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Últimas da gravidez e mais Anitices

17 de maio de 2012 Comentários desativados

Estou contando os dias para o parto. Faltam só três. Isso se ela esperar até segunda. Sinto muita pressão pélvica. Na barriga, parece que tem uma hélice de lancha. Ontem, eu comecei a sentir pontadas no meio da feirinha orgânica. Imagina que prosaico, nascer na Secretaria do Meio Ambiente. Mas não. Isso combinaria mais com a minha cunhada, que vai ter a sua Flora em setembro. Meu irmão é quase um Policarpo Quaresma paranaense, seu filho mais velho (que só tem um ano) chama-se Heitor Pinhão. Juro. A Flora provavelmente será Flora Araucária (eu acho).

Ontem fiz minha última eco de controle. Foi rápido, ela está bem, com 3 kgs, e eu ainda tenho 10 cm cúbicos de líquido, um litro. Vi a carinha da Rory rapidamente e achei bem bonitinha. Conheci só uma grávida na sala de descanso do hospital. Estava com 20 semanas e sentia dores abdominais. Sempre foi gorda, mas no ano passado se submeteu a uma cirurgia bariátrica (é isso que o Hugo, meu irmão Policarpo faz) e perdeu 53 quilos.

Ela contou que no começo, logo depois da operação, não se reconhecia naquele corpo magro. Quando passava perto de um espelho ou vidro nem se olhava porque achava que era outra pessoa (!). Disse também que demorou meses pra parar de entrar nas lojas e procurar roupas enormes. Não se dava conta que tinha virado outra pessoa. Agora, grávida, engordou pouquinho e tem tido cólicas. Tomara que esteja tudo bem.

Já estou com tudo mega pronto, só falta mais um sutiã amamentação, a cinta e uma chaleira elétrica, para esquentar a água do banho no banheiro bem rápido (eu e minhas ideias). Agora à tarde vou ao shopping e já resolvo tudo isso.

Agora vem a parte dramática do post. Sério, eu não imaginava que era tão querida pelos mais próximos. O que tem de gente se lamentando porque acha que eu não lhe darei mais atenção... Ontem minha faxineira mandou uma mensagem à noite dizendo que estava chorando porque gostava muito de mim e que ía sentir a minha falta. Porque eu arrumei uma babá e não posso ficar com as 2. Algumas amigas também têm falado coisas assim, mas o que me dói mais é a Anita. Ela tá muito triste.

Essa é de partir o coração. Hoje de manhã fomos ao salão pra eu me depilar. Eu comprei uma maquininha santinelle que tornou a minha vida mais fácil, principalmente no que tange axila e meia perna. Sempre posso sair de regata ou de perna de fora, MAS, com a barriga, tem toda uma região que eu sequer enxergo que precisava de um tratamento profissional.

A Anita foi junto e ficou brincando com as crianças do salão (a Sofia, neta da Ione que é a dona e o Cauã, filho da Luana, manicure). Tem até espaço kids. Como a Sofia também tinha prova de LETB (já escrevi sobre isso no post anterior)), elas passaram a manhã lá estudando. Eu até voltei pra casa e depois a peguei mais tarde.

Perto do meio-dia encontramos uma ex-professora dela. Ela correu, abraçou e elogiou um pouco a Anita. Quando a Anita ía começar a contar histórias, o papo mudou pra minha barriga, Aurora, parto e tal e a Anita ficou no vácuo. Ele fez uma carinha que me deu muita pena.

Que coisa. Anda se divertindo com histórias de irmãos que pedem aos pais para devolver os bebês ou querem jogá-los no lixo. Ontem falou isso para uma vizinha, que pretendia jogar a Aurora no lixo. Ao que a vizinha, que é psiquiatra, respondeu: Joga lá em casa Anita, ap 704, torre 2. E a Anita: Vou anotar!

Tirando isso ela tá muito fofinha e criativa como sempre. Criou uma pastinha no meu iphone chamada Sacaniação, com apps de brincadeirinhas do tipo avacalhar o Justin Bibier. Outro dia estávamos brincando de rima e ela disse: Mãe, Emíla combina com o quê? E eu: Ervilha. Ela: Não, melhor com tomilha, aquela tua plantinha que tu sempre me pede pra pegar umas folhas pra cozinhar. Óin.

