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Posts na categoria "o desconhecido"

O diabo

28 de junho de 2012 Comentários desativados

Conheci o diabo ontem à tarde. Num café, perto da minha casa. Estava sentado a duas mesas de mim. Enquanto eu comia uma empanada de carne gaúcha (assim estava descrita na vitrine de gostosuras), tomava um chá de limão gelado e decidia a sobremesa, a moça na mesa ao lado comia um sanduíche com salada e ele, o diabo, bebericava uma cerveja que parecia não acabar nunca.

Eu estava com minha bebê, tinha hora marcada num salão de beleza próximo dali. Os bebês são absolutamente imprevísiveis, alguém já deve ter lhe comentado sobre isso. Muitas vezes parecem regidos pela lei de murphy, outras tantas dormem exatamente na hora certa, bem quando os pais precisam de uma folguinha. Eis que ela acorda e esta foi a deixa para as pessoas do café começarem a falar comigo.

Ando de poucos amigos, tenho me irritado com gente querendo ver/pegar e comentar sobre minha filha. Mas, ela acordou e eu não tive como não parar de comer e tirá-la do carrinho. 'Ai, que bonitinha", "Olha, que pequena, e já está na rua". "Quando nasceu?", perguntou o capeta.

"Agora, há um mês". "Então é de gêmeos, um bom signo", começou ele. "Eu não acredito nisso, mas os piores signos que existem são Áries e Leão, egoístas e cruéis. Você sabia que foi feito um estudo com os assassinos mais mordazes e a grande maioria deles nasceu em abril?"

Contou-me também da filha, que está com 32 anos e quem não vê há 12. A família da ex-mulher rompeu por completo com ele. Não entrou em pormenores, mas disse que ela era canceriana e que não tolerava traição. "A família dela é índia, difícil, com o pensamento pequeno". Nesse momento fez um gesto com os dedos na altura das sobrancelhas, denotando um cérebro reduzido. Burros, em bom português.

A moça do sanduíche saiu. Visivelmente todos se conheciam bem, devem trabalhar no prédio comercial que fica em cima do café.

Aí o diabo quis saber da minha ascendência, ou melhor, se eu tinha sangue alemão. Disse a ele que não. "Italiana?". Assenti com a cabeça e não o interrompi. "Eu sou alemão e judeu, sou como Hitler, um ser superior". "A Alemanha é o melhor país do mundo, gente evoluida, inteligente, lógica e com muita cerveja. É isso que eu gosto na vida: beber cerveja."

"Hitler era austríaco e judeu, mas tornou-se anti-semita. Eu admiro muito tudo o que ele fez. Os judeus têm o dinheiro, são os donos do mundo e os alemães são o cerébro da humanidade." Puxa, tá bem ele, de acordo com seus conceitos próprios, tem-se em altíssima conta.

Assustada com aquele papo todo nazista sem pé nem cabeça, pedi a conta. Ele percebeu um vago desprezo no meu olhar e enfezou-se. Chamou a moça do caixa com raiva e lhe mandou trocar a latinha de Budweiser, porque aquela estava choca.

Impossível não notar um toque de enxofre no ar. "Qual a sua graça?", perguntou ele. "Antônia", menti.

Uma casa portal

11 de abril de 2012 Comentários desativados

Quem construiu aquela casa eu não sei, mas se tiver que enumerar a quantidade de defunto que passou pelo endereço nos últimos anos, eu sento e faço a conta.

Morei lá três anos. Foi onde minha mãe morreu, dormindo, plácida. A velha se foi não fazia nem 4 meses que a gente tava no imóvel. Eu gostava pacas da casa em si, até via uns vultos passando pra cá e pra lá de vez em quando. Mas, na boa, quem não enxerga essas coisas?

Tive que sair porque o cara que me "vendeu" era um baita dum picareta e nunca desenrolou a papelada. Ele comprou o imóvel a preço de banana de uns fodidos que herdaram a casa e sequer tinham como fazer a partilha. Quer dizer, um corretor fez a malandragem de botar a casa na mão desse cara que me vendeu, mas nunca me entregou os papeis. Então, tive que desfazer o negócio e desocupá-la. Não foi por outro motivo que cai fora dali.

Acontece que a dona Célia, um funcionária aposentada que ainda é vizinha de muro, me contou umas histórias de arrepiar os cabelos. O lance é meio 'pague para entrar e saia com vida se tiver sorte'.

