Tem gente que não consegue viver sem alguém para declarar inimigo, culpado ou desafeto. Acho que todo mundo é um pouco assim, na verdade. Eu tenho dois irmãos. De uma forma ou de outra, era sempre dois contra um. As alianças oscilavam mais que o afeto. Hoje, somos adultos e nos damos muito bem. Eu mesma, super ultra bem, a mais de mil km de distância é fácil não brigar. Eles ainda se desentendem.
Cresci, mas de alguma forma, trouxe comigo esse lance de estar de um lado ou de outro. Não fico em cima do muro jamais. Quando estou de um lado, crio todos os argumentos do mundo para justificar minha escolha, seja de amiga, de escola pra filho, de trabalho, de opinião sobre qualquer assunto cabeludo. Adoro falar sobre aborto, pena de morte, machismo, alimentos orgânicos, casamento, traição, depilação, religião, que fulano é chato_ sou sempre toda ouvidos e dou minha opinião com gosto.
Mas, quando começo a duvidar de uma ideia, ou pessoa, me fecho e pesquiso mais sobre o assunto. Não gosto de defender nada que não me soe verdadeiro. Não consigo, na real. Mas, nessas situações pode acontecer algo no meio do caminho. Às vezes, quando me aborreço com alguém, de repente, outra pessoa me decepciona mais ainda. Aí, sabe o que acontece? Eu esqueço o primeiro problema e foco no segundo. Como alguém que para de reclamar da barriga porque fechou o dedo na gaveta. O inimigo passa a ser outro.
E não sou só eu que sou assim, não. Nunca te aconteceu de alguém estar irritado contigo e, de repente, voltar a sua fúria contra outra pessoa e agir normalmente contigo como se nada tivesse acontecido? Pode ter certeza que a mesma lógica operou: o inimigo passou a ser outro.
Parece papo de maluco, mas andei pensando sobre isso e cheguei à conclusão que esse mecanismo é apenas uma forma de convívio que vem de fábrica nesta espécie tão intolerante que é o ser humano.
