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Posts na categoria "querido diário"

Quem precisa de mais uma mãe blogueira?

29 de setembro de 2012 0

Uma querida amiga minha, mãe de uma linda guriazinha pouco mais velha do que a Lina, revelou esta semana que está pensando em fazer um blog sobre a maternidade. Jornalista e tradutora como eu, ela pensa, como eu, que pode ser bacana ter um espaço onde dividir nossas impressões e sentimentos. Não sei se as dúvidas dela são as mesmas minhas, mas, já que eu já tenho este espaço aqui, peço carona no assunto trazido à baila por ela para dividir as minhas primeiras considerações com meus supostos dezessete leitores.

1 – Alguém precisa de mais uma mãe blogueira?
2 – O que eu posso dizer sobre a maternidade que já não tenha sido dito milhares de vezes?

3 – Alguma coisa que eu possa dizer sobre a minha experiência pode vir a ajudar alguém?

4 – Será que as coisas que eu escrever não podem vir a se transformar no futuro em motivo de vergonha para a minha Lina adolescente?

5 – Tenho eu direito de expor minha pitoca, por menos leitores que possa ter este ou qualquer outro blog que eu venha a fazer?

São questões básicas, básicas, mas que, acreditem, têm tomado parte do tempo que passa tão rapidamente nesta minha licença que se aproxima do fim.

A Lina dorme

06 de julho de 2012 0

Meu último post aqui foi feito pouco menos de um mês antes da minha filha nascer. Em seis dias, ela completará três meses. Há quase três meses, portanto, minha vida tem sido repleta de acontecimentos importantes como a Lina mamou, a Lina arrotou, a Lina está com cólica, a Lina sorriu, a Lina está com a avó enquanto eu corro até o súper, a Lina fez cocô, a Lina mamou, a Lina engordou, a Lina sorriu de novo, a Lina fez mais cocô. Agora, neste instante, a Lina dorme. E eu, afinal, consigo fazer algo que achava que nunca mais conseguiria fazer: escrevo um post.

Somados os últimos aos meses da gravidez, devo ter lido bilhões de caracteres sobre gerar, parir e criar um filho. Livros, revistas, jornais, blogs, artigos médicos… a Lina está respirando pesado? Lá vou eu para o Dr. Google: bebê respiração pesada. A Lina dormiu seis horas seguidas? Dr. Google: sono bebê dois meses. Com isso, acabo caindo em cada coisa… Como é que essas mães acham tempo para escrever tanta coisa? Tem gente que faz pesquisas imensas e publica posts incríveis com muita informação de qualidade. A maioria, porém… deuzolivre. Muitas agem como se fossem as primeiras mães do mundo moderno. Como se gerar, parir e criar um filho fosse a maior novidade do universo. E é preciso dizer que, felizmente, não é.

A Lina dorme e acabo de finalizar o segundo parágrafo deste post sem dizer nada. É que, entendam, não tenho o que dizer que possa interessar a alguém que não a mim e aos mais próximos. Ao menos não agora. A Lina dorme e daqui a pouco vai acordar para mamar e depois vai dormir de novo (depois de eu trocar a fralda cheia de xixi). Parece um tédio olhando daí? Pois eu posso garantir que está sendo a minha maior aventura.

Da gravidez e dos pontos de vista

15 de março de 2012 4
  • Às 33 semanas de gravidez, ainda falta tempo demais para ver o rostinho da minha filha
  • Às 33 semanas de gravidez, falta muito pouco tempo para deixar tudo pronto para a chegada da minha filha
  • Seis meses de licença-maternidade emendados com mais um de férias longe do trabalho e da convivência com os colegas me parece tanto tempo
  • Seis meses de licença-maternidade emendados com mais um de férias me dedicando exclusivamente à minha filha me parece tão pouco tempo
  • Quando entro em lojas de bebês ou coisas parecidas, tenho vontade de comprar tudo
  • Quando entro em lojas de bebês ou coisas parecidas, não consigo ver por que deveria comprar qualquer daquelas coisas
  • Toda vez que me vejo refletida num espelho caminhando feito pata-choca (a esta altura, praticamente uma avestruz-choca), penso que vai ser bom estar sem este peso extra todo daqui a uns meses
  • Toda vez que me vejo refletida num espelho caminhando feito pata-choca (a esta altura, praticamente uma avestruz-choca), penso que vai fazer falta toda a paparicação dedicada às grávidas ;-)

É assim mesmo, ou só eu que sou maluca?

