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Beto Stodieck

29 de fevereiro de 2008 22

Divulgação
Não faço nada ao chegar no jornal antes da coluna a não ser ler as correspondências. A prioridade absoluta sempre foi a coluna. Depois de fazê-la, aí sim dedico-me a outras funções. Mas hoje estou quebrando essa tradição. Nunca é tarde, brother!

Marco Cezar, o melhor fotógrafo com que Cacau trabalhou em todos os tempos, me intima a escrever qualquer coisa sobre Beto Stodieck, para sua revista Mural. O prazo final é hoje. Agora!

Sem problemas, patrão, falar de Beto Stodieck é função tão prazerosa como escrever minha coluna, tomar um chope ou fazer um gol. Não vou comparar com o orgasmo porque nada se iguala a uma boa gozada, mas falar de Beto  é gozar de muitas e delirantes épocas e histórias da minha vida, da vida da minha cidade e da vida de muitos amigos, falsos, espertos, loucos, caretas, ricos ou metidos, feios e bonitos, todos esses que um dia foram personagens de Beto Stodieck nas suas imperdíveis colunas diárias na imprensa catarinense: Jornal de Santa Catarina, jornal O Estado, Jornal do Beto e revista Quem.

Beto não era apenas um colunista. Era o guru da Ilha. Influenciava seu séquito a ser ousado nas roupas e no comportamento. Odiava caretas. Ninguém teve maior importância na quebra de preconceitos como esse cara, gordinho e careca, porém bonito e muito, mas muito inteligente e perspicaz. Sacava tudo, por todos os lados. E não abria mão de dizer com quem queria andar, com quem queria namorar, com quem queria sair ou viajar.

Elitista assumido, oriundo de família nobre, sempre cultivou o bom gosto, tanto à mesa como no guarda-roupa. Era chique e ao mesmo tempo jovem e relaxado, podendo chegar nas festas com calça jeans e camiseta Hering, ou com um Armani ou Gaultier. Gostava de grifes, de bons restaurantes, de gente bonita por perto e casa grande. Era mesmo classe A e não fazia nenhum esforço para ser popular. O ibope era certo com a coluna, o resto era lucro.

Beto namorou muito das meninas e meninos da sua coluna e os pais nem sabiam. Fumava maconha como todos nós, gostava de praia, shows, festas e de um bom vinho. E de Gil e Caetano também. E de Nova York e Laurita Mourão também.

Arrisco até a dizer que alguns amigos viraram gays por causa dele. E outros deixaram de odiar gays também por causa dele. Pais, inclusive, passaram a aceitar os filhos gays por causa dele, que virou referência. Mas, no entanto, apesar de claro na defesa de suas bandeiras, Beto sempre foi muito discreto no tocante a seu comportamento sexual em público. Era gentleman que nunca perdia a linha. E pela influência que exerceu, claro, teve muitos opositores, que embora agressivos, nunca venceram nenhum round contra ele. Beto só perdeu para a doença, Aids. Todas as outras batalhas, foi vencedor! Venceu a ignorância da cidade, venceu os preconceituosos, venceu os radicais, venceu o delegado Eloy, venceu a burrice e a mediocridade.

Foi perseguido pela direita e pela esquerda, pelos brutos e pela polícia e por muitos outros caretas que não aceitavam sua moderna liderança sobre a juventude numa cidade até então altamente provinciana. Sabia que eles existiam, e em grande escala, mas ignorava os inimigos solenemente. Simplesmente não os conhecia. Não os citava. Ignorava-os por completo. Dava-lhe o desprezo total.

Beto gostava era de mim, do Rômulo, da Denise, da Cláudia Pop, do Ito e da Maiú, do Pereira, do Uri, do Julinho Duarte, do Peixoto, da Dete Piazza, do Nelson Nunes, do Chanico do Valle Pereira, da doutora Tânia, do Mick Jagger, da Magali Heinze, da Witti, dos Lenzi, da Joaca, do Felipe e do Pedroca, dos amigos cariocas; dos seus irmãos, da sua mãe, do Fúlvio Vieira, da Rose Buendgens, do Nezinho e da Juci; do Max, do Tuca, do Studio A 2, do Waldir Agostinho, da Dulcinha, da Lúcia Prazeres, da cidade de Florianópolis, para ele sempre Floripa. Foi quem primeiro trocou na mídia o nome de Florianópolis para Floripa e de Esperidião Amin para Dão, com quem gostava de implicar. Com a cidade e com o político!

