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Os viajantes do Brasil de Bombachas

31 de março de 2011 0

Há pelo menos 30 décadas os gaúchos seguiram para as terras ao norte do Rio Uruguai em busca de dias melhores para suas famílias. E povoaram um vasta e rica  região conhecida como Brasil de Bombachas.  As famílias se espalharam. E para uni-las foi montada uma rede de ônibus. As pessoas que estavam no ônibus acidentando no Mato Grosso do Sul nesta quinta fazem parte desse intenso trânsito entre os descendentes das pessoas que povoaram o Brasil de Bombachas.  Nesta época do ano, quando está iniciando a safra de grãos no chamado Nortão do Mato Grosso, centenas vão em busca de trabalho. Recetemente aconteceu um brutal acidente em Descanso, oeste catarienense, entre um ônibus e uma carreta bitrem. O coletivo conduzia uma equipe de bolão Santo Cristo, no noroeste do Rio Grande do Sul, para  Marechal Cândido Rondon.

O luto do Brasil de Bombachas

07 de março de 2011 0

Muito mais do que para um torneio de bolão, os passageiros que estavam a bordo do ônibus de número 5.000 em viagem para Marechal Cândido Rondon e Pato Bragado, no oeste do Paraná, iam para um encontro familiar. Os laços que uniam essas pessoas dão dimensão maior à tragédia.
A maioria dos passageiros saiu da cidade gaúcha de Santo Cristo. Foi justamente de lá que partiu boa parte dos agricultores que povoaram várias cidades do oeste do Paraná e de Santa Catarina. Os migrantes saíram do Rio Grande do Sul e atravessaram o Rio Uruguai em busca de melhores dias para os seus familiares.
A região povoada pelos gaúchos é conhecida como Brasil de Bombachas, uma vasta e rica área que se estende por vários Estados. Os descendentes dos colonos que deixaram o RS e hoje vivem no oeste catarinense e paranaense são chamados de “gaúchos cansados”. Ganharam essa alcunha porque os pais migraram para a região onde eles nasceram e, depois do que é considerado uma pausa para descanso no processo de migração, as famílias seguiram em frente, colonizando outros lugares.
Na época da colonização, entre os anos 1970 e 1990, centenas de famílias usaram a BR-282 como caminho na busca dos seus sonhos. São Miguel do Oeste era parada obrigatória para o reabastecimento dos caminhões que transportavam a mudança dos migrantes. Hoje, além de ser um importante elo na malha rodoviária brasileira, a estrada, nesta época do ano, é muito usada por familiares do Brasil de Bombachas para visitar parentes e fazer confraternizações – como o torneio de bolão que reuniria as famílias de Santo Cristo, Marechal Cândido Rondon e Pato Bragado.

As viagens para visitas, claro, não irão parar. Mas as cruzes dos mortos da tragédia que serão erguidas à beira da BR-282 lembrarão que o perigo ronda a rodovia.

É um dia de luto no Brasil de Bombachas.

A chegada

10 de fevereiro de 2011 9

No anoitecer de quarta-feira, nós cruzamos a Ponte do Rio Uruguai e chegamos ao Rio Grande do Sul, na cidade de Iraí. Hoje, completam-se 30 dias que eu, o fotógrafo Mauro Vieira e o motorista Everton de Jesus partimos rumo às terras ao norte do Rio Uruguai e países vizinhos para mostrar o destino do Brasil de Bombachas. Em 1995, percorri 30 mil quilômetros durante 60 dias, para escrever a saga dos pioneiros do povoamento da região.

É pouco dizer que nestes 16 anos as coisas mudaram. Tudo mudou. A começar pela tecnologia à nossa disposição dentro da Parati que nos conduziu. Lembro que, em 1995, era preciso parar em um orelhão na beira da estrada e ligar para a redação. Na época, a cobertura das antenas de celulares era pequena e o preço da ligação, um absurdo. Hoje, viajamos com seis aparelhos de celular e computadores conectados à internet. E mais: o carro é vigiado por satélite.