Novos significados

20 de dezembro de 2011 2

Quando era adolescente,  não gostava de vestir de novo uma roupa que houvesse vestido numa ocasião desagradável – normalmente relacionada a algum namorico mal resolvido. Era como se alguma energia ruim tomasse conta daquela inocente peça de tecido e então a tornasse amaldiçoada, fadada a sempre atrair situações indesejadas. Eu devia ter uns 16 anos quando a minha mãe, essa sábia senhora que percebeu que eu abandonava roupas de que gostava tanto, me disse que não era assim que as coisas funcionavam. Que se algum dia uma peça de roupa tivesse me acompanhado num momento de azar, eu deveria vesti-la novamente justamente para reenergizá-la com algo melhor.  Desde então, nunca mais tive esse tipo de superstição. Até porque depois que eu mesma comecei a pagar pelas minhas peças de vestuário, deixar de usar alguma coisa por conta de uma bobagem dessas virou algo evidentemente indefensável.

Dia 20 de dezembro era um dia assim. Desde 20 de dezembro de 1995, quando soubemos que meu pai estava com um câncer de estômago avançadíssimo e sem qualquer esperança de cura, a data tomou contornos sombrios na minha história de vida. Nos últimos 15 dias 19 de dezembro, sentia, ao dormir, um aperto no estômago, fazendo com que eu voltasse a sentir um pouco daquela sensação de desamparo absoluto.

Hoje, porém, esse significado foi sobrepujado por outro. Em vez de desamparo, esperança. No lugar das lágrimas incontidas de tristeza, lágrimas silenciosas da mais pura alegria. Descobri que meu pai vai ter uma netinha. O bebê que está dentro da minha barriga é uma menina, e a descoberta disso justamente nesse dia veio, principalmente, para comprovar a tese da minha mãe: nada como expor um dia velho a novas energias para mudar o nosso olhar sobre ele.

Que venham todos os outros dias 20 de dezembro da minha vida.

Das alegrias – uma lista (Parte 1)

16 de dezembro de 2011 0

Muita gente diz que não se sabe o que é felicidade ou amor antes de se ter um filho. Sempre achei a observação meio deprimente, principalmente porque conheço muita gente feliz e cheia de amor que não teve filhos (porque não quis ou não conseguiu ter) e muita gente infeliz e solitária apesar (ou até por causa) dos filhos.

O bebê que estou esperando é motivo de uma das maiores alegrias da minha vida. Foi desejado, esperado, planejado e sonhado. Porém, principalmente porque não quero que o peso da minha felicidade (e da felicidade da minha família) fique sobre ombros tão pequenininhos que ainda estão em formação, decidi começar uma lista (que certamente não se encerrará neste post) para dividir comigo mesma, com meus poucos – e valorosos – leitores  e também com esta criança já tão querida, parte das tantas alegrias que acumulei nos 37 anos de vida sobre este planeta, antes mesmo da chegada dela.

Tenho certeza de que a lista seguirá crescendo – e certamente ganhará novos focos depois da maternidade. O que vem abaixo não está organizado nem por ordem de importância, nem por relevância. Vão desde imensas até minúsculas alegrias. Creio que posso chamá-la também de “grande lista de pequenas conquistas”. Parte 1, claro.

