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O olhar e o silêncio de Puskas

21 de dezembro de 2007 2

O colega Mário Marcos de Souza, titular da coluna Bola Dividida em ZH, ganhou um Prêmio Ari 2007 com o texto publicado abaixo. Foi um dos melhores que eu li recentemente na área de esportes. Deixo a grandes história com vocês, junto uma saudação de Boas Festas e um lembrete. Se beber, não dirija. Vá de táxi ou espere.

O olhar e o silêncio de Puskas

Nunca houvee doce como aquele. Os figos, comprados ainda verdes em bancas do mercado público, saíam daquela imensa panela na medida exata de consistência e açúcar, banhados numa suave calda. Ficava irresistível. Um dia, estranhamente, eles ganharam um pouco mais de açúcar, ficaram mais doces pouco depois e a dosagem continuou subindo. Quem reclamava, ouvia de dona Adiles, parada na cozinha do chalé do Guarujá, em Porto Alegre, uma resposta entre risos, mas firme, a um passo da irritação:

– Doce é para ser doce.

Aquele não era, como ficou claro depois. Quem convivia com ela percebeu tempos depois que a dose a mais de açúcar era o primeiro sinal de uma doença silenciosa chamada Mal de Alzheimer – a mesma que levou à morte ontem o húngaro Ferenc Puskas, um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele tinha 79 anos, os últimos cinco internados no hospital de Budapeste em que morreu no início da madrugada, vítima de complicações respiratórias.

***

Puskas foi parando devagar, como se estivesse sendo desligado, desde os sintomas iniciais da doença, em junho de 2001. Foi assim com a doce criatura do Guarujá. Aos poucos, os primeiros sinais foram acrescidos de outros, as lembranças pareciam ter sido apagadas, os caminhos no bairro viraram labirintos, os rostos amigos passaram a ser estranhos, as colheres de paus que mexiam os doces foram encostadas em algum canto, longe das panelas. Mas o mais chocante era o olhar _ como ocorre com todas as vítimas da doença. Ele parece cruzar por quem está à frente, à procura de algum ponto. É o olhar que Puskas começava a mostrar já em agosto de 2002 (foto), ao participar da cerimônia que deu seu nome ao Nepstadion de Budapeste. O homem que um dia fora capaz de jogadas mágicas em campo já não sabia em que mundo circulava. O olhar inexpressivo _ esta é uma das duras faces da doença.

***

Houve tempo em que o olhar de Puskas nunca se desviava do objetivo, como naquele dia 25 de novembro de 1953, em Londres. A seleção inglesa jamais perdera em casa e estava certa de que os húngaros, quase todos saídos do Honved, o clube do exército, não seriam capazes de mudar a história _ e levaram apenas 50 segundos, o tempo do primeiro gol da Hungria, para descobrir o erro. Sofreram quatro gols só no primeiro tempo de um jogo que terminou em 6 a 3, mas ninguém esqueceu mesmo foi do terceiro, marcado por Puskas. Foi o gol do olhar. Puskas viu Czibor pela direita, viu que estava de costas para o gol e viu que o marcador Billy Wright estava por perto. A exemplo de todos, o zagueiro esperava que o húngaro dominasse, ajeitasse para a direita e chutasse. Puskas fez tudo diferente. Dominou com a sola de seu pé preferido, o esquerdo, arrastou a bola para trás, no mesmo movimento tocou um pouco para a frente, já pelo outro lado do atordoado Wright e chutou rasteiro.

– Nove em 10 vezes, eu ganharia a jogada, mas aquela era a 10ª e na minha frente estava Puskas – conta Wright no livro Puskas, uma lenda do futebol. – Minha perna só chutou o ar.

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Um ano depois, os ingleses foram a Budapeste para a revanche, no mesmo estádio que hoje tem o nome Ferenc Puskas. Foi pior. Levaram 7 a 1. %22Em toda minha vida, nunca fui buscar a bola sete vezes no fundo da rede%22, lamentou um dia o goleiro Merrick, o mesmo dos outros seis em Wembley. Eram assim os confrontos com os húngaros liderados por Puskas, o Major Galopante, por causa de sua patente militar. Ele e seus amigos faziam sempre dois gols nos primeiros 10 minutos dos jogos, foram campeões olímpicos em 1952, mas esbarraram na surpreendente Alemanha em 1954. Puskas nunca teve seu título mundial. Não importa, ele entrou para a história. Fez 83 gols em 84 jogos por sua seleção e, ao mudar-se para o Real Madrid fugindo da repressão de 1956 na Hungria, ganhou três Ligas dos Campeões. Até sua aposentadoria, em 1967, fez 180 partidas pelo Real, nas quais marcou 154 gols. Virou mito também na Espanha.

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Antes do sucesso no Real, Puskas teve de vencer um desafio lançado pelo antigo presidente do clube espanhol, Santiago Bernabéu. Quando foi procurado pelo dirigente para ser contratado, Puskas estava 18 quilos mais gordo por causa dos 13 meses de suspensão pela fuga da Hungria. Surpreso, foi franco:

– O senhor me olhou? Estou gordo.

–  Este não é problema meu, é seu – respondeu Bernabéu.

Puskas só deixaria o Real aos 40 anos, depois de 23 de carreira.

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Na manhã de ontem, os sinos tocaram nas igrejas de Budapeste e o Parlamento húngaro ficou em silêncio, bem como foram os últimos anos de solidão de Puskas no quarto do hospital. O homem que, a exemplo da alegre senhora do Guarujá, perdera a capacidade de olhar e de falar, tinha virado imortal. Como todos os gênios, nunca será esquecido.

 

 

Postado por Zini, Porto Alegre

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Comentários (2)

  • Marcelo Xavier diz: 24 de dezembro de 2007

    tinha guardado dele, recortei tudo o que saiu quando Puskas se foi, um belíssimo texto.

  • Fernando diz: 24 de dezembro de 2007

    Olhaí, o homem mereceu o ARI. Tá extraordinário.

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