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O futuro dos Jasc e o fiasco de Blumenau

21 de novembro de 2011 12

Sou do tempo das carreatas em caminhões dos bombeiros com as delegações blumenauenses que voltavam dos Jasc com mais um título. Eu era criança e achava tudo muito legal, o povo vibrava, era uma demonstração do orgulho blumenauense diante da supremacia esportiva sobre as cidades maiores do Estado.

Hoje, entendo que aquilo era, prioritariamente, um teatro com fins políticos. Não dos atletas, claro. Vivíamos uma espécie de ditadura dos Jasc: vencer era uma obrigação do prefeito, sob pena de perder prestígio político e, em decorrência disso, votos e eleições. A pressão era enorme.

Fui atleta nos Jasc, sei bem qual é a importância dos Jogos. Mas há muito tempo já defendo que tudo ali precisa ser repensado. A competição, hoje, não tem identidade. Não se sabe se querem ser parte decisiva na formação do esporte catarinense ou apenas um show. Do jeito que estão, ganhar não tem serventia alguma.

Aí, chegamos ao fracasso blumenauense na edição que terminou sábado, em Criciúma. A pior colocação da cidade em 50 anos, um quarto lugar que se repetiu uma única vez, na segunda edição dos Jogos, em 1961. Ou seja, é plenamente aceitável considerar esta a pior campanha de Blumenau na história. E há duas formas, basicamente, de analisá-la:

1) O enfraquecimento da formação de atletas na cidade. Se for verdade, é preocupante. E como dinheiro não faltou (o orçamento da FMD aumentou nos 5 anos), seria um problema de gestão dos recursos. Esta é uma leitura. Tem quem a defenda como única “culpada”.

2) A outra: é uma questão de mudança de foco.  Há muito tempo defendo que ganhar os Jasc apenas por ganhar, não significa nada. Blumenau abandonou a tática (nefasta, na minha opinião) de contratar atletas apenas para os Jogos, o que é comum e até moda em outras delegações. Hoje, vai com a base e pronto. Se der, deu.

O quarto lugar em Criciúma me parece efeito colateral desta decisão que, a meu ver, é acertada. A principal função dos Jasc é formar atletas, despertá-los para o esporte. Ganhar, de verdade, não é o mais importante (combina bem com o Barão de Cobertain e seu “o importante é competir”). É o primeiro estágio para, mais adiante, o atleta tornar-se de alto rendimento, buscar conquistas maiores e, por que não, ganhar dinheiro com isso.

Mas não tem sido bem assim. Cidades preferem mascarar resultados importando atletas que não tem ligação alguma com os Jasc. A anfitriã Criciúma, por exemplo, contratou 132 atletas, isso mesmo! Alguns de renome nacional e, pasmem, até dois norte-americanos. Conseguiu o inédito vice-campeonato, mas a que custo? A base da cidade sentiu-se prestigiada? Está orgulhosa com o resultado? Outro exemplo: Concórdia venceu o tênis de mesa masculino contratando o melhor do país na modalidade. Pois ele veio, competiu, venceu e no mesmo dia rumou ao aeroporto e embarcou para a França, onde mora. Pergunto: isto tem a ver com o espírito formador de atletas dos Jasc?

Durante muito tempo, como ex-atleta, cobrei esta postura de Blumenau. Desde quando ainda ganhava todo ano. Não é agora, que a cidade tenta fazer isso, que vou descer a lenha por um quarto lugar que alguns tentam ler como uma tragédia. Concordo com os dirigentes quando dizem que “não adianta ganhar os Jasc todo ano e não ter lugar para guardar os troféus”. Sim, os 39 troféus de Blumenau estão encaixotados num galpão, porque não há lugar para eles. E é preciso ter. Se há uma história de conquistar que pode inspirar novas gerações de atletas, ela não pode ficar escondida.

