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O Brasileirão dos hermanos

30 de setembro de 2010 7

Meias típicos, que honram a camisa 10 que vestem, são cada vez mais raros no futebol atual. No Brasil, mesmo, dá para contar nos dedos.

Pelo jeito, porém, os poucos que sobraram produzindo este artigo de luxo falam espanhol e são nossos vizinhos adorados. Pois é, os hermanos argentinos. Lá, sobram camisas 10 de qualidade. O melhor do mundo atual é argentino, Messi, e ostenta a 10 que já foi de Maradona. Por ele estar lá, outros qie brilhariam em qualquer outro lugar, como Riquelme, estão fora. Sem falar em Verón, que vira e mexe é sonho de consumo de times brasileiros.

Por falar em Brasileiro, por aqui a moda é ter um argentino para chamar de seu. Um jogador, que fique claro… Também pudera: são eles, os argentinos, que estão roubando a cena no atual Brasileirão. Três deles disputam a condição de melhores do campeonato: D’Alessandro (Internacional), Montillo (Cruzeiro) e Dario Conca (Fluminense). O que não seria inédito, nem para os argentinos e nem para um estrangeiro em geral. Em 2005, Carlitos Tevez deu as cartas no título corintiano. E no ano passado o sérvio Petkovic, velhinho, cercado de desconfiança, foi o maestro da arrancada do Flamengo para o título.

Dos três destaques atuais, apenas D’Alessandro voltou recentemente a ser convocado pela seleção argentina. E também, a meu ver, é o único que não deve brigar pelo título brasileiro. Mas por um motivo mais que justo: ele já comandou o Inter na conquista do bi da Libertadores e está focado no Mundial de Clubes, em dezembro (como outro hermano que é ídolo por lá, o volante Guiñazu, e o goleiro Pato, banco). Dos outros dois destaques do post, se Flu ou Cruzeiro ficarem com o título, é certo que será pelas atuações de Conca ou Montillo.

Conca já brilha no Brasil há anos. Primeiro no Vasco, depois no Flu. Sempre foi sonho de consumo de Muricy Ramalho quando este ainda estava no São Paulo, sofrendo sem um meia clássico. Agora que o comanda, justifica as razões: nas mãos de Muricy, Conca vive seu melhor momento. Já Montillo estava lá dando sopa na Universidad de Chile, semifinalista da Libertadores. Arrasou com o Flamengo e foi um dos melhores da competição. O Cruzeiro foi mais esperto, chegou primeiro e não se arrepende. Em poucos jogos, já virou ídolo da torcida, que tem identificação enorme com os argentinos desde o lateral Sorín. Tem até outro argentino lá, Farias, mas esse é apenas um atacante normal.

Os demais times carecem de um meia desses, o verdadeiro camisa 10. O Santos tinha talvez o único brasileiro de primeira linha atual, Ganso, mas ele se machucou e não joga mais o Brasileirão. O Palmeiras não tem argentino, mas sim um chileno que nasceu na Venezuela (Valdívia). Apesar da fama de mago, não está no nível dos outros três. De resto, o que temos? Diego Souza, injustamente o craque do Brasileirão ano passado pelo Palmeiras, mas que esse ano despencou de nível com a camisa do Galo? Douglas (Grêmio), Paulo Bauer (Atlético-PR), Bruno César (Corinthians)? Pra mim, todos jogadores voluntariosos, mas longe da condição de craque. E tem time que nem isso tem, geralmente tem um volante improvisado por ali. E outra curiosidade: os times dos argentinos são os que têm maior qualidade no setor, inclusive no banco. O Inter, se não tem D’Ale, pode usar o bom Andrezinho ou improvisar o excelente Giuliano (ainda será craque top, anotem). O Cruzeiro tem Roger no banco ou dividindo as funções com Montillo, exatamente o que acontece no Flu com Conca e Deco.

Depois de uns anos aí em que a teoria de que os volantes seriam o futuro do futebol, me alegra saber que times que ainda apostam em craques de verdade se dão bem na escolha. Mesmo que a gente tenha que aturar os argentinos brilhando no nosso quintal.