Anitices

15 de maio de 2012 Comentários desativados

Ficou com febre e dor de garganta. Deixei faltar aula na sexta. "Enforcar", ela diz. Como eu to evitando ficar pra cima e pra baixo, porque tenho umas dores na barriga, não a levei ao médico. E, consequentemente não dei antibiótico. Só dei Alivium, que ela jura que chama "Melhorium". Chamar não chama, mas ela já melhorou.

A bichinha tá meio enciumada porque eu fico horas mostrando as coisinhas da Aurora pras visitas que vêm aqui justo com esse propósito: ver as coisas do bebê. Noto que a Anita não curte muito, mas faz parte...

Ontem ela trouxe um caderno pra casa chamado LETB, que é uma disciplina que a escola dela inventou - Leitura Espaço-temporal e Biológica, que me pareceu o que eu chamava de Estudos Sociais na escola há mil anos atrás. Nesse caderno tinha uma entrevista com ela e duas respostas me chamaram a atenção:

Em que você pensa? Na minha mãe.

Com que você se preocupa? Com a minha irmã.

Tadinha. Eu sei que ela tá insegura. Mas a gente tá fazendo o possível e impossível pra ela não se sentir assim. Olha a carinha dela aí, segurando os sapatinhos da Aurora.

A quinze dias do parto

08 de maio de 2012 Comentários desativados

Faltam menos de duas semanas para o bichinho da goiaba #2 nascer e cá estou eu no hospital esperando pra fazer meu ultrassom semanal.

TUDO está arrumadíssimo pra esperar Rory. Sim, ela já tem apelido.  Em janeiro, quando a Dani Cedola veio me visitar, adorou o nome e declarou que ela seria chamada assim. Claro, eu pensei, Rory, como eu não tinha pensado nisso? A Dani é muito engraçada e como ela morou na Inglaterra muito tempo, é especialista em apelidos inglesados. Disse que vai até criar um app pra iphone com esta funcionalidade. Você digita lá JOÃO e o app diz JOHNNY.

Rory é um nome/apelido de origem irlandesa. É usado como nome de homens e como apelido nas mulheres que se chamam Aurora e Aurélia (outro nome da minha lista de favoritos). Essa tem tudo pra nascer ruivinha. Será?

Na gravidez da Anita eu ganhei muita coisa. Desta vez, como não tenho nenhuma amiga próxima com bebês ou meninas, foi bem diferente. Fazer umas comprinhas era inevitável. Nessas horas a gente vê a inflação e as transformações no setor de moda infantil e de artigos levemente supérfluos (aquelas coisas mega fofinhas, que hoje trazem na etiqueta a descrição 'fios de algodão egípcio com finalização de cerâmica').

Olha a prova aí que eu não to mentindo.

As roupinhas estão caríssimas. A média de preço de um tip top é R$ 100,00. Pra minha sorte, achei um brechó maravilhoso perto de casa. As roupinhas são lindas, das melhores marcas, super novas (algumas estão com a etiqueta) e custam um décimo do valor. Graças a isso, a Aurorinha vai ser um bebê mega fashion. Senão ía seguir a moda mendigo fácil.

Na semana passada, fui lá pra procurar um carrinho guarda-chuva pra minha mãe e encontrei um sling muito legal, igual a um que a Carla Bruni carrega sua Giulia. O melhor foi o preço: 39,00, novinho, marrom com forro estampado de rosa pálido e marrom, de uma marca italiana.

Outra cliente que estava lá com uma baby de menos de um mês enlouqueceu com meu achado. Até testamos com o bebê dela e eu nem senti o peso. Ela queria, mas eu vi primeiro! Grávidas são os seres mais escrotos e egoístas nesses momentos.

Estou super bem fisicamente, mas minha ansiedade está a mil. Claro que eu quero que a bichinha engorde mais, não quero que ela nasça antes do dia 21, quando está marcado o parto, mas quero muito que o tempo voe até lá! Não vejo a hora de ver a carinha dela.

Hoje tem 3 grávidas de seis semanas com sangramento. Uma mais indignada que a outra. "Acho que esqueceram de mim" é a queixa mais recorrente. Ok, já fui uma delas. Daqui uns meses terão adquirido a malemolência necessária para tirar sangue, coletar urina, esperar e esperar.



