evitar os efeitos colaterais do coquetel anti-HIV, que prejudicam a qualidade de vida do paciente.