Há muito tempo um casal de velhinhos morava lá, passados dos 80, os dois. Um dia, o homem baixou no hospital, com derrame e o escambau. Do leito pro caixão, deixou a velhinha viúva. Não passou um trimestre e ela se foi, encontrar o marido sabe deus onde. A causa da morte dela ninguém conseguiu apurar. Parou de atender telefone, abrir janela e porta. Foram ver, tava na cama, dura e já meio podre.

Aí que entra o picareta na história. Ele 'comprou' a casa dos herdeiros que não tinham a grana pra fazer a papelada e passou a alugá-la. O primeiro morador era um cara duns 50 anos. Viveu o suficiente para pintar as paredes. Em pouco mais de dois meses, foi encontrado morto na cozinha.

Depois se mudou um casal, recém-casado. O cara, meio japa, de uma hora pra outra, deu pra beber e usar droga. Muita droga. Perdeu o emprego e a patroa, que farejou a encrenca e se mandou. O malandro acabou tendo que sair dali. Se ficaram 4 meses foi muito.

Então veio Adélia, bruxa velha, com quem cheguei a falar no telefone. Adélia parou 10 anos  e neste tempo muito sangue correu naquela cozinha enoooorme. Era lá que fazia seus sacrifícios, em sua maioria cordeiros e galinhas pretas. Na área de serviço rolavam os despachos e na garagem, as reuniões. Gente fina, a Adélia. Me contou dos batuques na maior tranquilidade.

- O que, tu morou três anos lá e nunca te aconteceu nada? Tu deve ser muito do bem pra não incomodar o 'pessoal'.

Devo ser mesmo. Depois de Adélia, que se mudou pra parar de pagar aluguel, entrei eu. O louco é que quando eu fui ver a casa, eu só tava acompanhando uma amiga. Eu nem coagitava sair do meu apê, que eu tinha acabado de quitar o financiamento, ali na Tinga mesmo. Mas, foi eu entrar lá, me bateu uma parada tão boa, como se lá fosse o meu lugar, como se a vida toda eu tivesse morado naquela casa. Pra completar, a Lídia, minha amiga, não só propôs como insistiu muito pra eu vender meu apartamento pra ela e dar um lance na casa. E eu topei.

Tirando a morte da minha mãe, nada fora da curva me acometeu naquela época. Soube depois, pela Célia, a vizinha, que o moradores que me sucederam não tiveram tal sorte. Em um ano, já rodaram três inquilinos e mais dois defuntos, mas isso é assunto pra um outro dia.

Entre trakinas e defuntos

19 de janeiro de 2012 Comentários desativados

Minha mãe morreu dormindo. Passei em sua casa à noite, conversamos sobre a novela, sobre como minha irmã é chata e ela me disse que não sentia mais falta do meu pai, que morrera há dois anos num acidente de lotação.

Já era tarde. Ela tomou seu chá de jasmim e avisou que ía se deitar. Que remédio, fui pra casa. Bem tranquilo, é verdade. Depois até dei umas voltas com um chapa, queimei um na volta e dormi com os anjos.

No dia seguinte, aquele furdúncio. Acordei com a tia Clementina avisando que mamãe simplesmente não acordara no dia 12 de janeiro de 2005. Antes mesmo que eu chegasse, minha irmã, sempre ela, sempre mandona, já havia chamado a polícia, que havia removido o corpo.

Fiquei encarregado de ir ao IML fazer a identificação. Essas coisas mórbidas não me metem medo, saca? Mas também não vou dizer que gosto, como o camarada que conheci lá no necrotério.

Mal me identifiquei e o sujeito que nunca tinha me visto, mandou essa: - Tens tempo? Chega aí, vamos procurar a tua velha.

Tempo, tempo, eu não tinha muito não. Mas, era pra isso -procurar a minha velha- que eu tinha ido lá. Ele me chamou de canto, com um ar de quem pede permissão: - Tu te importa de dar uma olhada nesse pessoal aqui? disse, apontando pra uns dez corpos que jaziam em cima de macas.

Enquanto isso, o cara matava um pacote de bolacha recheada de morango, como se estivesse num pique-nique. Obviamente localizei minha mãe de primeira. Dormia plácida. Queira o bom deus que eu tenha o mesmo fim. Estava com 77 e o coração dava sinais de que não ía longe. Morrer assim, sem perder a dignidade, sem dar trabalho aos outros, é um presente divino. Só pode ser.

