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Posts do dia 19 junho 2010

Como Dunga passará à História?

19 de junho de 2010 7

Toda vez que vejo o Dunga esbravejando nessa Copa me vem à cabeça a imagem de Nelson Mandela no filme Invictus (ótimo, aliás, recomendo).

Aí alguém pergunta: o que uma coisa tem a ver com a outra? Eu respondo: nada. E tudo.

No filme, temos uma pequena amostra da grandeza de Nelson Mandela. Quando chegou ao poder após ficar 27 anos preso a mando dos que comandavam o regime do apartheid (leia-se os brancos), Mandela poderia (e foi incitado) a retaliar anos de sofrimento, dando o troco nos inimigos. O povo negro clamava por isso.

O que Mandela fez? Pregou (e usou) o poder do perdão. Fez isso para afastar a África do Sul da situação inflamável que vivia (qualquer fagulha jogaria o país em uma guerra sangrenta). E conseguiu, através do exemplo dele, levar a nação à democracia que, se ainda não é perfeita na relação brancos/negros, pelo menos caminha para isso.

O perdão de Nelson Mandela proporcionou aos sul-africanos a condição de principal nação do continente, a ponto de estar recebendo a Copa do Mundo. E a decisão dele no momento em que toda a lógica apontava para uma retaliação simples o diferenciará na História, aquela com H maiúsculo. Mandela foi um dos grandes homens do nosso tempo. Se tivesse ido pelo caminho óbvio, seria apenas mais um dos tantos ditadorezinhos africanos que, ao tomarem o poder, preferiram o caminho mais fácil.

Tá, e o Dunga?

Dunga é um sujeito sofrido, que comeu o pão que o diabo amassou no futebol. Mas é um vencedor, sem dúvida. Só que, diferente de Mandela, Dunga não conhece o perdão. É a pessoa mais rancorosa que eu já conheci. Demonstra isso agora, todo dia na nossa TV. Neste domingo, por exemplo, deixou a todos perplexos com a reação raivosa contra o Alex Escobar, da Globo, na coletiva após a vitória sobre a Costa do Marfim. Coisa de gente que precisa se tratar (atualização).

Dunga odeia a imprensa com todas as forças. Tem ela como carrasco, a culpada por todo sofrimento que ele passou após a Copa de 1990 e, mais recentemente, nos primeiros anos no comando técnico da Seleção. Tem até certa razão por isso, mas escolheu a forma errada de demonstrar. O técnico criou um ambiente bélico na relação com a imprensa no qual o único prejudicado é o torcedor da Seleção, que ele afirma representar. Dunga tem uma visão míope do trabalho dos jornalistas, acha que todos deveriam entoar cânticos ufanistas, vestir a camisa da Seleção e ajudar a colocar para baixo do tapete os problemas. Ou seja, uma assessoria de imprensa. Para Dunga, todos os jornalistas são assessores de imprensa a soldo da Seleção (e o pior é que alguns parecem isso mesmo). Os que preferem outra postura, a independente, de opinar e noticiar, são tratados como inimigos em um front de guerra.

O pior é ver que esse espírito hoje domina os jogadores da Seleção. Julio Cesar, um boa praça por excelência, disse dias atrás que, se não fosse obrigado pelas normas da Fifa, passaria todo o Mundial sem dar entrevistas. Visão contaminada pelo rancor de Dunga, sem dúvida, já que não é aos jornalistas ali que ele fala, mas sim ao torcedor que não pode estar lá no dia a dia da África do Sul. Aliás, essa imagem de “Seleção guerreira” que querem nos impor é absolutamente ridícula.

Tá, e o outro lado? Claro que erra também. Me dói observar de longe o comportamento da imprensa que cobre a Seleção. Depois da farra de 2006, quando só faltou entrevistas de jogadores na banheira de hidromassagem (se é que não teve). alguns se viram num mato sem cachorro com a mudança brusca (e nesse caso absolutamente correta) de postura nessa Copa. Resultado? Os que nada conseguem além dos minutinhos de treino que a comissão técnica libera, ficam chorando as pitangas. Os melhores, e felizmente eles existem, vão buscar coisas mais interessantes da cobertura da Copa (e do país da Copa) do que os chatíssimos, óbvios e enfadonhos treinos da Seleção. Eu não preciso (ninguém precisa) de transmissões ao vivo do coletivo ou de um rachão, nem tampouco informação além de quem vai jogar, se há machucados e pronto (no futebol de hoje, uma jogada ensaiada em segredo é muito importante em jogos tão competitivos, por isso acho válido treinos secretos).

Resumindo: para que o torcedor precisa, os 15 minutos liberados por Dunga são mais do que suficientes. Nesse caso, ponto para o treinador.

O problema é que ele faz isso por rancor, não por convicção de que é o certo. Nas coletivas, o momento que então deveria falar do time, ele apenas despeja o ódio que sente por quem está ali perguntando. E aí repito: quem perde nesse briguinha besta é o torcedor.

Quando ergueu a taça do tetra, em 1994, vocês lembram bem quais foram as primeiras palavras de Dunga? Quem não lembra faça uma leitura labial daquela imagem. Em um dos momentos mais importantes da história vitoriosa do futebol brasileiro, ele lembrou apenas de agraciar os “inimigos” com aquelas belas palavras. Fico pensando o que ele fará se o Brasil vencer a Copa 2010 no dia 11 de julho?

O Brasil pode ganhar a Copa com esse time (pelo que vi até agora, tenho cada dia mais convicção, aliás). Mas como Dunga entrará para a História? Será um vencedor, sem dúvida, até porque estará em um seleto grupo onde estão apenas o brasileiro Zagallo e o alemão Franz Beckenbauer (campeões como jogadores e técnicos). Mas estará no mesmo nível deles?

É hora de voltar à comparação com Mandela. O Dunga bélico, que vê teoria de conspiração em tudo, que só encontra motivação se tiver inimigos para enfrentar, e que na hora das vitórias só pensa em retaliar os desafetos, está mais para ditador do Congo do que para Nelson Mandela. Se tivesse optado (e talvez até ainda exista tempo para isso) pelo perdão aos que lhe causaram tanto sofrimento no passado, ele hoje, mesmo impondo o regime de disciplina militar na relação com a Seleção, que é correto, certamente seria lembrado apenas pelo profissional competente que é, com números incontestavelmente vitoriosos (e na comparação com Maradona, por exemplo, o grande personagem da Copa até aqui, daria goleada, pois é muito mais treinador). Mas como prefere garantir seu lugar na História à força, terá sempre ao lado um porém. Não precisava ser assim.