Libertadores 2009: Celso Roth precisa dum psicanalista?
Para responder essa questão chamamos dois psis que defendem cores opostas: Mário Corso, colorado, e o tricolor Manoel Madeira se entreveraram para entender o que se passa na cabeça do comandante gremista.
Com a desculpa de serem capazes de fazer uma análise técnica, profissional, isenta, eles misturam Freud com Tostão e Wolmir Massaroca e propõem que todos nós podemos, cada um da sua forma, se dar conta da complexidade humana e que, por outro lado, os papos psi podem invadir o nosso cotidiano – e até a casamata tricolor!
Essa pergunta só faz sentido por que no recente Brasileirão o Grêmio estava com a taça na mão e não segurou seu próprio sucesso. Para a maioria da torcida o técnico ficou com essa culpa.
De certa forma Celso Roth já não combinaria com o espírito do Grêmio, e esse pode ser o fundo da questão. Claro, com a auto-imagem de vencedor que o time tem. Como então contratam um técnico desalinhado com esse passado de vitórias, "perdedor" para alguns, se perguntavam alguns torcedores. Mas as coisas são assim mesmo?
A questão colocada por alguns torcedores do Grêmio já contém em si uma premissa: é possível a auto-sabotagem. O senso comum já assimilou aquilo que a psicanálise e outras correntes desse ramo detectaram, ou seja, o caminho do sucesso não é reto nem simples. Além dos adversários externos, temos um interno que nos faz tropeçar, pois, por incrível que pareça, suportar as conquistas não é fácil para alguns. Inclusive em personalidades frágeis, como na psicose, seguidamente é o sucesso que desencadeia a crise e não o fracasso.
Mas vamos a um exemplo, muito na clínica: um homem promovido a um cargo de chefia, para o qual ele tem as qualidades técnicas necessárias, sucumbe por não suportar estar mandando nos outros. Em seu íntimo, ele precisa de alguém que cuide e mande nele. Quando ele é chamado a comandar não consegue, sente-se sem pai nem mãe e paralisa, quando não tem um ataque de pânico.
Muitas pessoas têm a intuição de ser assim e evitam as promoções e o sucesso, sendo eternos segundos violinos vida afora. Evitam as conquistas, fogem das paixões e escondem-se na sombra dos seus fracassos, tristes, mas sem uma crise maior que supõem que adviria.
Mas depois dessa teoria toda nos permitam uma digressão: Zeca é um alemão típico, que perambula desassossegado o corpanzil de dois metros de altura pelas arquibancadas do Olímpico a cada dia de refrega, faça chuva ou faça sol, seja conta o Boca Juniors, seja contra o Nóia (Novo Hamburgo) – nada contra, só para usar um termo "psicanalítico"!
Com as palavras, Zeca é sempre curto e direto que nem coice de porco. Mas ultimamente, nessa nova "administração Celso Roth", uma dúvida sombria e imprecisa paira pelas arquibancadas, e até o próprio Zeca, sempre tão seco, segurando seu copo de cerveja, agora sem álcool, tem repentinos pensamentos estranhos.
Outro dia, em plena peleia, ele largou essa: "Já dizia Platão: "podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando o homem tem medo da luz".
Lembramos de Wolmir Massaroca, ponteiro esquerdo tricolor há priscas eras. Mas como não somos ainda tão antigos, vamos contar a história como nos contaram e se vocês têm correções a fazer que as façam! Bueno, dizem que o Wolmir Massaroca era um sujeito um pouco atrapalhado, assim, desajeitado, sabem aqueles caras que vão colocar um chicle no lixo e acabam com uma teia de aranha rosa na mão, muitas vezes amalgamada com algum papel importante que entrou na jogada para livrar o sujeito daquela golesma?
Era um pouco assim. E isso se estendia ao relvado tricolor, claro. Wolmir cortava daqui, dali, girava para o lado errado, voltava, protegia a bola dando um safanão no oponente, ou seja, fazia uma massaroca. Às vezes dava certo, às vezes não.
O negócio é que o sujeito também era um pouco desarvorado das idéias, tinha suas cismas, precisava dumas rédeas. Logo, cabia ao famoso Jacinto Godoy de, nas concentrações antes dos jogos, molhar um pouco a palavra com o Wolmir. Batia um papo, trocava uma idéia. Não era raro, nesses dias, encontrá-los sentados nas escadas à noite em longas sessões de, digamos, psicoterapia.
