Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Caldo de galinha

08 de setembro de 2014 0

Hoje comprei carcaças de frango pra fazer um caldo. É muito barato, custa R$ 3,00 o pacote com um quilo. As carcaças são pedaços de peito sem a carne, só com uns fiapos.

Temperei com sal, pimenta, alho e vinagre. No pacote vieram 8 carcaças pequenas. Refoguei com uma cebola grande inteira e deixei ferver por horas. Adicionei um pouco de cenoura também.

Ficou muito bom. A faxineira fez até uma piadinha: você colocou caldo de frango junto! O cheiro é perturbador. Provei uma caneca do caldo. Depois peguei mais umas três. Não tenho muito controle com comida. Eu adoro comer e principalmente tomar caldos e sopas.

Como desfalquei muito o resultado, botei mais água e pus a ferver mais um pouco. Os naquinhos de carne e as cartilagens estão se dissolvendo junto na panela. Logo vou desligar, deixar esfriar um pouco e peneirar pra guardar. Ou pra tomar logo tudo de uma vez.

31 de janeiro de 2014 0

tumblr_lfp98ftCWA1qbhvxjo1_r1_500

Antes ela reclamava, explicava e exigia respeito, carinho ou atenção que fosse.

Era a chata, a mala, motivo de piada. Foi ficando quieta, começou a escrever. Histórias, crônicas e quando o sapato doía demais, emails. E foram os emails que mais trouxeram problemas.

‘Nao vou nem ler pra não estragar meu dia’. Pronto, não havia mais conversa. Qualquer SMS podia ser motivo de cara feia por meses.

Calada, foi perdendo espaço. Cada dia uma surpresa nova. Dias e noites solitária. De repente, em seu casamento, ele podia tudo. Ela não podia nem respirar mais pesado.

Foi tanta coisa se acumulando que tristeza, decepção e angústia encontraram um meio de sair. Sistematicamente passou a ter crises de vômito.

Cada episódio, mais uns dois meses sem papo. Em pouco tempo, se viu sem poder conversar, escrever e nem vomitar. Escolheu se separar.

La bouffe dégueulasse

03 de outubro de 2013 0

molho-de-tomate
Te dou uma moto se você provar que é mentira. Ele tava mesmo em Paris, fazia um frio dos invernos e tinha bebido tanto, mas tanto pisco no Marais na noite anterior, que nada que lhe acontecesse naquele 6 de abril seria exatamente bom.

Acordou e teve que pipocar do hostel, Happy Hostel na Mouffetard. Não quis croissant nem suco de laranja. Só dormir. E vomitar, talvez. E melhorar, com toda certeza do mundo. Foi um dia vagabundo, daqueles de encostar em poste e cochilar em banco de parque. Na França isso é mais glamuroso e seguro que no Brasil, mas é quase tão escroto quanto.

O gps da mulher não costumava falhar. Ainda mais lá, logo ela que falava francês, não ía lhe dar o gostinho de se perder pela cidade luz.

***

Na Defénse, o vento congelava as palavras, varria as ideias quando entrava por um ouvido e saia pelo outro, literalmente. Estavam de mudança pro apartamento de um amigo do amigo do vizinho do cachorro da cunhada. Puteau, um lugar bem sem-graça com muita, muita merda canina na rua. Nem no barco viking do Beto Carrero seu estômago havia sido posto à prova nessas condições.

Como bem colocara D.T.-C., na Europa, quem mora em prédio alto é pobre. Puteau é bairro dormitório, sem pessoas felizes nas ruas.

Havia muito cheiro ruim na rua, no elevador e nos corredorres dos apartamentos. “Eu adoro cozinhar, estou sempre me aperfeiçoando”, anunciou o homem que lhes recebeu. ‘Opa”, pensou. O rango era molho de tomate fervido com sal e alfafa sobre um talharim mole. Estava tudo meio frio, meio adocicado, muito ruim. É ou não uma grande ironia da vida deglutir a pior refeição de todo o sempre justamente na França?

O maior tesouro da dona Roseli

16 de agosto de 2013 0

Ana Emília Cardoso

Depois de algumas andanças por outras cidades, os pais do Deco, que estão entre 50-60, voltaram a morar na casa da finada Toca, em Eldorado do Sul, na entrada da Ilha da Pintada.

A morada tem mais de cem anos e foi tombada. Baixinha porque antiga e úmida porque fica em frente a um riacho onde aposentados, crianças e vagabundos pescam; a casa pertencia à mãe do Antero, pai do André, o Deco.

