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Uma longa (e reveladora) viagem ao coração do futebol inglês

17 de agosto de 2014 2

O livro Rainha das Chuteiras (Editoria Apicuri, 316 pág, R$ 39), de Marcos Alvito, chega na hora exata, no inicio da temporada 2014/2015 do Campeonato Inglês.

O autor viveu intensamente a competição, mas não ficou só na sagrada Premier League. Captou o espirito dos inventores do futebol, nos estádios, nas esquinas e nos bares. Abaixo, trechos da conversa com o antropólogo.

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“A Rainha de Chuteiras” (Editoria Apicuri, 316 páginas,        R$ 39), de Marcos Alvito (Divulgação)

 

A Premier League encontra torcedores em todos os continentes. Como uma competição doméstica se reinventou, deixou a Inglaterra e ganhou o mundo?

Marcos Alvito - Primeiro é preciso diferenciar o jogo futebol do esporte futebol. Várias formas de um jogo chamado football eram praticadas na Inglaterra durante a Idade Média, uma espécie de vale-tudo entre aldeias rivais onde eram tão frequentes as mortes que os legistas já colocavam “death by football”. Este jogo é reinventado como esporte pelas escolas secundárias da elite inglesa e depois padronizado com a criação da Football Association e a publicação das regras que se tornarão as regras oficiais do agora unificado esporte em 1863. Em 1888 um grupo de empresários à frente de clubes inventa a Football League e o primeiro campeonato de pontos corridos do mundo. Logo ele terá segunda, depois terceira e finalmente quatro divisões. Havia uma filosofia associativa e cooperativa, os clubes eram importantes para seus torcedores, suas cidades e seus dirigentes, mas não visavam o lucro. As verbas provenientes do televisionamento de jogos, por exemplo, eram divididas, embora de forma escalonada, pelas quatro divisões, havia uma verdadeira redistribuição de recursos. A Premier League, em 1992, rompeu violenta e arbitrariamente este acordo de cavalheiros que durava mais de 100 anos. Ela já foi criada para e pela televisão, que ofereceu uma verba milionária com a condição de transmitir os jogos dos grandes, que partiram para o esquema farinha pouca, a minha verba primeiro. O projeto envolveu a contratação de astros mundiais e o televisionamento a cabo, em uma época em que isto estava explodindo no mundo todo. Foi como juntar a fome, ou seja, a busca de uma televisão mundial por um espetáculo global atraente, com a vontade de comer, no caso de enriquecer dos clubes mais poderosos e dos seus dirigentes, agora empresários realmente interessados no lucro.

 

Os clubes ingleses afastaram mesmo os hooligans dos estádios? Eles sumiram das arquibancadas?

Alvito – O fenômeno do hooliganismo foi típico de um período da história inglesa em que houve a junção de elementos explosivos tais quais: uma juventude de classe trabalhadora inconformada com o papel que lhe era reservado na sociedade e nos estádios, o florescimento da sociedade do espetáculo em que uma ação local passava a ser divulgada mundialmente e de forma quase instantânea, um processo extremamente doloroso de desindustrialização e desemprego, agravado pela política neo-liberal de Margareth Thatcher e finalmente o gosto pela violência, pela aventura e pelo risco. A Premier League sempre teve como projeto o afastamento dos torcedores em benefício da formação de uma clientela. Pelos preços praticados, o frequentador “típico” é um homem “branco”, de classe média, alta renda e 43 anos. Obviamente a maioria dos “hooligans” não se encaixa neste perfil. Houve também um envelhecimento da pirâmide demográfica, a fragmentação das formas de lazer da juventude, um processo de vigilância, repressão e condenação dos grupos e indivíduos mais violentos e uma condenação geral por parte da sociedade. Mas alguns grupos continuam a existir, sobretudo atuando nas divisões “inferiores” onde a vigilância é menor.

 

Como é um dia (tarde) típica em um estádio da primeira divisão da Inglaterra?

Alvito – Como diz o velho provérbio futebolístico e eu conto no meu livro, cada jogo é um jogo. Não dá para comparar a ida ao aristocrático Fulham, situado em uma zona “nobre” de Londres, à beira do rio Tâmisa, aonde você chega depois de atravessar um lindo parque, e sua torcida blasé, com uma ida ao vibrante e emocionante Anfield, plantado em meio a um dos bairros mais pobres e problemáticos de Liverpool e da Inglaterra, ou a uma tarde no meio fake e novo rico estádio do Chelsea. Mas é bem menos festivo e animado do que as transmissões televisivas “fabricam”; claramente a transmissão é adulterada, aumentando-se o volume das poucas manifestações de torcedores ainda restantes. Ambiente, clima, emoção mesmo, é mais fácil de encontrar nas divisões inferiores. Afora jogos excepcionais entre rivais históricos. Eu tento contar cada uma destas distintas experiências em A Rainha de Chuteiras.

 

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Marcos Alvito, autor de “A Rainhas de Chuteiras” (Arquivo Pessoal/BD)

 

O dono do Chelsea é russo. Milionários norte-americanos têm o controle acionário do Manchester United. Como os torcedores encararam as mudanças?

