Após quase três anos de um dos mais famosos casos de suspeita de abuso de autoridade e tortura policial do Estado, os réus no processo ainda aguardam julgamento. O Ministério Público pede que todos percam os cargos. O processo está na fase final. A Justiça ainda aguarda a defesa de dois oficiais.
O incidente ocorreu meses após o lançamento do filme Tropa de Elite. Segundo as vítimas e a denúncia do MP, o episódio na serra gaúcha teve semelhanças com cenas do longa, onde jovens são interrogados e ameaçados com sufocamento por saco plástico e empalamento.
Os supostos envolvidos no caso ficaram afastados dos postos e voltaram aos cargos. O capitão Juliano Amaral, acusado de abuso de autoridade e tortura por omissão, passou um ano e oito meses fora do comando de Flores da Cunha, mas retornou ao antigo cargo.
Relembre o caso, conforme a versão do Ministério Público:
Na noite de 26 de dezembro de 2007, o gesseiro Valdir Garcia de Moura, 41 anos, matou o sargento da Brigada Militar, Luiz Ernesto Quadros Mazui, 39, por desavença. O crime ocorreu na casa de Moura, no bairro Pellizzer, em Flores da Cunha. O gesseiro foge do local na companhia de um filho.
Minutos após o assassinato, o PM Cirlon Manzoni Lemes se dirige até a moradia e comunica o crime aos colegas que estavam no quartel da BM em Flores. Nesse meio tempo, vários jovens que estão nos dois pisos da moradia (o gesseiro morava no andar de cima) se trancam em casa.
A notícia da morte se espalha e policiais de Caxias do Sul e Farroupilha se deslocam até a casa supostamente para localizar e prender o gesseiro. O major Gilberto Güntzel chega ao lugar à paisana e dirigindo seu carro particular, um Tempra. O capitão Juliano Amaral é o responsável pelos PMs de Flores e o capitão Alexandre Augusto Silva da Silva comanda duas guarnições de Caxias.
Utilizando um megafone, os capitães Juliano e Alexandre ordenam a saída dos jovens da casa. Os rapazes não obedecem.
Nesse momento, o capitão Gerson Luiz Pereira de Souza e Silva chega na frente da residência acompanhado por PMs de Farroupilha. Ele ordena a saída dos jovens e é atendido.
Eduardo de Moura, 18 anos (filho do gesseiro), e Miler Marcante, 22, são algemados e levados ao outro lado da rua para informarem o paradeiro do assassino. O capitão Alexandre segura Eduardo com o golpe conhecido como gravata, enquanto o capitão Juliano desfere tapas no rapaz e em Miler. Em seguida, Miler e Eduardo são levados para dentro da casa.
Roselaine de Moura, mulher do gesseiro, questiona a atitude dos PMs e é ameaçada pelo capitão Alexandre. No mesmo momento, um adolescente de 16 anos e outro menor, presos a uma mesma algema, também são conduzidos para dentro da moradia.
Na casa, Eduardo, Miler e os dois menores são agredidos a socos, tapas, pontapés para informarem o paradeiro do autor do crime. Além do capitão Alexandre, quem participa dessa ação são os PMs Ademir Dornelles Severo, Jéferson dos Santos Silveira, Enéias Gonçalves Falcão, Derli Parode Barroso Júnior, João Pires e Wladinir Vieira.
O major Gilberto Güntzel, além de permitir a tortura, incentiva as agressões. O PM de Flores da Cunha, Cirlon Manzoni Lemes, fica de guarda na entrada da casa. Os capitães Gerson e Juliano também aguardam no lado de fora e não impedem as ações.
Os PMs tentam sufocar os dois menores com sacos plásticos na cabeça. Nesse momento, o adolescente de 16 anos é segurado pelo PM Paulo Joás Pires, enquanto o capitão Alexandre tenta introduzir um cabo de vassoura no ânus do menor. O PM Enéias Gonçalves Falcão também pisa na cabeça do rapaz.
Cerca de 30 minutos depois, os PMs Luís Carlos de Mattos, Wladinir Vieira e Valério Zorzi, acompanhados pelos soldados Enéias Gonçalves Falcão, Ademir Dornelles Severo, Jéferson dos Santos Silveira e Édison Hildebrando Ribas dos Santos levam o jovem Juliano de Moura, 19, filho do assassino, para supostamente para ajudar o grupo nas buscas ao pai do rapaz.
Os PMs se deslocam em duas viaturas até um matagal próximo ao Parque da Vindima. Ali, Juliano é agredido com tapas, socos, coronhadas e chutes e tem um saco plástico colocado na cabeça para informar onde o pai estava escondido.
As torturas só terminam com a chegada do serviço de inteligência da Brigada Militar, de um delegado da Polícia Civil que estava de plantão naquela noite e de peritos.
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