  • Sou amiga do meu marido, da minha mãe e da minha irmã
  • Fui uma grande amiga do meu pai
  • Minha letra cursiva é muito bonita quando escrevo com calma
  • Assisti a mais filmes durante a infância e a adolescência do que muita gente que conheço
  • Minha mãe me ensinou a ler aos 3 anos com o Pé de Pilão de Mario Quintana
  • Sei a letra completa de todas as minhas músicas preferidas dos Beatles e do Chico Buarque
  • Aprendi inglês tirando de ouvido as letras das canções dos Beatles e vendo a filmes na TV com a legenda tapada por um papel com fita durex
  • Quando vou ao Rio de Janeiro, não me sinto culpada por não ir a nenhum ponto turístico
  • Ainda mantenho grandes e queridas amigas que ganhei na infância, na adolescência, na faculdade e na vida adulta
  • Traduzi três livros do Kurt Vonnegut
  • Entrevistei o Brizola antes dele ficar gagá
  • Entrevistei o Lula mais de uma vez (antes de ele ser presidente)
  • Posso dizer que sou amiga de jornalistas do peso do Sérgio Augusto, da Maria Lúcia Rangel e da Ana Maria Bahiana – e continuo sendo fã deles
  • Aprendi a fazer panquecas iguais às da minha mãe!
  • Quando fui a Paris, consegui me comunicar bem em francês
  • Um dia uma americana me perguntou de que parte dos EUA eu era porque não estava reconhecendo meu sotaque
  • Em 2007, passei numa seleção para uma vaga no YouTube/Google. Não aceitei porque não queria morar em São Paulo (a vaga para a qual comecei a seleção não seria em São Paulo)
  • Em 2003, tive coragem de admitir a mim mesma que não havia nascido para morar em São Paulo e que isso não era motivo de vergonha
  • Tenho prazer de conviver com meus colegas de trabalho e de fazer o que preciso fazer
  • Quando saio de férias, consigo me desligar do trabalho
  • Saber que sou substituível não me atormenta, mas, pelo contrário, me estimula a querer ser desejável
  • Aprendi que injustiças nos ajudam a crescer e melhorar
  • Consigo tocar nos pés com as pernas esticadas
  • Digito muito, muito rapidamente
  • Não consigo dormir sem ler ao menos uma página de um livro
  • Muita gente que indiquei a vagas de empregos se deram muito bem com as minhas indicações
  • Tive chefes ótimos, razoáveis, medíocres e abaixo da média. Aprendi com todos
  • Tenho ex-chefes que me tratam com carinho até hoje
  • Sou ex-chefe de pessoas especiais que me tratam com carinho até hoje
  • Acompanhei minha mãe no processo da cura de um câncer
  • Tive o prazer de estar à mesma mesa de pessoas como Carlos Lyra, Luis Fernando Verissimo e Fernando Morais. Eles certamente não sabem quem eu sou, mas e daí?
  • No colégio, era quase sempre uma das primeiras a ser escolhidas para os times das aulas de Educação Física
  • Um dia me disseram que quando criança eu devia ser igual à Mafalda
  • O poder alheio não me intimida
  • Uma eventual incapacidade minha de lidar com meu próprio poder – por menor que seja – me apavora
  • Plantei pelo menos uma árvore no meu jardim
  • Ainda não escrevi um livro, mas traduzi mais de 30
  • Já faz mais de 5 anos que eu mesma asso o peru do Natal da família

O jovem avô que vou ter de ensinar ao meu bebê

07 de dezembro de 2011 4

Uma das pessoas que mais admirei na infância – e mais senti não ter conhecido – foi o meu avô materno, o “vô Fritz”. Sempre olhei com uma certa inveja para os primos que tiveram o privilégio da sua convivência. Foi por meio deles – e dos meus pais, principalmente – que fiquei sabendo um tantão de alguém que foi tão marcante para quem o conheceu.

Infelizmente, vai ser assim também que o/a meu/minha filho/a vai conhecer o homem mais importante da minha vida até eu conhecer o Márcio. Seu Jurandir Antonio Zanon ficou pouco tempo conosco (48 anos no total, 22 como meu pai), mas deixou um legado que me acompanha até hoje.

Meu pai foi um homem interessado pelo mundo, por história, pelo comportamento humano. Foi o meu Google particular durante muito tempo. Foi quem me ensinou a ler, a gostar de cinema, a questionar o porquê de tudo, a buscar meu espaço sem invadir o espaço dos outros.

Sempre bem humorado, com um senso de humor ao mesmo tempo sofisticado e palhaço, deixou como maiores ensinamentos que não é preciso ser sisudo para ser sério e que a sinceridade e a honestidade são o melhor caminho para conseguirmos o que queremos. Mesmo que esse caminho por vezes acabe se mostrando mais longo.

Hoje, no dia em que ele completaria 64 anos – e que eu completo 19 semanas de gravidez -, minha tia Rita , a irmã caçula que ele via como uma espécie de filha mais velha, fez uma homenagem a ele no Facebook, postando uma música de que ele gostava muito. E cuja letra, percebi hoje, diz muito sobre o homem que ele foi.

Saudade, pai. Que pena que não estejas aqui neste momento tão feliz das nossas vidas.

