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Posts na categoria "diferenças"

Os quatro meses da Aurora

20 de setembro de 2012 Comentários desativados

Amanhã a Aurora completa quatro meses. E tudo tem saído melhor que a encomenda. Já que usei este termo ~encomenda~, confesso: estava preparada para o pior, maldito pessimismo virginiano, por isso fiz terapia com psiquiatras a gravidez toda.

Eu tinha medo de choro, noites insones, de me arrepender terrivelmente de ter engravidado novamente, de me sentir presa e uma infinidade de situações que quem teve o primeiro filho conhece bem. Mas, não, nada disso me aconteceu desta vez.

Não sei se é sorte ou é resignação, que traz a calma e contagia toda a família, tornando-a harmônica. É evidente que eu sou o centro da casa, como qualquer mulher com dois filhos pequenos o é. Logo, se eu estiver tranquila, tudo que orbita à minha volta tende a ser menos entrópico. Será que eu estou viajando nas galáxias, me achando o sol doméstico?

Vou dar um exemplo de uma situação nada-nada-nada hipotética: todos os dias meu marido quer sair tomar um chope na rua. É óbvio que eu não gosto, mas longe de ficar completamente indignada, eu penso: a Aurora tem apenas quatro meses e ainda mama no peito exclusivamente. Essa situação não é permanente, pelo contrário, é bem transitória. Em pouquíssimo tempo eu nem estarei mais amamentando e poderei sair também, quando bem entender, negociar melhor a divisão no cuidado da bebê, então, ao invés de me irritar com ele (que é incapaz de me substituir nesta hora) eu curto os momentos com ela.

Em questão de meses eu torno a trabalhar, não amamento mais e volto a ter uma vida quase normal. Eu sei disso, eu conheço o roteiro. Claro que o meu ~normal~ é com horas de buscar filhos, pagando babysitter pra poder ir no cinema com o marido e rezando pra não ter reuniões de trabalho depois das 17h30, mas ok. Minha vida é uma gincana mesmo, então um filho a mais só aumenta a adrenalina das etapas. E quando eu voltar a ser ~eu~ e não mais ~eu+aurora~, vou ser um ~eu sem culpas ou arrependimentos~, porque agora, que ainda somos grudadas, estou dando o melhor de mim, toda a minha paciência, atenção e amor.

O amor que a gente sente pelo segundo filho é compulsório. Quando ele nasce, a gente já vê o filminho todo do que vai acontecer até o novo bebê ficar do tamanho do nosso filho mais velho. Isso dá uma alegria, uma certeza de que seremos ainda mais felizes, que todos aqueles medos que eu falei no segundo parágrafo esfacelam-se.

PS - Hoje vou tentar dar um suquinho de laranja do céu pra ela.. se ela gostar, veja bem, já não sou mais o restaurante exclusivo da minha Aurora Boreal (não, não é esse o nome dela).



Mami, dá pra mudar o nome deste blog pra Casa de Aurora?



Vaso ruim quebrado

15 de junho de 2012 Comentários desativados

Nunca te contei, mas depois que minha mãe largou meu pai, ele casou com uma mulher de boate e teve um filho. Esse meu irmão tinha 25 anos. Eu nunca me dei com ele. Nem com o meu pai, que morreu na rua, mendigo, com aids, ali perto do Gasômetro.

De madrugada ligaram lá pra casa pra avisar que o Ricardo, meu irmão, tinha sido encontrado morto e se a gente não pagasse R$ 1,5 mil ele ía ser enterrado como indigente, vala comum, aquelas coisas. Eu nem tchuns. Ele era 'pá viradinha', vendia droga, se gostava de algo, passava logo a mão.

Minha irmã mais nova se agilizou e conseguiu que ele fosse enterrado em Eldorado. Lá a prefeitura paga tudo, caixão, coveiro, o kit enterro básico. Ele tava pelado, com os braços amarrados pra trás, na margem de um arroio perto da Sertório, mas acho que apagaram ele na Restinga. Deram tanto tiro na cabeça que não sobrou nada em cima do pescoço.

Só identificaram pela tatuagem. Meu namorado ouviu dizer no ônibus, hoje de manhã, que quem matou ele foi o ex-marido da mulherzinha dele. Ela tem um guri desse outro cara e parece que meu irmão tinha queimado todo o guri com cigarro. Ah, quer saber, bem feito então. Não derramei uma lágrima, aliás, a última vez que chorei foi quando meu cachorro morreu.