Comentários (7)

  • emerson diz: 30 de setembro de 2010

    Não acho o Conca essa bola toda. Mais dia, menos dia o Fluminense vai virar o cavalo paraguaio e a casa vai cair, igual ao time do Palmeiras no ano passado que tinha aquele monte de jogadores enganadores. Acho o Valdívia (jogador de seleção), o Montillo e o D`alessandro muito melhores que o Conca.

  • Eduardo M diz: 30 de setembro de 2010

    Braga ,

    Estamos deficientes na formação de meias habilidosos há tempos. Não é de hoje ou de cinco anos atrás. Já vem da década passada. O problema é que não há um fato isolado a ser combatido , mas sim uma mentalidade que precisa ser corrigida , como bem disse o Muricy , ainda na época de técnico do São Paulo , no programa “Bem, Amigos”.

    A base dos principais times do Brasil sempre teve como caracteristica principal a presença de ex-jogadores do passado. Aqueles boleiros , de jeito simples , mas que tinham o olho clinico para avaliar jogador. Como bem disse o Casagrande , o departamento amador de um clube hoje mais se parece com um ambiente de uma grande multinacional. Só homens de gravatas analisando numeros.

    A isso , some-se a inacreditavel “necessidade de titulos” nas divisões de base. Isso é um absurdo. Trabalho de base bem feito se mede pelas revelações e não por eventuais titulos conquistados. Há uns três ou quatro anos atrás , o Corinthians foi bicampeão da Taça São Paulo de Juniors e o Neto , hoje comentarista da Band , soltou os cachorros no ar. Sabe por que ? Simples. O time campeão do ano anterior tinha subido para os profissionais ( Dentinho , Willian e outros ). OK. Mas no ano seguinte , a diretoria , para colocar mais um titulo no curriculum da gestão , trouxe os garotos de volta dos profissionais para jogar a Taça S.Paulo. PARA QUE ????? ISSO MOSTRA BEM A MENTALIDADE QUE SE INSTALOU NA BASE.

    Após a segunda metade dos anos 90 , o futebol brasileiro viveu o boom dos Centro de Treinamento. OK. Justo que cada time tenha o seu local para trabalhar. Só que isso tornou-se um verdadeiro fetiche entre os cartolas. Fazer um CT era mais importante do que qualquer outra coisa , pelo menos para a vaidade dos cartolas , já que a placa que era colocada na parede no dia da inauguração , gravará o nome do presidente para sempre.

    O futebol passou a ser assim. Levanta-se CT , faz-se parcerias com empresários que irão colocar os jogadores ali para vender e dividir o lucro com o time , e pronto. O cenário perfeito , COM GRANDE AJUDA DA IMPRENSA , foi montado. Os grandes olheiros perderam vez no futebol brasileiro. Os empresários , que querem sempre jogadores altos para poderem vender para a Europa , mesmo que para o Chipre , passaram a ser os “grandes parceiros” dos clubes e seus CTS maravilhosos.

    O feitche pelo CT é tamanho que o Globoesporte promoveu o “campeonato de CT” , para ver qual é o melhor do país. Deu…Atlético MG , o penultimo colocado.

    Em 1981 , o Fluminense comprou 150 mil metros quadrados de area em Xerem , bucolico distrito de Petropolis , ao pé da serra , para erguer o seu CT e tirar o futebol das Laranjeiras , atendendo a uma reivindicação da ala conservadora dos associados do clube , que não suportam o clima do futebol. Durante 15 anos , tudo que tinha ali eram campos e mais nada. O time tricampeão carioca e campeão brasileiro usou Xerem nos anos 80.

    Na segunda metade dos anos 90 , com uma campanha criada entre os sócios , o clube construiu o hotel-concentração e toda a infra necessária para o futebol , com oito campos oficiais. Mas preferiu usar para a base. Ex jogadores como o meia Gerson “Canhotinha de Ouro’ e o zagueiro Pinheiro , foram coordenadores do trabalho por anos. Nessa época , surgiram os meias Roger e Carlos Alberto , os volantes Arouca e Diego Souza , o atacante Lenny e o lateral Marcelo. Inexplicavelmente , o trabalho da base passou a ser feito de forma politica , com o afastamento dos idolos e a chegada de pessoas ligadas a empresários.

