O Caco é um blog de artes cênicas, mas é um blog de palco também. Por isso, abre espaço para que o leitor confira entrevista que Luiz Antônio Araujo e Renato Mendonça fizeram na semana passada com o pesquisador e crítico musical Zuza Homem de Mello, que esteve em Porto Alegre para participar do festival Acorde. Na pauta, a função da crítica, a história dos festivais nos anos 60 e 70, o papel das gerações na música e a propalada morte da canção. A seguir, uma síntese da entrevista, com o tempero das fotos feitas por Adriana Franciosi:
Zero Hora - Você fez sua carreira de músico, operador de som e crítico musical na capital paulista. Desde quando o Rio deixou de ser a capital cultural do Brasil?
Zuza Homem de Mello - É difícil fixar uma data, mas vou citar um exemplo recente. Em agosto, fui convidado para dar uma palestra num evento no Rio, fiquei hospedado num hotel muito bom e, à noite, já estava livre e liguei para minha mulher. Ela me perguntou: “E aí, vai sair?”. E eu: “Vou direto para o quarto”. Não tenho coragem de sair no Rio, vejo as ruas vazias, talvez o único lugar seguro seja a Lapa, mas seguro desde que você chegue lá. Então disse a ela que iria para o quarto, ligar o futebol na TV, fosse o que fosse, até uma Série B. Vamos esperar que isso seja superado, mas vai demandar esforço e vontade política à qual se associem várias classes de pessoas. Não são só as pessoas do morro que estão prejudicadas, as mães cujos filhos não podem ir na escola, não é só isso não.
ZH - Os Jogos de 2016 não serão uma oportunidade para reverter essa situação?
Zuza - Não é porque ganhou os Jogos. O que vai resolver é vontade política. Já se conseguiu em inúmeros lugares do mundo em situação dificílima. Se você vai, por exemplo, a Barcelona, havia uma zona perigosa que se transformou em centro cultural. Em São Paulo, está-se tentando fazer o mesmo. Uma vez por semana, quando saio do concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), passo pela Crackolândia. É de dar medo. Isso pode ser revertido, mas tem de ter seriedade e uma vontade política ferrenha, indomável. Não pode o cara dizer: “Ah, vou aproveitar pra levantar uma grana aí”. Aí não adianta. E é infelizmente o que muita gente pensa, né?
ZH - Nova York, onde o senhor viveu nos anos 50, também teve experiências de recuperação de espaços.
Zuza - Sem dúvida. Lembro de ter ido num clube de jazz chamado Half Note, perto de uma zona portuária. Na época, falo de 1957, Nova York era uma cidade bem segura - depois se tornou insegura e depois se recuperou outra vez. Eu ia a um bar chamado Five Spot Cafe para ouvir Thelonius Monk e John Coltrane. O bar ficava num local em que distribuíam a sopa dos bêbados de rua, era barra pesada.
ZH - Nessa época o senhor já tinha decidido abandonar a Faculdade de Engenharia e se dedicar à música?
Zuza - Felizmente larguei a engenharia no segundo ano. (Risos.) Primeiro, fiz um curso de verão na School of Jazz, em Lenox. O professor de piano era Oscar Peterson, o de trompete, Dizzy Gillespie, o de contrabaixo, que era o meu instrumento, Ray Brown. O diretor da escola era John Louis, pianista do Modern Jazz Quartet. Eu já era contrabaixista profissional em São Paulo desde o início dos anos 1950.
ZH - Era bom músico?
Zuza - Mediano. Tinha gente que gostava. Cesar Camargo Mariano dizia: “Você tocava bem, sim”. Eu sei que não tocava bem porque o meu parâmetro era Ray Brown. Na época havia muito bons baixistas no Brasil, como Stravinsky (que depois se tornou mais arranjador), Xu Viana e Juvenal Amaral.
ZH - Por que decidiu ir para os Estados Unidos?
