Eu não diria que o tempo passou voando, mas uma coisa é certa, no prazo de um mês a Aurora nasce. E nessas últimas semanas de espera que me restam, só tenho pensado em coisas boas e feito planos fantásticos. A Anita tem estado incrivelmente fofinha e me ajuda tanto em tudo e até na arrumação das coisas pra novo bebê, que cada dia tenho mais certeza de que fiz a coisa certa, de engravidar de novo depois de tanto tempo, sete anos.
Adoro uma história do Kurt Vonnegut sobre uma mulher de 43 anos que escreve pra ele perguntando se estava errada de querer ter um filho, trazer ao mundo sujo e mau que vivemos uma criatura bondosa, doce e inocente. Ele morre de vontade de dizer que sim, que numa sociedade com pobres obesos e sem qualquer programa de saúde público disponível (ele mora nos EUA e a mulher da carta também), é erradíssimo ter um filho.
Mas, não. Ele fala que vale a pena sim ter um filho, mesmo neste mundo escroto que tá aí. E o que o faz pensar assim é a música, em primeiro lugar, e em segundo, os santos, ou seja, as pessoas que têm um comportamento decente numa sociedade chocantemente indecente. E comportamento decente não tem a ver com moral, mas sim com ser bom e fazer o bem, outra grande premissa da existência humana para Vonnegut.
Hoje perguntei pra Anita no almoço se topava rachar um suco de laranja, daqueles de caixinha. Ela não entendeu nada. 'Mãe, como rachar um suco, suco é líquido, é como água, não racha!'. Expliquei a expressão rachar com o exemplo clássico de 'rachar a conta' e ela entendeu. Agora me diz, é ou não uma coisa mágica conviver com essa pureza que são as crianças? Posso ser ingênua, mas eu acredito que as crianças são tábulas rasas e que cabe a nós mostrar o certo e ensiná-las a serem boas e honestas. Aliás, se não acreditasse nisso, eu jamais estaria com uma barrigona chutativa desta mais uma vez.