Da relação entre o volume de posts e a movimentação da vida

14 de setembro de 2011 1

Desde que criei meu primeiro blog em dezembro de 2003, passando pela adoção do Twitter e do Facebook, venho tentando compreender a relação existente – se é que existe – entre o volume de posts que publico/cometo e a movimentação da minha vida. A conclusão é que não consigo chegar a conclusão sobre o assunto.

Houve períodos de muito, muito trabalho em que eu postei ensandecidamente no twitter e no blog, como se quanto maior fosse a minha produtividade profissional, mais intensa se tornava a minha capacidade de escrever rapidamente sobre qualquer assunto. (Ah, sim, este tanto é fácil de confirmar: nunca um post me toma mais do que 15 minutos, por mais longo que seja. Faço um blog pessoal e sem pretensão, não jornalismo.)

Em contrapartida, há momentos da vida como os das últimas cinco semanas em que muita, muita, muita coisa acontece, e eu fico muda. Mas não é o excesso de coisas que me paralisa ou me impede de me manifestar no blog ou nas redes sociais – eu não acredito que a troca de informações em twitter e facebook seja coisa de desocupados -, é um je ne sais quoi que, imaginava, a tal relação iria explicar.

O fato hoje é que me dei conta de que faz mais de um mês e meio que não escrevo aqui. Agosto passou incólume – e, acreditem, poucos meses da minha vida foram tão relevantes para todos os aspectos da minha vida quanto o mês de agosto de 2011. Não que vá fazer alguma diferença na vida dos meus queridos 17 leitores, mas prometo voltar logo.

De como a NET estragou a consumidora que há em mim

31 de maio de 2011 2

Sabe aquelas pessoas que são “estragadas” para relacionamentos por uma desilusão amorosa? Não, não é o meu caso. Comigo, isto aconteceu com a NET.

Desde o final de abril, estou fazendo um curso de pós-graduação na PUC. Símbolo da minha rendição ao mundo corporativo: Gestão Estratégica e Inteligência Competitiva. Mas não é sobre isto que vamos discorrer neste momento.

No começo do mês, fui pagar a mensalidade. Quando me matriculei, soube que a partir da segunda parcela teria desconto de 10%  por ser ex-aluna da universidade. Duas semanas antes da data de vencimento, comecei a me informar sobre o que deveria ser feito para obter tal desconto e fiz tudo direitinho: pedi cartão de diplomado, apresentei cartão no setor financeiro, levei papel na secretaria do curso. É aí, afinal, que começa a história.

Sorridente e confiante de ter feito tudo certo, chego à secretaria.

– Oi! Tudo bem? Aqui está o papel para ter o desconto de ex-aluna na mensalidade.

O moço da secretaria examina os papéis e começa:

– Está tudo certo, mas não dá mais tempo de dar o desconto este mês…

– Não. Tu não está entendendo. Eu fiz tudo direitinho, como mandaram. O desconto vai sair este mês, sim.

– Pois é, mas não temos mais tempo de enviar ao financeiro…

– Olha só, na verdade vai ter que dar tempo. Porque eu fiz exatamente como me mandaram. Não é justo que eu perca o desconto sendo que fiz exatamente o que me mandaram.

O moço dá um sorriso benevolente – que me deixa um pouco irritada – e recomeça:

– Sim, entendo. Só que…

Orgulhosa por não ter alterado a voz e me mantido educada, interrompo mais uma vez.

– Ai, por favor, não vamos entrar numa discussão desnecessária. Eu sou muito chata, principalmente quando faço as coisas direitinho. A NET sabe muito bem disso. Então, eu não pretendo sair daqui antes de garantir o meu desconto.

Mais um sorriso benevolente e gentil – que me deixa um pouco mais irritada:

– Então, moça, é que o desconto deste mês não vai poder ser dado agora, mas…

(Sinto o rosto corar de vergonha antecipada)

– Ai… tu vai me dizer que o desconto vem no próximo boleto?

– Sim.

– Mas por que tu não me disse antes?

– É que tu não me deixou falar…

Fazia muito tempo que eu não ficava com tanta vontade de entrar num buraco e sumir. A conclusão a que cheguei é que a NET – sim, sempre ela –, com seus contratos cheios de entrelinhas e “mirabolâncias” me deixou com um pé atrás em relação a qualquer relação de consumo a que sou submetida. Daí fico sujeita a cometer injustiças como esta.

Como faz para não lembrar?

