Preconceito disfarçado: A arma mortal da palavra
Por Carlos Brickmann em 29/1/2008
(Observatório da Imprensa)
Afrodescendente é a mãe. E não se queixe: se a origem do ser humano é a África, de acordo com os mais recentes conhecimentos científicos, o caro leitor é afrodescentente, junto com este colunista, junto, respeitosamente, com a senhora sua mãe. E o mais loiro dos suecos albinos é também um afrodescentente.
É preciso tomar cuidado ao tucanar as palavras, o que ocorre com muita freqüência nos nossos meios de comunicação: isso, muitas vezes, revela o preconceito que existe mas gosta de se ocultar. Judeu, por exemplo, nem sempre é chamado de judeu: tenta-se o %22de ascendência judaica%22 (ou, infelizmente com muito mais freqüência, %22de descendência judaica%22). E chamar alguém de %22indivíduo com sobrepeso%22, referindo-se ao gordo, chega a ser ridículo. É como chamar preto de %22moreninho%22, ou referir-se ao Fausto Silva como %22forte%22.
Há, entretanto, palavras que só são usadas por sua carga de preconceito. Chamar alguém de %22menor%22 traz à memória o noticiário policial. %22Admitir%22 ou %22confessar%22, em vez de %22dizer%22, força uma carga negativa — e isso é comum quando o repórter está convencido de que alguém tem culpa, mas não quer se arriscar a ser desmentido nem a tomar um processo.
Há nomes que, por força de preconceitos muito antigos e profundos, tiveram de ser mudados. Mongolismo virou Síndrome de Down, leproso se transformou em hanseniano, caduco hoje tem Alzheimer. Isso é bom: retira das pessoas o carimbo negativo que aumenta o sofrimento já trazido pela doença. Há nomes que às vezes têm carimbo negativo, às vezes não. Chamar Pelé de Crioulo (ou até de O Crioulo, ou O Negão) definitivamente não significa racismo.
E como separar aquilo que é simples tucanagem da mudança necessária? É simples (e ao mesmo tempo muito difícil): basta usar o bom-senso. Basta, ao escrever, analisar o significado da frase para verificar se transmite ou não preconceito. Se transmitir, deve ser mudada. Se não transmitir, às favas a tucanagem.
A propósito, veado virou gay – ótimo. Mas GLBTS é veadagem.
Postado por Cacau Menezes - Floripa

