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Entrevista com Guga Kuerten

31 de janeiro de 2013 22

Nesta quarta-feira, tive a oportunidade de encerrar uma pendência profissional: até então, nunca tinha tido a oportunidade de conhecer e entrevistar Gustavo Kuerten, um dos poucos personagens do esporte dos quais realmente sou fã incondicional (e quem não é?). Guga esteve em Blumenau para visitar a academia Fórmula, recém inaugurada no Shopping Neumarkt e da qual é um dos sócios em Santa Catarina. Em meio aos muitos pedidos de fotos de fãs e de quem estava na academia, e antes de se arriscar numa esteira para manter a forma, o maior catarinense vivo (na minha opinião) conversou comigo e concedeu a entrevista abaixo, que também está nas páginas do Santa desta quinta-feira. E falou de tudo um pouco, como vocês podem conferir.

Por que, afinal, uma academia para estrear no mundo dos negócios?

Guga Kuerten – Era um desejo antigo, na verdade. Esse ambiente tem tudo a ver com a minha realidade, envolvido com o esporte desde muito cedo. Sempre quis participar de algo assim, dar esta oportunidade às pessoas de ganhar qualidade de vida e criar hábitos saudáveis. Eu não tive isso. Lembro muito bem da primeira vez que estive em Roland Garros, com 15 anos, olhava aquelas academias maravilhosas, moderníssimas, e aquilo estava muito longe da minha realidade. Meus treinos físicos eram na base do improviso, uns pesos comprados pelo Larri (Passos) e só. Até corri pelos corredores do prédio dele, assim mesmo. Enfim, era muito diferente. Surgiu esta oportunidade para unir fatores, não tinha como não me interessar.

E esta tendência de academias em shoppings, também está vindo do exterior para cá?

Guga – Talvez, mas penso que as pessoas hoje querem a melhor logística possível, poder unir uma coisa a outra. Shoppings são parte muito presente da realidade de todos nós. E ainda tem a questão da segurança, infelizmente. Nossas cidades cada vez mais nos empurram para ambientes fechados, que nos garantam o mínimo de conforto e segurança. Penso que é uma tendência mesmo.

E serão outras academias depois dessa aqui em Blumenau?

Guga – Estamos abrindo quatro unidades: duas em Floripa, uma na ilha e outra no continente, aqui em Blumenau e em Joinville. A próxima, que já estava nos planos, deve ser em Criciúma. Depois, naturalmente haverá um tempo para avaliarmos o mercado, se os objetivos serão atingidos. Dependendo disso, podemos sim abrir outras unidades.

Vir a Blumenau te remete aos primeiros passos no tênis?

Guga – Inevitavelmente. Tenho uma ligação muito forte com esta região. Foi aqui que eu comecei a ter noção do que era o tênis profissional. Além disso, admiro muito a determinação do povo daqui, acho que levei um pouco disso para a minha vida. Vir até aqui sempre me faz muito bem, por tudo isso fiz questão de ajudar naquela tragédia de 2008, com a construção de algumas casas para famílias que tinham perdido tudo.

Afinal, o tênis mudou?

Guga – Ah, com certeza. Desde a época que me despedi, ali nos últimos anos que joguei em alto nível, 2003, 2004, as mudanças já eram perceptíveis. Hoje, o tênis é muito mais baseado na força física, mas ao mesmo tempo é muito mais refinado tecnicamente. Olha esses caras, um Djokovic, um Federer, esses caras jogam partidas de cinco horas decididas nos detalhes, e sem baixar a qualidade do jogo. E no dia seguinte fazem tudo outra vez! A grande mudança é essa, a exigência técnica e física é extrema.

O Fernando Meligeni (ex-tenista, atualmente comentarista) disse no blog dele após a final do Aberto da Austrália (domingo, vencido pelo sérvio Novak Djokovic) que estamos entrando na era Djokovic x (Andy) Murray. Concordas?

Guga – Acho que sim. O momento é deles, o Nole (apelido de Djokovic entre os tenistas) é um fora de série e o Murray está no auge, demorou a chegar lá em relação aos demais tops, mas chegou lá. Mas acredito que o Federer e o Nadal, que está voltando, ainda vão incomodá-los durante um bom tempo.