Dois partos solitários

02 de maio de 2012 Comentários desativados

Certa vez minha mãe me contou que a mãe dela, minha vó Alzira, teve os filhos sozinha em casa. Tá, ok. Isso nunca havia causado qualquer sinapse em meu cerébro. Até agora.

Na verdade, essa memória difusa - será que era isso mesmo?- tinha uns detalhes complicantes, como o fato do meu tio ter nascido de 7 meses. De umas semanas pra cá, só de pensar nessas coisas eu tenho ficado com um nó na garganta.

De todos os relatos de parto, esses são os que mais me intrigam e comovem. Ontem, quando liguei pra minha mãe pra por o papo em dia, perguntei a história direito. Era pior do que eu pensava.

Apesar de ter várias irmãs - Ana, Roberta, Catarina e Marina - Alzira vivia longe da sua família, constantemente em mudança para acompanhar meu avô, que trabalhava na Klabin. Até por Guaíba eles andaram.

Minha mãe, a filha mais velha, nasceu em Arapoti, no Paraná. Na manhã do dia 20 de agosto de 1948, Alzira Rodrigues Barros avisou seu esposo Geraldo que o bebê iria nascer. Ele não lhe deu ouvidos.

A pequenina Marly Barros.

Horas mais tarde, chegou em casa e deu ouvidos, mas ao bebê, uma linda menininha gorduchinha de olhos azuis, que estava enrolada num cobertor, ainda com o cordão umbilical. Aí o Geraldinho saiu correndo atrás de uma parteira, pra finalizar o serviço.

Um ano depois, aconteceu a mesma coisa. Mais uma vez, Alzira, agora com 24 anos e uma filha nos braços, deu a luz, em casa, sem qualquer auxílio, ao meu tio, que nasceu prematuro.

Estes autoatendimentos obstétricos deixaram algumas seqüelas na minha vó, que não conseguiu mais 'segurar' nenhum bebê e teve uma sucessão de abortos nos anos seguintes.

Assim, só tenho um tio e um primo por parte de mãe. Com o tempo, meu avô passou a acreditar no que a dona Alzira dizia. Mas, naquela manhã de inverno de 1996, quando anunciou do banheiro "Geraldo, vou morrer", mais uma vez o velhinho não teve tempo de agir. O fato estava consumado. Minha vó caiu mortinha, aos 73 anos.

Casas de mulheres e casas de homens

17 de abril de 2012 Comentários desativados

Minha mãe vive num mundo muito masculino. Mora com o meu pai, tem um único irmão, seu pai viveu dez anos a mais que a sua mãe e meus dois irmãos moram próximos a ela. Não tem irmãs, amigas confidentes e poucas de suas conversas comigo estão fora do radar do meu pai. Durante os vinte anos que compartilhei com ela este habitus, eu sentia muita falta de mais cumplicidade feminina nos ambientes familiares. Talvez por isso tenha saído de casa tão cedo.

Como consequência desse fato, ela não é muito vaidosa (eu tampouco sou), tem uma autoestima bem boa, não se intromete na vida de ninguém, ainda que se preocupe horrores, e fica muito cansada com as reuniões familiares que ocorrem na sua casa. Jesus, to virando ela todinha nos últimos tempos.

Todo mundo quer vê-la, quer conversar com ela, quer estar perto, mas ninguém está a fim de ajudar, de dividir as tarefas de verdade, de entender o lado dela. As relações ao seu redor são sempre unilaterais, ela dificilmente tem alguma contrapartida, para não entrar em outros méritos.

Nas casas onde há diversas mulheres, a situação é exatamente oposta, geralmente. Todo mundo ajudando, mais harmonia, mais gargalhadas e alegria. Entenda, isso não é um manisfesto anti-homem, só estou analisando alguns núcleos familiares com os quais convivo.