Dois partos solitários

02 de maio de 2012 Comentários desativados

Certa vez minha mãe me contou que a mãe dela, minha vó Alzira, teve os filhos sozinha em casa. Tá, ok. Isso nunca havia causado qualquer sinapse em meu cerébro. Até agora.

Na verdade, essa memória difusa - será que era isso mesmo?- tinha uns detalhes complicantes, como o fato do meu tio ter nascido de 7 meses. De umas semanas pra cá, só de pensar nessas coisas eu tenho ficado com um nó na garganta.

De todos os relatos de parto, esses são os que mais me intrigam e comovem. Ontem, quando liguei pra minha mãe pra por o papo em dia, perguntei a história direito. Era pior do que eu pensava.

Apesar de ter várias irmãs - Ana, Roberta, Catarina e Marina - Alzira vivia longe da sua família, constantemente em mudança para acompanhar meu avô, que trabalhava na Klabin. Até por Guaíba eles andaram.

Minha mãe, a filha mais velha, nasceu em Arapoti, no Paraná. Na manhã do dia 20 de agosto de 1948, Alzira Rodrigues Barros avisou seu esposo Geraldo que o bebê iria nascer. Ele não lhe deu ouvidos.

A pequenina Marly Barros.

Horas mais tarde, chegou em casa e deu ouvidos, mas ao bebê, uma linda menininha gorduchinha de olhos azuis, que estava enrolada num cobertor, ainda com o cordão umbilical. Aí o Geraldinho saiu correndo atrás de uma parteira, pra finalizar o serviço.

Um ano depois, aconteceu a mesma coisa. Mais uma vez, Alzira, agora com 24 anos e uma filha nos braços, deu a luz, em casa, sem qualquer auxílio, ao meu tio, que nasceu prematuro.

Estes autoatendimentos obstétricos deixaram algumas seqüelas na minha vó, que não conseguiu mais 'segurar' nenhum bebê e teve uma sucessão de abortos nos anos seguintes.

Assim, só tenho um tio e um primo por parte de mãe. Com o tempo, meu avô passou a acreditar no que a dona Alzira dizia. Mas, naquela manhã de inverno de 1996, quando anunciou do banheiro "Geraldo, vou morrer", mais uma vez o velhinho não teve tempo de agir. O fato estava consumado. Minha vó caiu mortinha, aos 73 anos.

Historinhas de grávidas

27 de abril de 2012 Comentários desativados

Eu e minha médica já decidimos que faremos outra cesariana por causa de um cisto que eu tenho. Mesmo assim, poucos assuntos me interessam tanto quanto os partos atualmente.

Adoro principalmente as histórias que envolvem rompimento de bolsa. Uma amiga biológa, que tem 3 filhos, me disse que cada vez que a bolsa dela rompia chegava a ensopar 3 ou 4 toalhas grandes. Outra amiga me contou de uma funcionária cuja bolsa rompeu no escritório e fez-se uma poça enorme no chão.

Com base nas minhas investigações, noto que essas situações são bem raras, porque a maioria só fica pingando ou entra em trabalho de parto sem passar pela parte úmida do processo. Não sei de onde vem o meu fascínio, deve ser porque eu tenho pouco líquido amniótico (e uma mini barriga), então acho o máximo as enxurradas.

Grande parte das minhas amigas teve parto normal e eu acho isso muito legal, exceto no caso daquelas que se arrebentaram porque os bebês eram muito grandes, como uma colega do pilates cujos pontos inflamaram e ela se complicou toda por seis meses.

Tenho conhecido muitas gestantes na emergência do hospital, que frequento todas às terças para fazer ultrassom com doppler e monitorar o crescimento da Aurora. A maioria delas tem diabetes gestacional e é enorme. Algumas têm bebês com 30 semanas (ainda na barriga) que já passaram dos 3 quilos e elas também, muitas vezes, já engordaram mais de 30 quilos.

Aí fica fácil de entender porque há mulheres que se transformam totalmente na gestação. Trinta quilos é praticamente uma criança de 9 anos e não um bebezinho com cara de joelho. Na semana retrasada conheci uma que estava tomando insulina cinco vezes por dia e fazia dieta para o bebê não nascer com diabetes. Além disso, tanto ela quanto o bebê já estavam com complicações. Que merda.