22 de fevereiro de 2011 1

Não há um dia que se passe sem que eu pense no meu pai, e nas coisas que ele me ensinou e nas coisas que eu gostaria que ele visse acontecendo comigo. Ocorre que não há também uma semana que se passe sem que eu cite a minha Vó Heloísa, mãe dele, em algum momento que normalmente arrancaria dela alguma de suas frases espirituosas e observações mordazes.

Eu não preciso de datas para pensar nos dois, porque ambos sempre estiveram e sempre estarão presentes na minha vida. Então, será que dava para pelo menos eu deixar de lembrar que três dias depois do meu aniversário de 22 anos ele nos deixou, e ela se despediu dois dias depois de eu completar 36?

Bendita saudade, que até para de doer, mas não diminui nunca.

Quem eu quis ser um dia (mas logo desisti)

19 de janeiro de 2011 7

Durante os primeiros dias do ano letivo da segunda série do então primário, eu tive um ídolo. Era a Ana Maria, colega que sentava ao meu lado na sala de aula. Começava pelo nome. Ana Maria era um nome assim, básico, minimalista, algo que, mesmo inconscientemente, eu já achava muito chique. Os longos cabelos crespos dela estavam sempre perfeitamente bem postos, sem um fio fora do lugar, com cachos definidos e de um castanho claro brilhante. Tinha também o tom de voz da Ana Maria, sempre suave, sempre monocórdico – um luxo, acreditava eu, cria de família mezzo italiana, mezzo alemã.

Nas aulas de educação artística, a Ana Maria tinha um jeito impressionante de organizar o material em cima da carteira (era São Paulo, onde a classe gaúcha se chamava carteira, e a sala de aula, classe). Cada lápis de cor que escolhia usar era cuidadosamente retirado da caixa e, antes de ser substituído por outro, meticulosamente devolvido ao lugar de origem. Todos sempre perfeitamente apontados. Sempre arrumados na ordem em que vinham de fábrica.

Nos cadernos, cada linha que era pulada ganhava um desenhinho diferente (de uma flor, um coração, uma joaninha…). Sempre feito com o cuidado e a paciência relatados acima. E cada frase que ganhava um ponto final recebia também uma daquelas alisadinhas do papel que todos os fãs de papelaria costumamos dar nas primeiras palavras que imprimimos numa folha nova. Só que ela fazia isso o tempo todo. Além de tudo, a Ana Maria não caminhava, mas flutuava. Na educação física, fazia todas as atividades com absoluta indiferença. E não transpirava. Nem ficava ofegante.

Desencavei esse monte de informações dos meus arquivos mortos mentais hoje depois de ver entrar no ônibus em que eu estava uma moça com um olhar perdido, distante e blasé – igualzinho àquele que eu tanto admirei na Ana Maria naqueles primeiros dias de aula de 1982. Quase vinte e nove anos depois, passei a tarde tentando desvendar o porquê daquele fascínio. Não consegui. Só consegui lembrar de todos os detalhes sobre ela que tentei imitar: os cabelos bem ajeitados (que despenteavam à primeira brisa), os gestos delicados (que faziam com que eu demorasse demais para fazer tudo, e meus pensamentos acabavam sempre atropelando as minhas mãos), a voz baixa e monocórdica (quem me conhece deve imaginar a tortura que foi, ainda mais aos oito anos), os lápis de cor arrumados durante o desenho e não apenas depois (o que fazer com a criatividade que insistia em ser mais veloz do que a habilidade para ordenar as cores na caixa?), o caminhar flutuante (faz-me rir).

Não sei o que aconteceu com a Ana Maria. No ano seguinte, eu me mudei para Sorocaba e não faço ideia de qual era o sobrenome dela (sem chance de encontrá-la no Google ou no Facebook, pois). Lembro que era sempre dela uma das notas mais altas da turma (junto com a minha, que só deixaria de ser CDF absoluta alguns anos depois). Lembro também de ela estar sempre sentada na hora do recreio, com o olhar perdido no infinito, etérea (embora então evidentemente eu sequer soubesse da existência do termo “etérea”). E lembro que, entre uma brincadeira e outra, suada, com os cabelos desgrenhados e as bochechas vermelhas, eu olhava de longe para ela e sentia um pouquinho de inveja daquele ar de princesa que eu nunca consegui imitar por mais de três minutos seguidos.