
É sobre Douglas a primeira pergunta. Tite é da aldeia, o meia, que dividiu os gremistas, já foi, mas a quase total falta de talento ofensivo no meio-campo tricolor faz com que o nome do ex-número 10 seja lembrado (e rediscutido) amiúde.
Via satélite, o técnico do Corinthians, gaúcho de Caxias do Sul, 50 anos, 22 como treinador de 14 equipes, oito títulos com cinco delas, faz um rápido silêncio.
Aí vem risadas, puro bom humor:
– (Risos) ... eu até liberei um cartão amarelo para o Douglas (risos).
Logo completa, sério, professoral:
– Disse , " Douglas, tem que competir, tem que competir". Todo o atleta de alto nível precisa ser solidário. Só a imposição técnica não adianta mais. No futebol de hoje se um não "pegar", marcar, correr atrás, fica pesado para os outros 10.
Enquanto tenta esculpir a cabeça de Douglas, ele não desgruda um segundo de todo o Corinthians, um dos times brasileiros que mais venceu jogos nos últimos 10 meses, o mais recente campeão brasileiro, um dos favoritos ao título da Libertadores 2012. O que não impediu uma inesperada queda na fase de mata do Paulistão, onde entrou com o melhor retrospecto da competição entre 20 times. A Ponte Preta ganhou o jogo. A derrota, óbvio, sempre fica na conta do treinador, mas quem acompanha futebol sabe: o que destruiu o Coringão dia 23 de abril, 2 a 3, foram as falhas do goleiro Júlio César:
– É muito difícil motivar o jogador brasileiro em duas competições, como campeonato regional e Libertadores. É humano, eu entendo. Vocês mesmo da imprensa dão muito mais valor a competição sul-americana, assim como a torcida também dá, os dirigentes dão, todo o mundo. Mas, desta vez, eu consegui mobilizar o grupo, usei uma base reserva no Paulistão, titulares no outro torneio. Os jogadores entenderam e competiram entre si. Até avisei: "não vou tirar quem estiver jogando bem". Jogamos bem, mas caímos. É da vida do futebol, assim como possíveis falhas de um ou de outro no campo de jogo.
Longe da decisão caseira, com um novo e rodado goleiro, o ex-gremista Cássio, 1m95cm, Tite se fixa na Libertadores, sua meta, desejo histórico de 28 milhões de torcedores, o segundo maior contingente do futebol brasileiro. Hoje, tem Emelec, em Guayaquil. O treinador detestaria um empate sem gols no Equador.
– O gol fora de casa é decisivo em mata-mata. Prefiro perder por 2 a 1 do que ficar no empate, no 0 a 0 lá fora, pois das duas maneiras vou precisar do 1 a 0 no Pacaembu, com a diferença de, na derrota, o adversário se posicionar na defesa.
Ele vai adiante:
– No Pacaembu teremos 30 mil corintianos ao nosso lado. Em casa, na primeira fase, marcamos nove gols, não sofremos um só e ainda vencemos os três jogos.
Tite vê as oitavas de final como uma fase de recomeço, onde os times podem se fortalecer, marcar posição, até se recompor e avançar. Ele acredita na sua base, que vem desde 2011, na experiência, na motivação do grupo, mas alerta para as surpresas:
– O mata-mata é traiçoeiro. Um jogo pode representar ser mais fácil do que outro na teoria, mas é só aparência. Atletico Nacional, Velez, Boca, só para falar de três e sem citar os brasileiros, são adversários terríveis em suas casas. Aí, joga país contra país. Há o fator campo, o entorno, a pressão. No México (Cruz Azul) fomos atingidos por laranjas no gramado. É, parece nada, mas no Brasil não existe mais estes problemas nos estádios.
Quando fala dos brasileiros, Tite lembra sempre da dupla Gre-Nal, clubes onde trabalhou quase cinco anos e venceu cinco títulos. Hoje, o Inter o preocupa bem mais:
– Seria muito azar fazer uma baita campanha na primeira fase, a segunda melhor entre 32 equipes, e pegar o Inter. Conheço o grupo colorado. Sei o que cada um jogador pode dar. O Inter cresce (e ele fala pausadamente a palavra ‘cresce’) na decisão. Deixa para mais tarde, deixa.
Antes do alô final e do abraço, diz:
– O Inter é motivado por desafios. É um perigo. Conheço. Vai crescer mais.
Libertadores
Tite perdeu um mata (Ponte Preta). Disputa um mata-mata com o Emelec. Acha que não corre riscos. Diz que o seu trabalha fala por ele. Confia na seriedade do atual presidente do clube, Mário Gobi, aberto ao diálogo, aos seus conselhos:
- Eu disse "não venda jogadores, não venda, mantenha a base atual, faça contratações pontuais". Futebol precisa de sequência. Nada que se muda a toda a hora dá resultado. Nada mesmo.
Tite tem respaldo. É o sétimo técnico da história do clube com mais jogos (149) e com uma missão, buscar o inédito título da Libertadores, que todos os outros três grandes de São Paulo tem.
Comentários