Essa semana só tinha uma grávida na sala de espera, que é cheia de poltronas boas pra cochilar, daquelas bem fofonas, tipo poltrona do papai gigante. O caso dela era diferente: vomitava mais de 20 vezes por dia e estava com 10 semanas. Naquela manhã havia desmaiado na lotação. A mulher de um amigão do meu marido também estava mega enjoada no começo. No verão saimos pra jantar em Floripa e ela não tomou nem água. Eu não botei os bofes pra fora nenhuma vez, mas tenho a mesma dificuldade de engordar que estas grávidas que enjoam.

Todo mundo me fala: que grande a sua barriga! Mas quando pergunta de quantas semanas estou (fecho 36 hoje), muda pra: que pequena! É bom não ficar gorda nem inchada, mas estou com medo de ficar muito magra depois. Comentei isso com uma amiga bem louca, que luta incessantemente contra a balança e ela me fez a proposta mais inusitada que eu já recebi na vida: - Deixa que eu amamento ela pra vc. Aí você não fica esmiliguida e eu emagreço. Me comprometo a ir na tua casa de 3 em 3 horas! Ri muito.

Ilustra da Carla Barth. Aliás, em maio to organizando um curso de esculturas dela.






The never ending guy

25 de abril de 2012 Comentários desativados

Ontem foi uma noite muito especial na minha vida, tive a oportunidade, provavelmente única, de assistir a um show do Bob Dylan, na minha própria cidade e numa situação bem tranquila, considerando que estou no nono mês de gestação e nem deveria ficar serelepeando.

Só pra registrar, a Aurora já assistiu Eric Clapton, Ringo Starr, foi campeã desfilando pela Unidos da Tijuca na Sapucaí e agora ouviu o mestre dos mestres. Não é pouca coisa para uma menininha que nem nasceu ainda. Não, hoje eu não vou pra Floripa ver o Paul de novo. Não sou louca a esse ponto.

Essa minha paixão por Bob Dylan não é muito antiga, tem mais ou menos 3 anos. Antes disso eu conhecia e gostava de algumas músicas, como a maioria das pessoas. E parava aí. A coisa ficou séria quando eu assisti o documentário 'No direction home', do Martin Scorcese, produzido pela Apple. Então eu li 'Like a rolling stone' de Greil Markus, 'Crônicas- volume 1'(antes que vc me pergunte se não for um dylanmaníaco, só existe o volume 1 mesmo), livro autobiográfico do próprio Dylan, assisti mais um bocado de filmes como 'Don't look back' e 'I'm not there' (incrivelmente criativo) e li mais trocentos livros sobre diversos outros assuntos, mas que sempre convergem para o Huckle Finn de Minnesota.

O que aconteceu comigo foi que além de ouvir e gostar cada vez mais de suas músicas, ele passou a estar onipresente na maioria das minhas referências. De repente eu lia um romance como Liberdade, de Jonathan Franzen, e lá encontrava páginas e páginas dedicadas a ele. E isso passou a acontecer o tempo todo.

O maluco do Steve Jobs era talvez um dos seus fãs mais fervorosos, passou boa parte de sua juventude atrás de gravações piratas de shows (que viriam a se tornar as Bootleg Series), namorou Joan Baez (por que será?) e não sossegou enquanto não ficou amigo (naquelas) do cara e fez negócios com ele.

Quem mais já foi amigo dele e se influenciou pela sua maneira poética e sensível de enxergar o mundo? Johnny Cash, os Beatles, Allen Ginsberg e mais milhares (e eu realmente não estou exagerando) de artistas e de pessoas comuns, de gerações de pessoas comuns. O cara é foda, num grau máximo.

Vejo as pessoas na internet meio que reclamando que ele não fica bajulando o público, mas quem é fã mesmo sabe que ele nunca fez isso. Aliás, já tomou muita vaia quando incluiu guitarras elétricas nos shows, em uma época que era cultuado no meio folk. Ele é esse cara, que se diverte e emociona cantando, tocando (principalmente a sua gaita) e pronto, não tem saco de ficar fazendo socialzinho. Não que eu seja contra socialzinho, achei super simpático ver que o Paul chamou o público de Recife  de povo arretado - lindo, fofo -, mas o Paul é o Paul, um gentleman e não é o Bob Dylan, ponto.

