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21 de maio de 2013 Comentários desativados

Achei que o filho do eletricista tinha morrido eletrocutado. Um outro cara que esteve aqui, deve fazer meio ano, perdeu o rebento numa chuvarada de verão. A fachada da loja era gigante, tinha uns fios descapados. Alguém ligou o disjuntor antes da hora e fudeu com tudo.

Mas, esse não. Ele chora quando vê minha filhinha que completa um ano amanhã e quer, mas não quer falar no assunto. Insisto. O filho dele, que teria a minha idade e não deixou descendentes, morreu numa sinaleira. E nem estava dirigindo.

Tudo o que fez de errado foi atravessar a rua na faixa, com o sinal fechado. Casualmente, na sua perpendicular, num automóvel, estava um rapaz, com raiva no chefe, da mulher e do cachorro.

O sinal fechou, o carro freou, mas esbarrou e o agredido ficou puto. Foi tirar satisfação, encontrou uma arma. Tomou tiro na cabeça e no bucho. Ficou em coma seis meses e se foi de vez. O eletricista derrama umas lágrimas enquanto me conta o causo, desligo a chave pra não correr o risco de um pingo d'água cair na rede e causar um curto-circuito.

Um taxista

08 de maio de 2013 Comentários desativados

Sabe aquele tipo de pessoa sedutora, que quando você conhece, a vida passa a brilhar? E você não entende como fora infeliz e sem graça até conhecê-la? Assim era minha ex-mulher.

É ainda. Na verdade, uma louca varrida. Só falo com ela por causa do guri. A cada quinze dias, pego ele. Aquela mulher é o capeta. Me enlouqueceu tanto a cabeça que eu quase cheguei às vias de fato.

Depois de mim casou com outro. Pra me fazer ciúmes. O tiro saiu pela culatra. Ela não gosta dele e não consegue se livrar do indivíduo. Pobre homem. Eu to fora. Aliás, traumatizei. Nunca mais quero casar, nem namorada eu tenho.

Minha vida é trabalho. Viro noite na rua, no carro. Das nove ao meio dia dou uma cochilada e depois das 18 as 21, tirando isso, trabalho sem fim. O ruim dessa rotina é que foi ela que me afastou do meu filho.

Dia 21 completo 40 anos, aí vou diminuir o ritmo. Só preciso pagar este carro e uns terrenos que eu comprei lá fora.

Aula de geriatria

07 de maio de 2013 Comentários desativados


Você já reparou como tem velho aqui? Precisa ver a Panvel da Ipiranga, é um horror. Eu mesmo vi aquele supermercado sendo construído. Faz quarenta anos. Todo mundo lá é da minha geração. Vida de velho é assim: mercado e farmácia, senão não há quem agüente. Sem os remédios, é muito ruim.

Costumo dizer que a vida se divide em antes e depois dos 76. É um marco. Até lá eu ía bem, vivia normal. A cabeça tá boa até hoje, mas o corpo… Tu acredita que há dois anos eu tava de muleta? Agora me locomovo com dificuldade, mas to aí. Onde posso ir de carro, eu vou.

Até hoje eu não entendo direito o que me aconteceu. Tava veraneando, numa espreguiçadeira, deitei e não levantei mais. E olha que eu não tinha cortado grama, não tinha feito esforço nenhum. Foi assim, de uma hora para outra. O corpo deixou de me obedecer. Agora eu dou um jeito, né, to com 83 e me viro. Minha mulher foi a mesma coisa, depois dos 76 é só dor em tudo quanto é lado. Por isso, te digo, minha jovem… cuidado com os 76.

Será que eu chego lá? Pior: aos trinta e poucos já tenho essa rotina de mercado e farmácia. Comprar leite e fralda é diferente de comprar remédio, mas é evidente que preciso rever meus hábitos. Se não, o que eu vou fazer quando tiver as pernas fracas?

Garage sale

02 de abril de 2013 Comentários desativados

Nós, mulheres, não resistimos a bazares em lugares bacanas, com gente divertida, música indie e promessa de preços ultra-reduzidos. Eu só não dou muito o ar da graça porque minha filha maior quer comprar tudo que vê e a pequena não lida bem com lugares muito barulhentos. Mas, que eu amo, eu amo.


Tenho uma amiga fisioterapeuta que só anda de trajes de ginástica folgados, meio pijama, meio roupa. Aliás, eu adoro este estilo pantufa de se vestir. Ela diz que os homens acham horrível. Horrível pra mim é gente embalada à vacuo ou mulher com salto 20 de madeira na calçada.


Convidada por uma ex-colega do ballet, minha amiga, com quem me identifico, mergulhou num bazar de final de semana em busca de algum pano bonito e brilhante para usar nas suas andadas noturnas, que são não poucas.