Saímos de Porto Alegre acreditando que toda esta parafernália eletrônica nos manteria conectados ao mundo. De fato, tudo funcionou direitinho até sairmos do Paraná. Dali para frente, começamos a enfrentar problemas que são velhos conhecidos para os moradores do Brasil de Bombachas: congestionamento dos celulares, da internet e até dos telefones fixos.

Na cidade de Balsas (MA), no final da tarde, conseguir uma ligação de celular ou acesso à internet é como ganhar na Mega-Sena. A saída foi improvisar. Descobrimos que o melhor horário era durante a madruga da , entre 2h e 5h. Foi o que fizemos.

Um fato inusitado na minha vida profissional aconteceu em Ariquemes (RO). Lá, os meus óculos caíram e ficaram danificados. Como não podíamos perder tempo, eu entrevistava as pessoas e o Mauro, além de fotografar, anotava a conversa no meu bloco. Em Porto Velho (RO), consegui consertá-los e tudo voltou à normalidade.

Parte do que testemunhamos foi relatado diariamente aqui. O restante será na série de reportagens que pulicaremos na Zero Hora, no Canal Rural e Rádio Rural. O que posso adiantar é que o Brasil de Bombachas continua sendo a terra das oportunidades.

O chapéu do gaúcho

10 de fevereiro de 2011 0


Um enorme chapéu de gaúcho é a cobertuda do mausoléu da família Lucatel no cemitério de São Carlos, cidade do oeste catarinense povoada pelos agricultores que migraram do Rio Grande do Sul. A decoração foi uma exigência do Danilo Lucatel, falecido no dia sete de novembro de 1985.

Mesmo os mais jovens moradores da região já ouviram falar da devoção de Danilo às tradições do Rio Grande do Sul. Em 1995, quando cruzei pela estrada coletando histórias para escrever o Brasil de Bombachas, conversei com a sua viúva em um final de tarde, a professora Geci. Ela contou que o marido morreu jovem, aos 42 anos, do coração.

Na ocasião do falecimento, o casal tinha duas filhas : a Gioconda, com 14 anos, e a Ianaie, com cinco. Hoje, Gioconda é médica e trabalha na Região Metropolitana de Porto Alegre e Ianaie é dentista e tenente do Exército do Brasil, em Bagé.

Conversei com a professora Geci na tarde de quarta-feira e chovia muito. Hoje ela está aposentada e prepara-se para visitar a filha que mora na Região Metropolitana de Porto Alegre.

— As meninas adoravam o pai e foi muito difícil suportar a morte dele. Passamos momentos de incertezas e dificuldades —relata Geci, que hoje mora em Chapecó, a principal cidade da região.

Ela lembra que os valores da cultura gaúcha, como o de investir na educação dos filhos, pregados pelo Danilo , foram importantes na hora de tomar decisões no decorrer dos anos. No dia sete de novembro de 2005, quando completou 20 anos da morte d e Danilo, o irmão dele, Selvo, também morreu e foi sepultado no mausoléu da família.

Um rosto bonito na multidão

09 de fevereiro de 2011 2

Não há como não notar. No meio da multidão que circula pelos pavilhões da Show Rural — uma feira do agronegócio em Cascavel (PR) —, Mônica Maccari, 18 anos, vestida de prenda distribui convites para que as pessoas acompanhem a nossa jornada pelo Brasil de Bombachas.

Mônica é filha de gaúcho e está trabalhando no pavilhão da New Holland. Simpática, ela conversa com as pessoas que cruzam pela feira.

A Show Rural é organizada há 22 anos pela Coopevel — Cooperativa Agroindustrial com sede em Cascável. É um dos maiores eventos do setor da América do Sul.

O refúgio dos macacos

09 de fevereiro de 2011 1

Para as crianças, eles são um diversão. Para os caminhoneiros, um problema. Para os desavisados, um risco em perder uma objeto pessoal, como a chave do carro.

Mesmo assim, não deixam de ser atração. Trata-se de um bando de macacos que vive nas árvores de um posto de combustível à beira da estrada que liga Eldorado e Mundo Novo, duas cidades agrícolas povoadas por gaúchos no Mato Grosso do Sul, nas proximidades da divisa com o Paraná.