Em compensação, logo ao seu lado, estava uma mulher toda retalhada, com a pior cara de pânico que alguém pode ter. Os olhos saltavam das órbitas, a boca lembrava a de um cachorro rosnando e os braços, dobrados em frente ao corpo, demostravam que ela tentara se defender.

- O que houve com essa aqui? perguntei ao cara.
- Morreu com 32 facadas. Foi o jardineiro.
- Ele está preso?
- Ã-hã. Disse que fez isso pelos 32 anos que ela o maltratou.
- Puxa
.

Depois daquela, os sem-braços, sem-pernas e sem-cabeças me pareceram tão felizes na outra galáxia quanto a pobre da minha mãe.

- Vai uma bolachinha aí?

Os perigos da literatura

16 de dezembro de 2011 Comentários desativados

Eu sempre tendo a acreditar que de alguma forma o que estou lendo influencia a minha vida. Mas, obviamente, não levo isso ao pé da letra.

Na minha cabeceira repousa Nelson Rodrigues. Que perigo.

Felizmente, desta vez não sou eu a protagonista na vida real. Mas é uma amiga, bem próxima. Calha de ela estar desconfiada que o marido está tendo um caso com a psiquiatra que ela lhe indicou. A mesma psiquiatra que trata minha amiga há mais de uma década. Pelo pouco que me contou, eu, que não sou paranóica, teria as mesmas preocupações.

Ó universo bizarro! Aí me lembrei da história de outra amiga muito especial que foi vítima de uma intriga matrimonial que teve origem no consultório de sua própria ginecologista. Esse drama culminou em divórcio. Mas, sem sangue, nem suicídios, porque na época eu andava lendo Capote. E não era À Sangue Frio, eram meras frivolidades de Os Cães Ladram.

Ontem peguei o telefone de uma nutricionista funcional para o meu marido. Mas, quer saber? Vou guardar e passar pra ele outra hora. Não é um bom momento.

Fantasminha

13 de junho de 2011 Comentários desativados

Já fui melhor nisso, mas ainda hoje adoro ficar de conversa com os vizinhos do prédio e descobrir um pouco de sua história. Eu chamaria isso de arqueologia do presente, já que o condomínio onde moro não tem nem 10 anos. Mas, idade não é documento. O mundo à nossa volta geralmente é muito mais complexo do que aparenta num primeiro olhar.

Na minha torre, especificamente, ocorreram dois casos dignos de nota. Uma troca de casais (!) e um suicídio, e é a este último que vou me ater. Outro dia falo do romance, prometo.

Sempre achei estranho quase não ter vizinhos de andar. Nunca ouvi uma conversinha, nem tampouco reclamaram do nosso barulho. Sei que o apartamento ao lado é de umas médicas que moram em Pelotas. Em três anos, encontrei-as uma vez.

A vizinha da frente sai às 7h e chega às 18h, empurrando -todo dia- um carrinho de  compras, destes coletivos que a gente precisa de um cartão para pegá-los na garagem. Não para em casa, mas come pra caramba, pelo jeito.

Embaixo, um silêncio. Em cima, a laje do prédio, que bem que poderia ser incorporada ao meu apê, ía ser tão bom no verão... Na piscina, todo mundo reclama do vizinho, menos eu. Meu interfone nunca tocou com reclamação.

Outro dia, não lembro o mote da conversa, um vizinho me contou que um apartamento próximo ao meu (ninguém sabe com precisão se era no décimo primeiro ou no décimo segundo) estava abandonado há anos. Não havia compradores e ninguém queria alugá-lo. O motivo era meio sombrio: uma babá havia nardonisticamente cortado a tela de proteção e se jogado da janela.

Era sábado à noite, a menina tinha 15 anos, um namorado e era do interior. Ah, também me disseram que a patroa não era nada fácil. A primeira pessoa a ver o corpo foi uma menina loiríssima que mora no quarto andar. Ela estava com o namorado na sala e viu um vulto caindo pela janela. Perguntei à sua mãe no elevador um dia desses e ela me confirmou o fato. Contou que estava na praia e que a filha ficou desesperada.

