Quem construiu aquela casa eu não sei, mas se tiver que enumerar a quantidade de defunto que passou pelo endereço nos últimos anos, eu sento e faço a conta.
Morei lá três anos. Foi onde minha mãe morreu, dormindo, plácida. A velha se foi não fazia nem 4 meses que a gente tava no imóvel. Eu gostava pacas da casa em si, até via uns vultos passando pra cá e pra lá de vez em quando. Mas, na boa, quem não enxerga essas coisas?
Tive que sair porque o cara que me "vendeu" era um baita dum picareta e nunca desenrolou a papelada. Ele comprou o imóvel a preço de banana de uns fodidos que herdaram a casa e sequer tinham como fazer a partilha. Quer dizer, um corretor fez a malandragem de botar a casa na mão desse cara que me vendeu, mas nunca me entregou os papeis. Então, tive que desfazer o negócio e desocupá-la. Não foi por outro motivo que cai fora dali.
Acontece que a dona Célia, um funcionária aposentada que ainda é vizinha de muro, me contou umas histórias de arrepiar os cabelos. O lance é meio 'pague para entrar e saia com vida se tiver sorte'.
Há muito tempo um casal de velhinhos morava lá, passados dos 80, os dois. Um dia, o homem baixou no hospital, com derrame e o escambau. Do leito pro caixão, deixou a velhinha viúva. Não passou um trimestre e ela se foi, encontrar o marido sabe deus onde. A causa da morte dela ninguém conseguiu apurar. Parou de atender telefone, abrir janela e porta. Foram ver, tava na cama, dura e já meio podre.
Aí que entra o picareta na história. Ele 'comprou' a casa dos herdeiros que não tinham a grana pra fazer a papelada e passou a alugá-la. O primeiro morador era um cara duns 50 anos. Viveu o suficiente para pintar as paredes. Em pouco mais de dois meses, foi encontrado morto na cozinha.
Depois se mudou um casal, recém-casado. O cara, meio japa, de uma hora pra outra, deu pra beber e usar droga. Muita droga. Perdeu o emprego e a patroa, que farejou a encrenca e se mandou. O malandro acabou tendo que sair dali. Se ficaram 4 meses foi muito.
Então veio Adélia, bruxa velha, com quem cheguei a falar no telefone. Adélia parou 10 anos e neste tempo muito sangue correu naquela cozinha enoooorme. Era lá que fazia seus sacrifícios, em sua maioria cordeiros e galinhas pretas. Na área de serviço rolavam os despachos e na garagem, as reuniões. Gente fina, a Adélia. Me contou dos batuques na maior tranquilidade.
- O que, tu morou três anos lá e nunca te aconteceu nada? Tu deve ser muito do bem pra não incomodar o 'pessoal'.
Devo ser mesmo. Depois de Adélia, que se mudou pra parar de pagar aluguel, entrei eu. O louco é que quando eu fui ver a casa, eu só tava acompanhando uma amiga. Eu nem coagitava sair do meu apê, que eu tinha acabado de quitar o financiamento, ali na Tinga mesmo. Mas, foi eu entrar lá, me bateu uma parada tão boa, como se lá fosse o meu lugar, como se a vida toda eu tivesse morado naquela casa. Pra completar, a Lídia, minha amiga, não só propôs como insistiu muito pra eu vender meu apartamento pra ela e dar um lance na casa. E eu topei.
Tirando a morte da minha mãe, nada fora da curva me acometeu naquela época. Soube depois, pela Célia, a vizinha, que o moradores que me sucederam não tiveram tal sorte. Em um ano, já rodaram três inquilinos e mais dois defuntos, mas isso é assunto pra um outro dia.