Alguns homens reclamam da 'papagaiada' que rola numa casa cheia de mulheres,  o meu inclusive fazia piadas e se queixava quando eu juntava mais mulheres aqui, ou quando sua mãe vinha nos visitar. Um dia desses, me veio um lâmpejo de  luz e quando ele chegou do trabalho, num sábado de manhã, eu lhe propus o seguinte exercício: - Imagina se cada mulher aqui fosse um homem. A tua mãe fosse um velho de muletas, eu fosse um amigo teu, ou primo, e a Anita fosse um gurizinho de 7 anos. Você ía entrar em casa agora e o clima que ía encontrar certamente seria bem diferente, não acha? E, seria melhor, na tua opinião? Ele parou, pensou e nunca mais reclamou dos nosso hábitos.

Minha vizinha T. comentou que a sua filha fez cartazes designando banheiros diferentes para os homens e as mulheres da casa. E ainda lançou uma questão filosófica na roda: - Já pensou como seriam as casas se os homens menstruassem? Prefiro nem pensar.

Pra encerrar, na semana passada, em um curso que estávamos dando, pedimos para os alunos levarem fotos de sua família para se apresentarem, uma vez que pretendíamos fazer uma análise apoiada na Sociologia Biográfica. Entre todos os casos, o que mais me chamou a atenção foi o de uma menina, que trouxe uma foto com sete mulheres de diversas idades, todas elas super bem arrumadas e lindas.

Ela nos contou, rapidamente, que sua avó havia se separado, bem como a mãe e que morava com mais duas ou três tias, mães solteiras, numa grande casa só de mulheres. Como fora a primeira neta a nascer, cresceu cercada de muitos muitos mimos mesmo. Eu achei interessantíssimo e fiquei com muita vontade de conversar mais com ela para conhecer melhor sua história.

O sexo da segunda gestação

31 de março de 2012 Comentários desativados

Existe um modelo de excelência de gênero na sociedade para quem tem dois filhos: o primeiro deve ser um menino (um herdeiro!) e a segunda, uma menina.

Qualquer desviozinho deste padrão é visto pela sociedade como uma certa incompetência do casal ou da mãe, sempre ela. A variação uma menina e depois um menino fica com a segunda colocação no ranking das vontades alheias.

Quando eu engravidei, 100% das pessoas tinha "certeza" de que agora viria um gurizinho, bem danado, para me dar muito trabalho. Talvez, aos olhos dos outros, a Anita não me exija tanto, ou o suficiente. Ouvi muito "Agora você vai ver só". Uma coisa é fato: a Anita é uma criança educada e só os pais sabem o trabalho que dá para se ter um filho que aos olhos dos demais parece não dar trabalho.

Demorou pra eu ver o sexo da Aurora, se não me engano, já estava com quase vinte semanas. Em momento algum eu quis ter um menino, tanto que eu nem havia escolhido nome para esta possibilidade. Eu queria porque queria outra menina. Gosto de ser mãe de menina (e possivelmente também gostaria de ter um menino), adoro tudo relacionado ao universo feminino. E não deveria, uma vez que sou, eu própria, uma mulher?!

Muitas pessoas ficaram decepcionadas e até hoje escuto diariamente coisas como "vai seguir tentando um gurizinho?" ou "mas esse teu marido não sabe fazer um macho". Não que eu me ofenda, mas  - é sério - o que os outros têm a ver com o gênero das minhas bebês?

Hoje recebi a notícia de uma amiga, mãe de menino, também grávida, que terá outro menino. Ela estava digerindo a história, sabia desde quinta e hoje ía fazer a divulgação oficial, naqueles emails spams que costumamos escrever para dar estas notícias. No hospital, ouviu de tudo: "Ah, que azar, outro guri", "Puxa, sinto muito" e por aí vai.

Eu não tive irmã e a possibilidade de dar uma irmã para a Anita, assim como da J. dar um irmão para o seu pequeno J. me parece fantástica e quer saber, pouco nos importamos com o que os outros acham, mas que é chato ouvir os comentários, isso é.

Vou ficando por aqui, porque tenho um chá de fraldas agora, de uma amiga, que contraria mais ainda as expectativas sociais e está grávida da terceira menina.

Pedido de grávida

10 de novembro de 2011 Comentários desativados

Rá! A feminista que habita este corpo está de volta! Motivo: na semana passada me dei conta que nunca vi uma mulher amamentando seu filho aqui nos pampas.

Que cousa, hein? Para não dizerem que estou mentindo, posso personificá-las: minhas amigas, vizinhas, médicas e dentistas. Pour quoi? Talvez as recentes polêmicas a respeito de declarações chauvinistas que saem da boca de alguns gaúchos expliquem um pouco a situação.