O corpo caiu do décimo segundo (ou primeiro) andar e não teve jeito de reavivá-lo. Ainda assim, um conhecido meu, da primeira torre foi chamado às pressas para atender o ocorrido.

Durante alguns anos, as crianças evitaram esta região do prédio. Hoje, tem uma churrasqueira ali, que eu sempre uso, aliás. Você deve estar se perguntando por que estou contando esta história. Apesar de não acreditar muito nessas coisas, todos os dias, lá pelas 18, 18h30 eu escuto passos pela casa. O piso laminado é de uma sensibilidade ímpar para estas manifestações do além.

Tristeza, depressão e loucura

07 de fevereiro de 2011 Comentários desativados

É incontável a quantidade de histórias bizarras que chegaram aos meus ouvidos depois daquele post escatológico. Mas, por hora, não vou escrever sobre esses assuntos, pois até eu fico nauseada.

Sexta passada, num papo tragicômico com a minha amiga Nídia Klein, decidimos compartilhar aqui uns casos de depressão. Primeiro porque estou corrigindo uma tese sobre este assunto, segundo porque a doença acomete muitos à minha volta há anos e terceiro porque nós duas já passamos por maus bocados e percebemos que rir da própria cara é o caminho mais garantido para a sanidade.

Coque Pedrita é comigo mesma. Mas essa não sou eu.

Segundo a Nídia, em uma pesquisa sobre depressão entre mulheres brasileiras nos anos 20, descobriu-se que o principal motivo da "loucura" das moçoilas era sempre o mesmo: homens. Sempre eles. O estudo dizia que a loucura/depressão era identificada nas seguintes situações: quando as mulheres corriam peladas, rasgavam suas próprias roupas, falavam palavras incomprensíveis ou tentavam se suicidar.

Em geral, elas chegavam a este estado ou porque o marido tinha morrido ou porque tinha fugido com outra. De lá pra cá, quase um século se passou, mas o quadro não mudou muito. Bem é verdade que existem diversas outras causas como as acrobacias necessárias para conciliar trabalho e família. A tese que estou corrigindo é surpreendente e mostra como as políticas de produtividade e os prazos dos cursos de doutorado acabam com a saúde física e mental das mulheres mães.

A última vez que me peguei deprimida foi... hoje de manhã porque cheguei toda quebrada de Floripa. É brincadeira. Eu tive uma depressão pós-parto forte. Não cheguei a tomar remédio, mas passei quase dois anos muito melancólica. Falar essas coisas depois que já nos curamos é fácil, mas - pelo que me lembro - melhorei à base de muitos quilômetros caminhados, trabalhos manuais, quinhentos livros bons (não de auto-ajuda, é claro) e uma proposta bem séria de encarar a vida de forma leve, mesmo quando ela parecer um pesadelo medonho.

Não estive naquele grau máximo, de não ter vontade de comer nem tomar banho, mas acho que passei bem perto. Outra coisa que eu incorporei na minha vida, àquela época, era fugir de gente que eu não gostava. Eu evitava completamente. Bueno, em 2008 também fiquei um pouco mal e comecei a correr e escrever este blog (na verdade o outro, no wordpress).

Sempre achei que quem corria estava fugindo de algo. De uma realidade que lhe desagradava, de questões de ordem metafísica, lá sei eu. No meu caso, essa tese se confirmou: eu pensava em tudo que me transtornava, nos motivos daquela fúria toda e o velocímetro subia. Funciona!

O mais louco dos estados depressivos é que ficamos très très male, cacos humanos e depois, subitamente, como se aquilo nunca tivesse acontecido, ressurgimos poderosas. Essa semana vou postar uns casos...

Histórias urbanas (nojentas)

30 de janeiro de 2011 Comentários desativados


[Se você tem estômago fraco, não leia este post]

Há meses ouvi estas bizarrices, mas, na época, não havia tempo nem disposição para escrevê-las. Conheci uma menina que tinha uma amiga que estava com feridas na boca. Eram aftas profundas que nunca se curavam. A guria pulava de dentista em dentista e ninguém resolvia. Até que certo dia, um periodontista teve uma suspeita sinistra e encomendou-lhe uma série de exames.

O resultado confirmou o que ele temia: as crateras incuráveis na boca da pobre paciente eram resultado de uma bactéria muito rara, que só é em encontrada em, em, em CADÁVERES! O diagnóstico era preciso pela exclusividade do caso. A mocinha deveria estar saindo alguém que transava com gente morta. A menina, uma gauchinha do interior, perguntada sobre sua vida sexual, confessou que ficava, de vez em quando, com um cara meio estranho.