E digo mais: adianta ganhar os Jasc e depois o processo não ter continuidade? Hoje, Blumenau forma atletas que, quando prontos para brilhar, vão fazer isso em outros lugares. Prefiro mil vezes ir só com a base para os Jasc, perder se for o caso, mas ter aqui times fortes disputando ligas nacionais de vôlei, basquete, futsal, handebol, nadadores e atletas competindo aqui. Mas fortes mesmo, não apenas para fazer figuração. Porque se nos Jasc o importante é competir, no alto rendimento o importante é GANHAR. Formação de atletas nós temos, falta uma conexão com a iniciativa privada (sempre ela) para investir na continuidade do processo aqui, não lá fora. Joinville e Florianópolis fazem isso, e podem ter certeza que isso sim, como blumenauense, me dá uma pontinha de inveja deles, e não terem ficado na frente nos Jasc. A propósito, perguntem lá em Floripa o que dá mais orgulho, o tricampeonato nos Jasc ou o tetracampeonato da Cimed na Superliga de vôlei masculino? Perguntem lá. Mas só com dinheiro público não se chega até isso. Não mesmo.

Em resumo: o resultado de Blumenau em Criciúma é anormal, por isso tanto espanto. Mas não há nada de trágico nele. Não há remédio no mundo que não seja amargo. Enquanto outros estão na tática que Blumenau usou há 15, 20 anos, de ganhar os Jasc a qualquer custo, por aqui já deu pra perceber que isso não tem efeito prático e acaba por destroçar o esporte da cidade (aquele que a população pode perceber e até usufruir). Se há uma cidade que pode se dar ao luxo de abrir mão dos Jasc para se lançar novamente na vanguarda, começar uma tendência que lá na frente vá fazer os Jasc retomar suas origens, esta cidade é Blumenau. Mesmo que Floripa, vamos supor, passe a ganhar todo ano, só alcançaria a supremacia blumenauense nos Jogos em 2043! Até lá, há muito tempo para reestruturar tudo que está errado aqui e ainda voltar com folga a mandar no esporte amador catarinense.

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Comentários (12)

  • Walmir Henschel diz: 21 de novembro de 2011

    É correta a decisão de parar de gastar dinheiro com atletas de fora, somente para ter mais um título dos JASC. Em um futuro próximo, prefeitos de outras cidades que se utilizam deste recurso para se autopromover, também vão enxergar que isto não traz benefícios para o povo da cidade. Não teria graça nenhuma saber que o Brasil foi campeão da copa do mundo, usando vários jogadores da Argentina, Holanda ou outro país somente para chegar ao título.

  • Juliano diz: 21 de novembro de 2011

    Rodrigo,
    acho que sua análise está muito coerente, bem completa e fundamentada. Não há o que se possa escrever diferente, e eu duvido que alguém faria melhor.
    De tudo que colocastes, eu só gostaria de destacar um ponto: o enfraquecimento da formação de atletas na cidade. Não acompanho todas as modalidades a fundo. Na verdade, acompanho as que posso (Basquete, Futsal, Volei, Remo) como espectador. Mas, acho que Blumenau (seja iniciativa privada, seja poder público) poderiam olhar com mais carinho pra nossa estrutura. Hoje, Blumenau depende essencialmente dos clubes e entidades que liberam espaços e cedem estrutura mediante parcerias: SESI, Vasto Verde, Guarani, FURB. Blumenau, salvo o Galegão, não tem locais para desenvolvimento e treinamento. Me parece que o próprio prédio da Fundação de Desportos foi cedido pro Pró-Família.
    Enfim, e quando essas parcerias acabarem? E se esses clubes e entidades pararem de apoiar ou por algum motivo não puderem mais ceder seus espaços?

    Outra coisa, onde concordo contigo, é efetivamente as equipes de alto nível. Hoje temos apenas o Handebol Feminino que faz frente as melhores equipes nacionais. E, como sabemos, o Handebol não tem (ainda) a mesma visibilidade de um futebol de salão, de um basquete ou de um volei. Joinville, Floripa, Jaragua (num passado recente) e agora Rio do Sul tem equipes disputando ligas nacionais, e fazendo bonito. Há quando tempo nosso volei só faz figuração na superliga masculina? E o Futsal e o basquete, que não jogam ligas nacionais há mais de 15 anos? Olha a repercussão mundial que Jaraguá do Sul ganhou com o Futsal Masculino. Além do legado que há hoje (arena de grande porte, escolinhas e categorias de base) o nome da cidade foi longe, o que indiretamente gera divisas, atrai investimentos, turismo, e por aí vai.

