O dia em que Pereirinha driblou o buraco de ozônio
Sabe esse calor de quase 40 °C que andou fazendo? Pois é, sempre que o temido efeito estufa abafa meus neurônios, teimando em nutrir o pânico diante da destruição da camada de ozônio, lembro do Pereirinha e me acalmo. Tudo, mas tudo MESMO tem solução! Era o inesquecível ano de 1994 (pelo menos para os alvinegros), janeirão a mil, dava para estralar uns ovos e fritar um bifinho nas arquibancadas do Scarpelli naquela tarde. Treino marcado e confirmado. Os setoristas se entreolhavam, compadecidos pelo suplício ao qual os atletas estavam prestes a encarar. O Sérgio Murilo olhou para o Polidoro e sentenciou: - Com essa lua só maluco para treinar. Mas era preciso: o Figueira decidiria sua passagem à final do Catarinense. Pior, precisava golear o Marcílio. Pesando nas costas, mais que o calor dantesco, os 20 anos sem título. Este que vos fala, já delirava e via cheerleaders, com refrescos tropicais, logo disseminadas pela figura de Lula Pereira, que gostava de ser chamado de %22negrão%22, aos gritos no gramado. Nestas horas difíceis, dizem que anjos costumam agir. Foi quando a atenção para o treino, subitamente, foi canalizada para a chegada repentina, mansa, do Pereirinha. Carregava aquele galão de Gatorade, suando de tão gelado. Pereirinha, simpático, detectou o olhar de quase súplica e logo ofereceu: - Querem? Me adiantei, sem responder, catei o copo plástico e entrei como primeiro na fila. Sorvi aquele líquido como quem encontra a explicação para os mistérios da vida. Nem percebi que os demais colegas declinaram da oferta. Ato contínuo, meu corpo renasceu. Entrevistei como nunca naquela tarde. De volta à redação, em minutos escrevi a matéria. Falei destranbelhadamente com os colegas, alguns já pensando: o que houve com esse menino? Sim, eu era menino, então. Voltei para casa me sentindo, digamos, hidratado. Mais ou menos uma da madrugada, a Ângela sugeriu: vai dormir, amor, chega de papo, está tarde. Conseguira esgotar, acreditem, a paciência da Ângela. No outro dia, acordei pensando: %22todo jornalista deve cuidar ao casar, escolher como companheiras pessoas como a Ângela. Se até ela não me agüentou, então o que houve? Curioso, encostei no Pereirinha, de soslaio, e lasquei: - Aparecesse na hora certa com o Gatorade ontem, salvaste meu dia! Ele sorriu, simpático, e disse: - Coloquei um guaranizinho para dar um gás! Pensei: naquela hora: O Figueira vai ser campeão. O jejum, de fato terminou. E o Pereirinha? Me provou que futebol não se ganha só no campo, mesmo. E, há 13 anos, afasta meu pânico do colapso das geleiras. Desde então, o Figueira mudou, e muito. O Pereirinha segue o mesmo, competente, mas também mudou, só que endereço: hoje ajuda o Avaí. Lá, com certeza, a sede é de leão!
Postado por Marcos Castiel