Roger Federer é o maior tenista de todos os tempos?

Guga – Essa é difícil. Ele é excepcional, isso é fato. E vai inevitavelmente quebrar todas as marcas em termos de títulos, de Grand Slams, enfim… Se voltarmos um pouco mais no tempo, houve tantos jogadores incríveis. Veja um Rod Laver (tenista australiano dos anos 1960, para muitos considerado o maior de todos os tempos), um Pete Sampras, tantos outros. O que eu costumo dizer é o seguinte: se fizermos uma lista dos 10 melhores, Federer estará lá. Se diminuir para cinco, ele estará lá. Entre os três, também. Se ficarem só dois, também (risos). O cara é fera.

Esta contusão do Rafael Nadal, que está desde junho fora do circuito, te faz lembrar de tudo que você passou?

Guga – Não tem como não pensar, né. Mas ele está voltando (jogará semana que vem no Chile e o Brasil Open, em São Paulo, a partir do dia 9), vamos ver como será. Certeza que ele vai ter que correr muito atrás da máquina para alcançar estes outros caras que estão voando. Mas ele (Nadal) é muito forte, física e psicologicamente. Vai superar.

O fato de vocês dois terem tido lesões até de certa forma parecidas (ainda que a do espanhol seja no joelho), e serem jogadores essencialmente de saibro, é apenas uma coincidência?

Guga – Sim, não vejo de outra forma que não uma coincidência.

No fim de semana o Brasil volta à elite da Copa Davis (enfrenta os EUA, na Flórida) pela primeira vez desde que você abandonou as quadras. Qual o real estágio do esporte no país?

Guga – A evolução é lenta, não é num passe de mágica que vamos formar jogadores em larga escala. Mas ao menos agora enxergo um trabalho sendo feito, com planejamento, organização. Os frutos virão, mas é preciso ter paciência.

Você costuma ser bem atuante nas redes sociais, e de vez em quando posta opiniões bem contundentes sobre assuntos diversos, não foge de polêmica. O que você acha, por exemplo, dos rumos que estão tomando a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 no Brasil?

Guga – Infelizmente, a conclusão óbvia é que o Brasil não está preparado para Copa e Olimpíada. Falta maturidade para aproveitar o que eventos dessa magnitude têm de melhor e de fato provocarem mudanças efetivas no país. Não vamos ter isso. Teremos estádios de mais, aeroportos, estradas, transporte de menos. E esse seria o legado que colocaria o país em outro patamar. Repito, nos falta maturidade para entender isso. Teremos Copa, Olimpíada, sem dúvida serão muito legais. Mas pouco ficará depois que eles acabarem, e isso é uma pena. O Brasil perdeu a chance.

Pensa em ser dirigente esportivo algum dia?

Guga – Não.

Nunca?

Guga – Nunca pensei nisso. Hoje, não vejo possibilidade. Mas gosto de ver esportistas assumindo funções importantes.

O que você pensa de dirigentes, principalmente no esporte, que se perpetuam no poder?

Guga – Sem dúvida não é bom, acabam personificando entidades que deveriam ser pautadas pelo pensamento plural. Mas nem de longe acho que esse seja o nosso maior problema no esporte.

Como o Guga, ídolo indiscutível, avalia o caso Lance Armstrong?

Guga – (Pensativo) O que posso te dizer, o cara decepcionou a todos, é uma fraude. É preciso separar o lado esportivo da questão social, o trabalho dele contra o câncer. Isso ainda consigo enxergar que tenha sido sincero, e não merece cair na mesma vala, ajuda pessoas no mundo todo. Falando apenas de esporte, a atitude dele deixou toda uma modalidade importante sob suspeita, pessoas que são honestas, que competem ou que praticam por prazer e se espelhavam nele. Isso é muito triste, é o contrário do que deve ser o esporte. Por isso nem consigo mais enxergá-lo como alguém do esporte, agora os problemas dele são com a Justiça.

Comentários (22)

  • Russo diz: 31 de janeiro de 2013

    Parabens pela entrevista, ele é O CARA. Quantos bons exemplos ele nos ensina,veja com que simplicidade ele te recebeu (ver foto da materia) . Rodrigo, eu tive o prazer de ganhar do Guga um par de tenis que ele usou em competições, que eu guardo com muito orgulho.Oportunamente te mostro pois atualmente moro a poucos minutos da redação do Santa em Blumenau.