Uma amiga nova (aquela dos peitões da foto do post sobre os apetrechos), com quem comentei a questão, confirmou minha tese. Ela me falou que assim que engravidou, ouviu do marido e da irmã: - Tu não vai mostrar a teta na rua, né? Sim, meus queridos, em 2011! Alô, OMS - precisamos de reforços!

Moro num condomínio que deve ter, pelo menos, 50 crianças, e nunca vi uma criança mamando no peito.

Tive a Anita em Floripa e preciso registrar que lá o feio é não amamentar, é dar mamadeira, e por aí vai. Sem radicalismos, mas nunca pensei que a amamentação em público pudesse ser um tabu. Mas, aqui, no RS, pelo visto é.

Para evitar comentários maldosos no futuro, peço, encarecidamente, se alguém aí, entre os leitores for à ARÁBIA SAUDITA, nos próximos meses, pode me trazer uma BURCA DE AMAMENTAÇÃO?



Encontre o bebê





A vida (bem curiosa) dos outros

23 de setembro de 2011 Comentários desativados


O sedutor

Eram um casal normal, com duas filhas que hoje são mocinhas. Esta história aconteceu há uns 5 anos, quando as meninas estavam decorando a tabuada ainda. Cansados da mesmice de Floripa (bem sei eu o que é isso) decidiram se aventurar em Barcelona. Lá foram recebidos por um casal de amigos, aparentemente tão normais quanto eles.

Com certeza o que aconteceu em terras catalãs não fazia parte do plano de viagem de nenhum deles. Desde o início, tudo encantava o casal visitante. Estavam maravilhados, demais até. Gaudí, Passeio de Graça, Tibidabo e por aí vai.

Ela foi a primeira a se apaixonar por quem não devia, o dono da casa. O marido não ficou pra trás, mas engana-se quem pensou num swing. O destruidor de lares era um só, o amigo, espanhol, casado e até onde se sabia heterossexual, como os demais personagens desta trama julgavam-se ser.

O mais surpreendente disso tudo foi que ambos se envolveram sem que o outro soubesse. E apaixonaram-se loucamente pelo mesmo homem.

A iniciativa de abrir o jogo foi dela. Nós mulheres, sempre na frente... Muito sincera, desvelou o seu coração para o marido, que também já não lhe demonstrava muito interesse. A surpresa foi geral, ele ficou chocado (sentindo-se duplamente traído) e ela então, quase enfartou.

Ela voltou antes para o Brasil com as filhas e o coração partido. O amante não se posicionou, nem tampouco sua mulher catalã. Ele, o marido, também ficou resignado com o desdém daquele que lhe mostrou o universo sob uma nova ótica sexual. Meses mais tarde, desembarcou de volta na Ilha da Magia.

Acredite você, eles são bons amigos hoje em dia. Cada um com seu namorado novo.

A sedutora

Imagine uma mulher que ficou viúva aos 34 anos e criou sozinha dois filhos que lhe adoram. A vida não foi muito fácil pra ela, mas hoje, aos 50, sente-se retribuida tanto na trabalho quanto na vida pessoal, que se resume aos filhos.

O que esta mulher tem de especial, para figurar num microconto intitulado 'A sedutora'? você deve estar se perguntando. Por alguma razão, que foge ao seu controle, muitos garotos de 20 a 30 anos se apaixonam pela pequena senhora.

Os amigos de seu filho mais novo (28), não saem de sua casa, sempre querendo abraçá-la, ficar vendo tevê com ela, a convidam para sair e tudo mais. O garoto, uma das pessoas mais ciumentas e machistas que eu conheci, fica furioso, rompe amizades, parte pra violência e sonha com o dia em que a mãe vire 'apenas uma mãe e deixe de ser cobiçada pelos homens'.

Outro dia foi o professor de Pilates que tentou beijá-la, na semana passada um colega do trabalho teve um acesso de ciúmes por ela nunca aceitar carona e entrar num carro branco toda quinta. O carro em questão é da sua filha mais velha (31).

Há quem diga que o segredo de tanto sucesso é que os homens na faixa dos 30 que estão solteiros dificilmente entram em sintonia com as mulheres desta mesma faixa. Ou saem com adolescentes ou se intimidam com a vida sexual intensa das solteiras de 30_ e acabam preferindo uma mulher mais madura que teve poucos relacionamentos na vida, o que lhes deixa mais seguros.

