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Posts do dia 22 agosto 2010

O Doutor e as suas memórias gaúchas

22 de agosto de 2010 5

Os assessores se dobram ao paraguaio de 81 anos no barulhento hall de entrada do Hotel Sheraton em noite de decisão de Copa Libertadores. Ele é Nicolás Leoz, mas não é chamado pelo nome ou sobrenome.

O círculo íntimo do homem mais poderoso do futebol das Américas, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) e membro do Comitê Executivo da Fifa o trata como Doutor.

– O Doutor desce em 10 minutos – me diz uma senhora de cabelos ruivos.

– Fique tranquilo, o Doutor fala com todo mundo – me acalma outra pessoa.

– O Doutor não vê classes no futebol. Ele trata o fã da arquibancada e o craque de bola da mesma maneira – adianta um terceiro.

– O Doutor coloca a imprensa no seu lugar. Com ele, o jornalista sempre tem voz, não é um Dunga – ri mais um.

– O Doutor é um ser político, ele faz o impossível para que as pessoas se acertem e vivam tranquilas no mundo do futebol – explica outro.

Altivo, o Doutor cruza a porta, assume o hall cinco estrelas e o barulho da numerosa comitiva da Conmebol some como por encanto. Ele me pega pelo braço e me faz sentar ao seu lado numa poltrona.

Está feliz, reviu Pelé, a quem chama de compadre, mas o quer como filho. O Rei batizou seu filho Josué, 16 anos.

Nicolás Leoz lembra um avô elegante de terno e gravata, bem barbeado e penteado e não aparenta quatro décadas de vida. Esta forte, graças às longas caminhadas diárias e à alimentação regrada (mas diz que “se passou” no churrasco na fazenda de Francisco Novelletto, presidente da FGF, no meio da semana). Seu raciocínio ainda é rápido, de um homem mais jovem. A memória está intacta e, antes de qualquer pergunta, diz que é “muito gaúcho”.

– Mesmo? – eu tento duvidar.

– Tanto que sou sócio de Grêmio e Inter – ele ri. – Eu frequento o Olímpico e o Beira-Rio desde 1983, sempre entregando belas taças. Quero voltar outras vezes.

Se emociona ao falar dos amigos colorados Gildo Russowsky e Arthur Dallegrave, ambos falecidos, cita o nome do gremista Fábio Koff, presidente do Clube dos 13, com orgulho, e lembra quando comprava ônibus em Caxias do Sul e o levava a Assuncão muito tempo atrás. Leoz morou anos na capital paulista, se diz torcedor do São Paulo, acha João Havelange um dos maiores dirigentes de todos os tempos e vê a candidatura de Ricardo Teixeira à presidência da Fifa com os melhores olhos do mundo. Não diz se apoia. Mas, claro, sabe que Teixeira daria mais força ao futebol do continente.

Com Leoz, que é nome do estádio do Libertad na capital paraguaia, a Libertadores chegou ao México e deve avançar sobre os EUA. Há um mercado rico à espera dos latinos bons de bola.

O Doutor torceu para o Inter na decisão, entregou a Copa aos jogadores e vai estar em Abu Dhabi, ao lado do presidente da Fifa, Joseph Blatter. O troféu do Mundial de Clubes passa pelas mãos dos dois, talvez chegue aos braços colorados. Leoz será Inter outra vez porque o Inter é da sua América e a Libertadores, que uniu 1 bilhão de telespectadores em 2009, é a sua vitrina.

– Eu sou muito gaúcho – ele repete, com novo sorriso, antes de se alinhar à sua comitiva e buscar o Beira-Rio onde a 51ª edição da Copa Libertadores da América chegava ao auge.

– É por aqui, Doutor – falou a assessora, que o guiou até a porta do hotel no Bairro Moinhos de Vento.

Lá fora ele ouviu os primeiros foguetes da interminável noite de quarta passada.

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