  • Celio diz: 31 de janeiro de 2013

    PARABENS!

  • Silvério diz: 31 de janeiro de 2013

    O maior esportista brasileiro de todos os tempos, estamos mais perto de ter alguém que faça o que fez Pelé ou Senna, do que um brasileiro repetir Guga.

  • Marco Rotta (@marcorotta) diz: 31 de janeiro de 2013

    Baita entrevista, Braga. O Guga é uma pessoal muito querida por todos.

  • Guilherme Apolinario Testoni diz: 31 de janeiro de 2013

    Realmente esse cara é um icone do esporte brasileiro. Também sou fã dele e concordo com você Braga, que ele é o maior catarinense vivo.
    Tanto profissional como pessoalmente o Guga da show!
    Achei muito interessante o ponto de vista dele sobre os eventos que irão se realizar no Brasil em 2014 e 2016. Sintético e realista, ele tocou num ponto muito importante que trata de um problema crônico do brasileiro: falta de visão a longo prazo.
    Medidas estão sendo tomadas as pressas e baseadas somente na necessidade de infra-estrutura para esses dois eventos em questão. e o lagado deixado, qual sera?
    Parabéns pela entrevista e pelo blog, Braga. Não conhecia mas daqui em diante tornarei-me leitor assiduo. Motivado tanto pela qualidade do seu trabalho quanto pela baixa qualidade da imprensa brasileira em geral…
    abraços

  • george diz: 31 de janeiro de 2013

    Excelente entrevista.Guga não me surpreende mais(positivamente)!É muito racional e muito coração ao mesmo tempo.

  • gilmar diz: 31 de janeiro de 2013

    Também tive o privilégio de conhecer o Guga a poucos dia, num Shopping da capital, cara tava com a familia comendo se não me engano uma cochinha num café, sempre o admirei, claro que veio do esporte a principio, mas com certeza principalmente da pessoa que ele é, de seu carater, de sua busca pelo correto, é um dos poucos esportistas que pediria um autógrafo, juntamente com o Seedorf.

  • Mario L. Nascimento diz: 31 de janeiro de 2013

    Parabéns pela entrevista, Braga. Em pouco tempo, vc abordou muitas questões relevantes. SHOW!

    E show também pelo entrevistado, com certeza! O Guga é realmente O CARA! Maior catarinense vivo? Disso não há nenhuma dúvida. Além de ser o mais conhecido, sua conduta é exemplar e seu carisma, simplicidade e correção imbatíveis. Talvez caiba levantar a questão se entre os que se foram há alguém que possa chegar à sua dimensão…

    Espero que o Guga continue tendo o sucesso em suas atividades como empresário e adquira uma experiência grande nos negócios. E que depois repense sua decisão de nao assumir direção de entidades esportivas. Acho que é um dos que pode mudar a cara do esporte no país. Teria meu voto (se eu votasse…) para presidente da Confederação Brasileira de Tênis e depois para substituir o atual presidente do COB, se um dia ele quiser largar o filé.

  • Rosângela Provesi diz: 31 de janeiro de 2013

    Orgulho define ser admiradora de Guga!!….Boa sorte em tudo Guga!!

  • ricardo antonio diz: 31 de janeiro de 2013

    Guga um Patriota.

  • Rodrigo Figueiredo diz: 31 de janeiro de 2013

    Não é a toa que o apelido do cara é CAVALO, esse é um baita.

  • Yuri Avaiano diz: 31 de janeiro de 2013

    Braga,

    Nunca me esqueco do adesivo “Arrombassi Guga” que eu tinha colado na janela do carro em 1997.

    Ele modificou os habitos de Florianopolis. Ainda hoje tem um quadro dele pendurado em lugar de destaque na Peixaria do Nico no Mercado Publico de Florianopolis!

    Ele botou o no mapa o Brasil, Santa Catarina, Florianopolis, o Avai e o inesquecivel Jacare …hahaha

    Arrombassi Braga!

