Minha mãe vive num mundo muito masculino. Mora com o meu pai, tem um único irmão, seu pai viveu dez anos a mais que a sua mãe e meus dois irmãos moram próximos a ela. Não tem irmãs, amigas confidentes e poucas de suas conversas comigo estão fora do radar do meu pai. Durante os vinte anos que compartilhei com ela este habitus, eu sentia muita falta de mais cumplicidade feminina nos ambientes familiares. Talvez por isso tenha saído de casa tão cedo.
Como consequência desse fato, ela não é muito vaidosa (eu tampouco sou), tem uma autoestima bem boa, não se intromete na vida de ninguém, ainda que se preocupe horrores, e fica muito cansada com as reuniões familiares que ocorrem na sua casa. Jesus, to virando ela todinha nos últimos tempos.
Todo mundo quer vê-la, quer conversar com ela, quer estar perto, mas ninguém está a fim de ajudar, de dividir as tarefas de verdade, de entender o lado dela. As relações ao seu redor são sempre unilaterais, ela dificilmente tem alguma contrapartida, para não entrar em outros méritos.
Nas casas onde há diversas mulheres, a situação é exatamente oposta, geralmente. Todo mundo ajudando, mais harmonia, mais gargalhadas e alegria. Entenda, isso não é um manisfesto anti-homem, só estou analisando alguns núcleos familiares com os quais convivo.
Alguns homens reclamam da 'papagaiada' que rola numa casa cheia de mulheres, o meu inclusive fazia piadas e se queixava quando eu juntava mais mulheres aqui, ou quando sua mãe vinha nos visitar. Um dia desses, me veio um lâmpejo de luz e quando ele chegou do trabalho, num sábado de manhã, eu lhe propus o seguinte exercício: - Imagina se cada mulher aqui fosse um homem. A tua mãe fosse um velho de muletas, eu fosse um amigo teu, ou primo, e a Anita fosse um gurizinho de 7 anos. Você ía entrar em casa agora e o clima que ía encontrar certamente seria bem diferente, não acha? E, seria melhor, na tua opinião? Ele parou, pensou e nunca mais reclamou dos nosso hábitos.
Minha vizinha T. comentou que a sua filha fez cartazes designando banheiros diferentes para os homens e as mulheres da casa. E ainda lançou uma questão filosófica na roda: - Já pensou como seriam as casas se os homens menstruassem? Prefiro nem pensar.
Pra encerrar, na semana passada, em um curso que estávamos dando, pedimos para os alunos levarem fotos de sua família para se apresentarem, uma vez que pretendíamos fazer uma análise apoiada na Sociologia Biográfica. Entre todos os casos, o que mais me chamou a atenção foi o de uma menina, que trouxe uma foto com sete mulheres de diversas idades, todas elas super bem arrumadas e lindas.
Ela nos contou, rapidamente, que sua avó havia se separado, bem como a mãe e que morava com mais duas ou três tias, mães solteiras, numa grande casa só de mulheres. Como fora a primeira neta a nascer, cresceu cercada de muitos muitos mimos mesmo. Eu achei interessantíssimo e fiquei com muita vontade de conversar mais com ela para conhecer melhor sua história.