Fusquinha verde, careca com peito cabeludo, roupas chiques, óculos loucos, empresário e amigo de artistas famosos, ninguém foi mais poderoso em Florianópolis do que Beto Stodieck, a quem devo muito, muito, muito da minha esperteza, se é que ela existe na proporção que alguns gostam de comentar. Com ele viajei pela primeira vez para os Estados Unidos, com ele fumei muitos baseados dando volta de carro à noite pela cidade quase deserta, fazendo do Kioski nosso ponto de partida e chegada. Ali a tropa revezava.

Com o Beto aprendi a gostar do que é bom, com ele fui para a televisão e quando morreu, me deixou como seu sucessor. Que responsabilidade, hein brother! Não vou esquecê-lo nunca. Junto com meu pai e com meu filho, Beto Stodieck foi um dos homens da minha vida.

Agora sim, dito isso, posso começar a fazer a coluna que um dia Beto Stodieck também me ensinou. Afinal, Beto, mesmo à distância, continua sendo prioridade.

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Postado por Cacau Menezes – Floripa

Comentários (22)

  • Rosaura H.M. Chicon diz: 19 de novembro de 2008

    Cacau , amigo é coisa para se guardar dentro do peito , não interessa em que dimensão está seu amigo , ele continuará vivo em seus sentimentos e lembranças , feliz do homem que tem amigo.

  • jairsouzacardoso diz: 22 de dezembro de 2008

    conheci,,beto ( DE VISTA),,assim que cheguei em floripa… vindo do rio..cidade loka…/
    mesmo sem conhece=lo pessoalmente,,sempre o admirei como tudo…observava quando passava..e pensava,,,esse é o cara.
    valeu beto,,,,por tudo…seu admirador..
    nunca mais vai existir outro beto.

  • Tadeu C. da Silva diz: 19 de fevereiro de 2009

    Linda tua amizade teu carinho, teu amorr lindo Cacau ;)

  • Döll diz: 31 de agosto de 2008

    Cacau, eu lembro do Beto exatamente como descreves.
    Lembro quando chegava na Vidal, passava pelo Degrau, atravessava para Trajano, falava com Fernando Mansur e Rô Koerich, empunhando sempre uma agenda e alguns paéis em mãos, visitava o Döll natureba e me dizia: Döll, vamos transformar essa Vidal em rua só para pedestres e toda colorida, com faixas saindo das casas, cruzando as ruas e subindo nas casas em frente…Vai ser uma loucura, como em Amsterdam. Capital Saúde a la Beto Stodieck em 1985.

  • SRSB diz: 23 de outubro de 2008

    Sucessor do Beto Stodieck… quem mto lembra do passado ou está ficando velho ou
    não se conforma com o presente.

  • virginia carvalho pinto diz: 11 de setembro de 2008

    voce foi ótimo… falando do amigo beto…. parabens

  • mcred diz: 1 de março de 2008

    Quando a gente lê isso e v~e a diferença daqueles dias para os de agora, a conclusão é a seguinte: Florianópolis já era…Aliás, o mundo já era. Quando nossos filhos e netos nem conhecerão as geleiras dos polos, a ameaça climática e nuclear sob nossas cabeças…quem disse que morrer não é bom?

  • Nidia Nobrega diz: 1 de março de 2008

    Terno, emocionante e, ao mesmo tempo, biográfico.Poder falar de uma amizade destas é contar que teve e tem uma história rica prá contar. Sem juizo algum,sem parâmtros,nem regras.Isso é o amor.E isso é que vale.Um abraço.Linda a sua coluna. UMA DAS MAIS BONITAS QUE VOCE ESCREVEU.

  • Paulinho diz: 1 de março de 2008

    Desses um banho. Beto, de quem prezei a amizade, basicos e festas, a coluna ilustrada à época pelo Joris, a Bea secundando com informações fresquinhas. Beto era um visionário, culto e de vanguarda. Aliás, tal qual um Pepe Escobar ilhéu, trazia na coluna como o jornalista da FªSP as coisas do mundo pop e louco dos 70/90, e numa época que só havia o telex. Perspicácia e veneno administrados em doses precisas, eram característica da inteligência desse bacana cuja inteligencia faz falta.

  • Cesar A P Costa diz: 3 de março de 2008

    Cacau-

    Você me fez lembrar os tempos que o Beto vinha pra Laguna. Aliás, ele estava sempre por aqui. Eu era fã dele. Ele era bem assim como você o descreve. Vinha pra cá com aquele Fusca verde, peito cabeludo, óculos, máquina fotográfica. Ele e o Peixoto. Era muito simples para a fama que tinha. Um bom sujeito. Morreu cedo demais. Abraços. Cesar Augusto Prudêncio da Costa.