O médico pegou leve e foi explicando a situação paulatinamente. Ela, apavorada, assentiu em contactarem a polícia. Operação armada, invadiram a casa do rapaz e, adivinha só, o freezer estava povoado. Moravam naquela casa, o rapaz e mais duas mulheres, estas conservadas a - 10° C mas, ainda assim, com este frio todo, com um vida sexual ativíssima. Ele, o maluco, foi preso, os cadáveres enterrados e a garota voltou para sua cidade. Em tempo, isso aconteceu em Porto Alegre, no ano de 2009, a menina morava na Cidade Baixa, estava com uns vinte e poucos anos e eu não sei mais detalhes.

O outro causo é tão nojento quanto, por isso, se você ficou chocado (a) com este, é melhor parar por aqui. Infelizmente essas histórias não são lendas urbanas, aconteceram mesmo. A irmã de uma amiga minha mora no interior. Recentemente, a melhor amiga dela separou-se e veio morar na capital. Nova, bonitona e cheia do ouro. Conheceu um cara todo garboso e passou a sair com ele. Certa noite, após o roteiro completo dos hot dates - jantar, barzinho e sexo - pernoitaram em um conhecido hotel da cidade. Bem perto da minha casa, aliás, avisto o estabelecimento da janela do quarto diariamente, entre pores-do-sol e navios que atravessam o famoso rio.

Tudo estava ótimo, a noite tinha sido incrível. Fulana mal podia acreditar. Que bem tinha feito a si mesma de se separar do brucutu que vivia na zona! Isso sim era vida. Eis que o príncipe honorário acorda. Enche-lhe de beijos e vai ao banheiro. Leva junto uma bandeja. - Estranho - pensou. Na volta, uma surpresa: um baita cocô repousava no utensílio. Ops! Muda a trilha, escurece a imagem e o romance filme vira de terror. Sim, ele pediu a ela que comesse a "obra", enquanto se masturbava. Não sei como ela lidou com isso, mas certamente ficou bem mal.

A morte

22 de janeiro de 2011 Comentários desativados


Ontem à noite recebi a seguinte mensagem: Amiga, a qualquer momento minha mãe se vai... Reza por ela... Bjs. Mesmo não sendo adepta de orações, mentalizei a mãe dela bem feliz em outro lugar, tão bonito quanto as casas que ela projetava.

A mãe da V. está com câncer na cabeça. O tumor é do pior tipo possível e havia desaparecido, mas ressurgiu com força total. Nós tínhamos até combinado de irmos juntas ao show da Amy, pois a sua mãe era muito moderninha, pintava uns quadros pra lá de loucos, muito surreais, estava sempre rindo e contando peripécias dos netos.

Por mais incrível que a a vida da E., mãe da V., fosse - repleta de viagens legais, exercícios diários, uma carreira bem sucedida, alimentos orgânicos e uma família bem estruturada e feliz -  foi abreviada. Afinal, hoje em dia o padrão é viver além dos 80 anos.

Há alguns anos ela e o marido tiravam 3 meses por ano para viajar para um país e aprender a sua língua. Bem me lembro da última vez que conversamos, no Café Luna Laguna, no centrinho da Lagoa, ela me contou que havia comido exageradamente e tomado tanto vinho em seu período sabático em Paris que engordara um monte e não havia caminhada nem corrida que resolvesse o problema.

Mesmo curtindo a vida da melhor forma possível, ela ficou doente. Ao meu redor, vejo muita gente da minha idade com problemas de saúde também. Minha geração, que está com 30 agora, engole muitos sapos, que se transformam em tumores. Duas grandes amigas tiraram a tireóide nos últimos meses. Eu também monitoro alguns cistos próximos à glândula. Cada sapo que desce goela abaixo, é bem lá que sinto a dor_ me esganando. E olha que, às vezes, eles são gigantes.

A vida é tão imprevisível que, com certeza, não vale a pena a gente fazer coisas que nos deixam doentes e/ou conviver com pessoas que a intuição aconselha evitar. A maior ironia da existência é que as pessoas que devemos evitar são justamente as que menos adoecem e mais causam mal aos outros.

