Parece claro (ou nebuloso, infelizmente): o Rio de Janeiro não continua mais lindo.
O que este blog tem de meter a colher nisso?
É que a perda de controle de uma cidade é o que tem de mais prejudicial ao comportamento de seus cidadãos.
Dá até para entender porque alguns não mais têm o futebol como lazer e, sim, como desfile de suas frustrações diante da realidade.
Toda vez que volto a Porto Alegre, toda vez que vou a São Paulo, fico com um nó na garganta (só para ficar nestes dois exemplos, já que poderia falar de Recife,Belo Horizonte ou qualquer outra capital).
Na capital dos gaúchos (onde nasci) e dos paulistas há uma rotina, sim, dos cidadãos. Mas o poder público não dá conta da questão segurança.
Ambas, visivelmente, lidam no fio da navalha com esta bomba relógio.
No Rio, dada a sua geografia e evolução da questão do tráfico, o descontrole se avoluma e assume ares de guerra civil.
E aqui, na então pacata Floripa, um berçário da violência e do tráfico recebe cuidados dos bandidos, sob à benção das autoridades públicas incompetentes. Logo, logo, diante da falta de policiais nas ruas, da expansão da pobreza, da ocupação desordenada, teremos uma mini-Rio instalada.
Cidadãos encurralados, tentando acreditar numa normalidade que não mais há. E achando normal tudo que for possível, até que ou enquanto um tentáculo o colha nesta realidade.
Para ficar em Floripa, vemos as distorções avolumarem-se. Domingo fui a um shopping assistir a Harry Potter com meu filho.
Na saída de casa, avistei, pelo menos, um dezena de moradores de rua pelo Centro nas duas quadras que trilhei até chegar à Beira-Mar. Nenhum policial.
Lá fora, um mundo, real, assolado por drogas e pobreza. No shopping, outro, artificial. Gastei R$ 100 entre entradas, lanche e estacionamento. Um absurdo para pegar um cineminha com uma criança.
A cultura enlatada, vendida a preço irreal. Até surreal. Ir às praças? Sucateadas, mal cuidadas, sem manutenção, tomadas por crackeiros (com raras exceções, como a de Coqueiros e a recém reinaugarada da Agronômica).
É a Floripa das praias poluídas, do descuido com a Lagoa da Conceição, do asfalto que derrete, do trânsito sem solução, do Centro entregue aos moradores de rua, do Mercado Público fechado aos domingos, dos restaurantes com peixe ao preço de filé mingnon, do turismo de rapina (que pouco reverte para o morador nativo, só para empresários gananciosos) querendo ser um Rio no que ele tem de pior.
No que tem de melhor, as praias e o povo, somos imbatíveis. Até no futebol, não deixamos a desejar para grandes centros, podemos até vir a ter dois times na elite.
Paraísos de beleza e uma população cheia de cultura e hospitalidade.
Aqui, ainda dá para reverter a situação. Será?