Zuza - Quando larguei a faculdade de engenharia, minha mãe falou: “Se é para seguir essa carreira, você tem de estudar”. E assim foi feito. Comecei a estudar música em São Paulo com professores particulares: harmonia, contraponto, história da música. Minha ideia era escrever sobre música. Quando estava na School of Jazz, era o único aluno da América do Sul e saíram reportagens com títulos como “Estudante brasileiro quer ser crítico de música”. Em Nova York, fui para a Juilliard School of Art estudar música clássica, não tinha nada com jazz. Estudei composição, teoria musical, arranjo, enfim tudo que eu julgava ser necessário pra poder me abastecer de conhecimento e poder escrever conhecendo tecnicamente aquilo que o músico também conhece.
ZH - É indispensável para o crítico conhecer a técnica?
Zuza - Recentemente, um jornal brasileiro enviou um repórter para cobrir o Festival de Nova Orleans e assistir ao espetáculo Kind of Blue, comemorativo dos 50 anos do disco do Miles Davis. Ele começou a reportagem da seguinte forma: “Quando o trompete de Wallace Roney repetiu os primeiros acordes de So What, uma das canções de Kind of Blue…”. Ele utilizou as palavras “acorde” e “canção” no primeiro parágrafo, ou seja, mostrou incompetência para escrever sobre música (So What não é uma canção, e sim um tema instrumental, cuja melodia, e não acorde, foi executada pelo trompetista). Acho que isso responde a sua pergunta. O lado subjetivo da música varia de uma pessoa para outra, mas o aspecto técnico é quase matemático. Você tem de ter conhecimento para saber por que um acorde dissonante está colocado corretamente numa harmonia. Quando Roberto Menescal (violonista e compositor, um dos pais da Bossa Nova) foi estudar com Moacir Santos (maestro e arranjador), ouviu na primeira aula de harmonia que um certo acorde não podia ser usado. “Não pode, está errado, tem de ser este aqui”, disse Moacir. Durante dois ou três meses ele foi obrigado a seguir aquelas regras de harmonia estabelecidas por preceitos há muitos séculos. No final do curso, Moacir disse a ele: “Agora pode tudo”. (Risos.)
ZH - O músico e jornalista gaúcho Arthur de Faria disse que acabou se afastando um pouco da crítica para não ter de comentar o trabalho de colegas. O jornalismo te dá isenção para criticar até mesmo colegas e amigos?
Zuza - Nunca me deixei levar por isso, não. Tenho amigos que não são bons amigos e pessoas por quem não tenho a menor simpatia e são maravilhosas. Eu era crítico de música popular de O Estado de S.Paulo, e havia um show no Masp de uma cantora iniciante, Olívia Byington. Era um dos primeiros shows dela em São Paulo, ela já havia lançado um ou dois discos, e nessa apresentação ela deu uma grande guinada no repertório e na postura como cantora. Achei aquilo uma guinada errada, que não ia conduzir a nada na carreira dela, um beco sem saída. E fui severo com ela ao escrever a crítica, mostrando que não era por ali. Algumas pessoas acharam que desci o cacete um pouco pesado demais. (Risos.) Pois bem: nos tornamos grandes amigos, ou seja, ela recebeu aquilo quase como uma orientação na vida dela. E, de fato, ela abandonou aquela linha. Você sente perfeitamente quando um sujeito faz um trabalho conduzido por um guia que pode ser o diretor da gravadora, o conselheiro, um dos músicos da banda, e que não está dentro da alma musical que ele tem. Você tem uma personalidade musical que tem de ser respeitada, não é mesmo? Quantos artistas quiseram gravar Bossa Nova, foram um desastre e aquilo não significou nada para a Bossa nem para a carreira deles? Hoje preferem que não se fale daquilo, se esqueça, como aquela música do João Donato (canta): “Mas daquele amor / nem me fale”. (Risos.)
ZH - O que deve fazer o crítico? Refletir sobre a obra do artista, tentar esclarecer o que diz ou simplesmente dizer se essa ou aquela atração é recomendável ou não?
