O Estádio Olímpico foi cenário de uma crônica do futebol globalizado unindo um goleador argentino, sua mulher famosa, agentes estrangeiros de diferentes sotaques, milhões de reais e dirigentes brasileiros

Uma champanha, duas champanhas.
– Sim – ele dizia.
– Não – ela retrucava.
Maxi López tentou. Wanda Nara não aceitou a sedução. Ele receberia US$ 1,4 milhões nesta temporada, US$ 1,5 milhões na segunda e US$ 1,6 milhões em 2012 no novo contrato com o Grêmio. Nada.
No Natal, em Buenos Aires, o mais festejado centroavante do Grêmio da primeira década do terceiro milênio entendeu que o seu futuro imediato passava a milhas e milhas da Azenha.
Porto Alegre nunca mais, Moscou nem pensar. Nada contra os gaúchos, muito menos a favor dos moscovitas. O problema não eram os estrangeiros. Era ela, deslocada do seu meio ambiente, do seu habitat natural, do nicho das celebridades argentinas.
Em Buenos Aires, os paparazzi deslizavam nos seus calcanhares desde o dia que associaram a sua figura, vistosa vedete e modelo, com Maradona. Dom Diego negou, ela também – tarde demais para que as revistas de fofocas esquecessem o “caso”, para que os programas de celebridades não a riscassem do seu cast de beldades. Tudo que envolve Maradona vira ouro no país. Ela aproveitou.
Então, conheceu Maxi. Seu mundo deu outras voltas imprevisíveis.
Em Porto Alegre, ela podia passear com o pequeno Valentino no Parcão e ninguém movia uma sobrancelha, deslocava um fotógrafo. Não ostentava luz própria, estava associada ao marido. No marido podia mandar. E mandava sem parar no apartamento de três quartos e de R$ 12 mil de aluguel mensal no bairro Moinhos de Vento, no carro, na rua. Pelo celular.
– Maxi é Wanda Nara dependente – dizem pessoas próximas.
Wanda não queria mais voltar à sua cidade favorita, uma das capitais do planeta, ocupando a ponte-aérea Salgado Filho/Ezeiza. Preferia desembarcar em outro portão, o que abriga os jatos que saem da Europa, como os que trazem e levam a sua irmã Zaira Nara, 20 anos, namorada do uruguaio Diego Forlan, do Atlético de Madrid – com uma conta bancária que supera os 10 milhões de euros.
A Europa garantiria novo status ao casal. Maxi não concordava. Nunca havia recebido tanto carinho de uma torcida em sete anos de carreira. Era um dos raros que tinha direito de errar. O atacante sabia da importância do Grêmio após 11 meses de casa.
Ele estava emparedado na Rússia. O clube gaúcho o devolveu à vitrina. Era feliz em Porto Alegre. Sua mulher não era. Maxi não queria dividir a família. Desistiu do Brasil.
Não pense que Wanda Nara é a vilã na torta saída de Maxi do Estádio Olímpico na virada do ano, um curto mês atrás. Não há vilões no tempestuoso caso, muito menos mocinhos. Há cifras no largo horizonte do negócio, (R$ 3,8 milhões, preço dos 50% dos valores federativos do jogador), comissões, guerra de beleza, ciúmes, antipatia, discussões e um final atrapalhado para os envolvidos.
Wanda é uma peça, os empresários são uma segunda, os dirigentes outra no valioso jogo de xadrez da bola. Um futebol que não se encerra mais no Rio Grande do Sul. É global, se mede em euros. Neste caso, une Rússia, Argentina e Brasil. Une (e afasta) o jogador (não um craque), a mulher, empresários e dirigentes.

Fazia calor de alto verão na primavera de Porto Alegre, um dezembro úmido, as paredes suavam como alas e meias. Na sala do departamento de futebol do Olímpico, na goleira à direita das sociais, o termômetro subia. Três empresários discutiam asperamente. Gritavam.
Na mesa, o futuro do portenho Maximiliano Gastón López, 25 anos. No ar, todas as incertezas. Nas ruas, uma só verdade: os gremistas aguardava um “sim, eu fico”.
Os empresários, um argentino, dois gaúchos, discutiam por comissão. O alvo era 200 mil euros e outros desacordos sobre a percentagem de cada um numa futura venda. Cada um exibia suas verdades. O bate-boca saiu da sala, desceu pelas arquibancadas, atravessou o portão e terminou no estacionamento do estádio. Acabou a parceria. Desde aquele momento, os agentes gaúchos saíram de cena. A bola ficou com o argentino. Hoje, ninguém quer voltar ao caso.
Antes do Natal, outro empresário, o uruguaio Mario Paglioni, alcançou o casal em férias em Paris e acenou com a Lazio. Apresentou Roma, e os deixou deslumbrados. A proposta com o carimbo do clube nunca apareceu. A fantasia Lazio/Roma rodou em vão a cabeça dos dois por duas semanas.
É certo que os empresários, que são sérios, não prejudicaram o negócio, mas também não ajudaram.
A decisão final foi do jogador – aliás uma acertada aposta pessoal do presidente Duda Kroeff. O centroavante entrou pela porta da presidência no terceiro andar. Não foi cria do departamento de futebol. Quando ele começou a fazer gols surgiu uma série de padrinhos. Kroeff é o real.
O relacionamento de Maxi com o assessor Luiz Onofre Meira não era bom. Nem com Mauro Galvão.
– Ele parece ter um gravador na cabeça. Sempre diz a mesma coisa aos jogadores – queixou-se ao falar de Meira, que não moveu um dedo para ficar com o atacante.
Enigmático, Meira diria depois:
– Ele não é um jogador diferenciado. Nunca foi tratado assim.
Maxi não gostava de Souza, e Souza também não falava “bom dia”.
– Coisas do futebol – ele pensava, enfrentando a antipatia mútua como mais um problema natural do meio e não levando adiante a questão.
Ele se considerava prejudicado por Souza nos 90 minutos. Achava que podia ser mais acionado. Que, assim, conseguiria dobrar seus gols. Reclamou por não bater pênaltis. Disse que a lesão na coxa, em agosto, prejudicou radicalmente a sua temporada.
Terça-feira, 24 horas antes de assinar com o Catania, Maxi contatou Porto Alegre. Estava em Madrid, na casa do concunhado Forlan, meio perdido. Ouviu que talvez tudo pudesse ser rearranjado no Olímpico.
Disse que era tarde demais, mas que desejava voltar, em outra ocasião, e se despedir dos saudosos azuis.
Há os que acham que o Grêmio vacilou, os que culpam Wanda, os que crucificam os empresários, os que dizem que Maxi já foi tarde.
Só Borges, dois jogos, dois gols, é capaz de enterrar a história rapidamente. Só os centroavantes são capazes de mudar a realidade do futebol.

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