Um certo dia (como todos nós temos "um certo dia"), a Azenha acordou em polvorosa pois o embate daquele domingo ensolarado era contra o Palmeiras, cujo lateral-direito atendia pela graça de Djalma Santos. Assim, aquele "certo dia" era o dia em que Wolmir marcaria o glorioso Djalma Santos – e era o dia certo.
Naquela tarde, o eterno bi-campeão mundial, sofreu com os assédios de Wolmir que o driblava com naturalidade espantosa, e que, sempre meio biruta, chegava ao cúmulo de driblá-lo pra frente, voltar, driblá-lo para trás, retomar a investida e vencê-lo até três vezes em uma mesma jogada. Há alguns que contam que naquela peleia Wolmir balançou os cordéis alviverdes umas três ou quatro vezes. Pode ser exagero, pode não ser.
O certo é que no dia mais importante de sua carreira, o doido Wolmir fez o maior jogo da mesma, e embeveceu o Olímpico com um espetáculo jamais visto alhures. Dizem até que o Palmeiras quis contratá-lo depois daquilo. E, aliás, dizem ainda que, na época, um jovem chamado Paulo Odone, assim cochichava nos ouvidos dos seus: "O passe do Wolmir a gente vende, o do Jacinto não".
E o Roth nessa história? Quer dizer que o Roth também é louco? Não, claro que não. Pareceu um pouco desmiolado naquele embate contra o Juventude, mas não, não é. Também não é histérico: quando Roger foi embora, não se escandalizou com o seu repentino desamor. "Seja feliz", disse simplesmente.
Se era fóbico, parece que esqueceu. Roth atacou adversários dentro e fora do Olímpico. Às vezes deu certo, às vezes não, mas pra resumir o assunto, achamos que ele acertou muito mais do que errou.
Roth é obsessivo. Acalmem-se, isso não é um diagnóstico de psicólogos, mas só um comentário banal: ele é obstinado pelo seu trabalho, detalhista, preocupado, um profissional exemplar. Lembremos sempre que quando o campeonato começou o objetivo tricolor era não cair e, se possível, não chegar nem perto disso. Ora, no fim das contas, o Grêmio só não ergueu o caneco "por um detalhe", como disse Roth.
Ele trabalhou impressionantemente bem, e isso ninguém discorda. Logo, Roth mereceria a confiança incondicional dos gremistas e o temor dos colorados. Mas por que isso ainda não acontece?
Por causa do pesado rótulo que Roth carrega de ser limitado. A gente tem a impressão que um clube o chama quando tem um elenco mediano, e quer fazer um bom trabalho, passar longe do rebaixamento, quem sabe classificar para alguma coisa. Mas não para ser campeão. E óbvio que com um elenco mediano é mais difícil ser campeão e, num campeonato de pontos corridos, quase impossível.
Porém, os anos passam e pesa na carreira de Roth a falta de uma grande conquista. Será ele, como teorizou Tostão, alguém que "triunfa com o fracasso"? A verdade é que durante esse ano que se termina o assunto foi tecla batida. Perguntado por um repórter depois da vitória contra o Santos sobre "aquela marca que o senhor tem de nunca passar de um determinado limite", ele responde com um sorriso incômodo: "Vai continuar a mesma marca. É só ganhar que ela sai".
No entanto, Roth não ganhou e, aliás, tava pedindo um salário de quem já ganhou muita coisa! É sintomático, para usar uma palavra de psicanalista, que o nome de Renato Gaúcho tenha circulado durante essa época de indecisão. Notoriamente sem o mesmo apuro técnico de Roth, Renato é, como era Wolmir, algo doido.
Aquele que no dia certo, na hora certa, sem o ângulo que qualquer ser humano em sã consciência supõe precisar ter para chutar uma bola em gol, dá um bico na querida e abre caminho para a maior conquista da história do clube. O grande dia (o "certo dia") de Roth pode estar chegando com essa Libertadores que ele tem pela frente. Mas agora é hora dele achar, digamos, a "boa loucura", não aquela que produziu a escalação contra o Juventude ainda na aurora desse ano, mas alguma outra desconhecida.
Todo mundo diz que psicólogo é meio biruta, pois saibam que estamos admitindo que podemos ir num psi qualquer para ficarmos ainda mais doidos mesmo. Porém, depois que todos nós já sabemos quanto mais ou menos Roth ganha, já imaginamos sermos acusados de estarmos escrevendo esse texto visando fazer parte de um consórcio qualquer com o psi que se engaje em tal caso.
Assim, deixamos Roth absolutamente livre para escolher nessas férias o seu aditivo para a Libertadores 2009: seja um coice platônico do Zeca, as alfinetadas de um psicanalista ou causos do futebol gaudério.
Postado por Zini, Porto Alegre
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