    Como forma de calar a boca dos adversários , a diretoria construiu um outro hotel , dobrando a capacidade de leitos , fez uma segunda e maior academia de musculação e por ai foi. A infra melhorou e muito. O campo principal virou um mini-estádio para 4 mil torcedores , com 4 vestiários , e passou a receber todos os jogos da base. MAS O FORMADOR DO MATERIAL HUMANO SAIU.

    O que aconteceu ? Xerem parou de revelar novos talentos. Ah , vão dizer alguns , acabaram de sair de lá os laterais gemeos Fabio e Rafael , que estão no Manchester Utd e os atacantes Alan , Maicon e W.Silva. Sim , mas eles chegaram lá há dez anos atrás , quando o Gerson , o Pinheiro e o Altair ainda estavam coordenando por lá.

    Hoje , nas divisões de base no Rio , o Fluminense não manda mais. O Vasco eo Botafogo vem eliminando sistematicamente o tricolor em todas as categorias. O Vasco , ainda na era Eurico , fez uma mudança drástica , trazendo o experiente técnico Nelsinho Rosa , campeão brasileiro com o Vasco em 1989 e duas vezes carioca com o Fluminense , em 1980 e 1985 , para coordenar o trabalho. Sem CT , sem metade da estrutura fisica do Fluminense , mas com o olho e o trabalho de quem conhece. Já sairam de lá o Alex Texeira , o Philipe Coutinho , Alan Kardeck, o Pablo ( vendido cedo demais para a Espanha e agora repatriado pelo Cruzeiro ) e no time de cime hoje tem vários atletas formados no clube.

    Do blogueiro: Eduardo, tua avaliação é muito boa. Penso da mesma forma, o profissionalização e a exigência de títulos na base, além da figura do empresário “rapinando” talentos antes mesmo de eles chegarem aos clubes ajudaram a formar esta situação.

  • Eduardo M diz: 30 de setembro de 2010

    Na Argentina , a situação é a mesma do Vasco…

    As instalações fisicas , pelo menos da base , são muito inferiores a do futebol brasileiro. Mas há o olho de quem conhece , de quem já jogou. Não existe essa proliferação do terno e gravata e das maquinas de calcular nos departamentos de base. E , nem por isso , eles deixam de exportar. Mas o trabalho lá não é feito orientado para vender o atleta , mas sim para formar um bom jogador. A venda dele será consequencia.

  • Eduardo M diz: 30 de setembro de 2010

    Pois eu vou discordar do amigo lá de cima. Acho o Conca muito mais jogador que o Valdivia.

    E usar como argumento que o Valdivia é jogador de seleção é muito forçado. Até porque , é do Chile e não da Argentina , e ele é reserva há mais de três anos.

    O Conca é aquele tipico jogador que o futebol carioca e paulista revelava até os anos 80. Era o jogador que vinha do futebol de salão. Mas , com a cultura do CT , isso acabou.

    Jogador agora tem que ser alto e forte , como gostava o Minelli.

  • josé ernani freitas diz: 30 de setembro de 2010

    Braga,
    Sua análise, na minha modesta opinião, é lúcida e pertinente, os hermanos merecem um
    capitulo à parte no futebol brasileiro atual. Faço apenas um pequeno reparo: quem deu as
    cartas no Campeonato de 2005, foram os árbitros e a CBF.

    Do blogueiro: Observação pertinente. E justa.

  • emerson diz: 1 de outubro de 2010

    Tá bom, até acho o Conca bom, mas não dá pra endeusar o cara. Tem muito jogador melhor por aí, não me lembro de tanto auê em cima do Conca nos outros campeonatos. É só uma fase boa, vai passar.

  • Eduardo M diz: 1 de outubro de 2010

    Emerson ,

    Ninguém está colocando o Conca como craque. Não.

    Ele apenas está acima da média dos jogadores aqui no Brasil.

    Ano passado , ele fez um segundo turno brilhante. Foi , junto com o Fred e o Maicon , o motor da arrancada do Fluminense. E foi eleito o segundo melhor jogador do campeonato pela imprensa.

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