Definitivamente a mãe da V. era muito do bem, e por isso, acredito que ela vá para algum lugar muito especial em outro plano. E, se não for, ao menos foi muito feliz em vida e isso já é grande coisa, é o que devemos buscar a cada instante, já que não fazemos a menor ideia de quão próximo nosso fim está.


Uma tragédia curitibana

16 de abril de 2010 1

Ana Emília Cardoso

[Joaçaba]

Curitiba, minha cidade natal, é também o berço do Ratinho e um local particularmente fértil para a imprensa marrom, para os crimes bizarros e vais-e-vens policiais em sua resolução.

Nos últimos anos, teve o assassinato do Morro do Boi (em Caiobá), um cara que atacava meninas e as mutilava, o crime do pesque-pague, dos neozistas e por aí vai. Toda vez que eu vou pra lá, tem uma bola da vez funesta. Ontem lembrei de um acontecimento tétrico que, sem dúvida, foi a coisa mais estranha que já aconteceu com alguém próximo.

Meu irmão mais velho tem um amigo que, desde sempre, teve uma família bem atípica. Eram em muitos, tinham iguanas como animais de estimação e seus pais colecionavam porshes velhos. E são descentes de um tal Marechal, o que lhes torna herdeiros de uma série de casas tombadas, especialmente na região da Lapa (PR).

Nós três - eu e meus dois irmãos - e eles estudamos na mesma escola até a oitava série. Quando eu estava no segundo grau a mãe deles morreu de uma forma inusitada: estava num sítio pintando quadros com tinta a óleo e a estufa estava ligada. Aspirou tantos gases inflamáveis que seu pulmão explodiu ao se aproximar do aquecedor. Ela também havia passado jimo cupim em uma casa histórica naquele dia.

Não morreu na hora, passou uns dias no hospital. Em menos de um mês, mais uma morte na família. O pai foi assassinado no galpão de um sítio onde estavam seus carros antigos.

Seis órfãos, se não me engano. E em matéria de engano, meu irmão não ajudou muito, perguntei a ele várias coisas e ele lembra pouca coisa. Aspectos estranhos envolveram este segundo óbito: aparentemente seria um assalto seguido de latrocínio, há quem fale em suicídio ou numa suposta armação para receber o seguro de vida.

Havia também uma tal pensão, em função do prentesco com o marechal maçom, que a mãe do finado recebia e não repassava à família. Depois desta confusão toda, os netos - esta gurizada que eu conhecia - passaram a receber o dinheiro.

Aos leitores que conhecem os envolvidos, a quem por motivos editorais faço absoluta questão de preservar, perdoem-me as incoerências e fiquem à vontade para complementar a história.

A fada do dente

13 de abril de 2010 2

-Pai, olha! Assim acordei no sábado, com uma exclamação de extremo entusiasmo. Está claro que eu sou a mãe, certo? Mas, foi a ele quem ela chamou, segurando na mão seu primeiro ex-dentinho mole. E complementou: tem um buraquinho dentro, vejam!

Ao contrário de mim - que morria de medo de arrancar os dentes - a Anita tanto mexeu naquele dentinho que ele caiu na sua mão.

Na noite seguinte, o Marcos me acordou perguntando do dente e me pedindo dinheiro para colocar sob o travesseiro dela, eu devo devo balbuciado algo ininteligível, porque me lembro remotamente de um papo sobre isso.

No domingo: -Pai, olha [de novo]. A fada do dente. Ela deixou um real pra mim.

Tudo estava bem, fazíamos cálculos sobre quanto a sua boquinha ainda repleta de dentes de leite iria lhe render nos próximos anos. Mas, no meio da tarde a bichinha encontrou seu dentinho em cima de um livro e falou 'que estranho'.

Esperta como ela só, não engoliou nossas historietas sobre a possível demissão da fada do dente, que não havia cumprido sua missão, pois trouxera o dinheiro e esquecera de levar o principal para seu chefe.

-Eu acho que foram os adultos. E no que disse, olhou para o pai, que logo se entregou com cara que quem roubou um morango de cima do bolo. - Foi o pai! descobriu a pequena detetive.

E eu que jurava que - atrapalhada que sou - havia engolido o dentinho sem querer com o aspirador. Antes fosse.

Pelo menos saimos no lucro pois ainda estamos com o dente, que é um gracinha, com um belo furinho embaixo.