A maioria das pessoas que para no posto está percorrendo um longo percurso. Portanto, a sombra das árvores é sempre um bom lugar para descansar.

— Só tem que ficar de olho nos bichos, mas eles divertem as crianças — comenta Denilson Grassi, um agricultor de Balsas (MA) que, acompanhado da mulher, Viviani, e dos filhos, Denilson, dois anos, e Eduarda, 10, estava estacionado no posto.

Os macados tomaram conta da caminhonete da família. Distante dali, um caminhoneiro que dirigia um caminhão truck comentava com os seus colegas que os macacos havia rasgado a lona do seu veículo. Aliás, para evitar problemas, os carreteiros estacionam longe das árvores.

O bando foi o que restou dos animais silvestres da região que, há três décadas, era coberta pelas árvores do Cerrado. Na semana passada, quando andei pela estrada Transpantaneira, na cidade de Poconé, no Pantanal do Mato Grosso, encontrei um grupo de macacos habitando as árvores de uma pousada.

Desde de 1984, circulo pelo menos duas vezes por ano pela região, fazendo reportagens para a Zero Hora. É comum encontrar tatus, macacos, tamanduás e outros animais silvestres atropelados nas rodovias do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Rondônia e Amazonas.

Apesar de existirem placas advertindo aos motoristas a respeito da possibilidade dos bichos atravessarem a pista, as grandes extensões de rodovias em linha reta, aliadas à carência de policiamento, resultam em centenas de atropelamentos.

Tomando como base o ano de 1995 — quando cruzei a região escrevendo a reportagem Brasil de Bombachas —, e comparando com hoje, noto que o problema cresceu enormente. Portanto, é bom que os macacos fiquem ao redor do posto e das pousadas no Pantanal.

Quando a tragédia termina em quase

08 de fevereiro de 2011 7

Dizem que gato tem sete vidas. Repórter deve ter o dobro. E fotógrafo, o triplo. Uma entrevista absolutamente tranquila que fazíamos com um grupo de colonos que resolveu se unir para melhor enfrentar a vida em Mercedes, no Paraná, quase terminou em tragédia.

Enquanto eu falava com as mulheres dos agricultores em um galpão, tomando chimarrão, o fotógrafo Mauro Vieira, debaixo de um sol escaldante, registrava a lida dos homens, que estavam fazendo silagem para alimentar o gado no inverno. O Mauro deitou debaixo do reboque do trator carregado com a intenção de fotografar a ação de um ângulo diferente. O reboque começou a tombar e o motorista Everton de Jesus gritou:

— Sai daí, Mauro!

Ele rastejou de ré com a velocidade de um lagarto assustado (vídeo abaixo). Eu continuava tomando chimarrão e conversando com as mulheres.  Depois, soubemos que o tombamento do reboque faz parte do processo de silagem.

Claro, se o Mauro não tivesse saído, poderia ter sido esmagado. Ficou apenas com arranhões nos braços. A nossa viagem seguiu. Mas, por dias, o assunto foi parte das conversas.

Muitos quilômetros e dias depois, aconteceu outro episódio. Nós estavamos em Humaitá, cidadezinha na barranca do Rio Madeira, no Amazonas. Chovia torrencialmente e fomos até o porto da cidade. Lá, uma precária balsa atravessava os veículos que circulam pela Transamazônica. Uma carreta passava por dificuldades na saída da barca. Teve de ser rebocada lomba acima por uma retroescavadeira. Eu e o Everton deixamos o Mauro na parte alta do porto e descemos até a beira do Madeira. A chuva deixara a terra vermelha como se estivesse ensaboada e a camionete começou a deslizar. O motorista alertou:

— Vamos parar ou caímos no rio.

Eu disse:

— Tchê, acho que a única maneira de sairmos daqui é de ré.