  • Eliel Valesio Karkles diz: 31 de janeiro de 2013

    PARABÉNS. Excelente entrevista. Um exemplo a ser seguido pela nova geração.

  • Emídio Jr. diz: 31 de janeiro de 2013

    Boa Braga, você mandou muito bem nas perguntas e quanto a ele, bom, o cara dispensa comentários…

  • Ivan diz: 31 de janeiro de 2013

    Concordo com as palavras do Silvério. Guga é um ídolo e não é “bad boy”, sua imagem deveria ser mais explorada para deixar exemplos a nossos filhos. Guga, o Brasil precisa de você! Braga, Parabéns, você foi muito feliz e competente na entrevista.

  • Luciana diz: 31 de janeiro de 2013

    Como amante do tênis eu fico triste em pensar que o Brasil vai demorar muito para ver outro Guga, TRI Campeão de Roland Garros, primeiro do mundo!!! Proporcionalmente o Guga foi para o tênis brasileiro muuuuito mais que um Pelé ou Senna foram para seus respectivos esportes! O Brasil existe hoje no tênis por causa dele, pena que logo já vai ser esquecido novamente…

    E como brasileira fico mais triste ainda em saber que as pessoas que poderiam fazer alguma coisa pelo esporte no país só querem saber de encher os bolsos de dinheiro.

  • Paulo Link diz: 31 de janeiro de 2013

    Guga prova mais uma vez o GRANDE esportista que foi e ainda é. A contribuição que sempre deu, não só ao exporte, mas como exemplo de cidadão são legados nos quais principalmente os políticos deveriam se pautar. Tenho urgulho de ser catarinense, vendo um bela exemplo de cidadão como o GUGA.

  • Tarso diz: 31 de janeiro de 2013

    Esta pergunta do dirigente que se perpetua no comando pode servir claramente para o “coronel” Delfim de Pádua Peixoto, não tem? Quando é que vão amadurecer por aqui e mandar este “coronel” largar a rapadura?

  • Dejair vicente Pinto diz: 31 de janeiro de 2013

    Um novo Guga não precisa nem jogar ou ganhar a metade do que ele ganhou, basta que tenha um pouco do caráter e da simplicidade desse querido de todos nós, brasileiros e de admiradores além fronteiras.Genial, bem definiu o fracasso dos ufanistas de plantão em relação à copa do mundo e olímpiadas. Quem viver verá.

  • Rogério Jlle diz: 31 de janeiro de 2013

    Todo o cara que atingiu um patamar na vida, como ele alcançou, com todos os méritos, tem que ser muito especial. Guga é isso tudo e muito mais!
    Mas tbm tem um defeito: – Torce pelo Avai…!!! Cruz credo, podia ter escolhido muito melhor, bota “muito” nisso… mas está perdoado!
    Continuo fã dele…!!!
    k,k,k,k,k,k,k,k,k………………..!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Pereira diz: 1 de fevereiro de 2013

    Braga, também admiro muito ele por toda a sua conduta durante toda a vida profissional.
    No entanto, sou crítico à passividade dele frente à certas situações da nossa cidade. Cito um exemplo:
    Fazem 2 anos que eu e amigos buscamos apoio para usar os enormes vazios existentes na beira-mar de São José e aterro da baía sul para práticas esportivas. Quadras de tênis, pistas de skate, futebol, e etc (algo semelhante ao que ocorre no parque de coqueiros), espaços gratuitos e que possuem benefícios sociais enormes! Não recebendo retorno das prefeituras fizemos ligações e enviamos inúmeros emails para o Instituto Guga Kuerten. Não pedimos ajuda financeira, mais sim voz para que imprensa e poder público dê alguma atenção. Acredito que ele como figura pública super estimado por todos, seria prontamente ouvido!
    Abraço

  • Nodu Mang diz: 1 de fevereiro de 2013

    Como dizia aquele personagem do saudoso Chico Anisio que tinha a boca perto da orelha:
    “Eu tenho um pequeno defeito, não sei se percebes?”
    O Guga é uma pessoa perfeita assim como foi Chico Anisio.
    Porém, ele tem um pequeno defeito que todos percebem!
    Ele é Bvaiano!
    Aquele timeco que fica lá no subúrbio, confins do sul da ilha-Alvinegra .. hehehehe!!

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