A mesma rodovia que serviu de palco para o primeiro ataque a carro-forte do Estado com a utilização de um caminhão para frear o blindado foi cenário de um dos crimes mais ousados dos últimos anos na Serra. Bandidos atacaram um carro-forte que retornava para Caxias do Sul, no final da tarde de segunda-feira, depois de recolher valores na Região das Hortênsias. Para impedir a fuga do blindado, que não parou mesmo sendo alvo de dezenas de tiros de fuzil, uma quadrilha usou um caminhão para atingir o carro-forte e fazer o veículo tombar na rodovia.
A técnica nasceu na BR-116 e a poucos quilômetros da ação de segunda-feira. Foi em setembro de 2002 que o bando comandado por Charles Robsen Ferreira Kaiser, o João Loucura, então com 20 anos, parou um carro-forte pela primeira vez utilizando um caminhão. João Loucura era apontado pela Polícia Civil como um dos mais temidos bandidos do Estado. Natural de Porto Xavier, ele foi criado em São Leopoldo e mudou-se ainda na adolescência para Caxias do Sul Antes de atacar na BR-116, já havia assaltados bancos em Caxias do Sul, Guaporé, Bom Jesus e Nova Roma do Sul. Tinha uma marca registrada: chegava e saia das agências atirando. Sempre com uma metralhadora nas mãos. O apelido veio da ousadia, como em Nova Roma do Sul, em dezembro de 2002. Na oportunidade depois de assaltar o Banco do Brasil, João o bando passaram em frente à delegacia em sua rota de fuga. Ao avistar a DP, ele retornou com o carro, metralhou o prédio, e somente depois continuou a escapar.

João Loucura foi um dos principais assaltantes de carros-forte do Estado (Foto: Polícia Civil/Divulgação)
Mas João Loucura colocou seu nome na crônica policial do Estado em definitivo, em 6 de setembro de 2002. Foi neste dia que o bandido decidiu colocar em prática a ideia que copiou das telas de cinema. João Loucura encontrou a técnica que precisava para frear os blindados no filme Fogo contra Fogo, de Robert De Niro e Al Pacino. O filme se passa em Los Angeles e conta a história de bandidos que assaltavam bancos e carros-forte. A história é confirmada por antigos parceiros do quadrilheiro.
E foi com João Loucura que José Carlos dos Santos, o Seco, 33 anos, aprendeu essa técnica. João foi o primeiro chefe de quadrilha de Seco. A história dos dois se cruzou no começo de 2002. Foi quando Seco mudou-se de Santa Cruz do Sul para a Serra. Natural de Candelária, José Carlos passou a adolescência na cidade, até a separação dos pais. A mudança para Serra aconteceu depois de Seco se envolver com um criminoso de Santa Cruz que fazia roubos em Caxias do Sul. Ambos começaram a assaltar juntos, até o início de 2002, quando o parceiro foi morto por um traficante. Seco, então, foi arregimentado por João Loucura.
Seco foi contratado por João para ser o motorista do caminhão suicida que seria atirando contra o blindado. José Carlos, conhecido em Santa Cruz, como Zé da Retro, por trabalhar com uma retroescavadeira, seria o motorista do ataque de setembro de 2002.
A escalada criminosa de João Loucura terminou em junho de 2003. Preso pela Polícia Civil, ele foi encontrado morto em uma cela da Penitenciária Industrial de Caxias do Sul dias depois de ter sido preso. Ele estava enforcado com um lençol em uma cela. A versão oficial é de que ele se matou. A razão para isso, segundo a lenda que envolve o nome de João Loucura, é a sede dele pelo crime. João Loucura sabia que passaria longos anos na prisão. Por isso, acreditava que se matando reencarnaria mais cedo e poderia voltar assaltar. O criminoso morreu sem concretizar o maior assalto que havia planejado. João queria soldar uma metralhadora .50 no teto de uma caminhonete e invadir a pista do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, e roubar o havia que traz para o Estado o dinheiro vindo do Banco Central.
Com a morte de João Loucura, Seco assumiu seu bando e em pouco anos se transformou no maior assaltante da história do Rio Grande do Sul.
* Texto do repórter Guilherme Pulita





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