Um outra hipótese, na qual eu acredito mais, é que ela NÃO quer nada com nenhum deles, logo, não COBRA nada, só faz graça, é simpática. Claro que o fato de ser bonita, agradável, cheirosa e se vestir bem com certeza tem lá sua influência.

Mas, engana-se quem acha que ela sai pegando geral. A mãe da minha amiga (sim, ela é bem próxima e me contou estas e outras histórias pessoalmente) nem lembra o que é um beijo na boca. Esse assédio todo que ela recebe é totalmente em vão, porque ela nem cogita ficar com estes rapazes. Tanta mulher novinha solteira por aí... vai entender a cabeça dos homens. E depois eles dizem que nós que somos complicadas.

As putas tristes

16 de agosto de 2011 Comentários desativados

Canso de ouvir as mulheres comentando que têm curiosidade em conhecer os puteiros da cidade, especialmente a tal Tia Carmen e o Gruta Azul. Eu definitivamente tenho vontade zero, mas eu não sou parâmetro, minha libido está a anos-luz de distância disso.

No sábado uma amiga minha, hoje separada, contou que há muitos anos, quando ainda era a Sra B. saciou sua grande vontade de conhecer o tão comentado Gruta Azul. É um clichê gaudério. Sempre que vou a um espetáculo de teatro, todo artista querendo ser engraçadinho faz a velha piadinha sobre o estabelecimento, que não tem graça nenhuma, aliás. A casa também é citada por pessoas que adoram falar mal de gente bonita que faz sucesso. "Sabe a fulana? Fazia programa no Gruta Azul!"

O que minha amiga contou só corroborou com a ideia que eu já fazia do assunto. Sabe o que tem lá? Mulheres cansadas, longe de estarem na melhor forma, com o semblante triste por ter deixado o filho com vizinha, por não ter dinheiro para pagar a kombi ou por ter a noção exata de que estar ali, seminua dançando para um monte de babaca (muitos deles casados com mulheres incríveis) é uma ignonímia.

Ela disse que viu uma mulher dançar nua - toda rebolativa, com mil olhos na sua bunda e nenhum no seu rosto - um tempão num palco e sair fora. Depois viu a mesma mulher lá fora, com uma mochilinha nas costas, indo pro ponto de ônibus. Qual a graça disso, sério? Acho bem deprimente na real.

Bauman, Morin e o futuro da democracia

09 de agosto de 2011 Comentários desativados

Ontem tive o privilégio de assistir a dois dos maiores sociólogos e filósofos da contemporaneidade, Zygmunt Bauman e Edgar Morin, no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre. Graças ao meu ocupadíssimo amigo Fabrício Carpinejar que não podia ir e me cedeu seu convite.

Ambos palestrantes falaram sobre as mudanças em nosso comportamento político no último século, com direito a retrospectivas à Grécia Antiga. O polonês Zygmunt Bauman não estava presente em consequência de problemas de saúde na família, mas compareceu via entrevista gravada, na Inglaterra, na última quinzena, pela equipe do Fonteiras do Pensamento.

Ele, que é mais conhecido pelas suas teorias a cerca da modernidade líquida, ontem ateve-se a falar sobre o eterno desafio da humanidade em busca da felicidade, que é o equilíbrio impossível entre liberdade e segurança. Esta conversa remeteu-me imediatamente aos países ex-comunistas que visitei nos últimos meses de junho e julho, a Hungria, a República Tcheca e a Alemanha.

Para mim, soava - no mínimo - estranho, as pessoas reclamarem da falta de liberdade, mesmo nos dias atuais. E pensava: se eu tivesse a metade da segurança que eles têm, jamais reclamaria da falta de liberdade. Talvez para mim as duas coisas estejam muito atreladas e como não me sinto segura em relação a nada, tampouco gozo de liberdade. Considero a suposta "liberdade" que vivenciamos vazia e metafísica demais.

Bauman, do alto de seus 86 anos, com suas sombracelhas brancas e desalinhadas, ao analisar o futuro da humanidade, ponderou que acredita numa democracia supranacional, que abranja o mundo todo.