Tava difícil encontrar algo que lhe apetecesse. Era tudo tão porteño, tão Restart. Minha amiguete básica se entreteu mais em observar o público. Aquela não era a sua praia. De repente, uma garota, que estava com elas, teve uma síncope:


- Gente, olha só o que eu achei! Um blazer azul royal e uma calça amarela! Nossa, por esse preço, não posso crer! Vontade de levar duas de cada. Vou usar muito, muito mesmo. Todo dia, eu acho.


Minha amiga achou muito engraçado, afinal ela jamais usaria qualquer uma daquelas peças. Pensou, pensou, mas não falou nada. Na boa, nem que a guria trabalhasse nos Correios, no Banco do Brasil ou num posto Ipiranga ela teria como "usar muito" aquelas roupas, filosofou em silêncio para não ser taxada de antiquada.

Josefina

01 de outubro de 2012 Comentários desativados

Josefina estava desempregada há três anos, o noivo vivia de bicos em bares. Do nada, recebeu pequena soma em dinheiro, oriunda da partilha da herança de uma tia avó solteirona que batera com as botas.

Abriu os classificados do jornal em busca de inspiração. Lá estavam grandes oportunidades para gente como ela, a quem o destino finalmente presenteara com alguma bufunfa. "Vendo restaurante próximo à Universidade Federal. Grande movimento. Motivo: mudança de cidade. Tratar pelo telefone tal."

A proposta era boa, o pico bacana. Lucro líquido e certo, pensou Josefina. O negócio saiu em menos de duas semanas. No primeiro dia de trabalho - surpresa! - a cozinheira não foi. A nova proprietária, crente que esta seria apenas uma pedrinha em sua jornada, encarou as panelas. Preparou arroz, feijão e carne ensopada para um pequeno batalhão de 300 estudantes famintos, daqueles que não pagam mais que dez contos por uma refeição e dividem um refrigerante de dois litros em cada mesa de oito viventes.

Josefina se descabelou, suou a peruca. Suas mãos ficaram murchas de tanto lavar louça naquela segunda-feira. O último cliente saiu do restaurante passado das três da tarde. Ela varreu chão e limpou os banheiros, sem dúvida, a pior parte do processo. Eram dez da noite quando seu noivo, bem mandrião, chegou. Queria dar nele, mas estava tão cansada que só fez agradecer aos céus pelo fato do estabelecimento não servir janta.

Na terça, levantou às 5 da manhã para ir ao Ceasa, ao Mercado Público e ligar para os fornecedores. A cozinheira não atendeu o telefone nunca mais nessa vida. Josefina botou anúncio, ligou para agências de emprego, e logo teve que se resignar que as panelas ficariam mesmo sob os seus comandos por algum tempo. Não vou enumerar aqui os problemas que a jovem empreendedora teve neste início para não tornar esta pequena história ainda mais desagradável.

Conheci Josefina num curso do Sebrae, com duas semanas de restaurante nas costas. Ela estava um bagaço, louca, exausta, não sabia se fechava as portas ou seguia naquele caminho. O que será que é feito dela, me pergunto às vezes.

Os quatro meses da Aurora

20 de setembro de 2012 Comentários desativados

Amanhã a Aurora completa quatro meses. E tudo tem saído melhor que a encomenda. Já que usei este termo ~encomenda~, confesso: estava preparada para o pior, maldito pessimismo virginiano, por isso fiz terapia com psiquiatras a gravidez toda.

Eu tinha medo de choro, noites insones, de me arrepender terrivelmente de ter engravidado novamente, de me sentir presa e uma infinidade de situações que quem teve o primeiro filho conhece bem. Mas, não, nada disso me aconteceu desta vez.

Não sei se é sorte ou é resignação, que traz a calma e contagia toda a família, tornando-a harmônica. É evidente que eu sou o centro da casa, como qualquer mulher com dois filhos pequenos o é. Logo, se eu estiver tranquila, tudo que orbita à minha volta tende a ser menos entrópico. Será que eu estou viajando nas galáxias, me achando o sol doméstico?

Vou dar um exemplo de uma situação nada-nada-nada hipotética: todos os dias meu marido quer sair tomar um chope na rua. É óbvio que eu não gosto, mas longe de ficar completamente indignada, eu penso: a Aurora tem apenas quatro meses e ainda mama no peito exclusivamente. Essa situação não é permanente, pelo contrário, é bem transitória. Em pouquíssimo tempo eu nem estarei mais amamentando e poderei sair também, quando bem entender, negociar melhor a divisão no cuidado da bebê, então, ao invés de me irritar com ele (que é incapaz de me substituir nesta hora) eu curto os momentos com ela.