Lá em cima, o Mauro filmava tudo. O Everton acelerou e a camionete respondeu como uma bailarina, dançando de um lado para outro. Se tirasse o pé do acelarador, nós ficariamos ali. Até que o veículo conseguiu tracionar e enveredou para o lugar onde o fotógrafo estava. O motorista disse:

— Para onde o Mauro corre a Parati vai.

Foram alguns segundos de tensão como mostra a gravação abaixo.

— Daí, vocês não me viram aqui atrás ? – pediu explicações o Mauro.

Respondi:

— Claro. Mas não tinhamos o controle do carro. Era subir ou cair no rio. Confiamos na tua destreza.

Até os caminhoneiros que esperavam pela balsa riram do episódio.

Mas o que aconteceu a seguir não se transformou em risos. No meio da Floresta Amazônica, avistamos um vilarejo, tipo indígena. Meia dúzia de casinhas, mas já com uma igreja no meio. O Everton parou o carro na rodovia. Eu e o Mauro seguimos a pé por um caminho pelo meio do mato. O lugar parecia estar deserto.

Caminhamos entre as casas fechadas, passamos pela igreja vazia, até encontrar um barracão de onde escutamos vozes. Chegamos na porta e anunciamos:

— Somos jornalistas.

Fomos cercados por uma dezenas de homens com ares não muito amistosos . Um deles falou:

- Andam dizendo que tiramos madeira da mata, mas é mentira.

O ambiente ficou tenso. Ao ouvir isso, eu e o Mauro nos olhamos e tivemos o mesmo pensamento:

Nos ferramos! Viemos parar no meio de cortadores de madeira clandestinos. E agora?

Toda a região está infestada de fiscais do Ibama – que, inclusive, usam um helicóptero – e de agentes da Polícia Federal (PF) em busca dos clandestinos. Nós falamos da nossa matéria, o Brasil de Bombachas. Eles escutaram sem entender direito do que se tratava. Pela voz alterada de um dos líderes do grupo, achavam que nós fossemos gente do governo espionando. Naquele momento, eu pensei:

Rodamos 12 mil quilômetros para acabar desse maneira. No mínimo, vão nos saquear.

Foi quando um deles disse uma palavra que mudou totalmente o rumo dos acontecimentos. Ele falou:

— A minha mulher é gaúcha.

Bingo! Era a deixa para mudarmos o clima.

Daí a conversa tomou um outro rumo. Ouvimos a história da comunidade e suas reivindicações. No final, caminhamos até o carro. Entramos e eu disse o seguinte para o Everton:

— Toca. Não tão devagar para que pareça provocação e não tão ligeiro que pareça que estamos fugindo.

Somando tempo de experiência profissional que tenho, os do Mauro e do Everton chegamos a 80 anos. É duro admitir que, se não existisse a palavra “quase”, estaríamos lascados como uns principiantes.

As cartas esquecidas

07 de fevereiro de 2011 10

Parece coisa de filme, mas não é: trata-se de uma história de amor descoberta em uma maço de cartas guardadas no fundo de um armário em São Gabriel do Oeste, uma cidade colonizada por gaúchos no norte do Mato Grosso do Sul. E, como nos melhores romances, envolve uma das famílias mais respeitadas da comunidade, os Giacomini.

Tudo começou com uma carta escrita em 1971 pela jovem Delci Dal Frê, do interior de Maximiliano de Almeida, cidade agrícola do norte do Rio Grande do Sul. A correspondência era dirigida a Nadir Giacomini, um jovem que foi seu vizinho e que havia migrado para o Paraná.

Sempre que visitava os pais, em Maximiliano, Nadir ia aos bailes e a tirava para dançar. Várias vezes, ele tentou, inclusive, “dançar de rosto colado” — o que não era permitido na época.

Delci havia conversado com o irmão de Nadir antes de escrever e, corajosa, decidira enviar a carta propondo que os dois falassem sobre a possibilidade de iniciar um namoro. Ele respondeu a correspondência e viajou ao Rio Grande do Sul para oficializar o compromisso.

