Aqui a primeira parte do bate-papo que o Blog Gigante teve com o treinador do Inter, Dorival Júnior.
Em cerca de uma hora (!) coloquei as questões que nossos leitores enviaram. Claro que não todas!!! Selecionei as questões que mais apareceram. Basta ver nos comentários do post "Pergunte ao Dorival"... Falamos de sua chegada ao Inter, das partidas contra o Santos, punições, Dagoberto, Jô e muito mais. O mais positivo de tudo foi poder aprofundar questões que afligiam a torcida colorada. A salientar e agradecer, a boa vontade de Dorival em se reportar à torcida através do Blog Gigante. Agradecimentos especiais ao Cuca Lima que fez o meio-campo para que esse contato único entre torcida e treinador fosse possível.
Primeira parte hoje! Santos, respeito e a verdade sobre as punições.
Blog Gigante: Quando você chegou ao Inter já encontrou um formado, com um perfil característico...
Dorival: Aliás, foi o primeiro grupo formado que eu peguei nas mãos. Todos os outros eu tive que trabalhar e refazer.
Justamente. Você chegou e encontrou esse grupo tão qualificado. Existia, então, a necessidade de adaptação desse grupo com o estilo do treinador. Na sua percepção, quais as necessidades de complementação desse grupo para que ele se encaixasse no seu estilo?
Sempre tive por objetivo um time que atacasse. Sempre foi uma característica minha. Mesmo com equipes menores sempre brigamos por artilharia. Quando cheguei no Inter eu vi que esse processo já estava bem adiantado. Não adianta eu chegar dizendo que implementei isso e aquilo. Mentira. Eu apenas dei a seqüência ao trabalho que vinha sendo desenvolvido nesse sentido. Já era uma equipe estabilizada, que tinha uma estrutura. Lógico que uma ou outra alteração acabou acontecendo. Mas basicamente eu já tinha uma equipe composta. Tínhamos alguns problemas, como o desgaste do Oscar voltando da seleção.
E voltou cansado...
Extamente. Não conseguia manter uma regularidade dentro de uma partida. No período de seleção o jogador fica destreinado. Fica apenas voltado para a competição, que são jogos sempre importantes e decisivos e ele acaba perdendo a treinabilidade. Isso comprometeu sobremaneira. Tinham outros voltando de lesões... Mesmo assim. Quando o time se encontrou foi no momento que trouxemos o Tinga como volante. Quando fixamos nessa posição o time deu uma arrancada. Se tivéssemos conseguido isso antes ou mantido em umas 5 ou 6 partidas, teríamos brigado por melhores posições.
Principalmente quando da perda do Damião... Até o time encontrar a maneira de jogar sem ele, perdemos muito tempo.
Sim. Ele vinham sempre fazendo participações importantes nas partidas. Vinha sendo fundamental! Marcando gols. A bola vinha procurando o Damião. Mas é assim...
Tua característica ofensiva foi saudada pela torcida quando você chegou. Até pelo histórico recente do time. Daí quando tivemos esse ano uma partida traumática para a torcida - e para o time - que foi contra o Santos na Vila, você disse que havia aberto mão dessa convicção. Disse que se arrependeu de ter feito isso. Por que?
Isso é verdade. Eu me arrependo pelo seguinte: primeiro nós tivemos um problema. Em todos os clubes que estive eu primei por regras. Regras que devriam ser cumpridas. Isso independe da qualificação dos atletas. Independe do momento ou se são titulares ou reservas. Eu trabalho com um grupo, então é fundamental que se respeite o que é determinado. Se houver a necessidade de punição, ela tem que acontecer. Independente de quem seja. Eu sempre procurei ser muito justo com tudo isso por que eu sei que o grupo vai te cobrar em algum momento. Eles serão os primeiros a cobrar que as punições sejam aplicadas de forma igual para todos. A disciplina faz parte de qualquer tipo de trabalho. Nosso país sofre com um problema social em virtude da falta de disciplina e de um tratamento igual para todos. A impunidade é um grande problema.