Então, dentro disso tudo que eu to falando, eu fiquei realmente tocada de vê-lo ontem, vestido de cowboy, cantando - a uns 10 metros de mim, 'Like a rolling stone', a música mais importante do século passado na opinião de diversos críticos (e por que não dizer, na minha também).

Outra característica peculiar dele é modificar totalmente uma música, como fez com 'Blowin' in the wind' no encerramento do show ontem. A letra permanece, mas a música não tem nada a ver com as versões mais conhecidas. É quase um exercício de adivinhação, ainda mais pra quem é ruim de ouvido como eu. Mas, enfim, valeu e muito e hoje sou uma pessoa mais feliz por ter visto este show.



Eu que desenhei, graças a umas dicas da Carla Barth.



Amém, kefir

24 de abril de 2012 Comentários desativados

Me converti ao kefir, uma religião com mais de 4 mil anos de história, que teve sua gênese na região da Cordilheira do Cáucaso, a saber no extremo oriental da Europa, fronteira com a Ásia.

Lá foram desenvolvidos os venerados grãos brancos da substância mais saudável que já se teve notícia. Sua aparência simplória, que remonta a uma ambrosia albina, oculta os mais magnifícos poderes de cura da biologia.

Tem gente que tem cachorro, há quem crie gatos, eu optei por esta espécie de fungo em função dos benefícios acima mencionados. O kefir demanda cuidados diários, como um tamagotchi não de carne e osso, mas de leite e lactobacilos.

Estou com o meu há cerca de uma semana e ainda estamos nos adaptando. Fora ou dentro da geladeira? lavo ou não os grãos na peneira? leite desnatado ou integral? frio ou quente? Um dia todas estes questionamentos serão parte do passado e eu não porei mais minha fé de lado, nem considerarei a heresia de talvez me cansar desta missão e desistir de criá-los para o bem da humanidade.

O kefir não é indulgência e não está a venda. Alguns sites prometem (e não são aqueles que falam de aumento peniano) mudas, mas fiz uma busca e vi que estão todos com a mesma desculpinha: sem sementes no momento. Pudera, a prática religiosa não permite o comércio, apenas as doações, o que é no mínimo complicado nos dias de hoje, na sociedade capitalista.

Acho que quem inventou isso - de não vender, logo não existir para o grande público - foi a indústria dos lacticínios que tem medo de perder espaço, compactuada com a indústria farmacêutica, já que o milagroso kefir previne desde o câncer, à asma, às doenças de pele, ao envelhecimento, às depressões e tudo mais.

Em suma: o kefir é um bichinho que faz iogurte. Todo dia, de graça, pra você. E ainda se multiplica de forma que pode ser compartilhado com outras pessoas que também gostam dessas coisas saudáveis. Eu tenho falado tanto que já estou cheia de encomendas e os meus ainda nem se reproduziram muito.

A parte chata é que todo dia você tem que cuidar deles, ou seja, peneirar o leite que ele está e colocá-lo num leite novo. O iogurte, que os sites de kefir dizem que não é iogurte, é uma delícia. É azedinho, dá pra misturar com frutas e já descobri até um jeito de deixá-lo aerado, como se tivesse batido no liquidificador. É só tampar bem o vidro, de forma que as bolhas de fermentação não consigam sair.

E quando for viajar, ou tem que levar junto, ou emprestar para alguém cuidar. Estou totalmente apaixonada, tomara que eu não enjoe nunca nem mate jogue fora esta iguaria tão divina. Hoje me bateu uma preocupação "E quando eu for pra maternidade?". Meu marido me garantiu que vai levá-los junto. Ufa.

PS - Como TUDO publicado neste blog, as informações deste post são verdadeiras.


Rachando o suco

24 de abril de 2012 Comentários desativados

Eu não diria que o tempo passou voando, mas uma coisa é certa, no prazo de um mês a Aurora nasce. E nessas últimas semanas de espera que me restam, só tenho pensado em coisas boas e feito planos fantásticos. A Anita tem estado incrivelmente fofinha e me ajuda tanto em tudo e até na arrumação das coisas pra novo bebê, que cada dia tenho mais certeza de que fiz a coisa certa, de engravidar de novo depois de tanto tempo, sete anos.