Oficializado o relacionamento, os dois iniciaram uma intensa troca de cartas. Em 17 de novembro de 1972, ele enviou para ela duas páginas escritas “escolhendo as palavras”, nas quais relata a dureza do seu cotidiano e, de maneira muito discreta, manifestou o interesse de que Delci fosse viver no Paraná ao seu lado. Nas correspondências seguintes, ela não respondeu a provocação do namorado. Mas, em uma carta de 1º de outubro de 1973, Delci foi muito clara ao falar da saudade que sentia. Ela recorda:

— Muitas das cartas chegaram nas minhas mãos quando eu estava trabalhando na roça. Lembro de ir para debaixo de uma árvore para ler e chorar.

Antes de começar a namorar Delci, Nadir havia sofrido uma desilusão amorosa. Portanto, era uma pessoa cautelosa com os seus sentimentos, mas sentia que havia descoberto a sua companheira para formar uma família.

— Imagine aquele tempo, quando tudo era difícil, nós dois estávamos longe e mergulhados no trabalho. Abrir e ler uma carta era sensação incrível — relata Nadir.

O tempo havia se encarregado de consolidar o amor entre os dois. Em 1975, ele resolveu oficializar o romance: pediu Delci em casamento. Ela, claro, aceitou, e a data foi marcada para o ano seguinte. Em 23 de setembro de 1976, Dalci mandou uma correspondência para o noivo. O texto iniciou assim:

— Fui buscar o vestido de noiva. A festa do casamento está sendo preparada.

No final do texto, que ocupa duas páginas, ela escreveu:

Não esqueça de guardar bem esta carta, porque ela é a última que mando para você.

Emocionado, Nadir respondeu:

— Querida noiva, sinto saudades. Tudo parece um sonho.

No final de 1976, Nadir e Dalci casaram-se, na igreja matriz de São Sebastião, em Maximiliano de Almeida. Fixaram residência em Curitiba. Em 1983, o casal mudou-se para São Gabriel do Oeste, então um monte de casabres à beira da rodovia que liga Campo Grande (MS) a Cuiabá (MT). A primeira década foi de sofrimento e de incertezas sobre o futuro. Hoje, a família perfila-se entre os grandes produtores de soja da região. O casal vive em uma casa confortável. Eles têm duas filhas, um filho e dois netos, e ainda preservam a rotina de trabalho dos desbravadores.

Em 1995, eu passei pela cidade escrevendo a história dos pioneiros do Brasil de Bombachas e ouvi falar do Nadir Giacomini, mas segui em frente. Hoje, retornei ao lugar e resolvi procurar a família. Para minha grande surpresa, encontrei as cartas, que são muito mais que uma troca de correspondências entre namorados: são testemunhas de uma época.

Os caminhos das tropas no Pantanal

07 de fevereiro de 2011 0

É no trecho da rodovia Transpantaneira, entre Poconé e Porto Jofre, que encontramos a lógica da vida do Pantanal, um santuário ecológico da humanidade. Uma boiada seguia rumo às terras na parte oeste do Mato Grosso. Os pantaneiros que conduziam a tropa apenas observam a caminhada dos animais. Domingos Ramos Salles, 56 anos, se afastou do grupo para conversar:

Nesta época do ano, as planícies do Pantanal enchem de água e a tropa se movimenta ao natural rumo às terras altas.

Ele conta que, caso o dono da boiada desobedeça este mandando natural do Pantanal, o gado segue o rumo das terras altas por sua conta. Passando por cima de tudo que encontra pela frente, principalmente as cercas e as fazendas.

Salles, Jesuino Paula de Oliveira, 33 anos, e outros quatro pantaneiros são os condutores da boiada. Diferente do tropeiro gaúcho e do sartanejo de Goiás, os pantaneiros levam apenas o essencial na tropeada. Um das razões é que, dependendo da cheia da planície, ele conduz a boiada por terrenos alagados. Neste ano a cheia está acontecendo com menos intesidade do que em outros anos.

— Muito embora as águas estejam subindo com menor velocidade, não significa elas não alaguem tudo de uma hora para outra. Assim é o Pantanal: cheio de surpresas. Nós apenas temos que viver no ritmo dele — comenta o fazendeiro e veterinário João Losano Eubank de Campos, 47 anos.

