
Vinte anos atrás o futebol quase morreu na Inglaterra. Os britânicos que o inventaram podiam tê-lo assassinado numa tarde luminosa em Sheffield, a quarta cidade mais populosa do país, e feito dos seus estádios de grama perfeita um deserto, da bola, uma peça de museu. Um cemitério de chuteiras encardidas.
Eu não estava na cidade, berço do Arctic Monkeys, de 150 bosques e 50 parques públicos, mas acompanhei tudo da beira do Tâmisa, em Londres, o trágico 15 de abril de 1989 - 1989, o louco ano do centenário do futebol inglês.
Um dia de medo, de terror, de final de alguma coisas que ninguém no dia conseguia explicar. Uma sensação estranha, uma certeza que o mal estava por perto. A Inglaterra voltou aos seus piores tempos, reviu as noites sem fim quando era bombardeada pelos nazistas. Não pelo barulho, pelos quase cem corpos estendidos no chão.
A Internet não vivia, o rádio contava tudo, a tevê mostrava os policias somando os corpos da tragédia de Hillsborough, distante 230 quilômetros de Londres. A tragédia avançou também sobre a Capital.
Corpos espalhados no gramado verde bem cuidado, bandeiras vermelhas cobrindo corpos de torcedores de igual camisa vermelha, pai chorado suas piores lágrimas nos braços do filho inerte, irmão gritando no ouvido do irmão sem som, amigo debruçado sobre o amigo sem resposta. Pessoas morreram em pé, colados na grade. Uma história que não combina com o futebol. Uma dor que comoveu milhões e estilhaçou famílias inteiras.
O jogou unia Liverpool e Nottingham Forest, no Estádio Hillsborough, residência do Sheffield Wednesday, encontro válido pelas semifinais da Copa da Inglaterra. Minutos antes da partida, um legião de torcedores vermelhos tentava entrar por uma das antigas portas do velho estádio gradeado.
Preocupada, a polícia resolveu abrir outros portões e a acelerar o ingressos dos fãs. Sem saber, mas irresponsavelmente, as autoridades ligaram o pavio da tragédia. Os ingleses tinham a mania de entrar no estádios minutos antes do início do jogo, pois sempre havia mais um segundo disponível para a penúltimo pint de cerveja no Pub mais próximo. Entram com tudo, com força, como quem não deseja perder um milímetro da corrida da bola.
Os torcedores que estavam no interior do estádio começaram a ser amassados pelos que chegavam e foram forçando os que estavam mais à frente. Encorpadas grades separavam a torcida e o campo de jogo. Era tempo dos holligans, tanto que o presidente do Chelsea sugeriu colocar cercas elétricas em Stanford Bridge, em Londres, para tentar impedir a invasão dos fanáticos.
Quem estava no estádio, quem via pela tevê, que escutava pelo rádio, não se tocava com o real pavor. A tragédia avançava aos poucos, lentamente, a medida que os torcedores da primeira fila eram amassados nas grades pela avalanche de pessoas, asfixiadas, perdendo o fôlego e morrendo um a um, num desespero terrível. Não havia área de escape, saída, porta. O espaço do torcedor acabava numa grande de aço.
Muitos observaram seus amigos de futebol morrendo a 20 centímetros de distância sem poder fazer nada, alcançar a mão. Noventa e seis torcedores do Liverpool perderam a vida, 776 ficaram feridos. Só aos seis minutos de jogo o árbitro decidiu paralisar a decisão. Os jogadores, atôniotos, não sabia o que fazer.
Naquela dia de primavera inglesa, o futebol quase morreu, mas renasceu meses depois quando governo decidiu que os estádios não seriam mais parecidos com penitenciárias. Os desordeiros ganhariam a porta da rua. Os campos de futebol seriam reformados e voltariam a servir o seu melhor público, a família.
As grades desapareceram, a vigilância aumentou, todo o mundo ganhou um assento confortável, o hoolliganismo foi banido do interior dos estádios. Três anos depois, os clubes criaram o seu próprio campeonato e o sucesso dele você, que não assiste ao vivo, vê na tevê.
O mesmo relatório Taylor, que definiu e pediu mudanças, apontou a polícia como a principal responsável pela tragédia em Hillsborough. Desde então, o policial que vigia estádio na Grã-Bretanha não é qualquer um policial. Ele precisa saber o que faz.
Quarta-feira, outro 15 de abril, Liverpool vai parar, como a Inglaterra toda, como emudece todos os anos, 19 consecutivos. Não por um minuto. Por dois. Antes, terça, enfrenta o Chelsea na Capital pela Champions League. Precisa ganhar por uma diferença de três gols. Caso contrário, some do torneio.
Reina, Arbeloa, Carragher, Skrtel e Fábio Aurélio; Lucas, Riera, Xabi Alonso e Gerrard; Kuyt e Torres podem ajudar nesta terça a melhorar a terrível quarta-feira do Liverpool. Dividir, ao menos por um dia, as mais doloridas lágrimas da história dos homens que inventaram o futebol.
Postado por Zini, Porto Alegre



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