Em questão de meses eu torno a trabalhar, não amamento mais e volto a ter uma vida quase normal. Eu sei disso, eu conheço o roteiro. Claro que o meu ~normal~ é com horas de buscar filhos, pagando babysitter pra poder ir no cinema com o marido e rezando pra não ter reuniões de trabalho depois das 17h30, mas ok. Minha vida é uma gincana mesmo, então um filho a mais só aumenta a adrenalina das etapas. E quando eu voltar a ser ~eu~ e não mais ~eu+aurora~, vou ser um ~eu sem culpas ou arrependimentos~, porque agora, que ainda somos grudadas, estou dando o melhor de mim, toda a minha paciência, atenção e amor.

O amor que a gente sente pelo segundo filho é compulsório. Quando ele nasce, a gente já vê o filminho todo do que vai acontecer até o novo bebê ficar do tamanho do nosso filho mais velho. Isso dá uma alegria, uma certeza de que seremos ainda mais felizes, que todos aqueles medos que eu falei no segundo parágrafo esfacelam-se.

PS - Hoje vou tentar dar um suquinho de laranja do céu pra ela.. se ela gostar, veja bem, já não sou mais o restaurante exclusivo da minha Aurora Boreal (não, não é esse o nome dela).



Mami, dá pra mudar o nome deste blog pra Casa de Aurora?



Outrora era assim

26 de julho de 2012 Comentários desativados

Mãe de bebê escuta coisa. Eu me divirto. Segue aí um pot-pourri de pérolas que tenho ouvido:

Você cozinha o arroz com mais água, tira a água, põe numa mamadeirinha e dá. É igual o leite do peito, a mesma coisa. Melhor que dar leite de vaca ou chá.

Seis meses já é hora de tomar caldo de feijão. Sem os grãos.

E se a menina tá dormindo mais de dia e acorda muito à noite, tens que botar a roupinha virada nela. Bota do avesso que ela para com essa troca de turno.

Um peito é doce, o outro salgado. Isso explica muita coisa: tem criança que só gosta de um peito, anos depois pode mostrar a predileção por um destes sabores. Sabe quando o bebê quer trocar de peito o tempo todo? Vai gostar de agridoce, pizza califórnia, essas coisas.

Criança é que nem pão, se não esquenta, não cresce. [ Essa é SUCESSO dos velhinhos que têm medo do frio ].

E por fim (agora não me lembro de outras) a única que eu adoro e sigo da finada Vó Mirte: os pediatras passam, a chupeta fica! Gênia.

O corajoso do super

16 de julho de 2012 Comentários desativados

Essa foi em Novo Hamburgo. A história é velha, não souberam me apurar o quanto. Eu nunca tinha ouvido falar. Então vou compartilhar aqui com meus dez leitores para alegrar seu dia (ainda dá tempo?), vai que não sabem também.

Local: Zaffari Bourbon, perto da casa do finado vô Hugo. Um guri de cinco anos empurra um carrinho de super mercado num corredor de macarrões e sopas. Na sua frente, segue um idoso. O moleque toca o carrinho no calcanhar do senhor sem pena.

O velho reclama. O guri se faz de louco. A situação é perturbadora. O menino faz por mal, sabe que está incomodando.

- A senhora poderia pedir ao seu filho que pare de empurrar este carrinho em cima de mim? Está me machucando e me desequilibrando. Posso cair.

- Não admito que se intrometam na educação do meu filho.

- Mas, a senhora acha certo uma criança atropelar um idoso com um carrinho de super?

- Crio meu filho com liberdade, ninguém diz a ele o que deve ou não fazer.

Nisso, um outro idoso que ouvia a história toda, pega um ovo do seu carrinho e estatela na cabeça da mãe do pimentinha.

- O que é isso, tá louco?

- Então, também fui criado com liberdade e quero ver quem vai me dizer que eu não posso fazer isso.

Os clientes param para aplaudí-lo. A mulher cata o filhote, abandona as compras e sai do mercado. Bravo. Bravíssimo.

Mania de sair pra rua

07 de julho de 2012 Comentários desativados

Toda vez que minha avó falava da dona Ecolástica, sua amiga que morava perto do apartamento dela de Curitiba, a imagem que me vinha à cabeça era um elástico branco gigante, daqueles que eu usava para pular com as cadeiras. Nunca a conheci, mas recordo com clareza o dia que a vó Ema recebeu uma ligação contando que ela tinha sido atropelada. Pensei logo num emaranhado de elásticos e carros embolados.

