O Brasil começa a deixar agora a pré-história do futebol fora de campo, em parte orientado por alguns visionários profissionais de marketing – como os do Corinthians e do Inter. Na Europa, o futuro corre em campo desde os anos 1990. Na Inglaterra, porém, o terceiro milênio não parece tão feliz como os grandes investidores anunciavam ao atrair os maiores clubes para a Bolsa de Valores de Londres.
Em Manchester, por exemplo, uma revolução promete oferecer ao futebol profissional um caminho distinto dos atuais. Fãs declarados do Manchester United e o atual dono do clube, o bilionário americano Malcolm Glazer, 81 anos, lutam abertamente pelo controle do United, fundado em 1878.
Setenta e oito mil fiéis seguidores, entre eles milionários e empresas de outros milionários, do clube mais popular das ilhas britânicas estão por trás dos Red Knights (Cavaleiros Vermelhos) que, por sua vez, controlam o fundo financeiro Must (Manchester United Supporters Trust). É o Must, com a assessoria financeira do banco japonês Nomura, que pretende comprar o United da família Glazer. A sede do grupo fica ao lado da casa de 75.769 lugares do time, o Estádio Old Trafford – que os locais denominam “Teatro dos Sonhos”.
O problema é um só. Os Glazers tiram fortunas do clube e investem em outros negócios. O Must quer que dinheiro permaneça no clube e que os investimentos sejam feitos também em novos jogadores. Já levantou R$ 2,6 bilhões. Os Glazers não conhecem e não gostam de futebol, preferem o futebol americano e enxergam no clube uma maneira de engordar a fortuna de cerca de R$ 3,5 bilhões da família.
A família Glazer adquiriu o United em 2005 por R$ 3 bilhões e não quer vender as suas ações. Na época, parecia tudo bem. Mas hoje sabe-se que as libras brotaram de discutíveis empréstimos bancários. As dívidas, mais juros, foram passadas ao clube. Cresceram.
O United é o clube mais rentável da Inglaterra, mas os R$ 140 milhões anuais do lucro são gastos no pagamento dos juros das dívidas (R$ 2,18 bilhões). Cristiano Ronaldo foi vendido por R$ 213 milhões no ano passado. Nem o total, nem parte do dinheiro, foi destinada a um novo craque. Os fãs protestam pelo custo dos ingressos dos jogos. Um bilhete médio anual em Old Trafford pulou de R$ 1,3 mil para R$ 1,9 mil.
O advogado Eduardo Carlezzo, diretor do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, acompanha o caso de perto. Ficou surpreso com a mobilização dos torcedores, mas não acredita na venda:
– A família Glazer fechou o capital, depois de comprar 100% das ações do clube. Qualquer negócio passa por eles. Acho que só vendem se a pressão dos ingleses for insuportável – explicou.
Quando você vê cachecóis, bandeiras, chapéus e camisas verde e amarelo entre os vermelhos do United nos jogos saiba que é um protesto. O Newton Heath que deu origem ao United, usava as mesmas cores. O protesto é simbólico. Os fãs buscam os valores tradicionais do clube.
Veja no vídeo:
O adesivo “Ame United deteste os Glazers” está em todos os lugares em Manchester, no noroeste do país. A Grande Manchester tem 2, 5 milhões de habitantes.
O United soma 330 milhões de torcedores no planeta. Vende 6 milhões de camisetas por ano. No Brasil, é o terceiro time estrangeiro no gosto da torcida, depois do Milan e do Barcelona (pesquisa da TNT Sports). Sua nova patrocinadora, AON, pagou R$ 60 milhões para ver o nome na camisa a partir de agosto.
A revolução começou.
O fã quer o clube de volta. Deseja no comando alguém que saiba o real significado de um grito de gol.




Comentários