Esse problema disciplinar teve impacto antes da partida.
Sim. Na definição da equipe. Eu tinha dois jogadores que estavam voltando naquela partida depois de 40 e poucos dias afastados, que eram Nei e Guiñazú. Optamos pela volta dos dois mesmo que não tivéssemos tido o tempo ideal de trabalho de recuperação por que sabíamos que - mesmo sendo a segunda partida da competição - ela seria decisiva pra desenhar a classificação. Eu vinha tendo problemas no meio-campo a partir da saída do Guiñazú e do próprio D'alessandro que vinha sentindo uma lesão. Etávamos alternando muito por ali ao longo das partidas. Como aconteceu a questão disciplinar e eu respeitei tudo o que foi determinado - diga-se de passagem, não apenas por mim, mas em conjunto com a diretoria. Chegamos a decisão que a punição deveria ser cumprida. As regras estavam estabelecidas e assim deveria ser. Apenas isso. E elas continuaram sendo cumpridas. Foi tomada uma posição contra o Tinga e o Dagoberto.
Para entendermos a questão da montagem da equipe... Essa posição foi tomada na véspera?
Não. Essa regra já existia dentro do nosso elenco e inclusive três jogadores já haviam sido punidos da mesma forma. Só que não saiu de dentro do nosso meio. Não chegou a vazar. Nós aplicamos a mesma punição. Então como agora tomaríamos outra posição? A gente evita que certas coisas saiam daqui de dentro tomem uma proporção desnecessária ou gerem um grande desgaste. Cria-se fatos que superam aquilo que é básico do futebol. Ou seja, o dia-a-dia, a preparação da equipe, os trabalhos de campo. Então quando acontece um fato como esse você acaba tendo um problema e para que você minimize esse problema, de repente, você não coloca ele pra mídia. São fatos que são gerados aqui dentro e resolvidos aqui dentro e que às vezes não tem necessidade. Como todos nós chegamos a essa conclusão nós tínhamos que tomar a posição. A partir daí, como estávamos com dois jogadores voltando e aquela instabilidade natural de uma equipe que - naquele momento, pela perda desses dois jogadores - gerando essa instabilidade na equipe nós pensamos o seguinte: vamos tentar uma equipe um pouco mais fechada. Até porque o próprio Dátolo estava apenas começando a atuar. Era uma incógnita... Eu estava voltando com dois, entraria com mais um... Então tudo isso aí passa pela cabeça do treinador. O que que eu pensei:vou em entrar com uma equipe mais segura num primeiro tempo, tentando a marcação mais forte por que no segundo tempo entraríamos com jogadores com característica de velocidade a gente pode surpreender o Santos lá dentro. Mas aconteceu tudo ao contrário. Um primeiro tempo bem abaixo dda nossa melhor condição. Mas pela escalação eu te digo, que aqueles que falam que nós entramos com três volantes e por isso as coisas não deram certo. Quantas equipes tem jogado com três volantes, jogos inclusive com adversários tecnicamente bem mais fracos, e mantendo estes três volantes e eles jogam, articulam, marcam. O que aconteceu é que aquele não era um grande dia nosso. Nós estávamos bem abaixo. Emocionalmente, nem se fala.
Mas esse "emocionalmente" tinha relação com as punições?
Não porque o grupo sabia das punições. Sabia que três jogadores anteriormente haviam tmbém tomado a mesma punição, então aquilo era um fato natural. "Ah, mas assim nós penalizamos o clube!" Bem, então significa que nós só vamos punir quando for adeqüado ou pudermos tirar vantagem? Então quando não tira vantagem você pode punir!
Mas foi o que se falou. Que a punição poderia ter sido aplicada depois desse momento crucial e complicado.