Ainda que ele e seus dois irmãos tenham nascido lá, não foi naquelas bandas que se criaram, mas em Alvorada, cidade com fama nada simpática hoje em dia. Antero sempre gostou de mudança, de viajar bastante.

Roseli, a esposa, gosta de sossego. Quando as crianças eram pequenas, as criava praticamente sozinha, uma vez que Antero pegava a estrada a trabalho e só voltava nos finais de semana. Devia ser uma trabalheira: três miúdos, uma escadinha, com diferença de poucos degraus entre si.

Era difícil, eu precisava sempre ameaçá-los com uma varinha verde pra me obedecerem. Quando o pai voltava então, era só mimo com os filhos. André, o mais velho, chegava a deixar os brinquedos reservados na loja da esquina, um bazar Pequetitas. O Antero comprava tudo. Dava tudo pra eles. Eu ficava com a parte difícil, dar banho, cobrar os deveres, educar.

Quando ele podia, não havia o que não desse pros filhos. Mas hoje não é assim: a vida não tá fácil pra gente. Temos saúde, isso que importa. Mas, sabe o que eu guardei de valor desses últimos 40 anos? Vem aqui que eu vou te mostrar.

São três caixas. Uma de cada filho. Todo ano, esse fotógrafo tocava lá em casa. Eu passava 11 meses esperando. Olha que amor, a Mariana bebê, coisa mais gorducha. E o André, a mesma carinha até hoje. O Fi, esse mudou bastante. Era gordinho que nossa e hoje é seco de dar dó.

Pra mim não tem tesouro maior. Eles reclamam, ficam envergonhados. Mas, pensa na emoção de uma mãe de poder reviver esses dias, essas carinhas levadas, essas roupinhas? Muitas roupinhas eu mesma fazia, eu costurava na época. Outras, o Antero trazia, até de Minas Gerais. Esse vestidinho xadrez vermelho e branco, com bordado, que a Mariana tá usando na foto, veio de Diamantina. Se duvidar, tenho ele empacotado por aí.

Eu vou guardando minha vida em sacolas. Muita coisa não sei onde enfiei, mas essas caixas, esses álbuns, são sempre a primeira louça que guardo na cristaleira da casa nova.

Lendas do Colégio Americano

04 de agosto de 2013 Comentários desativados

O colégio atual da Anita existe desde 1889. A sede onde ela estuda foi construida em 1926 e já funcionou como internato, escola de magistério, economia do lar, dietista escolar e outras coisas de antigamente.

Até o ano que nasci, 1977, só admitia moças. As meninas de hoje reclamam das mudanças: estão naquela fase de odiar os guris. Em especial os palavrõezentos, ou seja 99%.

Árvores enormes e arquitetura do século passado dão ao lugar aquela aura de Hogwarts que tanto fascina as crianças. Para o pavor dos pais, o pátio é um bocado frio e sombrio. A junção deste cenário com esta atmosfera instiga a criação de lendas que perturbam -num grau saudável- os pequenos neste dias cinzentos de inverno.

Quatro delas:

1) O faxineiro do sexto andar. Após anos de celibato, casou-se com uma moça que tinha uma filha. Como não gostava da menina, um dia empurrou-a das escadas, o que a levou à morte. O fantasma da menina ainda quer vingança e vive pelas escadarias procurando seu assassino. Quando alguém tropeça, provavelmente foi ela, entediada, que lhe pregou uma peça.

2) O assassino do elo. O elo é um barrancão que existe na escola. Dizem que lá embaixo (ninguém nunca vai lá) mora um velho. Ele só sai à noite e quando encontra alguém perambulando pelo colégio depois das 22, mata e congela o corpo para comer.

3) A arquimorta. Dizem que nos tempos de internato, uma menina suicidou-se, mas antes disso assinou com sangue seu armário. Os pequenos morrem de medo de visitar o museu do próprio colegio por causa da tal assinatura, que embaixo do nome escreveu arquimorta.

4) A árvore da forca. Uma das inúmeras árvores têm uma corda vermelha pendurada. As crianças contam que muita gente se enforcava naquela árvore. Haja imaginação.

[ônibus] | história 1

04 de julho de 2013 Comentários desativados

A mulher do cobrador trabalha perto do Colégio da Polícia Militar, na Redenção. Larga do serviço às 15h30 e sobe num T5 abarrotado. Senta ao lado da catraca. Ele mal olha pra ela. Está trabalhando, concentrado em dar troco aos poucos que pagam em dinheiro.

