O motor do carro ainda não tinha esfriado. Havíamos chegado a Nova Mutum, cidade do chamado "Nortão do Mato Grosso", uma vasta e rica região povoada pelos agricultores gaúchos que fizeram a travessia do Rio Uruguai em busca de novas oportunidades para suas famílias. Os pioneiros do Brasil de Bombachas.
O fotógrafo Mauro Vieira, o motorista Everton de Jesus e eu estávamos comendo uma pizza grande, com quatro sabores. Era segunda-feira e nós havíamos percorrido cerca de 800 quilômetros entre Barra do Garças, na divisa do Mato Grosso com Goiás, e Mutum.
Antes do garçom trazer a pizza, um dos freguentadores do lugar perguntou ao Mauro:
— Vocês são mesmo da Zero Hora, lá de Porto Alegre?
Era Paulo José dos Anjos, um dos sócios da agência de empregos Emprega e membro da direção da Câmara de Dirigentes Lojistas de Mutum. O Mauro deu as explicações do que estávamos fazendo na região: uma viagem para contar a história do legado deixado pelos pioneiros do Brasil de Bombachas. Fui até a mesa dele para conversar. De maneira direta, ele pediu:
— Bota no teu jornal que estamos desesperados atrás de mão de obra. Temos mais de 600 vagas de empregos disponíveis. Precisamos de gente para os frigoríficos, trabalho em contabilidade, operadores de máquinas agrícolas e para o comércio.
Anjos disse que a situação de carência de mão de obra é semelhante nas cidades vizinhas: Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop. Estão tentando atrair trabalhadores colocando anúncios de empregos nas cidades do sul do Brasil.

Depois da conversa, voltei para a mesa onde estavam o Everton e o Mauro. A pizza estava fria. Na rodovia (fotos), que fica a poucos metros de onde estávamos sentandos, o movimento de carretas era intenso. A maioria transportando grãos de soja, da safra que está começando — no Nortão, acontece uma das maiores colheitas de grãos do mundo. Isso significa que o problema da carência de trabalhadores deverá se agravar, pois a safra precisa de muitos braços.

Durante a viagem, nós paramos em Diamantino, uma pequena cidade agrícola que fica a uns 60 quilômetros ao sul de Mutum. Lá, encontrei o Cassiano André Galvan. Ele é dono de três automotrizes e trabalha com colheita de soja em troca da participação nos lucros da lavoura. Ele definiu a situação da seguinte forma:
— Agora, com a safra, vai ser uma correria atrás de trabalhadores que vai dar gosto ver.
E dizer que, há três décadas, quando chegaram aqui as primeiras famílias de gaúchos, toda a região era terra de ninguém.