Então eu te falo uma outra situação... Nós damos uma tolerância de 15 minutos para atraso. O Dagoberto chegou com vinte e o Tinga com trinta e dois - alguma coisa desse tipo. Quando eles chegam atrasados assim eles nem se trocam. Voltam pro departamento de futebol porque o treino já está em andamento. E foi último treino mais coletivo, de posicionamento. Então imagine se eu treino na segunda com uma equipe, um posicionamento, e vou pro jogo na quarta com outra? A primeira cobrança seria em função disso. Nós, por isso, chegamos à conclusão que eles não jogariam. Essa é uma regra interna do Internacional. Não fui eu quem determinei. A apenas a regra foi respeitada.
Então não houve impacto anímico?
De maneira nenhuma. Com os outros três jogadores nós tivemos o mesmo problema e eles voltaram. Isso é muito complicado para quem comanda um grupo. Tem que ter coerência. Por isso eu sempre abro toda e qualquer situação que aconteça dentro do clube para que todos participem, principalmente o Fernandão. Todas as atitudes são tomadas em consenso. A maioria vence. Logicamente que a última palavra é minha. Tem um peso um pouco maior, mas eu ouço muito para depois tomar uma posição. Acho que não fizemos errado. Se você quer um mínimo de disciplina dentro de seu trabalho, pode ter certeza de que os erros tem que ser penalizados.
Mas, no caso, houve um problema de comunicação no pós-jogo. E tudo isso, segundo a lógica que você colocou, pode ter ficado mais complicado de entender com a entrada dos dois no decorrer da partida, concorda?
Pode ser...
Não fica justamente aquele "punir quando é conveniente"?
Exatamente. Bom, fatalmente eles jogariam. Independente do que acontecesse na partida. Nós poderíamos ter feito uma partida brilhante no primeiro tempo que no segundo eu entraria um pouco modificado para tentar matar o jogo ou ganhar de uma vez por todas. O problema maior é que o primeiro tempo não foi bom. Mesmo com uma equipe teoricamente mais segura, nós não encaixamos a marcação em momento algum e pouco criamos.
Abrindo um parentese: o primeiro gol do Santos veio de uma penalidade inexistente.
Também teve isso! Com tudo que aconteceu no primeiro tempo, não fosse essa pressão desmedida na arbitragem, aquele penalti não teria sido anotado. Com todos os nossos erros, o Santos só saiu na frente com um gol irregular. Nós voltamos melhor pro segundo tempo, melhor posicionado e o jogo foi decidido em duas jogadas indivuduais de um grande jogador. Essa é a verdade. Quando também eu tive que ouvir que "o Neymar não teve marcação"... Ora, nós tínhamos 3 pra 1 nas duas jogadas. Será que não tinha marcação?
Muitos leitores perguntaram se não respeitamos demais o Santos?!
É justamente o que falei. Se temos dois jogadores voltando, o Dátolo chegando, eu não poderia colocar três jogadores na mesma situação. Seria um risco. Eu tive que fazer uma opção. Tive que dar um pouco mais de liberdade a um volante pra que pudesse jogar. Uma outra situação é que o próprio Sandro Silva, que vinha crescendo de produção, poderia ter jogado. Então eu tinha alguns problemas e tudo calhou aquela tomada de posição. Tenho oito anos como treinador. Já joguei com equipes de menor poderio técnico contra equipes muito bem estrururadas e nem por isso tomei essa posição. Nunca na minha vida! Não seria essa a primeira vez, principalmente estando a frente de uma equipe como a do Internacional. Tive a necessidade por tudo que aconteceu. Me arrependo? Sim, me arrependo. Agora, o erro tomou tamanha proporção...
Mas você se arrepende, exatamente, da equipe que formou ou da maneira que foi conduzida a questão das punições?
A história das punições não! Eu segui o que estava determinado e foi elaborado pela própria diretoria do Internacional. Respeitei o que é um critério do clube. Eu me arrependo da montagem. Eu poderia ter trazido um jogador um pouco mais atrás ou colocado outro atacante... Poderia ter tomado outra decisão. Assim como, no ano passado, eu coloquei o Tinga no time como volante, eu ouvi um monte de coisa, mas foi justamente quando o time começou a se estabilizar.
***** CONTINUA AMANHÃ.....