    Blumenau faz certo ao valorizar a base, seja na OLESC, nos Joguinhos, JASC, Parajasc, etc. Mas só isso não basta. Precisa também dar estrutura pra essa base, e precisa sim investir em equipes de ponta, pra que esses atletas da base tenham onde exercer uma profissão e que possam ficar na cidade.

  • Guto Oliveira diz: 21 de novembro de 2011

    Se eles não têm lugar para guardar os troféus, é verdade que o prédio em que eles estavam foi cedido para o Pro Família? Tomara que não seja verdade…

    Do blogueiro: É verdade

  • david it central diz: 21 de novembro de 2011

    Acho q decisão de investir na Base acertada!! Afinal pra mim não vale nada a cidade ser campeão dos jogos e as crianças daqui não terem uma quadra ou piscina onde praticar esporte!!! o investimento tem que ser pra população, e não trazendo atletas a peso de ouro apenas pra ganhar os jogos!!

  • Giovani Vitória diz: 21 de novembro de 2011

    Esse debate veio em boa hora. Ganhou proporções maiores a partir do péssimo resultado que Blumenau obteve nos JASC. Mas posso afirmar, sem medo de errar, que o resultado alcançando em Criciúma é fruto de uma série de equívocos administrativos ao longo dos últimos anos, especialmente nos últimos seis.

    O problema no esporte de Blumenau não é o enfraquecimento da formação de atletas
    da cidade. Reside no “amadorismo” com que os dirigentes esportivos fazem a gestão dos recursos.

    Apesar do orçamento da entidade ter aumentado, sugiro que investiguem se também houve esse aumento nos orçamentos da iniciação esportiva e nos Jogos da Primavera, no trabalho de revelação de novos talentos.

    Revelam muito poucos atletas, pois se tratam de projetos focados mais na inclusão social que propriamente no trabalho de base. Então qual a razão de investir? incoerente com o discurso que os dirigentes estão adotando para justificar o fiasco no JASC.

    As estruturas estão superadas. O Galegão, por exemplo, não tem quadra 40 m x 20 m. Poderia ter tido se não tivessem tido pressa nas obras de revitalização. Era ano eleitoral. Os mais de 200 troféus conquistados em diversas competições mofam numa sala escura e úmida do ginásio.

    Como querem formar atletas de base sem estrutura adequada, sem a valorização dos mesmos e sem que eles tenham um exemplo para se espelhar? Nossos atletas contam com uma academia adequada, treinam em espaços adequados? Talvez, atletas como a Josiane Soares possam responder. Onde ela treina seus arremessos que a levaram para vários Pans?

    Defendo, sim a necessidade de termos equipes de ponta e com investimentos públicos e privados. Veja o bem que o handebol feminino e o voleibol masculino fizeram para a cidade, na história recente. Agora teremos que ver, inconformados, nosso vôlei disputando a Superliga por Londrina.

    Essa desculpa que Blumenau disputou a competição com atletas da base não me convence. Renovou, mas muito pouco e somente em algumas modalidades. Conheço, convivi com essas modalidades desde 2005 e sei o que estou falando.

    E, por fim: debater a identidade dos JASC e a proliferação de atletas “importados” é chover no molhado. Isso ocorre desde a década de 70. Como todas as principais cidades. Blumenau não ensinou nada para ninguém, mas foi a que mais “importou” no passado e não aprendeu a renovar.

    Precisamos ter, sim, os “importados”. Sob pena desta competição não sobreviver e não atrair o interesse da imprensa e torcedores. Não fosse isso, os organizadores (CCO e Fesporte) não teriam convidado estrelas nacionais para visitar os JASC.

  • Renan diz: 21 de novembro de 2011

    “A anfitriã Criciúma, por exemplo, contratou 132 atletas, isso mesmo! Alguns de renome nacional e, pasmem, até dois norte-americanos. Conseguiu o inédito vice-campeonato, mas a que custo? A base da cidade sentiu-se prestigiada? Está orgulhosa com o resultado?”