A dona Ema, essa minha avó, por parte de pai, era chamada de tiatina, que deve ser algum termo italiano para gente rueira. Ela não parava em casa. Cansei de discar o seu telefone 223-0506 e não encontrar a velhinha. Saia para comprar pão, para visitar as amigas, pra ir à Igreja, à farmácia. Não tinha hora pra voltar. Viúva desde cedo, nada a prendia ao lar.

Quando eu tinha uns 12 anos, ela teve um câncer de pâncreas, igual ao Steve Jobs, e morreu. Muito rápido. Um dia comentei com a minha mãe que achava que ela estava doente e ela me contou que a vó viveria mais uns 6 meses, no máximo. Não chegou a 3.

De herança, me deixou uma máquina de costura que deve estar com mais de 150 anos, segundo o técnico que esteve aqui no ano passado, e o pé de leque. Se existe alguém neste universo que compreende a estranha necessidade que ela tinha de ir pra rua, todo dia, esse alguém sou eu.

Os velhinhos do meu prédio são um saco. Toda vez que eu to saindo falam: ai, meu deus, vai sair com a criança nesse frio? Como se sair na rua fosse a certeza de pegar uma doença. As pessoas aqui tem essa mentalidade de gente confinada. Parece que é assim: ficou velho, te fecha em casa e não ousa botar o nariz na rua.

Ainda mais se estiver frio. Ah, por favor, se a minha avó, que tinha nascido no ano que o cometa Halley passou pela Terra (1910) tiatianava por aí, por que eu vou me entocar? A Aurorinha pelo jeito gosta de rua também, sai bem faceira com os olhinhos azuis bem abertos, só olhando tudo.





Minha vó (ao lado do meu pai e tios) sempre pronta pra bater perna por aí.





O diabo

28 de junho de 2012 Comentários desativados

Conheci o diabo ontem à tarde. Num café, perto da minha casa. Estava sentado a duas mesas de mim. Enquanto eu comia uma empanada de carne gaúcha (assim estava descrita na vitrine de gostosuras), tomava um chá de limão gelado e decidia a sobremesa, a moça na mesa ao lado comia um sanduíche com salada e ele, o diabo, bebericava uma cerveja que parecia não acabar nunca.

Eu estava com minha bebê, tinha hora marcada num salão de beleza próximo dali. Os bebês são absolutamente imprevísiveis, alguém já deve ter lhe comentado sobre isso. Muitas vezes parecem regidos pela lei de murphy, outras tantas dormem exatamente na hora certa, bem quando os pais precisam de uma folguinha. Eis que ela acorda e esta foi a deixa para as pessoas do café começarem a falar comigo.

Ando de poucos amigos, tenho me irritado com gente querendo ver/pegar e comentar sobre minha filha. Mas, ela acordou e eu não tive como não parar de comer e tirá-la do carrinho. 'Ai, que bonitinha", "Olha, que pequena, e já está na rua". "Quando nasceu?", perguntou o capeta.

"Agora, há um mês". "Então é de gêmeos, um bom signo", começou ele. "Eu não acredito nisso, mas os piores signos que existem são Áries e Leão, egoístas e cruéis. Você sabia que foi feito um estudo com os assassinos mais mordazes e a grande maioria deles nasceu em abril?"

Contou-me também da filha, que está com 32 anos e quem não vê há 12. A família da ex-mulher rompeu por completo com ele. Não entrou em pormenores, mas disse que ela era canceriana e que não tolerava traição. "A família dela é índia, difícil, com o pensamento pequeno". Nesse momento fez um gesto com os dedos na altura das sobrancelhas, denotando um cérebro reduzido. Burros, em bom português.

A moça do sanduíche saiu. Visivelmente todos se conheciam bem, devem trabalhar no prédio comercial que fica em cima do café.

Aí o diabo quis saber da minha ascendência, ou melhor, se eu tinha sangue alemão. Disse a ele que não. "Italiana?". Assenti com a cabeça e não o interrompi. "Eu sou alemão e judeu, sou como Hitler, um ser superior". "A Alemanha é o melhor país do mundo, gente evoluida, inteligente, lógica e com muita cerveja. É isso que eu gosto na vida: beber cerveja."

"Hitler era austríaco e judeu, mas tornou-se anti-semita. Eu admiro muito tudo o que ele fez. Os judeus têm o dinheiro, são os donos do mundo e os alemães são o cerébro da humanidade." Puxa, tá bem ele, de acordo com seus conceitos próprios, tem-se em altíssima conta.

Assustada com aquele papo todo nazista sem pé nem cabeça, pedi a conta. Ele percebeu um vago desprezo no meu olhar e enfezou-se. Chamou a moça do caixa com raiva e lhe mandou trocar a latinha de Budweiser, porque aquela estava choca.

Impossível não notar um toque de enxofre no ar. "Qual a sua graça?", perguntou ele. "Antônia", menti.