Ela mira o chão, cutuca as cutículas e mexe na sacola plástica. A patroa lhe deu um blusão que deve servir no seu marido. Será que ele vai gostar? Ela pensa no filho doente em casa, com bronquite, na janta que terá que fazer e na sua melancolia.

No momento que ele está desocupado, ela puxa uma conversa. Ele olha sério pra ela e não responde. Parece ter vergonha de sua esposa. Ela se retrai e noto seus olhos úmidos. Sei que são casados porque usam uma aliança igual. Já os encontrei muitas vezes nesse trajeto, que felizmente não faço mais. Eu olhava, disfarçava, escutava e tentava criar roteiros diferentes que tornassem a vida daquela mulher mais alegre. Nunca consegui. Sempre desci do coletivo com um nó na garganta.

Inventário de crianças

25 de junho de 2013 Comentários desativados

Estamos no ano de 2013 e até o momento eu tenho quatro sobrinhos. A mais velha é a Giovana, que tem 8 anos, a mesma idade da Anita. A Gigi é alta, loira, tem os cabelos cacheados e os olhos muito azuis. O cabelo dela tem umas madeixas bem brancas na frente. Em função delas, seu apelido na escola é veinha. Meu irmão mesmo corta os cabelos das filhas, só que ele é péssimo com as tesouras. Já combinei com elas, a Gigi e sua irmã Lorena, minha afilhada. Eu as levarei num salão de beleza no final do ano.

A Lorena, de apelido Lore, também é bem loirinha, com cabelos lisos, um bocado armados e com corte mal feito pelo cabeleireiro pombo, meu irmão. A Lore é bem mimosa, do que tipo que adora colo e é tão fofinha que parece de mentira. Ela é toda forte, musculosa e desconfio que vai ser mais baixa, seguindo a linha das mulheres da família da Lu, minha cunhada. Aliás, mini Lu é um de seus apelidos. Sua principal característica na primeira infância foi trocar sílabas das palavras, como casimetas e chacorros (camisetas e cachorros se vc não descobriu). Ela tem 5 anos e, às vezes, ainda fala mánica.

Na sucessão cronológica vem o Heitor Pinhão, de 2 anos, filho do meu irmão mais novo. Ele é magrinho, tem olhos e cabelos castanhos, estes bem lisos e é muito inteligente. Gosta de jogar bola, fala tudo e recém saiu das fraldas e largou a chupeta – pepe, para ele – ou seja, já é um mocinho. Ele é bastante afinado e adora tocar piano e cantar musiquinhas de folclore sulamericano que meu irmão coloca no carro.

Em agosto do ano passado, nasceu a Flora, irmã do Pi. Ah, eu tinha esquecido de dizer que o apelido dele é este. Ela é gorda, muito gorda. Uma buda sorridente. Assim como a Aurora, também nascida em 2012, a Flora se resfria fácil e gosta de um colo que é uma coisa. Meu irmão chama ela de Xepa, não sei por quê.

Além destas crianças, em Curitiba, tem a Maria Eduarda, filha da minha prima Gugu. Ela tem oito anos e é bem parecida comigo. A Maitê, minha amiga, tem o Pedro, um guri lindo, com cabelos dourados e cílios enormes, terrivelmente agitado, exatamente como a Maitê era quando criança. O Pedro também tem 8 anos. A Dani W. tem um Pedro também, com 7 anos e a Cacá W, sua irmã, agora tem o Henrique.

A Manita, minha amiga, tem a Nina, com seis anos, que é uma miniatura perfeita dela, porém mais tímida. A Camila tem a Laura, de 2 anos, que só vi uma vez e a Michelle tem a Monique, perua como a mãe, com 10 meses. Conheço só de foto. Puro glamour.

Em Floripa, a Anita é amiga da Antonella, filha do Galvani e da Elisa. Ela já deve ser da minha altura, mas tem só uns 10 anos. A Camila tem a Laura, de 3 anos. Antes de eu cogitar ter filho, a Maria teve a Rosa e a Tania teve o Lucas, ambos hoje com 12 anos! Ou seja, adolescentes.

Na longíqua Luxemburgo nasceu a Emília Azurra, irmã da Alexia Caterina, que hoje tem 4 anos, filhos da Dani Cedola que também tem o Pedro, que tem uns 15 já. A Mimi é muito fofinha, eu adoro o nome dela porque foi dado em minha homenagem.

