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Com a precisão de um bom relógio, todos as amanhãs Nadir Lichele prepara o chimarrão para os irmãos Wilson e Altair Schons. Os três migraram do Rio Grande do Sul para Rondônia nos anos 70 e se tornaram empresários bem sucedidos em Ariquemes, no norte do Estado.
A roda de chimarrão acontece no posto de combustível de Altair, que fica nas margens da BR-364, no trevo de acesso à cidade, onde a presença de gaúchos é significativa.
- Há tantos anos fazendo o chimarrão para nós, o Nadir já pode entrar na Justiça do Trabalho pedindo que assinem a carteira dele - brinca Altair.
Nadir retribui a brincadeira do amigo:
- Bem que eu merecia.
Os três são personagens típicos da história que escrevi em 1995, sobre os gaúchos que migraram para as terras ao norte do Rio Uruguai com a esperança de conseguir e melhores dias para suas famílias.

Nadir era pequeno agricultor e se transformou em madeireiro em Rondônia. Hoje, é dono de indústria. Os irmãos eram caminhoneiros. Altair lembra que inúmeras vezes passou pela BR-364:
— Na época era tudo de chão. Levava até uma semana para fazer 120 quilômetros. Era uma loucura. Mas sempre pensava que um dia iria abrir o meu negócio e ficaria aqui olhando a estrada.
Agora, ele e o irmão têm vários negócios na cidade, inclusive o posto de combustível.

Convidados para tomar um mate, eu, o fotógrafo Mauro Vieira e o motorista Everton de Jesus, falamos sobre o nosso trabalho. Disse que estou refazendo o roteiro que fiz em 1995, para escrever a história do futuro do Brasil de Bombachas. Depois de ouvir com atenção o relato, Nadir fez o seguinte comentário:
— Pode escrever aí. A história ainda não acabou. Há muita gente que continua vindo lá do Sul em busca de oportunidades aqui.
A presença do carro da Zero Hora no posto acabou chamando atenção de outros gaúchos que estavam de passagem. Muitos deles perguntavam o que estávamos fazendo "por estas bandas". A roda de chimarrão termina lá pelas 9h local (duas horas menos do que em Porto Alegre). No final do mate, eles vão cuidar os seus negócios. Nadir não precisa avisar que voltará na manhã seguinte. E arremata a conversa:
— Todos sabem que volto. Não só pelo chimarrão, mas é pelo que representa na nossa cultura: um laço de amizade.