Adoro uma história do Kurt Vonnegut sobre uma mulher de 43 anos que escreve pra ele perguntando se estava errada de querer ter um filho, trazer ao mundo sujo e mau que vivemos uma criatura bondosa, doce e inocente. Ele morre de vontade de dizer que sim, que numa sociedade com pobres obesos e sem qualquer  programa de saúde público disponível (ele mora nos EUA e a mulher da carta também), é erradíssimo ter um filho.

Mas, não. Ele fala que vale a pena sim ter um filho, mesmo neste mundo escroto que tá aí. E o que o faz pensar assim é a música, em primeiro lugar, e em segundo, os santos, ou seja, as pessoas que têm um comportamento decente numa sociedade chocantemente indecente. E comportamento decente não tem a ver com moral, mas sim com ser bom e fazer o bem, outra grande premissa da existência humana para Vonnegut.

Hoje perguntei pra Anita no almoço se topava rachar um suco de laranja, daqueles de caixinha. Ela não entendeu nada. 'Mãe, como rachar um suco, suco é líquido, é como água, não racha!'. Expliquei a expressão rachar com o exemplo clássico de 'rachar a conta' e ela entendeu. Agora me diz, é ou não uma coisa mágica conviver com essa pureza que são as crianças? Posso ser ingênua, mas eu acredito que as crianças são tábulas rasas e que cabe a nós mostrar o certo e ensiná-las a serem boas e honestas. Aliás, se não acreditasse nisso, eu jamais estaria com uma barrigona chutativa desta mais uma vez.

Casas de mulheres e casas de homens

17 de abril de 2012 Comentários desativados

Minha mãe vive num mundo muito masculino. Mora com o meu pai, tem um único irmão, seu pai viveu dez anos a mais que a sua mãe e meus dois irmãos moram próximos a ela. Não tem irmãs, amigas confidentes e poucas de suas conversas comigo estão fora do radar do meu pai. Durante os vinte anos que compartilhei com ela este habitus, eu sentia muita falta de mais cumplicidade feminina nos ambientes familiares. Talvez por isso tenha saído de casa tão cedo.

Como consequência desse fato, ela não é muito vaidosa (eu tampouco sou), tem uma autoestima bem boa, não se intromete na vida de ninguém, ainda que se preocupe horrores, e fica muito cansada com as reuniões familiares que ocorrem na sua casa. Jesus, to virando ela todinha nos últimos tempos.

Todo mundo quer vê-la, quer conversar com ela, quer estar perto, mas ninguém está a fim de ajudar, de dividir as tarefas de verdade, de entender o lado dela. As relações ao seu redor são sempre unilaterais, ela dificilmente tem alguma contrapartida, para não entrar em outros méritos.

Nas casas onde há diversas mulheres, a situação é exatamente oposta, geralmente. Todo mundo ajudando, mais harmonia, mais gargalhadas e alegria. Entenda, isso não é um manisfesto anti-homem, só estou analisando alguns núcleos familiares com os quais convivo.

Alguns homens reclamam da 'papagaiada' que rola numa casa cheia de mulheres,  o meu inclusive fazia piadas e se queixava quando eu juntava mais mulheres aqui, ou quando sua mãe vinha nos visitar. Um dia desses, me veio um lâmpejo de  luz e quando ele chegou do trabalho, num sábado de manhã, eu lhe propus o seguinte exercício: - Imagina se cada mulher aqui fosse um homem. A tua mãe fosse um velho de muletas, eu fosse um amigo teu, ou primo, e a Anita fosse um gurizinho de 7 anos. Você ía entrar em casa agora e o clima que ía encontrar certamente seria bem diferente, não acha? E, seria melhor, na tua opinião? Ele parou, pensou e nunca mais reclamou dos nosso hábitos.

Minha vizinha T. comentou que a sua filha fez cartazes designando banheiros diferentes para os homens e as mulheres da casa. E ainda lançou uma questão filosófica na roda: - Já pensou como seriam as casas se os homens menstruassem? Prefiro nem pensar.

Pra encerrar, na semana passada, em um curso que estávamos dando, pedimos para os alunos levarem fotos de sua família para se apresentarem, uma vez que pretendíamos fazer uma análise apoiada na Sociologia Biográfica. Entre todos os casos, o que mais me chamou a atenção foi o de uma menina, que trouxe uma foto com sete mulheres de diversas idades, todas elas super bem arrumadas e lindas.

