
Dizem que gato tem sete vidas. Repórter deve ter o dobro. E fotógrafo, o triplo. Uma entrevista absolutamente tranquila que fazíamos com um grupo de colonos que resolveu se unir para melhor enfrentar a vida em Mercedes, no Paraná, quase terminou em tragédia.
Enquanto eu falava com as mulheres dos agricultores em um galpão, tomando chimarrão, o fotógrafo Mauro Vieira, debaixo de um sol escaldante, registrava a lida dos homens, que estavam fazendo silagem para alimentar o gado no inverno. O Mauro deitou debaixo do reboque do trator carregado com a intenção de fotografar a ação de um ângulo diferente. O reboque começou a tombar e o motorista Everton de Jesus gritou:
— Sai daí, Mauro!
Ele rastejou de ré com a velocidade de um lagarto assustado (vídeo abaixo). Eu continuava tomando chimarrão e conversando com as mulheres. Depois, soubemos que o tombamento do reboque faz parte do processo de silagem.
Claro, se o Mauro não tivesse saído, poderia ter sido esmagado. Ficou apenas com arranhões nos braços. A nossa viagem seguiu. Mas, por dias, o assunto foi parte das conversas.
Muitos quilômetros e dias depois, aconteceu outro episódio. Nós estavamos em Humaitá, cidadezinha na barranca do Rio Madeira, no Amazonas. Chovia torrencialmente e fomos até o porto da cidade. Lá, uma precária balsa atravessava os veículos que circulam pela Transamazônica. Uma carreta passava por dificuldades na saída da barca. Teve de ser rebocada lomba acima por uma retroescavadeira. Eu e o Everton deixamos o Mauro na parte alta do porto e descemos até a beira do Madeira. A chuva deixara a terra vermelha como se estivesse ensaboada e a camionete começou a deslizar. O motorista alertou:
— Vamos parar ou caímos no rio.
Eu disse:
— Tchê, acho que a única maneira de sairmos daqui é de ré.
Lá em cima, o Mauro filmava tudo. O Everton acelerou e a camionete respondeu como uma bailarina, dançando de um lado para outro. Se tirasse o pé do acelarador, nós ficariamos ali. Até que o veículo conseguiu tracionar e enveredou para o lugar onde o fotógrafo estava. O motorista disse:
— Para onde o Mauro corre a Parati vai.
Foram alguns segundos de tensão como mostra a gravação abaixo.
— Daí, vocês não me viram aqui atrás ? - pediu explicações o Mauro.
Respondi:
— Claro. Mas não tinhamos o controle do carro. Era subir ou cair no rio. Confiamos na tua destreza.
Até os caminhoneiros que esperavam pela balsa riram do episódio.
Mas o que aconteceu a seguir não se transformou em risos. No meio da Floresta Amazônica, avistamos um vilarejo, tipo indígena. Meia dúzia de casinhas, mas já com uma igreja no meio. O Everton parou o carro na rodovia. Eu e o Mauro seguimos a pé por um caminho pelo meio do mato. O lugar parecia estar deserto.
Caminhamos entre as casas fechadas, passamos pela igreja vazia, até encontrar um barracão de onde escutamos vozes. Chegamos na porta e anunciamos:
— Somos jornalistas.
Fomos cercados por uma dezenas de homens com ares não muito amistosos . Um deles falou:
- Andam dizendo que tiramos madeira da mata, mas é mentira.
O ambiente ficou tenso. Ao ouvir isso, eu e o Mauro nos olhamos e tivemos o mesmo pensamento:
Nos ferramos! Viemos parar no meio de cortadores de madeira clandestinos. E agora?
Toda a região está infestada de fiscais do Ibama - que, inclusive, usam um helicóptero - e de agentes da Polícia Federal (PF) em busca dos clandestinos. Nós falamos da nossa matéria, o Brasil de Bombachas. Eles escutaram sem entender direito do que se tratava. Pela voz alterada de um dos líderes do grupo, achavam que nós fossemos gente do governo espionando. Naquele momento, eu pensei:
Rodamos 12 mil quilômetros para acabar desse maneira. No mínimo, vão nos saquear.
Foi quando um deles disse uma palavra que mudou totalmente o rumo dos acontecimentos. Ele falou:
— A minha mulher é gaúcha.
Bingo! Era a deixa para mudarmos o clima.
Daí a conversa tomou um outro rumo. Ouvimos a história da comunidade e suas reivindicações. No final, caminhamos até o carro. Entramos e eu disse o seguinte para o Everton:
— Toca. Não tão devagar para que pareça provocação e não tão ligeiro que pareça que estamos fugindo.
Somando tempo de experiência profissional que tenho, os do Mauro e do Everton chegamos a 80 anos. É duro admitir que, se não existisse a palavra "quase", estaríamos lascados como uns principiantes.