Conheci o diabo ontem à tarde. Num café, perto da minha casa. Estava sentado a duas mesas de mim. Enquanto eu comia uma empanada de carne gaúcha (assim estava descrita na vitrine de gostosuras), tomava um chá de limão gelado e decidia a sobremesa, a moça na mesa ao lado comia um sanduíche com salada e ele, o diabo, bebericava uma cerveja que parecia não acabar nunca.
Eu estava com minha bebê, tinha hora marcada num salão de beleza próximo dali. Os bebês são absolutamente imprevísiveis, alguém já deve ter lhe comentado sobre isso. Muitas vezes parecem regidos pela lei de murphy, outras tantas dormem exatamente na hora certa, bem quando os pais precisam de uma folguinha. Eis que ela acorda e esta foi a deixa para as pessoas do café começarem a falar comigo.
Ando de poucos amigos, tenho me irritado com gente querendo ver/pegar e comentar sobre minha filha. Mas, ela acordou e eu não tive como não parar de comer e tirá-la do carrinho. 'Ai, que bonitinha", "Olha, que pequena, e já está na rua". "Quando nasceu?", perguntou o capeta.
"Agora, há um mês". "Então é de gêmeos, um bom signo", começou ele. "Eu não acredito nisso, mas os piores signos que existem são Áries e Leão, egoístas e cruéis. Você sabia que foi feito um estudo com os assassinos mais mordazes e a grande maioria deles nasceu em abril?"
Contou-me também da filha, que está com 32 anos e quem não vê há 12. A família da ex-mulher rompeu por completo com ele. Não entrou em pormenores, mas disse que ela era canceriana e que não tolerava traição. "A família dela é índia, difícil, com o pensamento pequeno". Nesse momento fez um gesto com os dedos na altura das sobrancelhas, denotando um cérebro reduzido. Burros, em bom português.
A moça do sanduíche saiu. Visivelmente todos se conheciam bem, devem trabalhar no prédio comercial que fica em cima do café.
Aí o diabo quis saber da minha ascendência, ou melhor, se eu tinha sangue alemão. Disse a ele que não. "Italiana?". Assenti com a cabeça e não o interrompi. "Eu sou alemão e judeu, sou como Hitler, um ser superior". "A Alemanha é o melhor país do mundo, gente evoluida, inteligente, lógica e com muita cerveja. É isso que eu gosto na vida: beber cerveja."
"Hitler era austríaco e judeu, mas tornou-se anti-semita. Eu admiro muito tudo o que ele fez. Os judeus têm o dinheiro, são os donos do mundo e os alemães são o cerébro da humanidade." Puxa, tá bem ele, de acordo com seus conceitos próprios, tem-se em altíssima conta.
Assustada com aquele papo todo nazista sem pé nem cabeça, pedi a conta. Ele percebeu um vago desprezo no meu olhar e enfezou-se. Chamou a moça do caixa com raiva e lhe mandou trocar a latinha de Budweiser, porque aquela estava choca.
Impossível não notar um toque de enxofre no ar. "Qual a sua graça?", perguntou ele. "Antônia", menti.