Edgar Morin explorou a mesma ideia. Segundo ele, um dos primeiros pensadores a defender com afinco a transdisciplinaridade, a humanidade conectada de hoje, mais do que nunca, precisa trabalhar em plena cooperação. O francês, nascido em 1921, possui uma grande trajetória de participações ativas nas esferas política e educacional da França.

Morin defendeu como possível desenvolvimento do capitalismo financeiro, como chama o sistema atual, a mundialização ambivalente
. Segundo ele, os números apontam para uma catástrofe ambiental e econômica, mas a história da humanidade nos mostra a incrível capacidade de sobrevivência, evolução e involução de nossa espécie, o que lhe leva a crer que existe um futuro sim e ele pode ser melhor do que esperamos.

O segredo, segundo ele, reside no que chama de mundialização com desmundialização. A mundialização todos nós já sabemos o que é, o que há menos de 5 anos, chamávamos de globalização. Já a desmundialização passa pela valorização da comunidade e o fortalecimento dos laços de solidariedade dentro das pequenas comunidades. Note: comunidade reais, como sua família, seu bairro, a escola dos seus filhos, seus colegas de trabalho. A verdadeira (e nova) democracia emerge das relações éticas presentes nestes laços. Foda-se o Facebook.
Como chegamos à desmundialização, uma vez que hoje em dia somos muito mais capazes de nos emocionar com as misérias no cinema, na música e nas artes em geral do que na vida real e podemos ter mais de mil amigos no FB e nenhum de verdade na vida real? Morin diz que este processo passa por reformas na educação. "Educar é ensinar a viver, como postulou Rousseau, e não a fazer contas matemáticas...", exemplificou o palestrante.

Gostei muito também quando o sociólogo criticou a forma de produção atual dos alimentos. Para ele, a agricultura hoje produz mais mal do que bem; a medicina precisa considerar mais as práticas ocidentais e o principal, todos nós precisamos estar dispostos a mudar, porque a mudança não virá de cima, verticalmente, uma vez que o Estado está cada vez mais fraco.

Nunca tive grande intimidade com os pós-modernistas e confesso que gostei bastante do que ouvi nesta noite. Talvez eu esteja deixando de lado meu materialismo histórico, vai saber... Por fim, preciso registrar que achei o Morin um pouco otimista demais.

O inimigo é outro

17 de maio de 2011 Comentários desativados

Tem gente que não consegue viver sem alguém para declarar inimigo, culpado ou desafeto. Acho que todo mundo é um pouco assim, na verdade. Eu tenho dois irmãos. De uma forma ou de outra, era sempre dois contra um. As alianças oscilavam mais que o afeto. Hoje, somos adultos e nos damos muito bem. Eu mesma, super ultra bem, a mais de mil km de distância é fácil não brigar. Eles ainda se desentendem.

Cresci, mas de alguma forma, trouxe comigo esse lance de estar de um lado ou de outro. Não fico em cima do muro jamais. Quando estou de um lado, crio todos os argumentos do mundo para justificar minha escolha, seja de amiga, de escola pra filho, de trabalho, de opinião sobre qualquer assunto cabeludo. Adoro falar sobre aborto, pena de morte, machismo, alimentos orgânicos, casamento, traição, depilação, religião, que fulano é chato_ sou sempre toda ouvidos e dou minha opinião com gosto.

Mas, quando começo a duvidar de uma ideia, ou pessoa, me fecho e pesquiso mais sobre o assunto. Não gosto de defender nada que não me soe verdadeiro. Não consigo, na real. Mas, nessas situações pode acontecer algo no meio do caminho. Às vezes, quando me aborreço com alguém, de repente, outra pessoa me decepciona mais ainda. Aí, sabe o que acontece? Eu esqueço o primeiro problema e foco no segundo. Como alguém que para de reclamar da barriga porque fechou o dedo na gaveta. O inimigo passa a ser outro.

E não sou só eu que sou assim, não. Nunca te aconteceu de alguém estar irritado contigo e, de repente, voltar a sua fúria contra outra pessoa e agir normalmente contigo como se nada tivesse acontecido? Pode ter certeza que a mesma lógica operou: o inimigo passou a ser outro.

Parece papo de maluco, mas andei pensando sobre isso e cheguei à conclusão que esse mecanismo é apenas uma forma de convívio que vem de fábrica nesta espécie tão intolerante que é o ser humano.