Alvito – Com ceticismo, ironia, desesperança e às vezes revolta. Mas há também os cínicos e os oportunistas, do tipo, o que importam são os fins, não interessam os meios. Mas mesmo estes comemoram os títulos tampando o nariz. Houve importantes iniciativas de resistência, como a criação do bem sucedido FC United of Manchester por parte de torcedores que não se conformaram com a venda do Manchester United para a família Glazer. A imprensa também é muito crítica. Mas a Premier League é um negócio e não quer saber de onde vem o dinheiro, se é proveniente da máfia russa, da corrupção, de um processo de privatização para lá de duvidoso, o importante é embolsar a grana.

 O que o Brasileirão pode aprender com os gestores dos clubes ingleses?

Alvito - Mesmo nas divisões inferiores, com muito pouco dinheiro é possível respeitar o torcedor. Fui a um jogo do equivalente à sexta-divisão, em um campo que mal pode ser chamado de estádio, mas o clube, o Leamington colocava uma van para trazer os gatos pingados da estação de trem até o estádio, sem cobrar nada por isso. Atenção e respeito te conquistam, sempre.

 A Premier League 2014/2015 tem favorito?

Alvito - Sempre tem, é claro, mas cientistas sociais são péssimos futurólogos. Eu torço para dois times, o Oxford United, um time de classe operária que já esteve na primeira e hoje disputa a Quarta Divisão e pelo FC United, já mencionado, um símbolo da resistência à destruição da cultura torcedora. Neste sentido, se eu tivesse que torcer por alguém na Premier League, torceria pelo Liverpool, por conta dos dois jogos sensacionais que assisti em Anfield, duas goleadas com o estádio cheio, reverberando de paixão torcedora. É uma das histórias mais bonitas do livro.

 

No seu livro, que eu recomendo, você diz que foi a um jogo com a polícia. Poderia resumir a experiência.

Alvito - Fui a alguns jogos com a polícia, assisti a toda a preparação para um jogo. Como fiz o mesmo aqui no Brasil, a comparação é assustadora. Lá os policiais são treinados para investigar, filmar, documentar, incriminar e finalmente prender a meia-dúzia de brigões patológicos que existem em meio a milhares de torcedores pacíficos. O ideal é tirar o cara dos estádios, seja processando e prendendo, seja pelo menos proibindo ele de frequentar os jogos. A ênfase é na prevenção, os policiais são preparados, há uma apostila com todos os dados distribuída a eles antes dos jogos. Aqui, a polícia não investiga, não documenta, não produz provas e seu principal instrumento de trabalho é o cassetete, palavra de origem francesa que significa “quebrador de cabeças”. Neste ponto, ainda estamos na Idade da Pedra.

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Comentários (2)

  • César diz: 17 de agosto de 2014

    Deve ser um lixo esse livro, escrito por um provável discípulo do juca kfouri, para quem o legal era a época “romântica” do futebol inglês, onde todo jogo era pancadaria proporcionada por hooligans. Futebol é espetáculo, é negócio e a Premier League é show, com ótimos jogos, torcida civilizada, estádios de primeira. Se ficou mais caro, paciência, tem quem pague, porque os jogos estão sempre lotados. Lei da oferta e da procura. O resto é dor de cotovelo de gente invejosa que não tem o que fazer, e fica idealizando um mundo que nunca existiu.

  • volnei diz: 29 de agosto de 2014

    Aconteceu novamente!!!!! E vai se repetir muitas vezes! Assim como os discursos de que “não há raciscmo na torcida” “são fatos isolados” “estamos fazendo tudo pra punir”
    “ja emitimos até nota de repúdio” ” não compactuamos” ” são uma minoria” etc.etc….
    Tudo já aconteceu antes e continuará se repetindo, sabem porque? Porque a imprensa contemporiza, “não podemos dar muito destaque pois pode manchar a imagem do Estado, do clube e seria uma vergonha assumir que existe racismo sim! O clube fala que “nós até temos torcedores negros!isto é coisa do rival que tenta prejudicar nossa imagem!”. A federação se esconde porque depende do voto dos clubes pra se eleger. As autoridades amenizam porque não querem se indispor e passar uma imagem negativa pra o Estado o “Patrão”. SENHORES: A mascara já cai faz tempo, vivemos sim num Estado onde o racismo é maior do que em qualquer outro! E a prova está aí estampada na fisionomia raivosa e animalesca de uma torcedora que foi flagrada e de outros tantos “covardes” que se escondem, mas que aparecem gesticulando e repetindo o coro de dementes. Como “dantes” a sujeira tem destino certo, vai pra debaixo do tapete. Não muda nada, não acontece nada de diferente, a banda segue, sabem porque? Porque tudo isso é coisa da cabeça dos “negrinhos” que de uma hora pra outra resolveram que querem ser tratados como “igual” como “gente”. Tenho “nojo” e “piedade” de todas estas atitudes que amanhã ja vai estar esquecida, pela imprensa local, pelo clube, por seus torcedores, por autoridades. Tudo em nome do NOSSO RIOGRANDE. Porque não existe e nunca existiu, essa historia de escravidão foi inventada pra nos prejudica, pra mancha nossa imagem pro resto do país. O hino riograndense em um dos trechos diz” POVO QUE NÃO TEM VIRTUDE ACABA POR SER ESCRAVO” os negros estão reclamando do que! Revolta e vergonha, vergonha, vergonha……. é o sentimento.

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