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Joel Santana: o desabafo de um treinador que está longe da bola

06 de dezembro de 2015 1

05joel

No futebol, Joel Santana se fez no Vasco nos anos 1960. Depois das chuteiras, o fogoso zagueiro treinou quase 30 clubes no Brasil e no Exterior. Passou por todos os grandes do Rio, ganhou títulos em todos, teve uma breve passagem pelo Inter, em 2004, treinou a seleção da África do Sul, mas não chegou a Copa do Mundo de 2010. Foi demitido antes. Entre 2000 e 2014, nunca esteve desempregado, mas desde janeiro de 2015 não consegue um clube.

O celular toca, toca. Toca.
A voz grave, quase metálica informa: “JNT”.
Depois do curto recado, perto das 14h, JNT, ou Joel Natalino Santana, atende. O sotaque é carioquíssimo, dança nos esses.
– Meu irmão, não posso falar, me desculpe. Estou na porta do cinema. Liga em três horas.
No final da longa tarde, seis tentativas depois, Joel aceita a ligação.
– Bom filme, professor?
– Booom. Gosto de cinema de ação, espionagem, 007, Tom Cruise e sua Missão Impossível. Não perco um. Steven Spielberg faz coisas impressionantes numa tela.
– Cinema é melhor que futebol?
– Futebol? Quem sou eu para falar de futebol, meu amigo? Sou um técnico antigo, dos velhos tempos, um cara que viu Garrincha no Botafogo, Pelé no Santos, Zico no Flamengo, Figueroa no Inter. O futebol de hoje não é mais o meu mundo. Não o reconheço mais. Vou desistir. Não aguento mais. Antes tinha prazer em pertencer ao mundo do futebol. Não tenho mais brilho nos olhos. Não tenho.

– O senhor pensa em abandonar a casamata? É por aí?
– Não quero mais. Não consigo trabalhar mais num ambiente desses. Não há mais respeito. O treinador não é mais ninguém, meu amigo. Ele entra e sai rapidamente de um clube, não tem mais tempo e apoio para trabalhar. Os dirigentes não querem nem saber, demitem os técnicos depois de alguns dias, umas semanas, meia dúzia de partidas. Basta um jogo, uma derrota e jogam tudo no lixo. Eu fui demitido do Bahia com 21 dias de trabalho em 2013. Pô, cara! Não é assim que funciona.
– Nem propostas do Exterior lhe interessam mais?
– Não digo que dessa água não bebo mais. Vivi lá, conheço. Sabe, o dirigente brasileiro é muito torcedor. Muitos não têm qualidades, não possuem competência para comandar um clube.

– O senhor está magoado? O que aconteceu, professor?
– Tenho 50 anos de futebol, 20 como jogador, 30 como treinador, meio século de bola, meu filho. Será que eu não sei mais nada? Será que eu não conheço mais vestiário? O futebol de hoje quer o bom, o bonito e o barato. Eu não sou nenhum deles. Mas tenho currículo, tenho títulos. Viu o que aconteceu com o Felipão?
– Felipão?
– Todo o peso dos 7 a 1 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 ficou no colo dele. O Felipão é um vencedor, ganhou muito no Brasil. Olha agora na China. Chegou lá e logo vestiu uma faixa.

– O senhor se acha superado como treinador?
– Eu? Não. Eu não bati foto na Europa. É moda fazer reciclagem na casa dos europeus. Não é nada demais. Futebol se faz no Brasil. Dizem que estou superado, ultrapassado, velho. Não é nada disso.
– Temos bons treinadores no Brasil? Temos mesmo?
– Tite é o melhor disparado. Gosto de alguns novos, dos gaúchos Roger e do Argel.
– Dunga?
– Não tenho nada contra o Dunga. Foi meu jogador. Mas o treinador mais indicado para a Seleção é o Tite. Mas não sou eu que escolho.

– Quais são os seus planos?
– Gostaria de ser comentarista. Já tive convites de tevês e rádios. Seria um comentarista muito equilibrado, sempre respeitando os profissionais. Vou criticar claro, mas com respeito. Às vezes a crítica se passa, Bom você sabe, é jornalista. Muita gente comenta o resultado e não o jogo.
– O senhor está triste?
– Tô machucado, tô revoltado. Às vezes penso em ser gestor, executivo, mas antes preciso estudar.
Joel, 66 anos, pai de quatro filhos de dois casamentos, avô de uma neta (um neto a caminho), é uma pessoa simples. Admirado pelos amigos, segue hábitos antigos no seu Rio. Homem do subúrbio, criado em Olaria, mora na divisa das praias de Copacabana e do Arpoador. Gosta de ir até a banca da esquina comprar jornais todas as manhãs, buscar o pão fresco, ingrediente indispensável do lento café regado a leitura, conversar com os taxistas que fazem ponto perto da sua casa e mirar longamente o mar.
– Não pense que eu fui esquecido. Emissoras de rádio e de TV me procuraram, querem saber de mim, o que eu penso sobre o futebol.
– Que bom.

– Meu amigo, desculpe o desabafo. O que você queria mesmo comigo? Vamos falar…
– Vamos. Que tal lembrar um pouco dos seus dias em Porto Alegre?
– Sinto não ter permanecido mais tempo. Gosto do Fernando Carvalho, amigo, irmão. O Vitorio Piffero me emprestou um carro enquanto o meu não chegava. Aluguei um apê de três quartos. Ocupei só um de tanto frio. Sabe como é o carioca, quando vê uma nuvem escura sai correndo.
Se pudesse, Joel falaria um dia inteiro. Longe da bola, sobra tempo.

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Comentários (1)

  • Lucas3 diz: 7 de dezembro de 2015

    É assim Joel,o tempo anda e os que ficam parados no passado são atropelados.O “futebo”l que te orgulhas de ter visto não existe mais ,excetuando Zico o resto fazem parte da história de um esporte que por sorte avançou e avançou muito mesmo.
    Hoje é tempo de habilidade em velocidade , pouco espaço ,pouquíssimo tempo,organização,estudo,treino ,profissionalismo,tecnologia e conhecimento aplicados a preparação física em soma , nada,nada a ver com o futebol que te orgulhas de ter visto.
    Ou avançamos ,ou viramos saudosistas de um tempo que (saibam jovens),NÃO FOI TÃO BOM COMO OS VELHOS FALAM.

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