
Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM
Nossa conversa foi cordial. Sincera e direta. Sem rodeios.
Logo de início, Celso Roth saiu falando o seguinte...
Eu não me incomodo de responder nada. Eu não tenho problema nenhum de responder a perguntas boas ou perguntas ruins pra mim. Direta e pessoalmente pra mim. As pessoas, às vezes, são absolutamente ofensivas. Nem assim eu tenho problema de responder. Porque, a partir do momento que tu tens noção do meio em que tu vive. Do meio em que tu estás. Que tu tens noção do que chega para as pessoas - e que tu sabes que não é tudo - o profissional tem obrigação de ter equilíbrio e responder uma coisa razoável para as pessoas puderem entender. Se tu for, na pergunta ofensiva, responder ofensivamente, não vai ajudar em nada.
- Quem faz uma pergunta ofensiva, não deseja te ofender?
Tu tem q ter noção pq está acontecendo isso. Pq ele forma o paradigma dele a partir do que ele ouve.
- Mas é possível mudar a opinião de alguém que se coloca assim?
Não sei. De repente eu posso, pelo menos, fazê-lo pensar.
- Quando vc chegou, o rótulo de um treinador que se dá muito bem na largada mas que depois começa a enfrentar dificuldades. Será que hoje nós chegamos nessas dificuldades? O que vc acha desse rótulo?
É uma bobagem dizer isso da minha carreira. Só diz isso quem não a acompanha. É uma necessidade de quem precisa rotular os profissionais. Antes, eu era o retranqueiro. De retranqueiro passei a ser o treinador que não ganhava títulos. Depois disso passei a ser o treinador "de largada" - que fica pouco tempo. A mídia - a opinião pública - gosta de rotular os profissionais. Eu tenho tido a perspicácia de, até agora, ir passando por eles (os rótulos). Quem fala essas coisas, não conhece meu histórico. Eu tenho uma metodologia de relação com a mídia onde nunca destratei ninguém - pessoal ou profissionalmente. Sempre mantive o nível e o equilíbrio, e as pessoas não gostam disso. Elas querem outro tipo de resposta. Elas querem a volta.
No caso do Internacional, ele já deveria ter começado o processo de mudança - até de alguns jogadores - antes da minha chegada. O Internacional demorou. Ele foi campeão da américa, depois do mundo e teve algumas mudanças... Não só de comissão técnica, estou falando basicamente de jogadores. O Internacional fez as mudanças para se manter economicamente, mas não fez as necessárias para continuar no mesmo nível técnico ou mesmo melhorá-lo. Quando fui contratado pelo Internacional, ele já estava numa semi-final de Libertadores e ninguém sabe como chegou lá. A certeza que se tinha era que do jeito que estava não se conseguiria ganhar. Então veja o histórico: o Internacional não mudou porque estava tudo bem! Mudou porque estava mal e então conseguiu ganhar.
- Ainda sobre a continuidade no cargo. No futebol inglês os treinadores ficam anos no cargo. No Brasil não existe nem a exceção...
A Inglaterra ainda é um mercado que acredita em metodologia e filosofia de um clube e de seu treinador - que são conceitos complicados e muitos não entendem. O Internacional, por exemplo, não pode contratar um treinador que não esteja inteirado do que é o Internacional. Como ele foi criado. Quais são as raízes do clube e do estado! Um time de futebol representa uma sociedade. Uma comunidade. Então, não se pode contratar treinadores alheios a isso. O futebol é uma extensão da sociedade.
- Mas quando um clube chama um treinador, ele quer títulos. O clube não coloca ou esclarece como ele fará isso.
Não interessa o COMO. Esse é o X da questão. Na sociedade capitalista em que vivemos não interessa o meio, apenas o fim. No caso do Internacional, ninguém perguntou o que foi feito para conquistar a Libertadores de 2006 e nem o Mundial. O que interessou foi o título. Isso não deixa de ter suas razões. Mas como se chegou nisso - o que vem junto - ninguém quer saber. Infelizmente é assim que se faz o futebol. E assim também é a avaliação dos profissionais. O trabalho no futebol não está relacionado diretamente ao ganho. Tu pode trabalhar pra caramba e não levar o título. E o contrário também é verdadeiro.
- Mesmo se trabalhando muito não existe a garantia de sucesso?
Isso é uma verdade! O trabalho, que é o fundamento da coisa, não garante título. Às vezes tu fazes tudo certinho e não leva. Podes fazer um trabalho fantástico. Magnífico! E mesmo assim não leva. Daí as pessoas desconsideram isso, sem mais nem menos. Os dirigentes não tem como avaliar. Quando falo em amadorismo não estou falando no sentido pejorativo e sim no técnico. O cara que é profissional de algo, ele ganha a vida daquilo. Quando digo que os dirigentes são amadores no futebol é porque eles não ganham o seu sustento nele. Não me entendam pelo outro lado, do amador no sentido de não saber lidar com a coisa. Mas, por não viverem daquilo, eles não tem como avaliar o que acontece no dia-a-dia. São profissionais bem sucedidos nos seus ramos de trabalho. Eles tem seus afazeres e precisam se dedicar ao que realmente lhes sustenta. Por isso fica difícil para eles avaliar o trabalho no dia-a-dia. Se avalia apenas a conquista ou não do título.
- Então, em função disso, a avaliação dos dirigentes pode ser resultado do senso comum? A imprensa se manifesta. A torcida se manifesta e isso no fim reverbera no dirigente?
