
Tá quente pacas e eu fico só pensando no inverno, em vestidos, botas e cachecóis. Parece uma doença, ando até planejando abrir de novo minha máquina Singer, do século XIX para fazer uns modelitos. De inverno, óbvio, com longos capuzes e mangas que deixem só os dedos à mostra.
Isso é um pouco parecido com o estranho desejo de usar calças jeans que tinha quando grávida. Eu era muito magra, quase sem barriga, mas não as usava para não apertar a Anita. Então, quando sai do hospital, cheguei em casa, provei todas as minhas calças e fiquei me achando. Foi uma sensação ímpar de auto-enamoramento. Logo logo aquelas calças ficaram enormes e eu tive que dar todas elas e voltar a usar leggings e saias porque tinha virado um esqueleto humano, o que corrobora com a teoria que diz que alegria de pobre dura pouco.
Hoje de manhã fui a um ortopedista para que ele avaliasse as múltiplas lesões que tenho no tornozelo e então ouvi uma novidade tão surpreendente que é como se tudo que eu sempre acreditei fosse mentira. Ele moveu meus pés e minhas mãos para frente e para trás e disse que meus tendões eram super frouxos. Logo eu, que me achava uma pessoa atrofiada, sem elasticidade.
Conversamos sobre sapatos, joanetes - que ele fala fechado joanÊte e eu falo como uma nordestina falaria joanÉte, como cotonete. E saltos. E foi aí que me ocorreu uma segunda revelação: nenhum saltinho presta ou ajuda na circulação. Segundo o médico, dr. Luciano Keizerman, todos prejudicam e muito os pés e a coluna. Logo, tudo que dizem por aí, de saltos baixos serem bons, é balela.
Há uns dois anos eu não uso salto porque eles me dão muitas dores nos pés. E, felizmente, passei a achar feio e cafona salto. Pra mim, cool é sapato rasteiro, sapatilha, bota baixinha e - até - confesso, crocs! O fato é que eu sai do médico e fui no shopping almoçar. E me apaixonei por um sapato na Cristofóli, que eu nunca vou ter ou usar, mas que tenho que dar os parabéns para o designer. É absolutamente maravilhoso. Cinza, com salto médio e como se fosse uma golona em volta de todo ele. É um sapablusa. Não pra mim, é claro, que tenho meses de fisioterapia pela frente e um futuro repleto de tênis com amortecedores e tensores apertados.
Ok, sei que não poderia jamais usá-los, os tais sapablusas da Cristófoli, que me dariam uns 5 cm a mais, mas imaginar como eles ficariam maravilhosos com meus vestidos e casacos de inverno mesmo sob os atuais 35 graus, disso ninguém pode me impedir. Felizmente.