Zuza - O crítico tem de saber orientar o leitor, dar-lhe a possibilidade de deduzir se um disco, uma peça de teatro ou um espetáculo é bom ou ruim, se vale a pena ser visto ou ouvido. Ele pode fazer isso sem xingar o artista e reconhecendo aquilo que é sincero e que faz parte da proposta daquele ser humano, sem deixar de levar em conta o que aconteceu antes de ele chegar nesse ponto. Não tente corrigir o braço da Vênus de Milo. Ela não tem braço. Ou você aceita a Vênus de Milo tal qual é ou pega outro caminho. Você tem de respeitar a proposta da pessoa que fez aquilo.
ZH - Alguma vez o senhor se preocupou em pegar leve numa crítica para não magoar o artista?
Zuza - Acho que se você, ao não levar em conta o esforço da pessoa para fazer aquilo, lhe dá uma cacetada, pode magoá-la. Isso pode ser um baque do qual ela não se recupere mais, e então não será justo. O cara pode errar, todos nós erramos uma vez, até o crítico. Washington não está conseguindo marcar gol no São Paulo. Isso não quer dizer que ele não seja capaz de marcar, ele é um jogador brioso. Ontem liguei para o diretor do São Paulo e mandei um recado: “Diga para o Washington que eu confio que ele vai ajudar o São Paulo a ser campeão”.
ZH - Como vê o estado da crítica de música na imprensa brasileira hoje?
Zuza - Há críticos muito competentes. O que acontece é que você tem de começar a ler o crítico até chegar ao ponto de confiar ou desconfiar, de aceitar ou não, principalmente quando se trata de coisas sobre as quais você tem uma informação relativamente pequena. A maioria das pessoas lê crítica sem entender o suficiente para saber se aquele tema em discussão vale ou não a pena. A pessoa quer ter uma espécie de guia: “Será que essa Ana Carolina é boa? Vamos ver o que escreve a crítica”. O cara pega e se decide. Agora, se vem uma badalação em torno de um artista que comprovadamente não tem o poder de entender a canção tal qual é, por mais elementar que seja, você vai acabar desconfiando. Se tiver o mínimo de sensibilidade, vai comparar: “Pô, mas o cara escreveu que ela é isso e aquilo, eu não vejo nada disso”. Um dos dois está errado.
ZH - Para o crítico, a credibilidade tem de ser conquistada todos os dias?
Zuza - Claro, a credibilidade é conquistada. Não é fama, é credibilidade. Fama é outra coisa, é para quem quer ser celebridade. Você pode não ser nada e ser uma celebridade, não é nada, é um zero e pode ser uma celebridade. Então, você conquistou a fama.
ZH - O senhor foi um participante e um historiador dos festivais, caso único na história da música popular brasileira em que arte e política se misturaram. Como vê aquela experiência?
Zuza - Os festivais não têm paralelo em matéria de interferência da arte na política. Nem se você considerar os movimentos nos Estados Unidos e na Europa. A força da canção não foi determinante em nenhum outro lugar, nem mesmo na Argentina ou no Chile. No Chile, há o Festival de Viña del Mar, a ditadura militar estava batendo firme e os artistas chilenos não tiveram esse verdadeiro movimento de uma classe que enfrenta com o peito aberto, sem medir as consequências, as armas dos militares.
ZH - De parte dos artistas, isso era consciente?
Zuza - Era. As músicas que não tinham o viés de falar, mesmo que por linhas tortas ou subliminarmente, da situação política eram repelidas, vaiadas, até mesmo pelo júri. Eu e a Brisa, talvez a mais linda composição romântica de Johnny Alf, foi desprezada pelo público e pelo júri. Sabiá é outra. O júri se mostrou sábio para Sabiá, tanto é que o tempo mostrou a qualidade da canção.
ZH - Mas o público vaiou, ainda que Sabiá pudesse ser vista como uma canção que se referia, de forma tangencial, ao exílio.
Zuza - Conversei com Chico (Buarque) sobre isso e ele disse na época que não tinha essa intenção (de incluir um recado político). Também havia essa tentativa de descobrir elementos de ligação caso a canção não contivesse.
ZH - E não ocorreu o fenômeno oposto, ou seja, de uma música ser valorizada muito além de suas qualidades intrínsecas pelo fato de conter uma mensagem política? Não foi esse o caso de Para Não Dizer que Não Falei das Flores, uma canção que se poderia chamar de limitada?