Diretamente! É importante que tudo seja um processo harmônico. Até é possível levar o trabalho sem a harmonia perfeita, mas não hora da decisão ela é extremamente necessária para que não aconteça o imponderável do futebol. O dirigente pode acabar cedendo ao clamor popular. Tanto no caso da demissão como na admissão. "Vocês pediram!" E aí tira um pouco do peso de seus ombros.
- E como o treinador se comporta nessa lógica?
O treinador é a ponta mais fraca no atual futebol brasileiro. Já era antes, mas agora ficou pior com a mudança da lei do passe, onde o jogador tem uma liberdade maior. Acho que essa lei ainda tem que ser aperfeiçoada, tem que melhorar. Os jogadores passaram a ser fortalecidos e junto com eles os seus empresários. Com isso aumentou muito a pressão sobre os treinadores. É o tal do senso comum. A pressão pra escalar.
- Esse senso comum está dizendo que está errado o Internacional jogar com um atacante apenas?
O Internacional está jogando com apenas um atacante de ofício. Desde que chegamos no clube, vendo as características do jogadores - somei essas características - eu vi que precisava de jogadores de qualidade juntos. Normalmente quando se faz isso, se tem um retorno mais rápido. Então montamos um esquema diferente do que vinha sendo utilizado. Fizemos uma linha de 4, 2 volantes, uma linha de 3 pra aproveitar as características e colocamos um atacante. Funcionou muito bem. Daí nós tivemos duas perdas: um volante e também a nossa opção de velocidade num dos lados. Sandro e Taison. E aí nós não conseguimos mais achar nosso equilíbrio. Fomos para o mundial com o Rafael tentando cumprir essa função - que eu acredito que ele tem até mais qualidade para fazer essa função do que tinha o Taison, pois conclui mais - mas infelizmente ele ainda não atingiu seu equilíbrio físico e clínico. A mesma situação aconteceu com o Matias. Ela não conseguiu se firmar por sua própria característica. Ele teve que se readaptar, pois o Sandro era um primeiro volante e o Matias, no México, era um segundo. Mas olha só, hoje eu estava vendo a escalação do Nápoli, da Roma, Manchester United... Todos eles com 4-2-3-1... Por isso pararam de me chamar de retranqueiro, pois hoje 3 volantes é absolutamente normal. Não fui eu que inventei isso! O Luís Felipe foi campeão com um 5-3-2! Roberto Carlos e Cafú jogavam fechadinhos pelos lados e saíam alternadamente. As pessoas não enxergam isso e não falam. Vou dizer de outra forma: a mídia não enxerga e não fala. A Santa Ignorância não deixa falar. Felizmente, , por ironia, pois se enxergassem tudo que se passa no jogo não nos valorizariam tanto.
Mas voltando ao Inter... Estamos trabalhando também um outro esquema diferente, com dois atacantes, mas deveremos estrear na Libertadores com um atacante e com jogadores com possibilidade de chegar. Estou apostando muito no Zé Roberto - por isso eu o trouxe - porque tem qualidade e velocidade e nos dá a profundidade. Ele se soma muito bem ao atacante.
Mas também estamos treinando esse 4-4-2 simples. 4 na linha de defesa. 4 no meio. Tanto na linha de 4, como no 4-2-2-2. Dois volantes, dois meias e dois atacantes. Poderei usar isso contra o Emelec. Com a vinda do Cavenaghi há uma opção dele jogar como segundo atacante tendo o Damião como primeiro. Ou mesmo o Alecsandro - apesar do momento dele para o torcedor - e ainda o menino Alex. Ele ainda é imaturo. Tem 20 anos, tem velocidade e um bom perfil físico. Ele está amadurecendo e aprendendo. Está inscrito na Libertadores! E ainda disseram que eu não gostava dele... Tirei do B, coloquei no A e ainda inscrevi na Libertadores! E ainda dizem que não gosto de jogador novo! Nem vou falar do Ronaldinho, que é local - pra não criar polêmica. Vou falar do Robinho, do Diego... O próprio Oscar, quando o Fernando Carvalho me perguntou, eu disse: contrata já! Eu volto a te dizer: quem conhece o meio, tem tolerância com a mídia e a opinião pública.
- E em relação ao grupo? Como é a sua metodologia?
Justa! Justíssima! Minha metodologia é o trabalho e o dia-a-dia. Colocar regras e cumpri-las. Fazer escolhas dentro do que se apresenta no dia-a-dia. Ser justo para com o trabalho, no treinamento e no jogo, não dando privilégios a nenhum. Tentando tratá-los todos iguais e, principalmente, com treinamentos onde eles aprendam alguma coisa. Isso é básico!
Liderança está junto com comando. Isso não se impõe, se conquista. Liderança não é determinar ordens. É fazer as escolhas certas no dia-a-dia. Isso cria respeito, hierarquia e consequentemente a liderança. Se algum deles me convida para aniversário, casamento ou festa... eu me sinto honrado. Isso não significa uma intimidade que influencie no dia-a-dia. As minhas decisões são claras e na frente de todo mundo. Se tiver dúvidas sobre minhas decisões, a porta de minha sala está sempre aberta. Vamos conversar! Isso é metodologia. Sempre digo: o que é combinado não é caro.
AMANHÃ CONTINUA......
- Tu não acha que algumas declarações tuas sobre os jogadores jovens podem ter um efeito desmotivador sobre eles?
ROTH RESPONDE - PARTE 2
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