Vaso ruim quebrado
15 de junho de 2012 Comentários desativadosNunca te contei, mas depois que minha mãe largou meu pai, ele casou com uma mulher de boate e teve um filho. Esse meu irmão tinha 25 anos. Eu nunca me dei com ele. Nem com o meu pai, que morreu na rua, mendigo, com aids, ali perto do Gasômetro.
De madrugada ligaram lá pra casa pra avisar que o Ricardo, meu irmão, tinha sido encontrado morto e se a gente não pagasse R$ 1,5 mil ele ía ser enterrado como indigente, vala comum, aquelas coisas. Eu nem tchuns. Ele era 'pá viradinha', vendia droga, se gostava de algo, passava logo a mão.
Minha irmã mais nova se agilizou e conseguiu que ele fosse enterrado em Eldorado. Lá a prefeitura paga tudo, caixão, coveiro, o kit enterro básico. Ele tava pelado, com os braços amarrados pra trás, na margem de um arroio perto da Sertório, mas acho que apagaram ele na Restinga. Deram tanto tiro na cabeça que não sobrou nada em cima do pescoço.
Só identificaram pela tatuagem. Meu namorado ouviu dizer no ônibus, hoje de manhã, que quem matou ele foi o ex-marido da mulherzinha dele. Ela tem um guri desse outro cara e parece que meu irmão tinha queimado todo o guri com cigarro. Ah, quer saber, bem feito então. Não derramei uma lágrima, aliás, a última vez que chorei foi quando meu cachorro morreu.


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