Amanhã a Aurora completa quatro meses. E tudo tem saído melhor que a encomenda. Já que usei este termo ~encomenda~, confesso: estava preparada para o pior, maldito pessimismo virginiano, por isso fiz terapia com psiquiatras a gravidez toda.
Eu tinha medo de choro, noites insones, de me arrepender terrivelmente de ter engravidado novamente, de me sentir presa e uma infinidade de situações que quem teve o primeiro filho conhece bem. Mas, não, nada disso me aconteceu desta vez.
Não sei se é sorte ou é resignação, que traz a calma e contagia toda a família, tornando-a harmônica. É evidente que eu sou o centro da casa, como qualquer mulher com dois filhos pequenos o é. Logo, se eu estiver tranquila, tudo que orbita à minha volta tende a ser menos entrópico. Será que eu estou viajando nas galáxias, me achando o sol doméstico?
Vou dar um exemplo de uma situação nada-nada-nada hipotética: todos os dias meu marido quer sair tomar um chope na rua. É óbvio que eu não gosto, mas longe de ficar completamente indignada, eu penso: a Aurora tem apenas quatro meses e ainda mama no peito exclusivamente. Essa situação não é permanente, pelo contrário, é bem transitória. Em pouquíssimo tempo eu nem estarei mais amamentando e poderei sair também, quando bem entender, negociar melhor a divisão no cuidado da bebê, então, ao invés de me irritar com ele (que é incapaz de me substituir nesta hora) eu curto os momentos com ela.
Em questão de meses eu torno a trabalhar, não amamento mais e volto a ter uma vida quase normal. Eu sei disso, eu conheço o roteiro. Claro que o meu ~normal~ é com horas de buscar filhos, pagando babysitter pra poder ir no cinema com o marido e rezando pra não ter reuniões de trabalho depois das 17h30, mas ok. Minha vida é uma gincana mesmo, então um filho a mais só aumenta a adrenalina das etapas. E quando eu voltar a ser ~eu~ e não mais ~eu+aurora~, vou ser um ~eu sem culpas ou arrependimentos~, porque agora, que ainda somos grudadas, estou dando o melhor de mim, toda a minha paciência, atenção e amor.
O amor que a gente sente pelo segundo filho é compulsório. Quando ele nasce, a gente já vê o filminho todo do que vai acontecer até o novo bebê ficar do tamanho do nosso filho mais velho. Isso dá uma alegria, uma certeza de que seremos ainda mais felizes, que todos aqueles medos que eu falei no segundo parágrafo esfacelam-se.
PS - Hoje vou tentar dar um suquinho de laranja do céu pra ela.. se ela gostar, veja bem, já não sou mais o restaurante exclusivo da minha Aurora Boreal (não, não é esse o nome dela).