Aqui em Porto Alegre, a Anita tem as seguintes amigas: tartaruguetes – Lívia (9), Duda (9) e Júlia (9) e do prédio Bibi (10). Ela tem muitas outras mais, mas estas são as que duram mais tempo e com quem ela tem mais afinidade.

A Aurora ainda não tem grandes amigas, mas, da turminha dela, os que eu mais gosto são o Inácio e a Isa, porque são os que mais sorriem pra mim quando vou levá-la ou buscá-la na escola.


A mais velha segurando a caçula do clã




curto

21 de maio de 2013 Comentários desativados

Achei que o filho do eletricista tinha morrido eletrocutado. Um outro cara que esteve aqui, deve fazer meio ano, perdeu o rebento numa chuvarada de verão. A fachada da loja era gigante, tinha uns fios descapados. Alguém ligou o disjuntor antes da hora e fudeu com tudo.

Mas, esse não. Ele chora quando vê minha filhinha que completa um ano amanhã e quer, mas não quer falar no assunto. Insisto. O filho dele, que teria a minha idade e não deixou descendentes, morreu numa sinaleira. E nem estava dirigindo.

Tudo o que fez de errado foi atravessar a rua na faixa, com o sinal fechado. Casualmente, na sua perpendicular, num automóvel, estava um rapaz, com raiva no chefe, da mulher e do cachorro.

O sinal fechou, o carro freou, mas esbarrou e o agredido ficou puto. Foi tirar satisfação, encontrou uma arma. Tomou tiro na cabeça e no bucho. Ficou em coma seis meses e se foi de vez. O eletricista derrama umas lágrimas enquanto me conta o causo, desligo a chave pra não correr o risco de um pingo d’água cair na rede e causar um curto-circuito.

Um taxista

08 de maio de 2013 Comentários desativados

Sabe aquele tipo de pessoa sedutora, que quando você conhece, a vida passa a brilhar? E você não entende como fora infeliz e sem graça até conhecê-la? Assim era minha ex-mulher.

É ainda. Na verdade, uma louca varrida. Só falo com ela por causa do guri. A cada quinze dias, pego ele. Aquela mulher é o capeta. Me enlouqueceu tanto a cabeça que eu quase cheguei às vias de fato.

Depois de mim casou com outro. Pra me fazer ciúmes. O tiro saiu pela culatra. Ela não gosta dele e não consegue se livrar do indivíduo. Pobre homem. Eu to fora. Aliás, traumatizei. Nunca mais quero casar, nem namorada eu tenho.

Minha vida é trabalho. Viro noite na rua, no carro. Das nove ao meio dia dou uma cochilada e depois das 18 as 21, tirando isso, trabalho sem fim. O ruim dessa rotina é que foi ela que me afastou do meu filho.

Dia 21 completo 40 anos, aí vou diminuir o ritmo. Só preciso pagar este carro e uns terrenos que eu comprei lá fora.

Aula de geriatria

07 de maio de 2013 Comentários desativados


Você já reparou como tem velho aqui? Precisa ver a Panvel da Ipiranga, é um horror. Eu mesmo vi aquele supermercado sendo construído. Faz quarenta anos. Todo mundo lá é da minha geração. Vida de velho é assim: mercado e farmácia, senão não há quem agüente. Sem os remédios, é muito ruim.

Costumo dizer que a vida se divide em antes e depois dos 76. É um marco. Até lá eu ía bem, vivia normal. A cabeça tá boa até hoje, mas o corpo… Tu acredita que há dois anos eu tava de muleta? Agora me locomovo com dificuldade, mas to aí. Onde posso ir de carro, eu vou.

Até hoje eu não entendo direito o que me aconteceu. Tava veraneando, numa espreguiçadeira, deitei e não levantei mais. E olha que eu não tinha cortado grama, não tinha feito esforço nenhum. Foi assim, de uma hora para outra. O corpo deixou de me obedecer. Agora eu dou um jeito, né, to com 83 e me viro. Minha mulher foi a mesma coisa, depois dos 76 é só dor em tudo quanto é lado. Por isso, te digo, minha jovem… cuidado com os 76.

Será que eu chego lá? Pior: aos trinta e poucos já tenho essa rotina de mercado e farmácia. Comprar leite e fralda é diferente de comprar remédio, mas é evidente que preciso rever meus hábitos. Se não, o que eu vou fazer quando tiver as pernas fracas?