  • MAURICIO CAVALHEIRO diz: 29 de fevereiro de 2008

    Muito bom!!!! Parabens….

  • Jorge Luis Andrade de Almeida diz: 1 de março de 2008

    Gostei da homenagem ao saudoso Beto Stodieck, porém, discordo da maneira Explícita quanto ao assunto maconha; Que é um dos males da nossa sociedade, principalmente dos jovens. Por isso, sinto muito dar um “cartão vermelho” pra você. A droga gera: violência, seja aquí no Rio ou Floripa, alimenta o tráfico e com isso a desordem total, inclusive familiar. Por isso, sou a favor do capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” , quando ele diz: “São vocês que financiam essa merda aquí” . Não às drogas.

  • Miguel diz: 29 de fevereiro de 2008

    Cacau por que até hoje o Beto não recebeu nenhuma homenagem de sua cidade?? Enquanto isso, forasteirotem nome em ruas, teatros etc…Sera que os poderosos da cidade tinham tanto ódio da melhor pena que habitou esta Ilha
    Um abraço.

  • Luiz Berretta diz: 29 de fevereiro de 2008

    Cacau,o Beto foi uma grande amigo mesmo.Devo à ele uma passagem importante de minha vida profissional.Imaginei agora uma placa, na SC-401, na altura do Jornal O Estado, indicando: “Rodovia Jornalista Beto Stodieck”…Jornal, praias, lugares legais, viagens, polêmicas…Enfim, nossa lembrança do Beto precisa ser eternizada.

  • Paulo Ricardo Botafogo diz: 1 de março de 2008

    Cacau, gosto muito de voce, desde que nos conhecemos há alguns anos e voce foi muito gentil comigo, que queria expor umas fotos das baleias de Garopaba, e minhas fotos de música que fiz no Rio.
    Falamos muito sobre nosso amigo, Celso Blues, Boy, de quem fiz muitas capas de disco, remember? Precisamos fazer outra expô… Somos botafoguenses, gente diferente. Gosto muito das seguidas homenagens que voce faz ao seu guru, isso mostra o seu bom caráter. Grande Cacau.
    Siga em frente, bró. Abraço.

  • arnaldo spyer diz: 1 de março de 2008

    estive ,semana passada ,aqui no rio,com o poeta Chacal,do Nuvem Cigana,publicação de poesias dos 70`s.galera da cultura underground ,só doido..no bom sentido.
    falei de fpolis e ele lembrava de uma passagem do Nuvem Cigana por esses bandas…”foi muito legal…não foi ninguem no evento…mais o cara que nos recebeu , que apelidamos de Elton John de floripa era muito gente boa”…eu falei “devia ser o Beto”…”é…o nome dele era Beto Stodieck”.

  • Maurio Borges diz: 29 de fevereiro de 2008

    Coisa linda, camarada!
    Beto do Studio A2…
    Beto, do primeiro festival da pandorga ali na Beira-Mar ainda de poucos prédios…
    Boi-de-Mamão do Beto, o melhor que até hoje apareceu lá pras bandas de uma Canasvieiras de sonho! Do Rio do Bráz…
    Da casa do Peixoto e do bar Boné…

  • Diego Canhetti diz: 29 de fevereiro de 2008

    Cacau, bonita história de amizade essa!
    E é isso aí, o que é bom é pra ser vivido com o que há de melhor, os verdadeiros amigos!
    Abraço!

  • Anya diz: 1 de março de 2008

    Boas lembranças…o Beto era chique sem ser pedante, pessoa simples e refinada…coisa rara hoje em dia!!

  • fulvio campos santos diz: 26 de agosto de 2009

    cacau, moro em blumenau a 21 anos, conheci o beto junto com meu primo recentemente falecido, o helio campos filho, numa festa na beira mar, nos anos 70, sempre acompanhei a coluna e como nativo da ilha acho que era seu maior fã, adorei conhece-lo, a pessoa mais humana e sensivel que conheci nesses meus cinquenta anos de vida.

  • maria mara diz: 25 de outubro de 2009

    Peraí Cacau, o Max especifica, era o Max MOura, se não o outro de sorriso plastico vai pensar que é dele que vc tá falando, aquele pra mentir e balaquiar já nasceu!!

  • ANTONIO CARLOS ALVES diz: 28 de maio de 2009

    lindo, emocionante que faz a gente chorar e ao mesmo tempo ficar feliz por ter tido a oportunidade de conviver na mesma epoca.

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