O veterinário lembra que nesta época, além do gado, vários outros animais procuram as terras alta do Pantanal.

— Assim é a vida aqui — arremata.

Foi neste época do ano que estive em Poconé, um centenária cidade do Pantanal, em 1995. Lembro que as planícies estavam debaixo d’água. Percebi que pouca coisa mudou por aqui. A rodovia Transpantaneira, que foi projetada nos anos 70 para ligar o Pantanal no sentido Oeste a Leste, existe apenas nas placas e alguns trechos de chão batido.

Há um debate forte sobre a conveniência de terminar a rodovia. Para muitos, isso representaria a sentença de morte ao santuário ecológico, pois iria facilitar a ocupação da região. Outros acreditam que facilitaria a vida dos turistas. Enquanto o debate segue, o gado e outros animais usam os trechos existentes da Transpantaneira para chegar às terras altas.

O fim da era dos garimpos

05 de fevereiro de 2011 1

Boa parte das alegrias e das desgraças dos gaúchos que povoaram as terras ao norte do Rio Uruguai veio dos garimpos de ouro e diamantes. Eles existiam em abundância no Mato Grosso, no Pará, no Amazonas e em Rondônia.

Na década de 70, a colonização patinava, porque o principal produto plantado pelos colonizadores, o arroz do seco, não tinha mercado. Além do mais, faltavam estradas para transportá-lo.

Foi nos anos 80, com surgimento de novas variedades da soja, que os povoadores conseguiram consolidar o território do Brasil de Bombachas.

Em 1995, quando cruzei pela região falando com os pioneiros sobre os velhos tempos, estive nos garimpos. Estavam praticamente fechados, todos eles sufocados pela mão pesada do governo federal.

Na época, falei com vários gaúchos que haviam perdido fortunas em busca de ouro e diamantes. Mas também encontrei gente que havia conseguido estruturar a sua propriedade rural graças aos ganhos desse ofício.

Dezenas de pessoas foram assassinadas nesses locais, principalmente nos garimpos do Rio Madeira, em Rondônia, onde o ouro era extraído usando balsas.

Agora que estou cruzando a região novamente, passei pelos municípios de Espigão d’Oeste e Pimenta Bueno. São duas pequenas cidades de Rondônia que estão no centro de um conflito garimpeiro ainda sem resolução: a extração ilegal de diamantes da terra indígena Roosevelt, onde vivem os índios cinta-largas.

Em 7 de abril de 2004, 29 garimpeiros foram massacrados pelos indígenas da região. Na época, pelo menos 1,2 mil homens trabalhavam ilegalmente na reserva.

Desde de então, há uma força-tarefa comandada pela Polícia Federal (PF) controlando quem entra e quem sai dos 2,7 milhões de hectares da reserva cinta-larga. É um jogo de gato e rato.

Estive na área em 2005, fazendo uma reportagem chamada “As pedras manchadas de sangue”. Na época, os garimpeiros estavam voltando para a área dos índios, acobertados por líderes cinta-larga corruptos. Um deles, o cacique João Bravo, foi preso pela PF no ano passado, e libertado cinco dias depois.

Atualmente, as operações estão sob o comando do delegado federal Márcio Souza Mamede.

- No início do ano, foi feito um acordo com os índios que resultou na expulsão de 600 garimpeiros intrusos na reserva. Até agora, as coisas estão caminhando bem – afirma o delegado.

O garimpo de diamantes persiste porque os índios são assediados por compradores internacionais. A PF montou então uma espécie de cordão de isolamento na região, com objetivo de não permitir a aproximação dos compradores. Os veículos que rodam por lá são constantemente vistoriados.


Muitos gaúchos vivem em Espigão d’Oeste e Pimenta Bueno. O número deve aumentar nos próximos anos, pois lavouras de soja estão sendo implantadas na região. Isso significa criaçao de empregos, o que deverá diminuir significativamente o número de aventureiros nos garimpos.