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    E quanto aos atletas estrangeiros que Florianópolis trouxe para ajudar na conquista do título, porque não citou esse caso Braga? você não está sendo hipócrita? ou não sabia disso? só porque as cidades que lhes “interessam” não fizeram o pódio agora vocês ficam diminuindo o valor da conquista de outra cidade? porque não fala das medalhas e conquistas que Criciúma obteve com atletas pratas da casa?

    Do blogueiro: Renan, nada disso. Citei os exemplos mais gritantes, Floripa também contrata, mas não são tantos assim. A questão aqui é o contraponto com Blumenau, que decidiu banir esta tática de trazer gente de fora. Não precisas procurar chifre em cabeça de cavalo, não vais achar. Abraço

  • Mateus diz: 21 de novembro de 2011

    Que feio! Isso tudo só pra aparecer? Achei que o JASC fosse feito para enaltecer atletas da região e não os de fora.

  • JonasPW diz: 21 de novembro de 2011

    E o que falar das etapas regionais colocando grandes cidades como Itajaí, Blumenau e Joinville num mesmo grupo, cada uma eliminando atletas e equipes uma das outras enquanto que Florianópolis, num grupo fraco, pode classificar um contigente muito maior de atletas do que as outras cidades? E o que falar sobre a contagem de pontos para definir o vencedor do JASC? Por que nas olimípiadas mundiais o sistema de medalhas é utilizado e no JASC não? Troféus, pontos para definir o campeão geral? Que absurdo! Ora, é quase certo que quem tem a maior delegação fará muito mais pontos que aqueles que tem delegações menores. Por fim, e o critério de divisão de recursos da FESPORTE? Alguém sabe quem fica com um terço dos valores? Uma chance!

  • Ernandez diz: 21 de novembro de 2011

    Ao Jonas PW
    O sistema de pontos nos JASC e não o numero de medalhas de ouro, é para
    que uma cidade não invista tudo em natação, atletismo (onde um pode conquistar
    sozinho varias medalhas de ouro por exemplo) e deixariam de lado modalidades
    coletivas como volei, basquete, futebol (onde voce invistiria em mais de 10 atletas
    para levar uma unica medalha)
    Se o criterio fosse o Olimpico pelo numero de medalhas, Eu como prefeito iria trazer
    um nadador que me garantisse 4 medalhas de ouro ou prata e não iria me matar em gastar
    com uma equipe de basquetebol, que iriam lutar por uma unica medalha.

  • Cindy Danielski diz: 21 de novembro de 2011

    Eu sou dessa mesma época. Época em que o atleta se esforçava para ir aos JASC e sentia-se orgulhoso por trazer medalhas para a cidade. Orgulhoso por ficar em 1o lugar no geral e sair desfilando em cima do carro do Corpo de Bombeiros. Muitos amigos meus foram, lutaram e ganharam. Vejo que falta muita motivação nos esportes. Na época do meu colégio, você podia escolher qualquer um para fazer e gratuito. Hoje, qualquer esporte é pago e dentro da escola particular. É assim que querem formar atletas? Isso não é incentivo, é tentar ganhar mais dinheiro. Estou muito triste com o resultado da cidade e rezo para que volte aos tempos onde o atleta era visto como um ATLETA.

  • Renan diz: 22 de novembro de 2011

    Beleza Braga, também não concordo com essa “importação” de atletas de outros estados e até do exterior, mas não procurei chifre, apenas entendo que não é só Criciúma que adota essa tática (e também entendo que você citou Criciúma apenas como um, dos vários casos, para efeito de comparação) . No mais é isso aí mesmo, principalmente quanto ao caso de Blumenau, que deve repensar.
    Abraço e Dá-lhe Tigre!!!

  • Lico Schimmitz diz: 22 de novembro de 2011

    Fico impressionado com comentários parciais reforçando que Blumenau deveria voltar a ganhar os Jasc, desfilar em carro aberto pelas ruas da cidade…
    Pelo tamanho da nossa cidade, merecemos coisa bem melhor. Blumenau precisa pensar global, colocar times de expressão no cenário nacional (Jaraguá do Sul, Floripa e Joinville já fazem isso). Ficar lenhando a cidade por deixar de ganhar os Jasc me parece mais briga política do que objetivamente querer algo melhor para Blumenau. Por favor, vamos evoluir a cabeça. Faz bem.

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