Zuza - Sem dúvida que é. Ela vale pela letra. A letra diz o que os jovens sentiam na época, e esse sentimento da época vale até hoje. As pessoas que viveram aquilo dizem: “Não, esse é o nosso hino”. Por uma questão de saudosismo, talvez, ela continua sendo para essas pessoas um hino contra a ditadura militar, uma Marselhesa. Em Casablanca, há um momento em que os alemães no bar Rick`s cantam um hino alemão, e então os antinazistas cantam a Marselhesa e abafam o outro hino. A Marselhesa está no sangue do povo francês como a forma de patriotismo mais simbólica e mais forte às vezes até do que a própria bandeira francesa. Ela tem um grau de emoção contido em dois elementos que a bandeira não tem: a letra e a música. Aquilo vai fundo na pessoa.
ZH - A patrulha ideológica sobre quem pensava diferente não foi nociva?
Zuza - Estou tentando lembrar de algum caso. Pelo que se sabe, a única vaia que Roberto Carlos levou na vida foi no Festival de 1967, defendendo um samba de Luiz Carlos Paraná. Ele superou isso com muita dignidade. Por outro lado, a vaia abalou a carreira de Sérgio Ricardo, um sujeito formidável, com uma consciência artística sólida. Ele é conhecido como o homem que jogou o violão (vaiado na final do 2º Festival de Música da TV Record, em 1967, ao apresentar a canção Beto Bom de Bola, Sérgio Ricardo quebrou o violão e o jogou na plateia, tornando-se notícia internacional). O mais sensacional naquela festival não foi, por incrível que pareça, a apresentação de Ponteio, que abriu um novo horizonte para o baião. O que ficou foi a “violada”. “Violada no auditório”, título atribuído ao jornal paulista sensacionalista da época Notícias Populares, não está na coleção desse jornal. Uma pessoa me assegurou que o título é do jornal carioca O Dia.
ZH - O impacto dos festivais não está ligado ao advento da TV?
Zuza - Houve uma coincidência de quatro elementos. Um deles foi a TV. O público descobriu a força da música popular brasileira pela TV. Outro foi a coincidência - a pura coincidência, que não depende de nada - de surgirem ao mesmo tempo pelo menos 10 pessoas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola e até Moraes Moreira. É uma coincidência, igual à que aconteceu no final do século 19 em Paris, com o movimento impressionista. O terceiro fator é político - todos esses elementos eram da egressos da universidade. Paulinho e Milton são as exceções que confirmam a regra. Finalmente, foi o momento em que os compositores começaram a cantar suas músicas. Isso deu uma guinada fundamental na música popular brasileira.
ZH - Tinha gente que era contra porque eles supostamente não tinham técnica vocal.
Zuza - Até hoje dizem isso, que Chico canta mal. Pegue as gravações de Chico por ele mesmo e por outros. Dificilmente ele perde. Tem cada música lá que é uma pedreira para cantar, cheia de semitons, de passagens que ele consegue fazer com a maior correção possível e a emoção que a canção está pedindo. Nos anos 30, há casos raros. Noel Rosa era espetacular cantando, Lamartine Babo era de dar risada de tão engraçado, mas eram duas exceções, porque eram ligados ao rádio.
ZH - Há alguns anos Chico Buarque declarou numa entrevista que a canção tinha morrido, e isso ainda hoje provoca polêmica. Qual é sua opinião?
Zuza - Eu gostaria de te dar agora um exemplar do último disco do João Bosco. (Pausa. Risos.) É uma resposta de efeito. Um grupo de pessoas de cerca de 20 anos se reúen para jantar, beber vinho, há um violão e alguém diz: “Vamos cantar um pouco?”. O que você acha que será cantado: um rap ou uma música de Chico Buarque? Acho difícil que seja um rap. Pode haver no meio de 10 uma que alguém deseje cantar, mas acho que as canções entranhadas na parte mais sensível de cada um é que virão à tona. Independentemente da época ou do país. Pode vir uma canção alemã - se estivermos em Santa Catarina -, italiana - em São Paulo -, pode ser uma canção americana, mas será uma canção.
Postado por Renato Mendonca