Ela nos contou, rapidamente, que sua avó havia se separado, bem como a mãe e que morava com mais duas ou três tias, mães solteiras, numa grande casa só de mulheres. Como fora a primeira neta a nascer, cresceu cercada de muitos muitos mimos mesmo. Eu achei interessantíssimo e fiquei com muita vontade de conversar mais com ela para conhecer melhor sua história.

Uma casa portal

11 de abril de 2012 Comentários desativados

Quem construiu aquela casa eu não sei, mas se tiver que enumerar a quantidade de defunto que passou pelo endereço nos últimos anos, eu sento e faço a conta.

Morei lá três anos. Foi onde minha mãe morreu, dormindo, plácida. A velha se foi não fazia nem 4 meses que a gente tava no imóvel. Eu gostava pacas da casa em si, até via uns vultos passando pra cá e pra lá de vez em quando. Mas, na boa, quem não enxerga essas coisas?

Tive que sair porque o cara que me "vendeu" era um baita dum picareta e nunca desenrolou a papelada. Ele comprou o imóvel a preço de banana de uns fodidos que herdaram a casa e sequer tinham como fazer a partilha. Quer dizer, um corretor fez a malandragem de botar a casa na mão desse cara que me vendeu, mas nunca me entregou os papeis. Então, tive que desfazer o negócio e desocupá-la. Não foi por outro motivo que cai fora dali.

Acontece que a dona Célia, um funcionária aposentada que ainda é vizinha de muro, me contou umas histórias de arrepiar os cabelos. O lance é meio 'pague para entrar e saia com vida se tiver sorte'.

Há muito tempo um casal de velhinhos morava lá, passados dos 80, os dois. Um dia, o homem baixou no hospital, com derrame e o escambau. Do leito pro caixão, deixou a velhinha viúva. Não passou um trimestre e ela se foi, encontrar o marido sabe deus onde. A causa da morte dela ninguém conseguiu apurar. Parou de atender telefone, abrir janela e porta. Foram ver, tava na cama, dura e já meio podre.

Aí que entra o picareta na história. Ele 'comprou' a casa dos herdeiros que não tinham a grana pra fazer a papelada e passou a alugá-la. O primeiro morador era um cara duns 50 anos. Viveu o suficiente para pintar as paredes. Em pouco mais de dois meses, foi encontrado morto na cozinha.

Depois se mudou um casal, recém-casado. O cara, meio japa, de uma hora pra outra, deu pra beber e usar droga. Muita droga. Perdeu o emprego e a patroa, que farejou a encrenca e se mandou. O malandro acabou tendo que sair dali. Se ficaram 4 meses foi muito.

Então veio Adélia, bruxa velha, com quem cheguei a falar no telefone. Adélia parou 10 anos  e neste tempo muito sangue correu naquela cozinha enoooorme. Era lá que fazia seus sacrifícios, em sua maioria cordeiros e galinhas pretas. Na área de serviço rolavam os despachos e na garagem, as reuniões. Gente fina, a Adélia. Me contou dos batuques na maior tranquilidade.

- O que, tu morou três anos lá e nunca te aconteceu nada? Tu deve ser muito do bem pra não incomodar o 'pessoal'.

Devo ser mesmo. Depois de Adélia, que se mudou pra parar de pagar aluguel, entrei eu. O louco é que quando eu fui ver a casa, eu só tava acompanhando uma amiga. Eu nem coagitava sair do meu apê, que eu tinha acabado de quitar o financiamento, ali na Tinga mesmo. Mas, foi eu entrar lá, me bateu uma parada tão boa, como se lá fosse o meu lugar, como se a vida toda eu tivesse morado naquela casa. Pra completar, a Lídia, minha amiga, não só propôs como insistiu muito pra eu vender meu apartamento pra ela e dar um lance na casa. E eu topei.

Tirando a morte da minha mãe, nada fora da curva me acometeu naquela época. Soube depois, pela Célia, a vizinha, que o moradores que me sucederam não tiveram tal sorte. Em um ano, já rodaram três inquilinos e mais dois defuntos, mas isso é assunto pra um outro dia.